Rosa dos Ventos
16 XVI • Encosta tua cabecinha no meu colo e dorme...
Notas iniciais

ALGUNS MESES ATRÁS eu havia engasgado com alguns farelos de biscoito de baunilha enquanto Samuel me contava informações cabulosas do dia-a-dia do Rosa dos Ventos. Naquela época eu era bastante ingênuo sobre o que poderia acontecer dentro de um internato de ensino médio, e, se tem alguma coisa para a qual esses poucos meses serviram foi abrir bem os meus olhos.
Mas o motivo de eu estar relembrando essa cena, que aconteceu no dia em que eu havia conhecido Samuel, foi revivê-la, só que do outro lado.
Mesmo depois de tossir seu café-da-manhã, Samuel continuou com os olhos arregalados, a expressão petrificada numa mistura de surpresa com excitação por vários segundos.
— Repita isso devagar, para eu conseguir processar a informação direito. — ele conseguiu falar depois do momento de choque.
— Eu disse — tentei fazer o fato soar calmo e casual. — que consegui todas as fichas de histórico dos alunos da escola, mas o que eu...
— COMO ASSIM VOCÊ CONSEGUIU AS FICHAS DOS ALUNOS? Ok, de quantas pessoas você precisou para amarrar e amordaçar o Rondarolli enquanto as roubava? Trinta? Cem? Meu Deus... isso é... Aaaahh.
Inclinei-me na direção dele e pus a mão em sua boca para fazê-lo falar um pouco mais baixo. Estávamos sentados numa mesa do refeitório bem distante das outras que estavam ocupadas, mas, mesmo assim, era uma distância razoável para que alguém que se sentisse minimamente interessado no nosso assunto e resolvesse prestar atenção conseguisse ouvir o que estávamos conversando.
— Pssst, fale baixo, pelo amor de Deus. Eu não roubei nada... quer dizer, não exatamente. Enfim, eu preciso de sua ajuda em algo. Algo importante.
— Meu filho, você tem acesso a todos os dados mais mirabolantes sobre cada criatura humana desse lugar. O que pode ser mais importante que isso? — Samuel fechou a frase com um gole no suco de caixinha digno de uma princesa da realeza britânica.
Engoli em seco antes de responder.
— Olha... Eu preciso que você prometa que vai me ajudar. As intercolegiais vão acontecer em vinte dias, e eu preciso descobrir algo antes disso.
O olhar clínico de Samuel me analisou de cima a baixo. Vi claramente seu cérebro raciocinando minhas intenções.
— Ok, eu te ajudo. Maaasss, porém, entretanto, todavia, quero saber cem por cento do que está acontecendo. Prometa que não vai esconder nada de mim. — ele falou, desafiador.
A possibilidade de contar a Samuel coisas como minha participação em dois salvamentos de vítimas do Gênio da Porta ao Lado, assim como a ocasião que me fez ter poder sobre o Rondarolli e consequentemente conseguir as fichas arrepiou os pelos de meu braço.
— Tudo bem. — respondi, finalmente.
— Tenho o dia todo, se precisar. — Samuel largou o corpo na cadeira, como se se acomodasse para escutar uma fábula de Esopo ou algo assim
Será que eu devia começar pela parte em que encontro o Rondarolli se masturbando no próprio quarto? Ótima escolha. Uma cena bem agradável de descrever.
— Isso é bem estranho, mas alguns meses atrás, sabe, quando houve toda aquela história da minha nota e tal. Que o Leal resolveu ser um canalha e me dar zero. Lembra disso?
Samuel balançou a cabeça afirmativamente e não falou nada, sugerindo que eu continuasse.
— Então, naquele dia eu... fui no gabinete do Rondarolli e encontrei ele...
— Encontrou ele...?
— Você sabe... — eu não tinha muito pudor para falar sobre sexo, mas aquele era um caso especial em que eu estava descrevendo a punheta do homem mais escroto que eu conhecia. Em vez de falar, fechei a mão, deixando-a aberta apenas por um diâmetro do tamanho do de uma moeda, e balancei-a para cima e para baixo, num gesto sugestivo e bem óbvio. Pareceu-me menos pior do que proferir as palavras.
Samuel caiu na gargalhada depois de meio segundo de choque.
— EU. NÃO. ACREDITO. Meu Deus Ulisses, será possível que você não vai cansar de ser a maior lenda desse colégio?
Falando em lenda... pensei. A silhueta do Gênio da Porta ao Lado surgiu em minha mente, mas resolvi continuar.
— A questão é que desde esse dia eu venho chantageando o Rondarolli para fazer o que eu quero.
— Então foi assim que você conseguiu as fichas?
— Bem, sim.
— Com que objetivo?
Comecei a sentir a raiva tomar conta de mim. Falar sobre o Gênio despertava minha revolta pelo que ele havia feito a Torugo e a todos os outros. Respirei fundo.
— Não sei se você já ouviu falar do Gênio da Porta ao Lado.
Assim que as palavras deixaram minha boca, os olhos de Samuel se arregalaram. Eu realmente não esperava por qualquer reação específica, até mesmo de surpresa, mas a cara que Samuel fez foi tão aterrorizada que eu quase fiquei com medo.
— O... o Gênio da Porta ao Lado? — ele falou, gaguejando.
— Sim. Você já ouviu falar? — insisti.
— Acho... acho que sim. Mas, o que isso tem a ver....
— As fichas dizem quais alunos já foram vítimas dele. Se eu analisá-las, talvez encontre um padrão, qualquer pista que me faça descobrir quem é o tal Gênio, ou por que ele faz isso.
Samuel estava claramente desconfortável com a conversa, e seu alívio não podia ser maior quando o sino que anunciava o fim do intervalo tocou.
— Eu... nos encontramos em seu dormitório depois das aulas. Até mais tarde. — ele deu um último gole do suco de caixinha e se levantou, correndo apressado para fora do refeitório.
É claro que eu não deveria imaginar certas coisas, mas a reação de Samuel ao nome do Gênio tinha sido tão sinistra que me peguei pensando qual seriam os motivos de tamanho terror. A primeira coisa que passou em minha cabeça foi que ele já tivesse sido vítima, o que me deixou ainda mais revoltado.
Mas o medo em seus olhos... eu havia contado a ele um plano para descobrir a identidade do Gênio. E se...
Balancei a cabeça para afastar os pensamentos. Aquilo era algo que simplesmente não poderia ser verdade. Levantei-me da cadeira e fui para a aula, não sem antes fazer uma anotação mental de quem seria a próxima ficha a ser analisada por mim:
Samuel Matias Maynart.
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O horário seguinte ao intervalo era de Moral e Cívica, e, embora tenha sido a mesma coisa de sempre, dessa vez foi particularmente interessante assistir à aula sabendo da maior parte do passado do Professor Leal.
A ficha do Leal, por ser de quase vinte anos atrás e também incluir coisas que ocorreram durante sua carreira como professor no Rosa dos ventos, era mais longa que as demais, mas foi a primeira que eu fiz questão de ler. Já haviam passado dez dias e cinquenta fichas desde que eu as recolhera da sala do Rondarolli, mas o que eu havia lido sobre o Leal estava muito bem gravado em minha cabeça.
— Espero que vocês tenham um pingo de amor próprio e tratem de adiantar o trabalho de fim de semestre. Vou cravar um zero bem grande na caderneta de quem disser o primeiro “posso trazer na próxima aula?” — ele se aproximou do retroprojetor para verificar os cabos, já que a imagem havia desaparecido.
“Histórico Escolar: Desempenho regular até o fim do Ensino Fundamental, melhorando gradualmente a média escolar no Ensino Médio. Aprovado em concurso vestibular para Direito e, posteriormente, História Licenciatura. Recebeu notações em geral médias pelos professores.”
— Embora eu tenha explicado uma centena de vezes, creio que vocês vão acabar trazendo a parte escrita do trabalho completamente fora dos padrões que eu exigi. Não aceitarei nada menos que excelente...
“Histórico comportamental: surpreendido em flagrante em briga com outros dois colegas de turma — Punido com um dia de detenção. Acusado pelo professor de História de falar uma série de palavrões e insultar o próprio professor na ocasião – Punido com três dias de suspensão. Acusado pela mãe de uma colega de corrompê-la durante uma excursão da turma – Sem provas concretas. Punição anulada.”
— É óbvio que o desempenho particular de cada um será avaliado, mas levarei em consideração igualmente a maneira como o grupo todo se portar. A nota de um influenciará a dos demais em certa medida. Acredito que o desempenho medíocre...
“Aprovado para o cargo de professor de Educação Moral e Cívica com entrevista e exame previamente estabelecido. Alcançou notas excepcionalmente altas em ambas formas de avaliação.”
Enquanto o observava falar e ajeitar o retroprojetor, perguntei-me o que teria acontecido no final do Ensino Médio para fazê-lo melhorar tanto o desempenho. Fiz uma anotação mental de perguntar mais tarde a Nathan sobre aquilo, já que sua mãe já havia namorado com ele naquela época.
Felizmente, o sinal que anunciava o fim da aula — e, pela graça dos deuses, a hora do almoço — tocou assim que Leal terminou de consertar o problema no Data Show. Não consegui detectar se sua expressão era de decepção ou alívio.
— Ahn... bem, apenas não me tragam algo no mesmo nível daquilo que o gato de vocês enterra. Podem sair agora — ele falou, mas arrumou as coisas na velocidade da luz e saiu da sala antes de qualquer aluno.
— Esse cara está ficando cada vez mais doido. — Ênio, um dos meus colegas de turma, virou-se para conversar com um menino atrás dele. — Duvido que dure mais um ano aqui.
Aquela observação me deixou intrigado. Ênio e Denis eram os únicos alunos na minha sala que tinham repetido de ano, ou seja, que já haviam tido aulas com o Leal. Se esse comportamento estranho de sair dos lugares com pressa não era o normal do professor, o que estaria acontecendo? Resolvi guardar aquela dúvida para mais tarde.
Saí como um louco pelos corredores, desviando dos alunos, na intenção de chegar ao meu quarto antes de Samuel. Eu queria poder checar sua ficha sem que ele estivesse do lado. Partia meu coração desconfiar tanto dele, mas era um mal necessário.
Ainda respirando com dificuldade depois de subir Titã correndo, girei a maçaneta e entrei no meu quarto. Jeremias estava saindo do banho naquele momento. Ele tinha uma toalha amarrada na cabeça para enxugar os dreadlocks e... bem, digamos que era a única toalha que ele estava usando.
Eu já estava totalmente acostumado com a situação, pois não tinha havido uma vez sequer que Jeremias não saísse do banho sem nada cobrindo suas... partes. O que me deixava realmente desconfortável (ou morrendo de vontade de rir, qualquer uma das reações se encaixava) era olhar todo dia para uma das lendas do internato. Jeremias, definitivamente, tinha muito do que se gabar no quesito tamanho.
Ele andou até o meio do quarto e me olhou com desconfiança. Apontou para a minha cama e disse:
— De quem é esse caralho?
Obviamente, o palavrão não denotava rispidez, simplesmente porque estava onipresente nas frases dele.
— Bom, meu é que não é... — respondi, olhando de soslaio o negócio pendurado entre as pernas dele. Imaginei como sofreriam os garotos que já tinham tido contato com aquilo do modo difícil.
Ele deu uma gargalhada. Eu sabia que Jeremias estava falando da enorme pilha de papéis misturada com lençóis e outras coisas mais sobre a minha cama. Se um dos monitores entrasse ali e visse aquela bagunça cairia duro no chão.
— Um dia você ainda vai confiar em mim para contar as coisas. Até lá... tome, consegui consertar. — ele tirou um par de chuteiras debaixo de sua cama e me entregou-as. Eu as havia estragado depois de correr pelo estacionamento atrás da bola num dia bem incomum. As solas de ambas haviam descolado totalmente e Jeremias se ofereceu para ajudar.
— Ei, cara, obrigado. Te devo uma.
— Vou lembrar disso. — ele piscou um olho e andou até o guarda-roupa para se vestir.
Aproveitando a deixa, e alarmado pela iminência de Samuel cruzar a porta, pulei em minha cama e remexi os papéis em busca da ficha dele. Estava na pilha das que eu ainda não havia conferido (uma pilha grande, inclusive), mas não demorei para encontrá-la.
Samuel Matias Maynart
Nascido em: 01/05/1997
Naturalidade: Belo Horizonte – MG
Corri os olhos até o final da página, onde o Rondarolli desenhava um círculo com um “G” inscrito em caneta azul nas fichas daqueles que haviam sido atacados pelo Gênio.
Quase me joguei de alívio no chão quando vi que não havia nada ali. Por um lado, aquilo era realmente muito bom, mas por outro... Balancei a cabeça para afastar a ideia, Samuel nunca teria força para atacar pessoas e arrastá-las até a piscina, além de isso não ter nada a ver com sua personalidade.
— Toc, toc. — eu ouvi a voz vinda da porta. Joguei a ficha de Samuel em meio às outras que estavam na cama, esperando que fosse ele que estivesse entrando, mas foi o sorriso de Nathan apareceu por trás dela.
Era impossível olhar pra ele e não ver o rosto de Nestor me encarando com frieza como no dia das escadas. A simples aproximação de Nathan me causava calafrios, como se de repente o espírito de seu irmão fosse tomar conta do seu corpo e começar a me bater até me ver suficientemente imóvel. Nestor era como uma cópia de Nathan, só que sem sua luz e calor.
— E aí? — falei, sem olhá-lo diretamente nos olhos enquanto ele se aproximava da cama. Tentei esconder os papéis furtivamente antes que ele os visse, mas não consegui.
— O que está rolando aqui? Não te vi no almoço hoj... — ele arregalou os olhos ao observar mais atentamente um dos papéis, aparentemente reconhecendo-o na mesma hora. — ooh, meu Deus.
Suspirei profundamente, me malhando mentalmente por ter sido estúpido o suficiente para deixar aquelas coisas num lugar tão visível. Fiz um gesto de “silêncio” colocando meu indicador sobre os lábios.
— Shhh. Olha, eu prometo que explico tudo assim que eu puder, mas eu acho melhor... — tentei falar algo que o convencesse a sair do dormitório, mas ele não me deu ouvidos e sentou-se ao meu lado na cama.
— Velho, eu passei quase um dia inteiro preenchendo esse negócio. Tem tudo da minha vida aqui. Você tem noção do que tem em mãos? Como conseguiu isso? — ele pegou uma das fichas e começou a virar as páginas, como se precisasse tocar para ter certeza de que eram mesmo reais.
— Argh, ok. Você merece saber. Eu estou tentando descobrir quem é o Gênio da Porta ao Lado. Mas não vou explicar agora como consegui as fichas, nem pergunte.
Nathan estreitou os olhos e sorriu. Por um segundo quase imaginei que ele soubesse o que tinha acontecido, mas ele apenas fez um gesto para que eu sentasse um pouquinho mais longe. Depois disso, afastou os papéis e deitou-se na cama apoiando a cabeça no meu colo.
Senti meu rosto queimar na mesma hora.
— Entããoo. Acho que vou ali... resolver, ahn... coisas. — Jeremias falou, parecendo prestes a explodir de vontade de rir. Ele terminou de vestir a camisa e saiu andando do quarto com um sorriso zombeteiro. Tive vontade de esconder a cara num travesseiro por vinte anos.
Nathan aconchegou a cabeça entre minhas pernas e se espreguiçou.
— O que estamos esperando? Vamos encontrar o bandidão. — e começou a analisar uma das fichas.
Apesar de estar totalmente acuado e morrendo de medo de que certas partes do meu corpo se manifestassem e Nathan percebesse, acabei pegando uma ficha também. Samuel não apareceu, porque provavelmente tinha aulas à tarde, mas sua ausência, principalmente depois de seu comportamento ao saber de minhas intenções, me pareceu mais suspeita ainda.
As horas passaram devagar. Em certo momento, quando uma chuva fina começou a tamborilar na janela, eu tive a ideia de jerico de fazer carinho nos cabelos de Nathan. É óbvio que eu hesitei por incontáveis minutos até fazer aquilo realmente, mas não consegui evitar. Ele pareceu não demonstrar reação alguma quando os toquei pela primeira vez. Interpretei aquilo como um sinal de que poderia continuar e assim o fiz.
Os fios loiros passaram docemente entre meus dedos por várias vezes até que eu percebi que ele havia apoiado a ficha que estava analisando sobre a barriga. Nathan havia dormido.
Engoli em seco. Dentro de mim, alguma coisa pareceu finalmente se aquecer. Encostei-me na cabeceira da cama e fechei os olhos, sentindo uma felicidade enorme invadir meu coração.
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