Rosas Flamejantes
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Melody Sparks
Acordar do sono foi como sentir a dormência deixando o corpo. Começar a sentir a realidade e saber que agora pode se controlar novamente. No meu caso, controlar meu destino. Permiti-me respirar fundo e soltar o ar lentamente pela boca, e meu corpo relaxou na cama, aliviado.
Encarei o teto até que minhas pernas se moveram para fora da cama, quase que automaticamente. Caminhei até o banheiro do quarto e me apoiei na bancada da pia, encarando meu reflexo no espelho. Eu estava horrível, mal parecia que eu havia dormido.
Os olhos escuros demonstravam cansaço, e o fato de que eu estava com olheiras não ajudava muito. Meu cabelo estava bagunçado e insistia em cair no meu rosto. Foquei em meus lábios e vi que estavam ressecados, assim como a minha garganta. Seca. A sensação que passou por minha espinha diante da sede era de agonia, e eu apertei meus dedos contra o mármore da bancada, tentando me livrar daquilo.
Afastei-me e liguei o chuveiro. Um banho quente afastaria as coisas ruins. E embora o vapor da água quente fizesse meus braços se arrepiarem, e eu ser atraída para o calor, a vontade de sangue ainda era constante. Precisaria falar com Thomas, o mais rápido possível.
Quando me senti mais calma e mais leve, aceitei que era a hora de desligar o chuveiro. A textura da toalha fazia carinho em minha pele e a água pingava de meus cabelos, molhando chão por onde eu passava. Passei a mão pelo espelho, na altura de meu rosto, para poder olhar enquanto desembaraçava meus cabelos. E assim que consegui deixá-los arrumados, voltei para o quarto.
Havia uma muda de roupas em cima da cama, suponho que Elizabeth havia deixado ali enquanto eu me dava o luxo de demorar no banho. Caminhei até as roupas e notei que se tratava de uma calça preta, lingeries, e uma blusa vermelha. Vesti-me e saí do quarto, seguindo para escadas e descendo para encontrar alguém na sala. Sempre havia um deles ali.
Agora, no caso, era Elizabeth. Com seus cabelos loiros espalhados pela almofada, de uma forma natural. E ao que parecia, ela estava me esperando. Sentou-se assim que o ouviu o ecoar de meus passos pelo cômodo.
– Ainda bem que as roupas serviram. Comprei esperando que fossem do seu tamanho. – ela me avaliava.
– É... Serviram perfeitamente, até. – respondi. – Só você em casa?
– Ethan provavelmente está dormindo, Charles saiu faz tempo. E Thomas está na biblioteca esperando para falar com você.
Assenti e murmurei um “obrigada, Lizzie”, antes de tornar a subir as escadas, seguindo pelos corredores até chegar a biblioteca.
E encontrei Thomas, que tinha um grosso livro em mãos, com aspecto gasto e antigo, como se estivesse ali por décadas, e sinceramente, creio que realmente estava, já que todos que moram nessa casa são vampiros. Ele se virou quando bati na porta já aberta e sorriu para mim, deixando o livro aberto em cima da mesa que jazia ali.
– Elizabeth me disse que quer falar comigo. – adentrei a biblioteca e caminhei até o garoto, que assentiu.
– Duas coisas importantes. – começou. – Quero saber como está a sua necessidade de sangue.
– Eu quero mais. – encostei-me a uma das estantes e cruzei os braços.
– Imaginei que sim. Está em processo de transição e só tomou pela primeira vez. Você vai querer mais, é uma coisa natural. Não se preocupe.
– Então podemos sair hoje à noite?
– Com certeza. Precisa se fortalecer antes da semana da Lua de Sangue, ou as coisas vão ficar muito feias.
– Havia me esquecido da Lua Vermelha por uma fração de tempo. – murmurei.
– Não pode se dar ao luxo, Melody. Precisamos de sua ajuda, porque são as nossas cabeças em jogo. E é sobre isso que eu quero falar com você.
– Quer que eu conte tudo o que sei? – ergui uma sobrancelha.
– Exatamente. Imagino que queria colaborar conosco. – ele se virou para a mesa e apoiou suas mãos na madeira. – Eu passei a noite lendo sobre os efeitos da Lua.
– Os efeitos nos vampiros? – perguntei.
– Pior que isso. Pelo que encontrei nesse livro – folheou algumas páginas do livro antigo. – parece que a Lua de Sangue afeta todas as criaturas. Desde animais até os vampiros.
– Mas deixe-me adivinhar, somos os mais afetados? – minha voz tinha um leve tom de sarcasmo que o loiro provavelmente notou, mas ainda assim concordou. – Ok, tudo bem. E como sabe se tudo o que está escrito aí é confiável?
– Eu não posso ter cem por cento de certeza, muita coisa pode ser mito, mas ainda assim não podemos dar as costas para essas informações. É melhor acreditarmos em tudo o que está aqui, e vamos descobrir na hora. O que não for verdade, bem, estamos no lucro.
– E o que achou? – fui para o seu lado e olhei para o livro.
Uma página possuía o texto enquanto a outra levava consigo um desenho de uma grande lua no céu, acompanhada por diversas nuvens, e logo abaixo, o desenho de um vampiro mordendo uma garota, que desfalecia em seus braços.
– A Lua de Sangue não tem um tempo determinado para tornar a aparecer, porém podemos saber quando a veremos outra vez, o que foi o caso. – explicou e eu assenti. – De acordo com o livro, a maioria das Luas não possui um efeito tão forte sobre nós. Mas a cada cem Luas, a próxima tem poder o suficiente para nos deixar loucos.
– Tão loucos quanto fracos?
– Exatamente. – respirou fundo.
– E o que a próxima Lua fará conosco? Será inofensiva, ou iremos morrer por causa dela?
– Eu preciso de um calendário lunar para te responder. Mas não é como se a sorte estivesse ao nosso lado.
– Não aceito a morte tão fácil, Thomas. – olhei para o loiro e vi que ele sorriu torto.
– Sei disso. Você é teimosa.
– Prefiro o termo “personalidade forte”. – dei de ombros e ele riu baixo.
– Você precisa me dizer o que sabe sobre a caçada da Organização para assim podermos montar nossa estratégia. – deu as costas para o livro e me encarou.
– Eles pretendem deslocar a maior parte da Organização para as ruas, para tentarem eliminar de vez a ameaça dos vampiros. Eles sabem o quanto vocês ficam fracos.
– Nós. – me corrigiu e eu ignorei.
– Os lugares com mais concentração de caçadores vão ser aqueles aonde a maioria dos vampiros vai se alimentar. Como festas tão cheias que as pessoas não notam a falta de um ou dois, ou um bar onde as pessoas estão bêbadas demais para distinguir qualquer coisa estranha da normal.
– Então os caçadores só vão estar em festas e bares? – ele arqueou as sobrancelhas.
– Claro que não. Grande parte dos assassinatos ocorre em florestas em que só idiotas frequentam durante a noite. Por incrível que pareça, tem muito idiota no mundo. – bufei. – E também tem as ruas desertas. Os becos escuros. Eles vão estar em cada canto dessa cidade.
– Impedindo assim que qualquer vampiro passe despercebido por Paris. – Thomas franzia o cenho.
– Ótimo, você entendeu. Os caçadores pretendem acabar com todos os vampiros essa noite. Ou pelo menos, a maioria. Fica fácil matar os outros depois disso.
A porta da biblioteca se abriu e o moreno de olhos azuis adentrou a sala.
– Então acho que temos que matar todos os caçadores primeiro. – ele carregava o sorriso de canto nos lábios.
Virei-me para ele e permaneci firme, enquanto tentava afastar as lembranças do sonho de minha mente. Não importava se os seus olhos estavam tão azuis quanto no sonho. Ou se ele tivesse me salvado em uma realidade paralela.
Não sei por que sonho com ele, mas ele é só mais um vampiro cruel que tenho que resistir a vontade de enfiar uma estaca no coração. Meus sonhos são a última coisa com a qual tenho que me preocupar.
– Eu não vou matar caçadores. – disse e ele ergueu uma sobrancelha.
– Não? Espero que não tenha se esquecido de que é uma de nós agora, Sparks.
– Não, Charles. Eu não esqueci que sou uma vampira, porque é uma das primeiras coisas que penso no início do dia. Mas não é porque me transformei que tenho que ser igual a você e matar pessoas inocentes.
Ele gargalhou e negou com a cabeça.
– Pessoas inocentes? Por favor. Você é uma assassina, assim como todos eles. Então não venha querer me dar lição de moral. Você é tão ruim quanto eu.
– Eu não mato inocentes. São os monstros que merecem a morte.
– Ah, são os monstros, é verdade. Então me diga, monstro, se não mata “inocentes”, o que pretende fazer?
– Eu não sei o que vou fazer.
– Vocês, caçadores, são todos exatamente iguais. Só olham para vocês mesmos. – sua voz transbordava raiva. – Querem passar a impressão de que se importam com a sociedade humana acima de tudo, mas é uma grande mentira. – respirou fundo. – Nos matam mesmo que não tenhamos feito nada, alegando estarem protegendo as pessoas, mas só estão tentando acabar com o que sabem ser superior a vocês. São os verdadeiros monstros.
Thomas, que havia permanecido quieto até agora, se manifestou.
– Charles, eu não tiro a razão da Melody. Por mais que tenhamos que levar a situação atual em consideração, aquela era a família dela. Eles não sabem que ela morreu. Ela não pode chegar lá e simplesmente matar eles.
Como peças de quebra-cabeça, coisas que estavam passando despercebidas por mim começaram a se juntar e minha mente começou a clarear. Eu não sabia como não tinha percebido isso antes. Franzia o cenho involuntariamente enquanto fazia as ligações.
– Eles não sabem que eu morri. – murmurei e os dois garotos se voltaram para mim. – Não sabem que me transformei. – eu sussurrava. – Eu posso voltar.
– Voltar? – Thomas perguntou.
– Eu posso voltar pra casa, para minha família. Eles não sabem que morri, e os caçadores não sabem que me transformei. Posso fingir que nada aconteceu. A minha vida ainda pode ser a mesma.
Mas não foi Thomas quem protestou.
– Fingir que nada aconteceu? – disse Charles. – Essa é ideia mais estúpida que eu já ouvi. – ele bufou. – Nunca mais vai ter a mesma vida.
– Charles... – começou Thomas.
– Não vem com essa, Thomas. Você sabe que isso é burrice, não tire a minha razão.
Eu começava a me irritar com ele.
– Não é porque a sua vida é uma porcaria, que você tem sempre que tentar acabar com a minha! – ralhei.
– A minha vida é uma porcaria? – ele riu, com a voz carregada de escárnio. – Eu amo a minha vida, Melody. Não poderia pedir melhor. Agora não é porque a sua acabou, que tem que insultar a minha.
– Eu posso voltar para minha antiga vida. – protestei.
– Não, você não pode. No fundo, você sabe disso. – ele cruzou os braços. – Responda-me, Melody, por quanto tempo acha que vai conseguir guardar esse seu segredinho?
Não me deixou responder.
– Você não vai. Na primeira oportunidade vai voar no pescoço de alguém. Quem vai ser primeiro? Jeremy? Sua tia? Espero que não perca o controle enquanto estiver dentro da Organização. Seria um desastre, não acha?
Thomas parecia estar ficando nervoso com aquela situação, mas Charles não estava dando brecha para nós falarmos.
– Bem, nesse caso, eu espero que você não espere piedade da parte deles. – continuou. – afinal, você sabe o que eles fazem com monstros como nós. – deu de ombros. – Acabaria com uma estaca no coração, de qualquer maneira. Provaria do próprio veneno, não é caçadora?
Meu sangue fervia e eu apertava as unhas contra a carne, numa tentativa de regularizar a respiração através da dor.
– Mas vamos pensar em como seria se perdesse o controle enquanto estivesse em casa. Isso vai ser divertido. – sorriu, cínico. – O que será que a tia Anne faria quando te visse coberta pelo sangue de outra pessoa? Acho que ela te chamaria de monstro. Sejamos francos, Melody, você nunca contou que era caçadora, de onde arrumaria a coragem de contar que é uma vampira?
– Eu conseguiria esconder. Não sou fraca.
– Ah, com certeza não é, querida. É forte o suficiente para quebrar o pescoço de todos da sua linda família num momento de insanidade. Ah sim, você não é fraca.
Sentia minhas unhas penetrarem a carne da palma de minha mão.
– Você é do tipo de pessoa que acha que pode fazer tudo sozinha, e que é a melhor em tudo. Mas a única coisa que seria para eles, é a grande traidora que os enganou e entregou seus planos para os grandes inimigos, e por isso merece ser morta. Mas se você quer voltar mesmo assim... – encolheu os ombros.
Eu não encarava mais o Charles, meu olhar estava fixo no piso de madeira da biblioteca. Onde eu estava com a cabeça? Odiava admitir, mas Charles estava certo. Nunca poderia voltar.
Minha vida acabou. O máximo que posso fazer agora é continuar aqui e tentar sobreviver à próxima semana. Abri um sorriso seco, que jorrava desgosto.
– Não posso voltar. – não ergui meus olhos, e ouvi alguém inspirar e expirar profundamente.
– Ainda bem que se tocou. Agora que sabemos o que os caçadores vão fazer, podemos montar uma estratégia para ninguém acabar morto. – ele começou a se afastar, indo em direção à porta. – E vê se não estraga tudo, Melody. – saiu e bateu a porta da biblioteca.
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