Rosany
1 Eu me chamo Rosany
Notas iniciais
Eu me chamo Rosany e vejo fantasmas.
...
Eu sempre tive esse dom, mas quando fui morar sozinha as coisas ficaram mais intensas. Além de ver vultos eu ouço vozes, as portas batem, os quadros caem da parede sem motivo aparente, as chaves mudam de lugar, as janelas abrem e fecham sozinhas, entre outras coisas.
Eu não tenho amigos e nem família, todos estão mortos ou sofreram graves lesões. Minha melhor amiga ficou paraplégica e em seguida morreu de ataque cardíaco, foi aí que decidi me afastar dos outros, eu os machucava.
Já estou acostumada com espíritos ou seja lá o que essas coisas forem.
Por exemplo:
Hoje eu acordei, desci as escadas até a cozinha para preparar o café da manhã. Estava passando manteiga no pão quando algo caiu no chão de repente, levei um susto. Fui até a sala e o lustre havia caído no chão, estava em pedaços.
– Maldição!
Peguei uma sacola plástica na gaveta do armário e vassoura, então comecei a recolher os pedaços de vidro.
A porta da frente bateu violentamente.
– Quem está aí? – gritei agachada diante dos vidros, mas não obtive resposta.
A porta bateu de novo. Eu levantei e fui minuciosamente até lá, então se repetiu o barulho e eu corri até a porta.
– Para com isso! – gritei e a tranquei com a chave que já estava na maçaneta.
Voltei e recolhi os cacos de vidro.
Quando eu acabei de tomar café, liguei o notebook e fui fazer minhas tarefas. Sou assistente virtual, trabalho com contabilidade, ou seja, não preciso ver muitas pessoas.
Eu estava concentrada quando escutei alguma coisa no meu ouvido.
– Rosany! – a voz era tremula, abafada e com as vogais alongadas, parecia uma mulher.
Virei rapidamente, mas não havia ninguém atrás de mim.
– Olhe lá fora. – aquela voz surgiu do outro lado.
Olhei, e nada.
– Cala boca! Estou ocupada! – gritei.
– Rosany! – a voz berrou e mostrou-se assustadora.
Os três quadros pendurados nas paredes trincaram simultaneamente. Fiquei inerte por alguns segundos, e a casa tomou-se por um silêncio suspeito.
Respirei fundo na cadeira e levantei, retirei os quadros da parede e os joguei no lixo, então voltei às minhas atividades.
Na hora do almoço eu resolvi fazer macarrão com salsicha. Coloquei a água a esquentar e tirei as salsichas da geladeira, abri a gaveta e não encontrei a faca para carne. Procurei pela cozinha inteira, mas não encontrei. Sentei em uma cadeira e olhei para cima inconscientemente, então eu a encontrei. A faca estava no teto. Pode parecer estranho, mas às vezes as minhas coisas vão parar no teto, principalmente roupas.
Eu puxei a cadeira e subi nela, pulei e segurei a faca, no entanto ela continuou grudada no teto. Meus pés não tocavam no chão, eu estava dependurada.
– Solta! Solta isso! – falei balançando as pernas – Eu disse para soltar!
Quando gritei a faca desprendeu e me esborrachei no chão. Eu estava deitada, e ao olhar para o lado percebi a faca com a lâmina pregada bem ao lado do meu pescoço.
– Eu sei que você não pode me matar. – disse levantando e pegando a faca – Se pudesse já teria feito há muito tempo.
Passei uma água de leve e piquei a salsicha.
Assim que o macarrão ficou pronto, comi desanimada. Eu não sou muito boa na cozinha, mas o básico sei fazer.
Olhei televisão por mais ou menos uma hora.
Fui até a loja da esquina pegar café em pó, havia acabado e eu não sou nada sem café. Quando eu estava caminhando na rua senti um forte cheiro de queimado, vinha de uma casa. Eu abri o portão e entrei.
– Tem alguém aqui? – perguntei antes de abrir a porta.
– Aqui! – a voz saiu de dentro da casa.
Eu abri correndo e o fogão estava pegando fogo. Peguei uma panela que estava largada em cima da pia, enchi d’água e joguei no fogão. Fiz isso mais uma vez e o fogo sumiu.
– O gás está fechado? – perguntei.
– Está. – respondeu um homem alto de cabelos negros – Obrigado. Eu não imaginava ser “salvo” por uma mulher, que decadência.
– Preciso ir. – saí a porta e caminhei pelo pátio.
– Espera! – ele foi atrás de mim – Me chamo Matheus, e você?
– Rosany! – falei alto, já saindo pelo portão.
Coincidência do destino ou ano, no dia seguinte eu fui à mesma loja na qual eu comprei o café, e o Matheus estava lá.
– Oi, Rasany! – ele me abordou pelas costas.
– Matheus?! – fiquei espantada.
– Tudo bem com você? Tomara que sim, por que tive alguns pequeninos prejuízos. – disse irônico.
– Sinto muito por você, eu já estou indo. Até mais. – dei as costas, mas ele segurou o meu braço.
– Você está fugindo de mim?!
– Não é isso, só estou um pouco atrasada.
Ele puxou-me e me abraçou repentinamente.
– A gente se vê outra hora.
Eu tive vontade de ficar ali para sempre. Eu nem lembro a última vez que alguém me abraçou, tinha esquecido o quanto era bom, quente e acolhedor. Mas tive que quebrar aquele momento e me despedir.
Quando cheguei em casa as luzes começaram a piscar sem parar, eu fiquei tonta e atordoada.
– Para! – escorei-me na parede e cobri os olhos – Para! Para! Para!
As janelas estouraram e os pratos começaram a cair aleatoriamente do armário.
Eu subi correndo para o meu quarto e fechei a porta, pulei em cima da cama e abracei o travesseiro.
– Eu não preciso de ninguém! – gritei falando comigo mesma – Abraço é uma coisa idiota! Pessoas são idiotas! Eu não tenho ninguém, eu não preciso de ninguém! – eu chorei ao perceber que eram palavras secas, que eu tinha sentimentos e não conseguia controla-los.
Dois dias depois, era três e meia da tarde e escutei batidas rápidas na porta. Abri e vi o Matheus.
– O que você está fazendo aqui?
– Eu trouxe essa flor pra você. – ele estendeu a mão mostrando uma Rosa Azul – Para combinar com os seus olhos.
Eu peguei e olhei aquela flor, era a primeira flor que eu havia ganhado de alguém. Era tão bonita e delicada.
– Uma Rosa Azul, que ironia, não?! – disse ele.
– V-você não pode estar aqui! – falei ríspida – Como descobriu a minha casa?
– Eu te segui. Desculpe, estou atrapalhando?! – ele olhou-me inocentemente.
– Não, eu só... Eu só estou um pouco ocupada. Não posso te receber agora, talvez outro dia você possa... – ele calou-me com um beijo.
Eu tenho vinte e sete anos e estou tendo o meu primeiro beijo. Foi tão... tão alucinante. Ele tocava o meu rosto e passava os dedos entre meus cabelos. Nesse instante o rádio ligou-se sozinho na sala.
Eu empurrei o Matheus para longe.
– Por favor, vai embora! – fechei a porta e me escorei nela.
Eu não podia fazer isso, não podia me aproximar de alguém.
Entreabri a porta para ver se ele tinha ido embora, e ele estava atravessando a rua. Então abri a porta por completo e ele virou-se para mim.
– Rosany. – disse. Eu não escutei, mas vi o movimento de seus lábios.
– Matheus. – falei com os olhos cheios d’água.
Um carro estava vindo na rua a toda velocidade.
– Matheus! – gritei – Cuidado! – ele olhou para mim confuso, eu corri para tentar alcançá-lo – Matheus! – gritei pela última vez, mas já era tarde, o caminhão havia o acertado em cheio.
Eu fiquei perplexa, não conseguia mexer um músculo.
Eu não sou normal, eu não posso querer viver como uma pessoa normal, eu destruo as pessoas normais. Eu as amo, e acabo destruindo suas vidas.
Depois de alguns instantes eu entrei em casa. Não adiantaria nada chamar a ambulância, ele iria morrer, todos a minha volta morrem.
A primeira vez que eu salvo alguém, o meu primeiro beijo, a minha primeira flor de presente, mas no final as coisas acabam como sempre.
Quando eu entrei em casa as lâmpadas estouraram, as cadeiras caíram no chão, as janelas começaram a se bater, os copos de vidro explodiram, as facas voaram e cravaram a lâmina na parede, mas eu não liguei. Isso está comigo e sempre vai estar, e o pior de tudo é que eu sei amar, e sofro a cada perda.
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