Rosas Flamejantes
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Melody Sparks
Não me importei de sair da biblioteca logo depois, deixando Thomas para trás. Segui para direção oposta a qual sabia que Charles estava indo. Uma briga não era o que me interessava no momento, e eu sabia que essa seria a única coisa que eu conseguiria se virasse à direita no corredor.
Ainda era dia, portanto não poderia sair dali e ir para um lugar bem longe. E como aquela casa não chegava nem perto de ser minha, estava mais para local de estadia temporária, tudo o que restava era o “meu” quarto, e foi para lá que caminhei.
Observava os corredores enquanto tentava achar o caminho certo. O que notei é que aquela casa era uma mistura de arquitetura rústica e antiga com moderna. Como se ela estivesse somente servindo como acúmulo de pó durante anos e então alguém decidira reformá-la para começar a viver ali.
Porém, nem tudo parecia ter merecido uma reforma. Ao que aparentava, só alguns cômodos valiam a pena. Tais cômodos consistiam na biblioteca, que ganhara de presente seu corredor que não caía aos pedaços, a cozinha, a sala de estar e jantar, e alguns poucos quartos. O resto da casa consistia em algumas lâmpadas que não funcionavam e tábuas que rangiam enquanto caminhava.
Os tais rangidos não incomodavam tanto, mesmo que às vezes lembrassem bastante alguns filmes de terror. E o visual antigo da casa não era uma coisa ruim para mim, que sempre admirei coisas do tipo rústicas, então aquilo era mais confortável do que desagradável. E aquelas paredes que pareciam ter visto tantos acontecimentos atiçavam a minha curiosidade, e eu pretendia descobrir o que já acontecera ali.
Era uma casa grande e eu não seguira pelo caminho que conhecia, então posso dizer que estava perdida. Deixava com que meus dedos roçassem nas paredes enquanto eu virava em um ou outro corredor, esperando encontrar a porta de meu quarto.
Entrei no corredor com três portas e segui até a última delas, reconhecendo como a do quarto. Abri-a e adentrei no cômodo, sentando-me na borda da cama e pensando num modo de passar o tempo para que finalmente pudesse sair dali e acabar com aquela sensação horrível que parecia rasgar minha garganta de dentro para fora.
Deixei com que meu corpo pendesse para trás, sentindo o colchão macio contra minhas costas, e fechando os olhos. Consequência de não saber o que fazer. E permiti-me ser invadida por pensamentos indesejados. Meus erros martelando contra minha consciência. Como não ter olhado nos olhos de Charles ao fim de seu discurso. Devo ter parecido tão fraca ao seu ponto de vista, e nesse momento eu me odiava por isso.
Demonstrar fraqueza nunca foi uma opção para mim. Eu era a arma criada pela Organização para matar ao mínimo indício de ameaça, e para isso, eu não poderia ser fraca. Teria que ser de aço, indestrutível.
Cerrei punhos e travei o maxilar. Numa forma de controlar minha raiva intensificada e ao mesmo tempo de punir e me forçando a aguentar a dor de minhas unhas se enterrando em minhas palmas.
Abri as mãos lentamente e me apoiei em meus cotovelos, concentrando o meu peso ali e me impulsionando para fora da cama. Eu não descontaria em mim pelo que outras pessoas me faziam sentir. Lavei as mãos na água fria da pia do banheiro e saí dali, seguindo o mesmo caminho pelo qual havia vindo, abrindo todas as portas que via.
Ao abrir uma delas, que estava perdida em algum lugar da casa, encontrei o que parecia uma sala de treino. Não era como as que havia na Organização, mas possuía o que eu precisava no momento. Um alvo para minha raiva.
Observei o saco de areia no centro da sala e as barras de exercício mais ao canto. Fechei a porta e estralei os dedos, enquanto caminhava até o meio do lugar, armando a posição e inspirando profundamente.
Não me preocupei em enfaixar as mãos, ou colocar luvas, pois se agora eu era uma vampira, tinha a força e também a invulnerabilidade de uma. Desferi o primeiro soco contra o alvo, seguido de um gancho de esquerda. A raiva e a adrenalina já começavam a se apossar de meu ser e eu só tornava os golpes mais velozes.
Era como se eu tentasse descontar minha raiva, mas ao mesmo tempo não deixar com que ela fosse embora, porque não queria parar. Aquilo tudo me fazia sentir um pouco mais normal, na forma do possível. Pois se assemelhava à minha antiga realidade. O meu dia a dia de caça vampiros.
Deixei com que meus braços descansassem ao lado de meu corpo, antes que eu mandasse o saco de areia para o outro lado da sala. Eu me apresentava ofegante, pelo costume de sempre ficar assim, mas não me sentia cansada, tampouco com o fôlego escasso.
Então, enquanto tentava tornar a minha respiração compassada novamente, percebi que a sala estava envolta pela total escuridão. Cortinas grossas e escuras cobriam as janelas, não permitindo que a luz adentrasse o local. Minha visão se adaptara tão rápido que somente agora eu reparara que estava no breu, mas mesmo assim enxergando e percebendo movimentos com total excelência.
Sorri satisfeita, pois era mais uma habilidade que eu havia adquirido, e eu não poderia reclamar, pois não era algo ruim. Então segui até as barras, dando um leve pulo para que conseguisse me segurar com ambas as mãos.
E assim fiquei pelas próximas horas, revezando entre um exercício e outro, até me acalmar. Olhei para a porta quando finalmente senti a presença de mais uma pessoa ali, embora não fosse nada ameaçador. Era somente Ethan.
– Alguém tava bem nervosinha. – comentou, e eu respondi com um resmungo, voltando a dar as costas. – Calma estressada.
– Vai provocar? – perguntei, virando levemente o rosto para conseguir perceber seus atos através da minha visão periférica.
O moreno de olhos negros somente riu baixo e ergueu as mãos, em um sinal de redenção.
– Por que veio aqui? – indaguei.
– Eu tava ouvindo o barulho dos seus socos lá do meu quarto e queria saber o que diabos estava acontecendo aqui. Não achei que você encontraria essa sala.
– Estava com raiva e precisava descontar em alguma coisa. – me alonguei.
– Sorte que não foi em mim.
– Não vai demorar para ser você no lugar do alvo. – retruquei.
– Alguém não quer baixar a guarda. Não que eu me surpreenda com isso, já que você nunca o faz. Também tem a questão de você ter o pavio curto... – ele começou a mencionar.
– Veio aqui pra me dizer que eu tenho problemas com a raiva? Se for, pode ir embora, não é nada que eu já não saiba. Portanto, dispenso comentários sobre. – sentei-me no chão.
– Tudo bem. – ele concordou, com um leve dar de ombros. – Eu só estava curioso para saber o que estava acontecendo aqui; e descobri. Bem, melhor no saco de areia do que na cara do Charles. – foi o que disse antes de sumir dali.
Eu, por minha vez, permaneci ali por cerca de mais cinco minutos, não fazendo nada além de observar a escuridão, e de certa forma ser acolhida por ela. As trevas me guiariam de agora em diante e eu já começara a me acostumar com o fato e também com sua presença.
Precisava parar com meus momentos de reflexões constantes. Na maioria das vezes acabava com uma sensação incômoda no peito, nada agradável.
Levantei-me e sai da sala, fechando a porta antes de continuar andando. Eu não tinha pressa para voltar ao quarto, que começara a se tornar o meu refúgio, já que era o lugar onde eu permanecia por mais tempo, talvez por ser o que eu podia chamar de meu, mesmo que temporariamente.
Porém, mesmo um refúgio pode virar uma prisão se você não tiver a liberdade de ir e vir quando quiser, ou não tiver a vontade de ficar ali, mas ao mesmo tempo, nem de permanecer do lado de fora, com tantas coisas que podem parecer desagradáveis aos seus olhos.
Então, mesmo que aquele lugar fosse o meu refúgio temporário, também se assemelhava a uma prisão. Algumas coisas são contraditórias demais, e me davam dor de cabeça.
Fui direto para o banheiro, para deixar a água levar o suor e todas as sensações ruins para longe de mim. Ela conseguia fazer isso comigo, me purificar, levar as más coisas embora.
Fiquei ali debaixo do chuveiro tempo o suficiente para me sentir bem, e isso não demorou. O desliguei e me sequei, enrolando a toalha em meu copo antes de sair do banheiro.
Eu sabia que era Elizabeth quem colocava mudas de roupa em cima da cama, mas dessa vez isso não aconteceu, o que me fez ir olhar pela primeira vez se havia algo dentro do guarda-roupas que ficava no quarto. E tinha roupas lá dentro, para o meu alívio; afinal, eu não queria ter que sair andando pela casa somente com uma toalha cobrindo meu corpo.
Vesti-me completamente de preto, e até achei uma jaqueta de couro lá dentro que ficara ótima com a regata que eu estava vestindo. Deixei-a sobre a cama e peguei um pente no banheiro, desembaraçando o meu cabelo de frente para o espelho. O ajeitei de forma que caísse em ondas pelas minhas costas e voltei para onde estava anteriormente. Coloquei a jaqueta e também calcei um par de botas de couro pretas e de cano longo.
Lembrei-me das várias vezes que saíra para caçar, usando roupas semelhantes àquelas de agora. E se eu parasse para pensar, eu estaria me preparando para outra caçada, já que em pouco tempo eu teria que sair para procurar alguém para que eu pudesse me alimentar.
E então eu senti falta de algo. Uma coisa que sempre me acompanhou, e que o fato de eu só ter dado a falta agora me surpreendeu bastante. Estava tão preocupada e distraída com outras coisas que somente agora me lembrei de um dos meus bens mais preciosos. O colar de lobo que Charles havia tirado de mim. Teria que pegar de volta.
E foi por isso que saí de lá e caminhei silenciosamente até o quarto de Charles, tomando cuidado na hora de abrir a porta e me lembrando das palavras que Charles me dissera da última vez que eu estivera ali, invadindo o seu quarto para lhe acusar de acabar com a minha vida.
Mas não eram ameaças que iam me impedir de conseguir o que quero. Portanto abri a porta e olhei se havia alguém lá dentro, e quando constatei que estava vazio, adentrei o local, começando a pensar onde ele teria deixado o meu colar.
As cortinas estavam fechadas, o que me permitiu caminhar livremente para observar o quarto. A cama estava com os lençóis levemente revirados, e eu conseguia sentir o cheiro do moreno que estava impregnado nos cobertores e travesseiros.
Havia um livro no criado-mudo e uma camisa preta de botões na cama, como se alguém apenas a tivesse trocado por outra rapidamente e não houvera tempo para colocar a descartada em outro lugar. Não notei a presença de fotografias ali, ele não deveria admirar a arte, ou provavelmente só não gostava de tirar fotos.
Fui até a escrivaninha e vi vários papéis espalhados por ali. Palavras rabiscadas em uma caligrafia masculina e impecável. Eu afastava os papéis com as pontas dos dedos, para que pudesse ver o que estava por baixo. Percebi que ele escrevera com lápis em alguns e em outros com caneta. Não se importando em como ele pareceria no fim.
Em um deles, não estava rabiscada frases, como na maioria, e sim um texto inteiro, preenchendo quase toda folha. E minha curiosidade fez com que eu pegasse o papel, e primeiramente admirasse a caligrafia, antes de começar a leitura.
“Et Mors Animae
O que é a morte senão o momento em que nossa alma deixa o corpo? O instante em que ela encontra a fenda para ir, então nossa vida de esvai em questão de segundos. O que seríamos se não tivéssemos nosso espírito? Aquilo que nos permite sentir, pensar e nos importar.
A vida não é nada mais e nada menos do que a alma que nos habita, e a morte não passa do fim de seu vigor. Quando ela se cansa de apanhar e se liberta deste corpo carnal que lhe proporciona mais tristezas do que alegrias.
Ela que passa tanto tempo procurando uma forma de se libertar, ao mesmo tempo em que nos sustenta, pois somos sua única casa. É por não sabermos como nos cuidar que seu desejo de ir embora se intensifica.
E ela consegue. Então escapa na forma de um último suspiro.
Charles Beaumont”
Reli o texto assim que cheguei até o último ponto, um tanto surpresa com o que encontrara ali. Não era nem de longe o que eu esperava, pois nunca imaginei que o vampiro sem coração pudesse escrever sobre a morte. Quanto mais sobre alma, coisa que eu achava que ele não tinha.
Deixei o papel onde o encontrara anteriormente, mas antes que pudesse arrumar as coisas para que ficassem do modo que eu encontrei, ouvi sua voz vinda da porta do quarto.
– O que você está fazendo no meu quarto? – senti que ele se aproximava e me virei.
– Eu quero de volta uma coisa que é minha. – respondi.
– Falei que não era mais para entrar aqui. – ralhou.
– Quero o colar que tomou de mim. – insisti e não me movi um centímetro.
– Do que você tá falando? – sua postura mostrava superioridade, mas não me deixei parecer inferior.
– Eu estou falando do colar que você pegou de mim no dia que me atacou na minha casa. – ralhei, enquanto cerrava os punhos diante de sua total falta de interesse.
– Ah, estou me lembrando. Tá falando daquele lobo horrível? – ele deu as costas e foi até o espelho, ajeitando a gola da camisa preta.
– É, aquele lobo horrível. – rangi os dentes. – Onde tá?
– Eu derreti. – deu de ombros. – E fiz uma corrente nova. – sorriu torto e eu vi algo prata reluzir em seu pescoço.
– Você o quê? – eu já respirava com dificuldade, e ouvia o sangue correndo em minhas veias.
– Achei que sua audição tinha melhorado. – ele me olhava através do espelho. – Mas para mim, você parece um pouco surda demais.
– Seu – ele me interrompeu, sorrindo presunçoso.
– Lindo? Incrível? Não precisa gastar palavras para me dizer o que eu já sei, Melody. Mas se insiste, continue. – ele parecia estar lutando dentro de si para que não começasse a rir da minha cara.
– Você não é nada além de uma pessoa que chega ao extremo do ridículo, Charles. Só isso que você é. – eu ainda não iria embora. – E aquele colar horrível era da minha mãe.
– Ah, você acha que eu me importo? – me lançou um olhar pelo espelho. – Desculpe se te passei essa impressão, não foi minha intenção. Na verdade, eu não ligo se isso foi da sua mãe ou da sua avó. É inútil. – ele balançou os ombros.
Foi o suficiente para que eu chegasse até ele num segundo e quebrasse o pescoço do moreno em um simples movimento. Vi seu corpo cair a minha frente e sorri de canto.
– É, Charles, você também está sendo outra coisa muito inútil por aqui. – passei por cima dele e me retirei de seu quarto, fechando a porta cuidadosamente e passando pelos corredores como se nada tivesse acontecido, e com uma sensação de plena satisfação dentro de mim.
Estava pronta para a minha caçada desta noite.
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