Notas iniciais
Caramba! Quanto tempo! Me desculpem, mas tive um enorme bloqueio criativo. E eu não conseguia abrir o arquivo para escrever, mas foi passando, e ta aí o capítulo novo! Espero que gostem

Melody Sparks

Só notei que havia chegado a meu quarto quando já estava de frente para a minha cama. Meus pés seguiram aquele caminho quase que por vontade própria, porque eu mesma não estava raciocinando o bastante para seguir para lá.

Olhei para minha cama e retirei meus sapatos para poder deitar. Minha cabeça repousou em meu travesseiro e eu fiquei encarando o teto, tentando ligar possíveis peças de quebra-cabeça em minha memória que pudessem me ajudar a descobrir a verdade.

E por mais que eu tentasse de algum jeito conseguir as respostas, os únicos pensamentos que me vinham à mente era os de que a minha vida havia virado de cabeça para baixo. Duas semanas atrás eu era uma caçadora centrada em meu objetivo. Matar vampiros. E eu tinha uma família.

Agora temo que quando eu saia de casa, alguém venha até mim com uma estaca e acabe com a minha segunda chance. A casa que estou morando agora nem é minha, ou de algum familiar. Quem dera. Estou morando com vampiros agora, porque por algum motivo misterioso, eu me tornei uma.

Quando caminho pelos corredores, esbarro com pessoas que já tentaram me matar. Eu gosto do sangue, e por mais que isso devesse parecer extremamente estranho, eu já estou me acostumando com a ideia. Agora eu não sou diferente deles.

E seria pedir muito que a campainha da casa não soasse como uma sirene dentro de minha cabeça? Coloquei o travesseiro sobre meu rosto e o apertei contra minhas orelhas. E mesmo assim, ainda conseguia ouvir a conversa de Elizabeth com o entregador de pizza no andar de baixo.

Ouvi passos no corredor de meu quarto e me levantei da cama, seguindo até a porta. E ao abri-la, dei de cara com a mão de Thomas já erguida, preparada para chamar a minha atenção. Ergui as sobrancelhas e olhei para os olhos verdes do garoto.

– Pois não? – saí de meu quarto quando ele se afastou.

Agora ele mexia em seu cabelo, com um leve sorriso nos lábios.

– Eu vim te avisar que a comida chegou. – ele sorriu pra mim. – Vamos descer?

– Ah sim. – assenti. – Eu ouvi a campainha tocar. Tem alguma forma de desligar a minha super audição? – fiz careta.

– Desligar não. Sinto muito. – ele colocou as mãos nos bolsos enquanto me acompanhava pelos corredores. – Mas você acaba controlando. Demora um pouco, mas logo você só vai ouvir dessa forma quando quiser. Tudo é mais intenso porque você ainda é nova nisso.

Assenti e segui no rumo das vozes que vinham da cozinha. Ethan, Elizabeth e Charles estavam discutindo sobre algo que, pelo tom da voz deles, parecia ao menos um pouco sério.

– O fato de ela ter sido transformada agora não muda o que vai acontecer semana que vem. – ouvi a voz de Charles e franzi o cenho.

– A garota tem o direito de saber, Charlie. – argumentou Elizabeth.

– Isso é problema de vocês, eu não me comprometi com nada.

Abri a porta da cozinha e entrei, sem a menor cerimônia. O que quer que eles queiram esconder, ou me contar, eu descobriria agora, querendo eles ou não.

Ethan, encostado na parede, me olhou, mas nada disse. Elizabeth estava escorada no balcão da cozinha, também me olhou e até abriu a boca para tentar pronunciar alguma coisa. Já Charles, bem, parecia indiferente. Preocupado apenas em pegar mais uma fatia de pizza de uma das caixas. Pelo visto, minha presença em nada o incomodou.

Ótimo até, porque prefiro ser uma pessoa invisível a ser colocada contra a parede por um vampiro fora de si. Afastei meus pensamentos e disse:

– O que vai acontecer independente da minha existência? – cruzei os braços e senti que Thomas estava atrás de mim.

– Ah... Você ouviu. – disse Elizabeth.

– É claro que ela ouviu. – interrompeu Thomas. – Todos os sons ficam mais altos agora e vocês nem se preocupam em fazer o esforço para serem discretos.

– Eu já disse que o problema é de vocês. – Charles deu de ombros.

– Podem, por favor, parar de mudar de assunto? – respirei fundo para recuperar a minha calma.

– Eu vou facilitar a sua vida. – Charles fechou a geladeira. – O fenômeno que vai acontecer se chama Lua de Sangue. Particularmente prejudicial aos vampiros, e bastante oportuno aos caçadores. Como você.

– Acho que não posso mais ser chamada de caçadora. – respirei fundo.

– Bom para nós, então. – sorriu cínico.

– O que acontece com vocês na Lua de Sangue? – perguntei.

– Conosco. – Ethan me entregou um prato com uma fatia de pizza. – Não se esqueça que agora é uma de nós.

– Que seja. Alguém pode me responder?

Thomas tomou a frente para poder me explicar sobre os acontecimentos futuros.

– É como se a lua tomasse nossas forças. Ficamos mais fracos, como se não nos alimentássemos por meses. Isso, obviamente, faz com que nos alimentemos cada vez mais, mas nunca é o suficiente e pessoas morrem.

– Os caçadores se aproveitam de nossa fraqueza e descontrole para sair às ruas e nos matar.

Eu estava ouvindo atentamente e tentava buscar em minha mente algum momento na Organização que falaram da Lua de Sangue.

– Na maioria das vezes, eles não atacam direto. – disse Ethan. – Eles somente nos enrolam até o nascer do sol, porque estaremos tão fracos que iremos virar pó.

Como um clique em minha mente, eu consegui me lembrar de informações importantes, que poderiam nos ajudar bastante agora. É incrível como a vida tem o poder de inverter o jogo. Semanas atrás, eu nunca revelaria plano algum.

– Hm... Lá na Organização, não chamávamos de Lua de Sangue, mas sim de Lua Vermelha.

– E o que sabe sobre isso? – perguntou Thomas, se voltando para mim.

– Eu sei que eles montaram uma estratégia para essa noite. Sei que pretendem usar praticamente todos os caçadores da Organização. Deslocar grupos para pontos específicos da cidade.

– Você está começando a ser útil. – disse Charles, e eu rolei os olhos. – Continue.

– Eu fiquei lá tempo o suficiente para saber parte dos planos. Pelo menos os lugares em que vão se concentrar.

– E vai nos contar? – perguntou Thomas, meio duvidoso.

– Vou. – assenti. – Acho que como agora as coisas inverteram, não faz mal.

– Ela vai precisar de um mapa. – disse Elizabeth. – Mas podemos fazer isso depois, e terminar de comer agora.

– Claro Lizzie. Primeiro ficamos com a barriga cheia e depois nos preocupamos com nossa segurança. – Charles brincou e riu baixo.

Eu realmente fiquei surpresa, não sabia que ele era capaz de brincar com alguém.

– Exatamente. Podemos resolver isso amanhã. Relaxem aí e vão curtir a pizza. Lua de Sangue ou Lua Vermelha, só semana que vem. Temos tempo.

Decidi seguir o conselho de Elizabeth e mordi um pedaço de minha pizza, tentando me concentrar somente nela e esquecer essas coisas sobre a Lua de Sangue.

Havia uma sensação que me incomodava. Parecia que nascia em meu estômago e dali se espalhava pelo meu corpo. Era como o medo misturado com a ansiedade. Porque eu temia do plano deles envolver sair de casa, e isso era quase uma certeza. Porque lá no fundo eu sabia que se saísse essa noite, encontraria com os meus antigos parceiros da Organização.

Estava perdida em pensamentos, e por meros momentos no tempo, minha atenção se desviava para o barulho das vozes ali na cozinha. Fitei o relógio que estava em uma das paredes, e vi que já estava bem tarde. Daqui a pouco seria meia-noite.

Talvez não fosse tão difícil me acostumar com os hábitos noturnos dos vampiros, porque eu sempre saia para caçar durante a noite. Bem, os hábitos não são totalmente noturnos, porque eles andam a luz do dia, e logo eu também conseguirei esse feito. Mas por enquanto, teria que me adaptar a trocar o dia pela noite.

Decidi parar de vagar por meus pensamentos por um momento e prestar atenção no que acontecia a minha volta. Como terminar de comer minha pizza e aceitar o refrigerante que Lizzie me oferecia.

Sorri para garota e sussurrei um ‘obrigada’. Ela por sua vez encostou-se à parede, ao meu lado, e ficou olhando os garotos conversarem. Parecia uma coisa tão natural. E pela primeira vez naquela semana, por um momento, eu senti como se fizesse parte daquela família exótica.

Passei os olhos pelos garotos, e por alguns segundos, meu olhar se prendeu ao de Charles, que me encarara no mesmo momento. Os olhos intensos do garoto passeavam pelo meu rosto, parecendo que se prendiam a cada detalhe. Respirei fundo e continuei olhando, porque não seria eu quem desviaria.

O moreno apenas deu uma risada abafada e voltou a prestar atenção na conversa de Thomas e Ethan. Eu, por minha vez, fui lavar meu prato e copo e me retirei da cozinha.

Ouvi que a porta se abria mais uma vez e me virei, vendo que era Elizabeth. Ela apressara o passo, para me alcançar.

– Sabe – começou ela – o Charles não é tão ruim como pensa.

– Eu nunca disse que ele é ruim. – respondi.

– Pode não ter dito, mas com certeza pensou. Isso fica estampado em sua face, Melody.

– Desculpe Elizabeth, mas na maioria das vezes, eu não vou com a cara das pessoas que tentam me matar.

– Eu não estou te culpando, até te entendo. Mas agora você deve pensar a respeito de uma coisa: você é uma ex caça vampiros, e o Thomas está te acolhendo aqui na casa dele. Você matava vampiros, e já tentou matar Charles e Ethan.

Permaneci quieta, escutando. E ela continuava falando.

– O Charles tem um sério problema com os caçadores, assim como você tem com os vampiros. A relação de vocês é bem recíproca.

– Aonde, exatamente, você quer chegar? – perguntei.

– Só quero te dizer que ele não é ruim como você pensa. – ela encolheu os ombros. – Só peço para que você tente abrir os seus horizontes. – Elizabeth sorriu levemente e voltou para a cozinha.

Permaneci ali até ela entrar, depois subi as escadas, pegando o caminho para o meu quarto.

A luz da lua que entrava pela janela me permitia enxergar melhor o caminho até a cama, e não me preocupei em acender as luzes. Apenas fechei a porta e andei até a janela, me apoiando nela para olhar a vista que tinha das florestas e da lua que parecia brilhar mais naquela noite.

Fechei os olhos por um momento e respirei fundo, fechando a janela logo após. Acho que não preciso ficar me lembrando cada vez mais da lua. Lua de Sangue, Lua Vermelha... Essas coisas me traziam uma sensação estranha.

Puxei as cortinas, me certificando bem de que estavam cobrindo cada brecha da janela. Porque eu não queria acordar sendo queimada pelos primeiros raios de sol do dia.

Quando tive a sensação de segurança, e de que já poderia dormir em paz, fui até a minha cama e me enfiei debaixo dos cobertores, deixando que esquentassem meus pés gelados. E pela segunda vez naquela noite, eu estava encarando o teto. E ele ainda não era interessante.

Não sei quanto tempo permaneci daquele jeito, meu corpo ainda não protestava de sono, mas o tédio estava sendo maior que a insônia, então eu me deitei de lado, puxando o cobertor até o queixo e encolhendo as pernas.

Agora eu olhava para a cortina e respirava mais profundamente, e não demorou muito para que eu já começasse a cochilar. Mas sempre acordava um tanto quanto assustada, talvez por não me lembrar de que havia dormido.

Porém, quando finalmente dormi, preferi que não o tivesse feito. Talvez fosse melhor continuar encarando o teto. Mas era tarde demais.

Eu corria pela floresta, mas não sabia o exato motivo pelo qual estava correndo. Estava chovendo, e as grossas gotas batiam em meu rosto, e por estar tão frio, parecia que a inofensiva chuva estava cortando minha pele.

Por algum estranho motivo do destino, eu usava um longo vestido, que poderia ser muito lindo, se não tivesse encharcado, enlameado e com a barra esfarrapada.

Por diversas vezes eu tinha que o levantar para conseguir continuar correndo, e tentava não escorregar no chão molhado e cheio de lama. Eu olhava para trás constantemente, tentando enxergar do que estava correndo, mas tudo o que eu via era a completa escuridão.

Senti o frio aumentar, com o vento atravessando o tecido de meu vestido e me acertando em cheio, fazendo-me apertar os braços contra o corpo. E ao olhar para baixo, para tentar olhar onde pisava, não consegui mais ver meus pés por conta da intensa neblina. E logo, nem tinha ideia do que tinha à minha frente.

O que eu sabia, é que o que estava atrás de mim era muito pior, e que eu tinha que continuar correndo, enfrentando o que quer estivesse à minha frente.

Notei um vislumbre prateado a minha direita, que sumiu logo depois. E só o que senti foi um corte em minha bochecha e vi a flecha cravando na árvore perto de mim.

Parei abruptamente, com os olhos vidrados na flecha presa à árvore. Mas um ruído me lembrou de que eu não poderia parar, e eu sentia o meu coração bater forte contra o peito, os pés machucados latejantes e o sangue escorrendo dos arranhões de minhas canelas.

Minha respiração estava entrecortada e eu me forçava a tentar me lembrar do motivo de estar correndo tanto.

“Está correndo porque senão irá morrer.”

A prova disso foi a próxima flecha que fora atirada e prendera a barra de meu vestido ao chão. Parei tempo o suficiente somente para rasgar o tecido do vestido e então continuei.

Eu tentava não tropeçar, não perder tempo. Eu tinha que me afastar logo, ou pagaria com a minha vida. E eu ainda não estava pronta para morrer.

Pulei por sobre um tronco caído no chão, e quase fui atingida por mais uma flecha. Meus cabelos molhados batiam em meu rosto e me machucavam, a água fazia meus cortes arderem e eu respirava pesadamente.

A próxima flecha me atingiu no braço, e eu reprimi um grito. Vi o sangue escorrer até as pontas de meus dedos e nem por isso parei.

A neblina começava a se dissipar, e eu tinha sérias dúvidas do beneficio disso.

Segurei o meu vestido com mais firmeza, tentando ignorar qualquer dor que estivesse sentindo, e fiz de tudo para não olhar para trás. E por não olhar para trás, tive que encarar o enorme abismo que estava à minha frente.

Meus pés me pararam, e eu me encontrava entre a decisão da minha vida. Nunca pensei que seria decidir entre morrer pelas mãos de caçadores, ou de um abismo. Encostei-me a uma árvore, agora desistindo de ter pressa, porque sabia que morreria de qualquer forma.

Preocupava-me em acalmar a minha respiração para tentar me esquecer de que a morte estava chegando. Olhei para cima, clamando aos céus para que me salvassem. Eu sentia que as pessoas que estavam me caçando já estavam se aproximando, porque o barulho de galhos se quebrando estava ficando mais alto.

Até que eu ouvi um grito abafado, e o baque de algo caindo no chão. Meu olhar focou nas árvores e eu esperei. E ele chegou.

O moreno de olhos azuis intensos estava se aproximando, e eu me afastei, e senti a árvore machucar minhas costas. O homem carregava um leve sorriso de satisfação nos lábios, assim como o sangue no canto de sua boca.

Ele parou diante de mim e segurou minhas mãos, as levantando e colocando contra a árvore, com seus dedos entrelaçados aos meus. Sua respiração batia em minha face e eu só conseguia encarar seus olhos azuis. O vampiro sussurrou:

– Está tudo bem. – sua voz era rouca – Agora está tudo bem. Eu salvei você.

E eu continuei encarando o garoto, lembrando-me de que era sempre assim. Porque ora ele me salvava, ora me matava. Era assim que funcionava.

Notas finais
E aí? Vocês gostaram? Gente, se tiver qualquer erro, me avisem, porque aí eu corro aqui pra arrumar, tudo bem? Agradeço pelos comentários, me deixam bem feliz. Então, por que não comentam nesse capítulo também? Não sejam tímidos, eu adoro vocês. Vejo vocês no próximo capítulo, e vou tentar evitar bloqueios. Beijos, Borboletas Azuis