Rosa dos Ventos

10 X • Recebo Aulas Particulares de Moral e Cívica


Notas iniciais
BOA NOITE A TODOS OS FOFOS LEITORES DESSA FANFICTION. Primeiramente, muitas saudades de vocês nos comentários, e, sim, aqui estou eu com mais um capítulo. A escrita fluiu muito bem enquanto eu o produzia, então espero que voce se deliciem com os babados aqui descritos tanto quanto eu me deliciei ao escrevê-los. Agradecendo, como sempre, a vocês que fazem minha vida mais linda, Maria Antoniette, PS, Fujoshi Rosianne, Mililika, Twenty one pilots, Fly, Dayene Albuquerque, e a quem mais estiver acompanhando (inclusive ao delicioso Roberto Lasneau, que está comentando lindamente na primeira história dessa trilogia, Fire, esse capítulo é pra você). É isso e boa leitura, coisas lindas do titio Ganimedes.

A DESPEITO DE NOSSA NOTA MARAVILHOSA, acho que não preciso me pronunciar mais longamente sobre o andamento da Atividade Coletivamente Avaliada.

Bom, sobre eu contar ao resto da equipe em relação a eu ter sido (muito) ajudado por um veterano — no caso, Nathan: tenho certeza que a cara de felicidade deles ao me verem chegando na quadra com a pecinha preta e branca não seria alterada por essa informação. Muito menos a nota nove. Resolvi ficar quieto.

Além disso, o único acontecimento digno de se notar foi Jeremias, que recebeu dois pontos no joelho por ter sido, previsivelmente, derrubado por um dos garotos do primeiro ano na escada que levava à biblioteca. Relatos de testemunhas apontam que todos os palavrões existentes na língua portuguesa foram usados por ele naquela hora.

Aproveitei o resto da semana para revisar os assuntos das provas que aconteceriam dali a poucos dias. Como eu já esperava, toda e qualquer tentativa bem sucedida de enfiar o conteúdo de Moral e Cívica na minha cabeça não foi exatamente eficaz. Por isso, reservei o domingo para estudar aquela droga de matéria que certamente era uma empregada terceirizada de Satanás.

— Quando eu disser "" você enfia a faca direto na garganta, ok? Um... dois... — Uma voz surgiu, distante. Ela pertencia a alguém? No lapso de tempo em que eu estava conectado ao mundo dos sonhos e ao mundo real simultaneamente, o sentido da frase clareou no meu cérebro e arregalei os olhos, apavorado, me agarrando ao colchão.

Minha visão ainda estava embaçada, mas, aos poucos, fui discernindo os contornos de um rosto à minha frente.

— Mas que merda... — Eu disse, tropeçando nas palavras e esfregando os olhos. O rosto assustadoramente bonito de Torugo deu uma gargalhada.

Acho que ainda não falei dele. Torugo — ou Victor Hugo, para aqueles que não estudam no Rosa dos Ventos. — era meu terceiro companheiro de dormitório, além de Jeremias e Nestor. Ele estava no terceiro ano e havia sido o capitão do time de futebol durante o primeiro e o segundo, abandonando o posto por razões que ninguém entendia direito. Segundo ele, para se dedicar ao vestibular.

Ok, em relação à aparência... ele era, provavelmente, o garoto mais bonito de toda a Ala Oeste. Talvez até do Internato. Era um pouco mais alto que eu, com a pele branca e cabelos pretos e cheios. Parecia ter sido arrancado de um livro de contos de fadas e metido dentro do uniforme do colégio. Apesar de fazer parte da turma dos hardcore, haviam boatos que ele estava lá simplesmente por medo deles próprios. Seu histórico de relacionamentos homossexuais era vazio — talvez ele realmente não gostasse desse tipo de coisa. —, mas preferiu não arriscar e se juntou ao grupo, embora não fizesse mal a uma mosca.

— Filho da puta, da próxima eu te mato. — Exclamei, ainda irritado e meio bêbado de sono.

— Achei que você ficaria agradecido. Não ia tirar o dia pra estudar?

— É, eu vou, mas existem formas melhores de acordar os amigos do que fingindo ser o assassino do machado.

Depois de xingá-lo mais um pouco e de atirar mortalmente meu travesseiro contra sua cabeça, tomei banho e fui para o refeitório. Eu estava morrendo de vontade de fazer xixi, mas faltavam pouco mais de cinco minutos para terminar o horário do café da manhã.

Sem chance, pensei, aguenta aí, parceiro.

Desci Titã dois degraus por vez, o que não ajudava muito a diminuir o esforço de enfrentar aquele monstro de mármore. Cheguei ofegante no saguão de entrada, desviei de alguns alunos que conversavam pelo caminho e corri até o refeitório.

— Vanessaaaa, pera, não vá ainda. — Gritei para a mocinha que servia as bandejas com a comida. Ela me olhou torto e, depois de alguma insistência, acabou me entregando o café da manhã.

Não tinham muitos garotos ainda por ali, de modo que foi fácil encontrar o cabelo cacheadinho de Samuel lá no fundo. Ele checava o celular e mastigava despreocupadamente uma maçã. Corri até ele, tendo o cuidado de equlibrar a comida na minha bandeja.

— Mas gente, a pessoa resolveu explorar os limites do tempo hoje. O que aconteceu? — Ele perguntou, tirando os olhos do celular, assim que viu eu me aproximar.

— Acabei dormindo demais... E aí? Preparado para as provas?

Ele fez um "mais ou menos" com as mãos.

— Até que tô indo bem... exceto em Moral e Cívica. Vou me ferrar mais um ano nessa merda.

— Sério? E eu ia te pedir ajuda exatamente com isso. Sabe, você já viu o conteúdo ano passado e tal...

Samuel deu uma risada.

— O que não quer dizer que eu aprendi, né? Mas tranquilo, qualquer coisa você me avisa a hora que você estiver estudando e eu tento dar uma ajuda.

Agradeci e perguntei mais coisas sobre as provas, como os professores costumavam cobrar o assunto, entre outras coisas.

— Nilton? Hun... meu professor de Física do primeiro ano era outro, o Nilton se afastou ano passado para concluir o doutorado. Mas o Júnior estudou com ele e me contou... — Ele disse, mas se interrompeu, percebendo o nome que tinha acabado de falar.

— Ei, tá tudo bem. Você já superou isso, não foi? Não precisa mais se sentir mal ao falar o nome dele.

Samuel me olhou nos olhos, com uma expressão que não consegui decifrar. Eu havia acompanhado o longo e depressivo mês de desapego dele de perto, e imaginava que já estaria muito perto de ele não se importar mais com o palhaço do Júnior.

— Claro que superei. — Ele desviou o olhar do meu. Seu celular avisou a chegada de uma mensagem de texto. Ele conferiu rapidamente e se empertigou. — Mas gente! Já são nove e meia! Vou pegar meu material no dormitório e, de lá, vou pra biblioteca pra gente estudar junto.

— Ahnn, tudo bem, daq... — Eu respondi, mas ele já tinha se levantado. Desapareceu um segundo depois pela entrada do refeitório.

Dei de ombros. Apesar de ser meu amigo, Samuel era uma pessoa muito complicada, e às vezes eu preferia não tentar entender o que se passava em sua cabeça. Terminei de comer sozinho e saí do refeitório, na intenção de voltar também para meu dormitório e pegar o material que eu ia precisar.

Na verdade, não somente nessa intenção. Eu ainda estava explodindo de vontade de ir ao banheiro, por isso atravessei apressadamente o corredor que levava de volta ao saguão de entrada, parando na metade do caminho, em frente aos portões do céu.

Quase trombei com um garoto que saía de lá. Abri a porta de um a das cabines, entrei e tranquei-a por dentro como se minha vida dependesse daquilo.

Mas, bem no meio da consumação do ato, durante a sensação indescritível de alívio inerente a essa necessidade fisiológica, algo me distraiu. Era um som constrangedoramente familiar, vindo através do basculante, a janelinha lá no alto da parede. As lembranças de minha ex-namorada, e das duas outras ficantes que já tive voltaram de uma vez. Fechei o zíper e apurei os ouvidos, prestando atenção ao som inconfundível de duas pessoas se agarrando.

Os beijos e amassos pareciam estarem bons, pois os dois amantes emitiam, inclusive, alguns gemidos de excitação. Percebi que eles deviam estar escondidos naquele pequeno nicho da quadra, onde eu havia encontrado, no primeiro dia, o professor Leal. Então, ouvi uma das vozes dizer:

— N-não... eu tenho que...

Não, o conteúdo da frase não era importante, mas o que me fez congelar ali, totalmente abismado, foi o fato de que eu conhecia aquela voz. E conhecia muito bem.

Não é possível, pensei. Uma combinação de incredulidade, revolta e curiosidade me fizeram abaixar a tampa e, em seguida, subir no vaso sanitário.

Merda, ainda não alcançava a janelinha dali. Pus em prática uma ideia arriscada: com alguma dificuldade, levantei o pé até a borda da mureta que separava a minha cabine da outra. Ergui o corpo, apoiando as mãos na parede, até que, finalmente, meus olhos ficaram à altura do basculante.

As vozes já eram bem mais claras dali, e quase não precisei efetivamente olhar para os dois lá embaixo.

Só para aumentar meu desprazer, fiz questão de encarar os cachinhos castanhos enquanto seu dono beijava efusivamente a boca de Júnior.

O meu trajeto banheiro-dormitório-biblioteca não passou de um borrão. A fúria me consumia. Eu havia aguentado Samuel e sua depressão infernal por mais de um mês, ajudado ele na missão quase impossível de esquecer aquele canalha e o resultado: caiu na boca do idiota na primeira oportunidade.

Tive certeza de ter batido com força todas as portas pelas quais passei, mas eu não estava preocupado com isso. Só queria esperar o momento que pudesse agarrar Samuel pelo cabelo e arrastá-lo Titã abaixo. Eu ia fazer isso trinta vezes. Não, cinquenta. Bah, quantas meus braços aguentassem.

Levei meu livro de Moral e Cívica — um dos mais grossos, aliás. — para a biblioteca. Se aquele desgraçadinho me prometera ir até lá, era lá que eu o esperaria.

Por incrível que pareça, não havia quase ninguém por ali aquelas horas. A bibliotecária cabeceava, sonolenta, em frente ao computador, e outro garoto, sentado em uma das mesas circulares, já havia se entregado ao sono há muito tempo.

Caminhei até a ponta mais distante da mesa que atravessava a biblioteca de um lado a outro. Ela tinha uns vinte metros de comprimento e parecia ter sido feita de madeira pura. Era algo que você tinha certeza ter atravessado os séculos. Se o Rosa dos Ventos estava situado sobre o legado do Ateneu, aquela mesa definitivamente fazia parte da herança material.

Sentei-me, bufando, no lado mais longe deles dois. Eu precisava me distrair e estudar, e geralmente eu procurava os lugares afastados para fazer isso.

Ok, vamos lá. Capítulo 1... Civismo, li, abrindo o livro na página quinze. Sim, o livro tinha quase catorze página de introdução.

Das grandes dádivas concedidas ao cidadão e ente civil de nossa geratriz de direitos e deveres da República Federativa do Brasil, é de necessário cumprimento aquela que diz respeito, também, mas não tão-somente, ao cumprimento moral das obrigações patrióticas. O Capítulo 2 tratará, em suas nuances, do Patriotismo em si, e, até lá, será observado ao aluno a devida obtenção...

As letrinhas pareciam sair da página e dançar na minha frente, como hologramas brincalhões. Aquilo era assustadoramente parecido com o modo de falar do Professor Leal durante as aulas, ou seja, insuportável.

Os minutos foram passando. Quinze... vinte... e nada de Samuel. Tive um vislumbre da animação dele ao ser possuído pelo meu arqui-inimigo durante todo aquele tempo. A raiva voltou a tomar conta de mim.

Capítulo 3, suspirei, quase uma hora depois, Hinos. Encarei desoladamente a página que tratava do Hino à Proclamação da República.

Seja um pálio de luz desdobrado

Sob a larga amplidão destes céus

Este canto rebel, que o passado

Vem remir dos mais torpes labéus

Parei por um momento para analisar aquilo. Os caras daquela época deviam passar a vida toda engolindo dicionários pra conseguir encaixar essas palavras no hino. Eu, definitivamente, não estava disposto a engoli-los de volta. Perguntei-me qual seria o nível de cobrança do Professor Leal na prova. Certamente pediria para escrevermos o Hino à Bandeira de trás pra frente, usando o pé e fazendo massagem em suas costas.

Fechei o livro, exausto. A verdade é que eu ia me ferrar na prova de Moral e Cívica. Por mais que eu lesse, o assunto parecia escorregar da minha cabeça na mesma hora.

Fiquei uns bons minutos encarando a parede à minha frente, e só percebi a presença de alguém ao meu lado quando ouvi um "bu" baixinho perto do meu ouvido.

Quase pensei que fosse Samuel, ou seja, quase me preparei para virar já com a mão na cara dele, mas o perfume era mais marcante e o sorriso, cafajeste.

— Por que essa carinha de desespero? Espera, deixe-me adivinhar: começa com Moral e termina com Eu Odeio Aquele Filha da Mãe do Leal.

— Acertou, como sempre. — Respondi, vendo-o sentar-se ao meu lado.

Ele abriu meu livro, segurando-o pela orelha de capa, como estivesse contaminado, e conferiu o índice.

— Ok, então vocês viram até que capítulo?

Apoiei o queixo em uma das mãos, desinteressado.

— Ele disse que ia cobrar até o capítulo quatro na prova... acho que escreverão essa observação na minha lápide: "Ele foi forte durante toda a vida, Mas os quatro capítulos de Moral e Cívica foram mais."

Nathan deu uma risada, sem desviar os olhos do livro. Ele sacou o celular do bolso e digitou algo rapidamente, mostrando-me a tela em seguida.

— O que é isso?

— Leia.

Tentei entender as letrinhas miúdas.

— Isso é um boletim? — Falei, após analisar um pouco.

— Sim, o meu boletim. Do ano passado. Presta atenção lá embaixo.

Fiz o que ele pediu. Quase caí da cadeira.

— Mas você... você tirou dez em todas as provas de Moral e Cívica! Como isso é poss...

— Minha mãe é militar. Passei a infância lendo tudo que tem nesse livro. Vamos?

Ele deu um tapinha na página que estava aberta, animado. Levei alguns segundos para entender o que ele queria dizer.

— Espera aí... você tá me dizendo.

— Sim. Vou te fazer tirar uma nota quase tão boa quanto a minha nessa prova. Mas só quase. — E piscou o olho.

Ok, eu amava aquele cara.

Quer dizer... amava, mas no sentido de gostar muito... como amigo. É claro que éramos próximos, mas... enfim.

Passamos o resto da manhã praticamente decorando cada linha daquele troço. Nathan, apesar de tudo, era um ótimo professor. Contava-me as lembranças de quando era criança que tinham a ver com o que estávamos estudando, o que tornava muito mais fácil a assimilação.

— ... eu esperneei de tanto chorar, até que me deixaram hastear a bandeira. Juro que me senti o próprio presidente da República. Foi quando minha mãe me ensinou tudo que dizia respeito a hasteamento de bandeiras, o que significava cada posição etc.

Fiquei surpreso, pois, durante aquele tempo, quase não lembrei do fato de Samuel não ter aparecido por lá.

E assim o sinal tocou pro almoço, e depois voltamos. Nathan me ensinou civismo, princípios de patriotismo e cantou todos os hinos junto comigo — até a bibliotecária nos dar uma bronca. Continuamos baixinho, mas não deixou de ser engraçado.

O sol já desaparecia no horizonte quando, graças aos deuses, finalizamos o capítulo quatro.

Ele e eu nos levantamos e nos espreguiçamos. Minhas costas doíam, minha mão doía, mas foi um alívio perceber que, sim, eu aprendera tudo.

— Velho, eu nem sei como te agradecer... sério, eu estaria muito ferrado se não fosse você. Essa droga nunca ia entrar na minha cabeça por mim mesmo.

Nathan deu um sorriso satisfeito, levantando os braços para esticar a coluna.

— Não seja ridículo, não precisa agradecer. Bom, na verdade... espere, não se mexa.

— Ahn? Como ass... — Eu ia dizer, mas Nathan se inclinou na minha direção e tascou-me um beijo na boca.

Foi mais como um selinho, mas isso não me impediu de ficar petrificado. Assim que seus lábios abandonaram os meus, ele me deu as costas e foi embora, assoviando alegremente, do mesmo jeito que havia feito no dia anterior.

E me deixando, mais uma vez, sem palavras.