Rosa dos Ventos

13 XIII • Samuel


Notas iniciais
OIIIII, quanto tempo, hein? *desvia das pedradas e das chicotadas*. Ok, eu sei que demorei um tempão pra voltar, mas, pra quem não viu o aviso no meu perfil, eu estava em época de provas da faculdade, e isso tomou todo o meu tempo para fazer coisas no nível de importância de respirar, comer, entrar no Nyah etc. Então, aqui está o capítulo novo (espero que gostem da novidade que eu trouxe nesse, estava ansioso por fazer isso [e, para aqueles que leram desde Fire, imagino que vão saber algumas coisas a mais hauhauah]), e, como sempre agradecendo aqui aos maravilhosos que sempre fazem meu dia mais feliz: Yume Spectrum, Maria Antoniette, Luke D, PS, Fujoshi, Twenty one pilots, Mililika, Fly, Dayene Albuquerque, Joseph Lawrence, Sun BL, Gabriella Sama, Dame Ripper, dragkos, à maravilhosa Amber (vou responder seu review, juroo) e também aos queridíssimos Jhow Dhow e Raomi Mizuki. Amei sua recomendação, lindonaaaaaaa. Sigam o exemplo dela, meus bebês. Bom, é isso. Boa leitura a todos! s2

A DOR PRECISA SER SENTIDA.

Essa foi uma frase que eu ouvi recentemente, dita, certamente, por pessoas que nunca precisaram salvar o amigo de uma saraivada de chutes e socos endemoniados. dados por alunos de ensino médio.

Era meu segundo salvamento heroico no Rosa dos Ventos, e, assim como o primeiro, consegui salvar a vítima, mas não sem antes levar a mesma dose de avariações físicas a que ela estava sendo submetida. Assim que os garotos do grupo que violentava Samuel perceberam que eu entrara na roda para tirá-lo de lá, resolveram transferir toda a raiva sanguinolenta sobre mim. Defendi-me como pude, metendo a mão na cara de três ou quatro e gritando uma porção de xingamentos.

Finalmente, quando eu disse que ia chamar o diretor, eles recuaram, me olhando com incerteza. Talvez porque essa não fosse uma ameaça usual — afinal, quem chamaria o Rondarolli em busca de ajuda? —, mas tenho quase certeza que eles captaram meu excesso de confiança de que o diretor realmente me ajudaria. Sob chantagem, claro, mas eles não precisavam saber disso.

— Acho melhor irmos embora. — Torugo disse. Era o mais afastado de todos, e o único que não tinha, pelo que eu lembrava, sequer levantado o braço em qualquer momento. Seu olhar se encontrou com o meu. Dizia algo do tipo "Não me culpe por isso, por favor." Decidi que teria uma conversa séria com ele.

Júnior parecia prestes a explodir de ódio, as narinas inflamadas. Só pra deixar o recado claro, ele me segurou pela gola da camisa com violência e soltou-me em seguida, fazendo com que eu me desequilibrasse.

Ele deu as costas e foi embora, assim como os outros. Nestor nem mesmo parecia ter me reconhecido como colega de quarto, e Torugo, antes de sair pelo portão pelo qual eu tinha entrado, deu mais uma olhada pra trás, o semblante fechado. Era quase sobrenatural vê-lo tão sério.

Um gemido rouco vindo do chão fez com que qualquer outra coisa se apagasse de minha mente. Ajoelhei-me ao lado de Samuel, ignorando a dor de um chute na canela que eu havia recebido, e tentando virar seu rosto para mim.

— Samuel! Samuel! Fale comigo. — Eu segurei-o pelos ombros e deitei-o de lado. Ele encolhia-se em posição fetal. Certamente recebera um chute no estômago. Um de seus olhos estaria muito roxo dali a algumas horas.

— D-de... — Ele tentou dizer algo, mas seu corpo se contraiu e ele tossiu duas vezes. Meu coração afundou ao ver aquilo.

— Deixe pra lá, não precisa. Eu vou te ajudar a se levantar, ok? Use o restinho de força que você tem, amigo.

Meio desajeitadamente, mas com determinação, pus o braço esquerdo dele sobre os meus ombros e segurei-o pelo tronco. Samuel era, apesar de um ano mais velho, mais baixo que eu, e — graças aos céus — mais leve. Levamos quase meia-hora para atravessar todo o estacionamento, a passarela em frente a escola e o saguão de entrada, até chegarmos, afinal, à enfermaria.

Cynthia exclamou um "cruz-credo" bem alto assim que entramos, mas não falou mais nada. Geralmente, ela deixava para dar a bronca depois de estabilizar a situação de quem estava sendo atendido.

Observei enquanto ela trabalhava agilmente com os dedos, mesmo eles sendo rechonchudos, para limpar e passar remédio nos arranhões de Samuel, colocar o gelo num saquinho de plástico e entregar a ele, para que pusesse sobre o olho machucado. Não demorou muito e a aparência de Samuel já era melhor, embora ele ainda estivesse meio coberto de poeira.

— E você, passe isso aqui nessa canela, vai precisar. — Ela falou, jogando uma pomada pra mim. Ele apontou com dois dedos para os próprios olhos e logo depois pra mim, como se dissesse "estou de olho, não faça nada de errado", e depois saiu da enfermaria.

Samuel começou a chorar na mesma hora. Quer dizer, chorar de verdade, pois antes duas lagriminhas duramente contidas já estavam preparadas para escorrer. Ele estava deitado de barriga pra cima na maca, e virou o rosto para o outro lado para que eu não visse.

— Ei... escute, está tudo bem agora. Não precisa se esconder. — Eu falei, tentando soar reconfortante. Percebi que a raiva que eu estava sentindo dele naquele mesmo dia mais cedo já havia desaparecido.

— Outubro.

— O quê? — Respondi, sem entender o que ele havia dito.

— Outubro. Foi quando nos conhecemos, dois anos e meio atrás. Nenhum de nós dois estudávamos aqui naquela época. — Samuel fungou.

E me contou sua história.

Escutei atentamente tudo que ele me dizia enquanto controlava-se ao máximo para não desatar em lágrimas o tempo todo.

Aconteceu mais ou menos assim...

"Outubro.

Existe uma lista de aproximadamente quinhentas mil coisas que eu gostaria de fazer naquele mês do meu aniversário, e, definitivamente, viajar com minha mãe para o interior ver meu primo babaca perder uma partida de basquete não estava incluída nessa lista.

— Deixa de ser besta, Samuquinha, vai ser divertido. Olha o panfleto, eles tem um tobogã. Isso com certeza é algo legal. — Ela balançou o papel desajeitadamente em minha direção, no banco de trás, tentando manter o controle do volante.

— "Os atletas podem desfrutar de brinquedos radicais e cheios de ação. A galera vai zoar muito!". Quem escreveu essa coisa? — Eu respondi a ela, tirando os olhos do panfleto e encarando-a com o olhar emburrado através do retrovisor interno. — No máximo, eu vou ficar na plateia dormindo e olhe lá.

Ela balançou a cabeça, como se dissesse "Você não sabe o que está dizendo, jovem Padawan".

— Você vai me agradecer de joelhos por isso um dia. — E voltou-se novamente para a estrada, pondo os óculos escuros cor de rosa.

Queria que ela não tivesse profetizado com tanta perfeição.

Suspirei, resignado. Aquele ia ser um dia muito longo.

Em menos de quinze minutos, qualquer vestígio de civilização mais avançada desapareceu da paisagem. No horizonte, apenas a serra coberta de vegetação e o gado espalhado desreguladamente. Quando cheguei a um ponto perigosamente perto de entrar em coma induzido pelo tédio, um muro de tijolos vermelhos coberto com hera e destoadamente moderno surgiu no caminho. Parecia o marco luxuoso de uma propriedade imensa. E põe imensa nisso, pois, de onde estava, eu não conseguia ver onde ele acabava.

Entramos por mais umas estradas de terra, sempre ladeados pelo tal muro, até chegarmos à entrada da propriedade, com portões altos e decorados com o nome "Associação de Desportos Escolares Outubro" em um arco por cima. Duas gárgulas, cada uma sobre uma das pilastras que ficavam ao lado do portão, nos recepcionaram em toda sua dureza de mármore.

Minha mãe entregou o cartão de visitante ao segurança na pequena guarita à esquerda da entrada e, em poucos segundos, os portões se abriram. Foi então que tive a impressão de ter atravessado um portal pra outra dimensão, ou o buraco do coelho de Alice. A realidade de lá de dentro era completamente diferente do que estava ao redor.

Primeiro, a grama era aparada e verdinha, sem falhas ou deformações de tamanho causadas pela diferença de espécies como acontecia lá fora. A estrada se transformou em paralelepípedos divinamente alinhados e construções relacionadas a esporte surgiram. Vi um hotel simplesmente lindo, trabalhado em espelhos, uma quadra desportiva, arquibancadas, duas piscinas de tamanho olímpico, restaurante, pista de atletismo, e várias outras coisas desse tipo.

Minha mãe parou o carro ao lado de uma das quadras para atender o celular. Entrei em desespero assim que ela disse:

— Alô? Mamãe!

Estávamos esperando aquela ligação há dias. Minha avó ia chegar de viagem e nunca lembrava de avisar com antecedência, o que significava que ela estaria chegando nesse momento e minha mãe teria de buscá-la no aeroporto. Eu ia ficar sozinho.

— Ok, ok, já estou indo... não, ninguém vai te sequestrar, mamãe, fique calma. Tchau, beijo. — Ela desligou o celular e me olhou com súplica. Odiava quando ela fazia essa chantagem emocional através de olhares brilhantes e pidões. Era impossível negar.

— Aaargh, tudo bem. Mas esteja de volta o quanto antes.

Minha mãe deu um gritinho de felicidade e me beijou no rosto. Nos despedimos rapidamente e, quando dei por mim, estava sozinho naquele lugar desconhecido. O carro se distanciou em direção à entrada até desaparecer atrás dos portões de ferro.

Felizmente — ou não —, eu não ia precisar ficar muito tempo sem fazer nada, pois faltavam menos de dez minutos para o jogo do meu primo começar. Segundo o mapa ricamente colorido e didático no panfleto, a quadra de basquete ficava a menos de um quarteirão de distância.

Meu primo me viu antes de eu vê-lo, o que não foi muito saudável. Ele tinha uns dois metros de altura e seu braço tinha a largura de meu corpo.

— Samucão, saudades do caralho de você, brother. Venha, precisamos correr. É hoje que ganho meu cinturão! Porraaaa!

Fazia tempo que eu não o via, mas lembrava muito bem da obsessão do Beto por um cinturão do tipo que lutadores de boxe ganham. Ele jogava basquete, e por isso nunca ia ganhar nada assim, mas ninguém tinha coragem de contar a ele.

O jogo começou cinco minutos depois, e o time de meu primo já começou em desvantagem: um dos jogadores adversários enterrou a bola na cesta nos primeiros segundos, arrancando um urro da plateia.

Fiquei num dos cantos da arquibancada, assistindo sem nenhum interesse real. Mal podia esperar para aquela droga terminar logo e eu voltar pra casa. Aparentemente, eu e minha mãe havíamos sido os escolhidos para representar a família no momento de glória do Beto. Do jeito que o jogo estava indo, eu não tinha tanta certeza.

Depois de sofrer seis pontos, o time do meu primo fez uma cesta. Mesmo com meu ponto de vista leigo, tive certeza que havia sido muito mais sorte do que técnica. O garoto se defendeu de uma pancada com o braço e a bola acabou caindo dentro do aro (o que não deixava de ser legal).

Foi quando, mais ou menos depois de vinte minutos de jogo, percebi algo estranho. Um dos meninos com a camiseta laranja, do time adversário ao do meu primo, parava de correr de tempos em tempos e olhava de canto de olho pra mim.

Ok, isso poderia ser muito minha imaginação. Não eram raras as vezes em que eu me enganara achando que estava sendo secado, mas dessa vez estava muito óbvio.

O garoto tinha a pele azeitonada e os cabelos lisos no estilo cogumelo, só que estiloso. Certamente possuía descendência indígena.

Ele não passava mais de um minuto sem pôr os olhos sobre mim, e isso estava me deixando constrangido. Tinha a certeza de que ia ser como todas as outras vezes: ia nutrir uma esperança e então a decepção ia vir como uma bolada na minha cara.

Preferi não ter feito essa comparação, pois, num segundo de distração, senti a esfera atingir meu rosto com uma força sobrenatural. Apaguei por um lapso de tempo e, quando voltei, o rosto do garoto bonito apareceu à minha frente, aparentemente desesperado. Deduzi que ele havia sido o autor do lance infame.

— Meu Deus, cara, você tá bem? — Ele perguntou, passando a mão na frente dos meus olhos, pra se certificar que eu estava consciente. Tentei responder um "mais ou menos", mas só consegui emitir uns sons incompreensíveis. Meu cérebro parecia ter sido virado de cabeça pra baixo.

Trouxeram-me um copo de água e uma compressa de gelo, até que, aos poucos, comecei a voltar a raciocinar direito. O jogo recomeçou e, depois de ter certeza que eu estava realmente bem — e tocar em meu ombro de um jeito tranquilizador — o garoto voltou pra lá.

Como esperado, o time dele massacrou o do meu primo. Uma vitória com o dobro de pontos. O sonho do Beto de ganhar o cinturão agora se tornava ainda mais próximo de uma utopia.

Não quis ficar para ver a comemoração. Eu ainda estava meio tonto e a possibilidade de levar na cara de novo, dessa vez uma decepção, me fez ir pra longe do tal menino.

Assim que sentei-me num dos banquinhos na parte de trás da quadra onde minha mãe havia me deixado, senti o celular vibrar anunciando uma nova mensagem de texto.

"Vou demorar mais uma horinha. O beto ganhou ?? Imagino a mãe dele preparando o cinturão... e não vai ser dourado rsrsrs"

Uma hora! Senti vontade de me jogar no chão e bater com a cabeça nos paralelepípedos até sair sangue da orelha. O que diabos eu ia ficar fazendo ali por mais uma hora? E já estava começando a escurecer. Isso não era nem um pouco justo.

Totalmente entregue à derrota, deitei-me no banco, encarando o céu estrelado. Era quase possível esquecer que estava no interior se você não olhasse lá pra cima. As estrelas pareciam flutuar tão perto...

— Você está melhor? — Ouvi uma voz tímida falar a alguns metros de mim. Levantei-me na mesma hora, para ver quem é que estava se aproximando.

O garoto da quadra sentou-se ao meu lado, e eu percebi sua hesitação. Sua expressão era indecifrável, o rosto iluminado pela luz amarelada do poste.

— Eu... estou, acho. — Respondi, sem jeito. Ele deixou escapar um sorriso. Um sorriso tão lindo quanto seus olhos.

— Que bom! Eu tive que vir me desculpar. Não sei onde estava com a cabeça quando joguei a bola com tanta força naquela direção.

— Ah, tudo bem. Não foi tão grave, sério. — Respondi, fazendo o maior esforço pra dão deixar transparecer que ainda estava meio zonzo.

— Bom, de qualquer jeito, peço desculpas. Nunca ia me perdoar se tivesse feito algum mal a alguém...

A frase pareceu interrompida, como se ele fosse completá-la com um adjetivo. Perguntei-me qual seria esse adjetivo.

— Está tudo bem. Ah, e parabéns pela vitória, vocês mereceram muito. — Eu disse, sorrindo pra ele. Seu rosto se iluminou.

— Obrigado! Treinamos por muito tempo para chegar a isso. E você, gosta de basquete?

Respondi que não, e então ele me fez uma série de outras perguntas a respeito de coisas que eu gostava. Uma hora se passou sem que eu nem percebesse.

No meio da conversa, meu celular vibrou mais uma vez. Era minha mãe avisando que já tinha chegado. Meu coração afundou.

— Minha mãe já está chegando. Acho que vou indo.

— Já? Mas a gente quase nem conversou.

Lá longe, na direção da entrada, vi luzes de farol de carro piscarem. Minha mãe tinha a péssima mania de fazer isso.

— Acho que é ela mesmo. Bom, foi muito legal conhec... — Minha frase foi interrompida por algo que eu nunca mais ia esquecer.

Sem mais nem menos, o garoto se inclinou em minha direção e me beijou. Seus lábios se encontraram nos meus, seu calor e sua doçura me envolveram, e eu soube que aquela era a melhor sensação do mundo.

Meu primeiro beijo. Com alguém que eu nem conhecia direito. Nem sequer soube seu nome, pois, depois disso, ele só me disse:

— Eu vou casar com você um dia. Você aceita?

Era um pedido tosco e bobo. Infantil. Mas eu me vi dizendo sim. Então ele correu para longe e desapareceu pela entrada da quadra.

Não imaginei que o destino fosse ser tão cruel e bom ao mesmo tempo, pois, contra todas as probabilidades, nos encontramos um ano depois."

— Até imagino onde tenha sido. — Respondi, depois de Samuel terminar sua narração. Agora ele já estava bem mais calmo e olhando para mim ao invés de olhar para a parede.

— Sim, foi aqui. Foi quando descobrimos o nome um do outro. Eu não... eu não sabia que ele ia se transformar nisso... — E desatou em lágrimas novamente.

— Mas por que... por que ele fez isso? Por que hoje?

Samuel suspirou e virou-se pra mim.

— Depois de você discutir comigo, eu me senti muito culpado. Percebi como eu tinha sido idiota, tanto com você como comigo mesmo, e resolvi tomar uma atitude. Conversei com Júnior logo depois. Disse que ia me afastar dele, que aquilo não ia dar certo, e ele se exaltou. Começou a gritar e me deu as costas, furioso. Menos de uma hora depois um dos garotos do grupo dele me arrastou até o estacionamento e... e... — Samuel deu uma pausa, controlando as lágrimas. — Me desculpe, Ulisses, eu te decepcionei. Eu não vou fazer mais isso. Eu acho que... acho que me apego demais a quem não merece. Depois do que aconteceu eu não vou mais fazer isso, eu juro. — Seu olhar era suplicante.

— Eu acredito em você. — Falei, com sinceridade, depois de alguns segundos, e segurei sua mão. Samuel deu um sorriso aliviado e dormiu.

...

Saí da enfermaria quando o sinal anunciou a hora do jantar, quase duas horas depois. É claro que eu tinha ficado todo esse tempo ao lado da maca, me remoendo internamente por ter, mesmo que só um pouco, culpa do que havia acontecido com Samuel. Despedi-me de Cynthia, que ficava lá eternamente, e abri a porta para o corredor que levava ao saguão de entrada.

Assim que fechei novamente a porta, notei, pelo canto do olho, alguém recostado no lado oposto do corredor, em frente a onde eu sabia ficar a sala de música. Ele me olhava com dúvida, incerto se falaria comigo ou não.

— Você está muito ferrado nas minhas mãos, sabia? — Eu disse a ele. Torugo se desencostou da parede, hesitante, e veio em minha direção.

— Ele está bem? — Ele perguntou, com as mãos nos bolsos e apontando para a enfermaria com o cotovelo. Fiz uma cara irônica.

— Oh, sim, ele está ótimo. Quer dizer, tirando o olho roxo, os arranhões e o trauma físico e psicológico que ele está passando, está tudo bem sim, obrigado.

Torugo levou uma das mãos à cabeça, bagunçando seus cabelos nervosamente, como se travasse uma batalha mental consigo mesmo.

— Escute, eu... eu não sabia o que fazer. Juro que fiz o possível pra evitar isso, mas Júnior convenceu todo mundo e... se eu não fosse junto... eu não... — Ele fechou os olhos com força, controlando ao máximo a raiva. Por um momento, temi que ele começasse a chorar, mas não passou disso.

— Eu quero só ver quantas vezes isso vai ter que acontecer pra você aprender a não se submeter mais a esses idiotas. Você não é igual a eles, eu sei disso. Não precisa compactuar com esse tipo de coisa.

Torugo me olhou, desolado. Eu sabia o que estava passando na cabeça dele, e isso podia ser resumido em só uma palavra: medo.

— Ulisses... o que eu posso fazer? Se eu não estou com eles, então estou contra eles. E eu não quero... eu não quero acabar assim. — Ele apontou novamente para a porta da enfermaria, claramente se referindo ao estado de Samuel. — Digo, mesmo que eu não seja... você sabe, gay, quem garante que eles não vão descontar a raiva no primeiro que virem? Eu não sei o que fazer...

Acho que, se ele não estivesse com uma cara tão triste, eu certamente teria prolongado a discussão, mas tenho a impressão que meu estado meio abalado com tudo que tinha acontecido tenha amolecido meu coração, por isso apenas disse:

— Você tem a mim. A mim e a muitos outros amigos, pessoas que gostam de você e que te defenderiam de qualquer coisa que te fizesse mal. Não fui até Samuel antes porque fui pego de surpresa, eu não esperava que isso fosse acontecer tão cedo. Mas acredite, você não precisa se juntar ao inimigo enquanto tiver a gente.

A expressão de Torugo era pensativa. Era estranho conversar algo sério com ele, já que noventa por cento das vezes em que conversávamos ele estava fazendo alguma brincadeira como me carregar pelas costas pelo corredor da Ala Oeste, gritando feito um louco, ou escondendo minhas coisas pelo simples prazer de me ver irritado.

— Obrigado. — Ele disse, finalmente, sorrindo acanhado. Dei dois tapinhas no ombro dele, pra deixar claro meu apoio e me despedi, dizendo que ia jantar. No meio do caminho pro corredor, ouvi-o chamar meu nome mais uma vez.

... — Não tive tempo nem de terminar a frase, pois ele já vinha correndo alucinadamente em minha direção com um sorriso louco no rosto. Eu sabia o que ele ia fazer. Uma vez Torugo, sempre Torugo.

Ele me agarrou e me pôs em seu ombro, como se eu fosse um saco de batatas, e saiu correndo pelo saguão, gritando para todo mundo:

Esse é o melhor amigo do mundo, porra! — E todo mundo ria, mesmo sem entender nada do que estava acontecendo.