Rosa dos Ventos
18 XVIII • Motorista, motorista, olha o poste...
Notas iniciais

SE ALGUMA PROFISSÃO PODE UNIR O INFERNO AO PARAÍSO, essa, certamente, é a de professor. Eu posso não saber muito bem sobre como é estar na frente de uma classe, mas sempre me perguntei como deveria ser a sensação de transmitir conhecimentos para tanta gente ao mesmo tempo. A verdade é libertadora, como dizem, e oferecê-la a alguém é uma deliciosa ousadia.
Mesmo com minha ignorância sobre o assunto, era muito fácil verificar que existiam momentos e momentos na vida de um professor e um deles — definitivamente, um que NÃO se enquadrava na categoria “Paraíso” — estava se desenrolando dramaticamente naquela hora.
— ... Dá pra você usar o banheiro químico do transporte. Vamos, eu sei que você consegue, campeão. — o professor Hudson parecia prestes a ter uma convulsão. Ele olhava a cada 0,5 segundos para o relógio, o rosto parecendo que ia explodir.
— Não dá... Ai, eu... Eu não consigo me levantar. — disse a voz envergonhada, vinda de dentro do banheiro com um tom nem um pouco animador.
Resumidamente, resolvemos parar para almoçar num restaurante de beira de estrada quando ficou claro que ninguém conseguiria suportar mais cinco minutos com o estômago vazio. Após uma rápida e desesperada procura, encontramos um que aparentava ser razoavelmente confiável. Era um estabelecimento quadradão, pintado de verde-musgo e com a arquitetura simples. As janelas eram bem grandes, de forma que pudemos ver o interior do lugar mesmo de dentro do ônibus. Não era tão mal. O outdoor dizia “Whiskynão” — um trocadilho maroto com “O Esquinão” que eu levei trinta mil anos para entender — e tinha o desenho de uma vaquinha simpática segurando um espeto de churrasco cheio de bifes, o que me pareceu uma ironia meio cruel.
Ao vermos que ficava vizinho a um posto de gasolina, sendo que, segundo o motorista, o tanque ia precisar ser abastecido dentro de pouco tempo, a decisão de parar foi unânime.
Os quarenta e cinco alunos ocuparam quase todas as mesas do restaurante. Além de nós, só um casal de idosos com um cachorro igualmente senil amarrado no pé da mesa estava por ali. Deduzi que aquele não era um lugar muito frequentado, pois a garçonete que veio nos atender parecia eufórica, como se estivesse se dirigindo diretamente ao seu salário do final de mês.
Achei provável que a comida fosse demorar, porque eles poderiam não estar preparados para tanta demanda, mas em menos de quinze minutos quase todos já estavam comendo. Nada podia dar errado.
Mas havíamos esquecido dele.
Dionísio.
Acho que não preciso abrir um parêntese muito grande para falar desse residente do dormitório 5 da Ala Sul.
Dionísio é um garoto uns dez centímetros mais baixo que eu, o rosto redondo como uma empada. Ele parece um bebê bem grande e, apesar de ser bastante simpático, todo e qualquer contato que eu já tive com ele se resumia aos treinos de futebol. Eu havia lido sua ficha e algo que me chamou atenção foi a quantidade de restrições alimentares que ele possuía. Apesar de ser bem gordinho, ele podia comer somente uns 50% do que eu podia, por exemplo. Formulei a teoria de que, por não ter uma gama de possibilidades alimentares tão grande, ele se concentrava pra valer naquilo que lhe era permitido.
Não sei quantas pessoas tinham ideia dessa peculiaridade a respeito dele e, infelizmente, as que sabiam não viram quando ele enfiou goela abaixo uma colherada de caldo de bobó de camarão.
Trinta segundos depois estávamos todos na porta do banheiro querendo saber por que diabos Dionísio tinha saído correndo clamando por um vaso sanitário. E assim ficamos por quarenta minutos até o professor Hudson entrar em desespero e começar a golpear a porta.
— Pelo amor de Deus, se não sairmos desse lugar dentro de quinze minutos jamais vamos chegar a tempo da abertura!
Eu sabia o motivo da agonia acentuada do professor: era na cerimônia de abertura que os atletas assinavam seus nomes nas listas e, assim, se inscreviam oficialmente na competição. Essa era uma tradição do clube de colégios Outubro — nem um pouco justa, inclusive, já que qualquer coisa podia acontecer durante o caminho — que era mantida porque seus atuais membros: cabeças duras conservadores que não gostavam de mudar regras antiquadas (entre eles, óbvio, o Sr. Rondarolli).
O efeito multidão estava funcionando muito bem, pois a apreensão entre os alunos era igualmente grande.
— Haja paciência pra gente gorda. Só vai fazer o ônibus gastar mais gasolina por causa da carga — disse uma voz estridente atrás de mim, no que foi acompanhada de algumas risadinhas e de exclamações de concordância. Virei-me imediatamente para ver quem tinha dito aquela bosta e meus olhos se encontraram com os dele.
Amadeus Louzada Fachini Neto. Lembrei-me de seu nome completo assim que pousei meu olhar sobre seu rosto esnobe e cabelos loiros enjoativos. Seus olhos verdes quase não possuíam pupilas de tão reptilianos que eram. Residia na Ala Leste, quarto nº4 (o mesmo de Nathan).
— O que foi que você disse?
Ele abaixou as pálpebras lentamente como se eu o entediasse.
— Não se intrometa, Ulisses. Eu sei que seu coleguinha do Olimpo, Dionísio, está junto de você na patota divina do colégio, mas você não precisa ficar defendendo ele. Beijos de ambrosia pra você.
Eu não era tão próximo de Dionísio a ponto de arranjar briga por ele, mas a criatividade do insulto me deixou tão furioso que eu seria capaz de meter a mão na cara daquele loiro babaca ali mesmo.
— Escute, você...
— Ulisses, venha até aqui comigo, sim? — Nathan apareceu na minha frente de forma deliberadamente casual. Ele apontou para fora do restaurante com o queixo de um jeito quase imperceptível, mas de forma óbvia o suficiente para eu entender o recado.
Virei o rosto e saí andando ladeado por ele sem olhar para trás. Eu me conhecia o suficiente para saber que não ia acabar em coisa boa se ficasse ali mais tempo.
— Você é muito inflamável, sabia? — Nathan me disse assim que chegamos ao lado de fora do restaurante. O motorista do nosso ônibus estava sentado num banquinho lá na beira da pista, mascando tranquilamente um chiclete como se não estivéssemos entre a vida, a morte e um vaso sanitário. Mais além, outro ônibus estava parado sozinho no posto de gasolina.
— Descobriu isso sozinho? Parabéns. — A frase era meio dura, mas consegui fazê-la soar engraçada. Ele riu.
— Ah, qual é. Eu não ia querer que você pusesse a perder sua chance de se destacar no time. Você seria levado imediatamente pro colégio se arranjasse briga. Você sabe... eu sou o capitão agora, mas é meu último ano no Rosa dos Ventos e...
Observei-o tentar articular as palavras. Aquela informação já era esperada por mim, mas vê-lo dizer aquilo era algo completamente diferente.
— Então, você quer que eu ocupe seu cargo de capitão quando você for embora?
— É, será meu presente. — ele disse, vangloriando-se.
Eu estava prestes a tentar responder à altura do seu sarcasmo, mas notei um garoto vindo apressado da direção do posto de gasolina. Ele passou por nós dois sem nos dar muita bola, mas assim que entrou no restaurante e viu a algazarra na frente da porta do banheiro voltou-se para mim e Nathan com uma expressão curiosa no rosto. Eu soube o que ele ia falar antes que suas palavras saíssem da boca.
— Vocês saberiam me informar o que está acontecendo ali?
Ele era da altura de Nathan — ou seja, mais alto que eu. A pele clara, o corpo esguio e cabelos pretos e lisos que me lembraram o de Torugo. Seus olhos eram MUITO escuros. Pareciam dois buracos negros (no melhor sentido que isso possa sugerir). Sua fala era meticulosa e não muito convidativa, e eu percebi que ele não seria alguém com quem eu faria amizade com muita facilidade. Ele usava uma camisa azul escura de manga longa com o nome “Vespasiano”, que me pareceu um nome familiar.
Minha resposta ia ser o mais sucinta e parca de detalhes possível, pois não queria dar muita liberdade ao estranho, mas Nathan me interrompeu e falou em meu lugar.
— Ahnn. Vou te contar tudo que precisar. Qual é seu nome mesmo?
O garoto pareceu acuado, mas respondeu mesmo assim.
— Matheus.
— Matheus... Me chamo Nathan. Prazer. Vou te explicar o que precisar. Só me responda uma coisa: você veio daquele ônibus ali, não é?
Nathan apontou o outro ônibus, estacionado mais pra frente. O ônibus tinha a mesma cor da camisa do tal Matheus assim como o nome “Vespasiano” em dourado na lataria.
Como um tapa imenso na cara, lembrei-me de onde já tinha ouvido aquilo antes. A mesma voz que gritava desesperada com o pobre Dionísio vinda de lá de dentro havia me falado uma vez.
“Bom, além dos times de futebol, vôlei e basquete, creio que no xadrez vocês enfrentarão somente um colégio. Chama-se Vespasiano. Enxadristas de ponta, tenham cuidado.” tinha dito o professor Hudson em uma das reuniões gerais com os times.
Nathan lembrara antes de mim porque já participara das Intercolegiais de Junho outras vezes e provavelmente reconhecera o nome.
— Sim, mas...
— E quantos alunos vieram junto com você?
Ele nos analisou de forma cortante. Aquela era uma situação totalmente vergonhosa, mas eu sabia o que Nathan queria fazer e aquela era a nossa única chance.
— Só vim eu mesmo. O ônibus está praticamente vazio.
Vi a expressão de satisfação surgir no rosto de Nathan. Ele segurou minha mão discretamente para chamar minha atenção.
— Esqueça esse banheiro daí de dentro, no nosso ônibus tem um bem mais limpo e o melhor: desocupado... Compartilhar ônibus é uma dádiva, não?
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Deu um pouco de trabalho convencer Matheus a levar quarenta e cinco alunos e um professor com os nervos levemente afetados no ônibus de seu colégio — mais porque ele parecia meio “fuck you” para as necessidades alheias do que por algum impedimento oficial —, mas depois de insistir muito (e de fazermos uma leve chantagem relativa a ele só poder usar nosso banheiro se nos ajudasse também) acabamos embarcando no Expresso Vespasiano.
Naquele momento, o ônibus estava silencioso e envolto pela meia-luz, pois logo depois de sairmos do restaurante o cansaço inerente ao horário pós-almoço, junto ao estresse que havíamos passado, fez quase todo mundo cair no sono imediatamente. Eu era um dos poucos acordados, conversando com Samuel pela internet no celular.
Ele me contou que estava terminando de arrumar as próprias coisas para viajar com a família dali a dois dias. Senti-me muito feliz por ele, aquela viagem ia lhe fazer muito bem para descarregar do tanto de coisa que havia passado no último semestre.
Saindo aqui.
Miga, n pretendo usar o celular durante a viagem, então nos vemos daqui a um mês.
Bejinhoss.
Respondi à sua despedida bem a tempo, pois o 3G do celular começou a falhar e dentro de cinco minutos já não dava qualquer sinal de existência. Pela janela, eu via pastos que se estendiam por vários quilômetros, casinhas de campo aqui e ali e apesar de não conhecer praticamente nada da geografia de nosso estado, arrisquei, pelo tempo de viagem, que estávamos muito perto do destino. Chegaríamos em no máximo quinze minutos, e a cerimônia de abertura não ia ser antes disso. Respirei aliviado.
Nathan recostara a cabeça no vidro da janela, pendurando a mochila atrás da cortina para usá-la como travesseiro improvisado. Não tinha a menor ideia se era permitido fazer aquilo, mas as únicas pessoas que poderiam nos chamar atenção — o motorista, o professor Hudson, Matheus ou a professora de Xadrez dele, Marina (uma mulher com o olhar intenso e inteligente, como o de um gato. Tinha a íris tão preta quanto a de Matheus e o cabelo crespo enrolado num coque) — estavam na parte da frente do ônibus, distraídas demais para reparar em nós.
Notei que Hudson conversava com ela totalmente inclinado em sua direção, demonstrando interesse de uma forma tão claramente óbvia que me fez dar risada. Esse jeito de agir na hora da conquista combinava perfeitamente com ele.
De repente, um grande vulto vermelho apareceu na janela. Mesmo tendo a noção de que ia acontecer em algum momento, foi um corte tão rápido da paisagem campestre para ele que fiquei atordoado.
Era o muro que Samuel mencionara ao contar de sua experiência nas competições, quando conheceu Júnior e tudo o mais. Ainda faltava uma parte considerável do caminho, o que me fez perceber que a propriedade era realmente grande, ou talvez tivéssemos que contorná-la para chegar à entrada. Eu não tinha ideia. A velocidade ocultava os detalhes de minha visão, mas pude perceber que o muro era feito de vários tijolos vermelho-sangue e encimado por uma cerca elétrica. Abstraí o valor da conta de luz deles para não entrar em pânico ao constatar que o custo vinha embutido na mensalidade exorbitante que todos nós pagávamos.
Alheio a qualquer coisa além do seu sono, Nathan continuava babando na cortina da janela. Eu supostamente já deveria acordá-lo para que ele estivesse mais desperto quando chegássemos, mas me pus a observá-lo. Era muito bonito, mesmo naquela posição um pouco constrangedora. As palavras ditas por Torugo mais cedo, sobre cuidar dele, não saíam da minha cabeça de jeito nenhum. Isso queria dizer que Nathan sofria a iminência de se machucar? Se fosse, como Torugo poderia sequer saber de algo assim? A única coisa que não me fazia desconfiar de, por exemplo, Nathan ser o Gênio da Porta ao Lado, ou algo assim (se fosse a isso que ele tivesse se referindo) era o fato de eu ter estado com Nathan exatamente no mesmo momento em que ocorrera um dos ataques.
O ataque a Torugo, inclusive.
E se não era Nathan, e sim um dos outros meninos, por que ele não me avisara para eu cuidar também de mim mesmo? A dúvida estava me consumindo.
O ônibus estava tão silencioso e o ar-condicionado tão agradável que me senti tentado a inclinar-me em sua direção e usá-lo como meu próprio travesseiro improvisado, como no dia em que eu descansara no seu colo. De fato, eu estava quase fazendo isso quando o alto-falante do professor Hudson ruiu como um rádio com interferência e falou:
— Malévola já tá bem longe, podem acordar agora, belas-adormecidas. Se revezem no banheiro para tirar essa cara de sono, arrumem suas coisas e se PREPAREM PARA SEREM BASTANTE EDUCADOS E REPRESENTAR COM DIGNIDADE O NOME DA ESCOLA DE VOCÊS.
A última parte teve que ter sido gritada pois quase ninguém movera um músculo sequer ao som da voz do professor. Aos grunhidos e gemidos de preguiça, cada um de nós se levantou para jogar uma água no rosto e tirar as sacolas do bagageiro acima de nossas cabeças.
— Puta merda... quanto tempo eu dormi? — me perguntou Nathan, ainda se espreguiçando na cadeira. Sua mochila caiu de trás da cortina assim que ele desencostou a cabeça. Não contive o riso ao ver que o lado direito de seu cabelo estava todo achatado. — ah, droga. Não ria disso...
Ele ajeitou como pôde o penteado e levantou-se, quase esfregando o tronco no meu nariz ao passar entre mim e a cadeira à minha frente. Tentei procurar em seu rosto algum traço de gozação, mas ele ainda estava se recuperando do sono e não pareceu notar o que tinha feito.
— CARALHO! Olhem só aquilo! — Jeremias ficou de pé em cima de um dos assentos e apontou para o horizonte. Sua expressão surpresa foi acompanhada por todos os outros que se amontoaram nas janelas e olharam na mesma direção.
Ainda confuso, tentei enxergar através da multidão. O que tinha de tão interessante lá fora? Ouvi alguns arquejos de excitação.
Consegui me espremer entre o próprio Jeremias e um garoto da Ala Norte, morrendo de curiosidade para saber o que era aquilo que todos olhavam.
E então eu vi.
Bem, descrevendo não soava como grande coisa, mas o que víamos era tão excitante e inesperado que ficamos sem reação.
Uma estrutura exageradamente alta, muito semelhante a uma moldura de quadro (só que com uns trinta metros de altura) se erguia bem no meio daquilo que imaginei ser o complexo esportivo. O teto de uma das quadras chegava à metade de seu tamanho, para se ter uma ideia. Penduradas nela e caindo como várias cortinas de muitos metros quadrados de extensão, haviam oito bandeiras com um desenho diferente em cada uma. Eu teria demorado bem mais para decifrar que diabos seriam elas se não fosse um dos desenhos em particular. Um desenho que fizera parte de minha rotina durante os últimos seis meses.
Sim, lá estava a imagem de uma rosa dos ventos de dez andares de altura.
Além dela, havia ainda o desenho em vetor de uma árvore laranja (cujo colégio eu não lembrava o nome), uma vespa dourada e estilizada sobre um fundo azul marinho pertencente obviamente ao colégio do Matheus, Vespasiano. Também reconheci um triângulo com um dos lados mais largo como sendo do colégio Delta (nosso rival mais difícil tanto no futebol quanto no basquete). Não pude me concentrar nos outros, pois o professor Hudson nos xingou de umas quatro maneiras diferentes e tivemos que nos apressar.
...
— Isso, desse jeito. Em fila indiana. Pelo menos passem a impressão de que são civilizados, eu imploro. Vamos lá... Um, dois. Um, dois...
A luz do sol atingiu sem dó o meu rosto quando saí do ônibus. O céu estava muito azul e não havia nuvens nem mesmo nas áreas da abóbada perto do horizonte. Devia ser costume no interior.
De início, nem pude ver muito bem os arredores, pois estávamos no estacionamento, que era uns bons três metros abaixo do nível do pátio lá em cima. Quase todas as vagas estavam ocupadas. Vi alunos de outras escolas andando em grupos, conversando animadamente e carregando mochilas e materiais de esporte. Eles pareciam tão confiantes de si... Aquilo me deixou nervoso. O fato de estar vendo rostos de pessoas novas depois de um semestre trancafiado com os mesmos cento e sessenta alunos me ajudou a ficar um pouco atordoado também.
— Aquele menino tem cara de espirro. Já derrotamos ele. — disse Nathan, apontando para um garoto franzino que carregava uma caixa térmica enorme. Tive que rir.
Vizinho ao estacionamento, à nossa esquerda, havia um prédio que eu diria ser apenas administrativo, pintado de cinza e com janelas azuis. Além dele, eu só conseguia ver o topo da estrutura das bandeiras ao longe, quase toda encoberta por um outro prédio a meio caminho entre nós e ela.
Meio desajeitadamente, formamos uma fila de pseudocivilizados e seguimos em frente subindo a rampa que levava ao pátio superior. Tirei o folheto do bolso e tentei me localizar no mapa simplificado que havia lá. Se eu não estava enganado, estávamos indo em direção à entrada do conjunto de complexos poliesportivos, mas o nosso destino era a Área Interativa, um espaço bem maior onde provavelmente ocorriam eventos como a abertura de hoje.
O professor Hudson nos guiou em linha reta, ao ritmo de soldadinhos, encabeçando a fila com orgulho como se fôssemos sua prole.
Entretanto, confesso, eu estava MUITO mais preocupado com os arredores. Aquele lugar era tão bonito e perfeitinho que parecia uma maquete 3D de projeto arquitetônico. Até as árvores pareciam modeladas. Não havia sequer um indício de tinta desgastada ou de poeira nos vidros das janelas. Parecia que tudo tinha sido construído no dia anterior. Vi Júnior ao meu lado, totalmente distraído e com uma expressão quase de tédio no rosto. Perguntei-me se ele estava pensando em Samuel e no dia em que os dois se conheceram.
— Ai. Meu. Deus. Aquilo é... Aquilo é o que eu estou pensando? — Jeremias exclamou. Virei-me para onde ele cravara o olhar e entendi o motivo da perplexidade.
Garotas. Um grupinho do melhor exemplo de meninas bonitas de ensino médio que poderia existir.
Jeremias (assim como quase todos os outros garotos do time) observava, embasbacado com a vista, como se o próprio Buda tivesse se materializado à sua frente e começado a fazer o twerk. Percebi, constrangido, que ele mexera nas partes íntimas com um pouco menos de discrição que o recomendado em público. Foi a primeira vez na minha vida que fiquei surpreso com uma manifestação de heterossexualidade.
— Quase tinha me esquecido de como uma dose bem menor de testosterona num ser humano podia fazer bem. — eu falei, parando para admirar também. As únicas presenças do tipo no Rosa dos Ventos eram a professora Margarida, que costumava parecer muito mais um homem do que o Sr. Rondarolli, e a idosa da cantina. Nenhuma das duas era exatamente o melhor retrato da beleza feminina.
Nathan grunhiu quase imperceptivelmente, próximo a mim, e continuou caminhando concentrado, como se nada mais importante do que uma leve lufada de ar tivesse lhe atrapalhado.
— Ei, ei. Ô, vocês aí. Adiantem. Vocês vão ter tempo suficiente nesse lugar para se acostumar novamente com os doces encantos das donzelas. Eu também estou tentando me acostumar, acreditem — o professor Hudson falou, olhando de soslaio para sua mais nova paixonite, a professora Marina, que ignorou o galanteio de uma forma lindamente fria e continuou sua marcha dando instruções a Matheus. — Hun, sigam em frente, já estamos em cima da hora!
Atravessamos o pátio superior, subimos mais uma rampa — curva, dessa vez —, passamos pelos complexos poliesportivos e pelo restaurante. O lugar era muito extenso, e eu estava começando a me cansar.
O pior de tudo, eu não sabia explicar direito, era uma sensação estranha, como se alguém tivesse enfiado um bolo de meias na minha garganta. Sentia dificuldades de respirar, mas não havia motivo algum para aquilo. Convenci-me de que se devia só ao esforço de tanto andar.
Finalmente, descemos uns degraus e demos de cara com um arco que marcava a entrada da tal Área Interativa. Foi impossível não entortar o pescoço para cima para tentar abarcar a altura da estrutura de metal imensa se erguendo à nossa frente. A rosa dos ventos era o desenho na terceira a partir da extremidade que estávamos. De repente, mesmo tendo várias críticas e restrições afetivas em relação ao colégio, fui invadido por um sentimento de pertencimento.
A concentração de pessoas ali perto era bem maior que no resto do clube, por isso o professor pediu para que ficássemos juntos e não nos perdêssemos.
— Velho... Olhem lá os caras do colégio Delta. Não parecem tão intimidadores quanto o professor pintou eles nas aulas. — disse Júnior, demonstrando um pouco menos de desinteresse pelo que estava acontecendo.
Um grupo de garotos, já vestidos com o uniforme de futebol azul-céu, conversava animadamente num dos cantos. Apesar de todas as nossas divergências, tive que concordar com Júnior. Eles pareciam mais aquele tipo de adolescente que prefere se jogar em algum canto da escola ouvindo música e matando aula do que com jogadores de futebol. Um deles, de cabelo loiros cheios e longos, estava à parte do grupo, claramente irritado com alguma coisa. Notei-o particularmente porque seu jeito enérgico se assemelhava muito, pelo menos aos meus olhos, ao de Samuel, embora eles não se parecessem nem um pouco fisicamente.
— Galerinha, o ato de abertura está quase acabando. Logo depois daqui, os alunos vão se dirigir aos auditórios onde assinarão uma lista na entrada que comprovará a participação no evento. Vamos andando antes que comece o tumulto. — professor Hudson disse baixinho a nós. Entendendo o recado, nos pusemos a andar atrás dele em direção ao tal auditório.
Algumas outras pessoas também já se davam conta da necessidade de se apressar, por isso o fluxo era grande naquela direção. Jeremias tocou em meu ombro para me falar algo, mas não consegui ouvi-lo.
A sensação de sufocamento que tinha passado voltou agora mais acentuada com toda aquela gente se movendo e conversando ao meu redor. Não sabia o que estava acontecendo comigo, mas estava cada vez mais difícil respirar. Parecia que um teto ia se abaixando aos poucos até me esmagar.
Foi então que meu olhar se encontrou com o de outra pessoa. Do outro lado da multidão. Do outro lado do universo. Pareceu quase combinado.
Um espaço se abriu por alguns segundos entre as pessoas e eu vi o rosto que eu procurara antes de partir do colégio naquela mesma manhã. Como diabos ele tinha ido parar ali?
Desprendendo-me do grupo, fui em sua direção mesmo me sentindo enjoado e claustrofóbico. Alguma força desconhecida me impeliu a fazer aquilo. Eu só queria saber...
Uma clareira surgiu de repente bem no meio do tumulto. Ela já estava lá antes, descobri depois, mas tantas coisas aconteceram tão rápido a partir daí que eu levei segundos demais para processar.
— Que se iniciem as Intercolegiais de Jun... — foi o que ouvi primeiro. A frase foi cortada por um grito em uníssono de todo mundo que estava ali perto.
Senti ar sendo cortado e um vulto fino e quente passar centímetros acima de minha cabeça. Instintivamente, me inclinei para baixo para desviar do que quer que fosse que tinha sido atirado contra mim.
— Você está maluco? — uma voz gritou furiosa a dois metros de mim. Era uma garota vestida em trajes de amazona e com um arco na mão. Os rostos impassíveis daqueles que estavam atrás dela me encaravam sem acreditar que eu estava vivo.
— Mas... Mas o que. — balbuciei. O chão ao meu redor era de terra batida, diferentemente do concreto de onde eu saíra. O que havia acontecido?
Olhei para trás de mim e vi uma parafernália parecida com aqueles alvos de desenho animado. Havia uma estrutura em pavio que formava um desenho que eu reconheci como o símbolo do clube, claramente preparado para ser aceso e iluminar-se em faíscas assim que fosse atingido por fogo.
Isso queria dizer... queria dizer que uma flecha em chamas quase me atingira. Me senti zonzo.
— Eu... Eu não sabia, me desculp... — tentei falar, mas tal qual o apresentador da abertura, fui interrompido.
E dessa vez, o aviso era muito mais aterrorizador.
— Fogo! Fogo! — gritavam as pessoas. Uma debandada começou a se formar do lado de fora do círculo de terra. O grito de pânico se alastrou por todos os lados e eu não conseguia distinguir quase nada ao meu redor.
Foi então que vi. Lá atrás. Longe o suficiente para sequer considerarem possível de ser atingida. Perto o suficiente para causar pânico.
Assustado, procurei novamente o olhar dele. Ainda estava ali. Edgar me observava tranquilamente, como se estivesse alheio àquilo tudo, mas mesmo assim tivesse noção do que estava acontecendo mais do que qualquer um.
— Corra! — gritei, alertando-o. Ele se virou e correu para longe, misturando-se à multidão.
Fiz o mesmo, fugindo do caos, fugindo das chamas que lambiam a rosa dos ventos de trinta metros de altura.
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