Rosa dos Ventos

8 VIII • Não confie num roedor


Notas iniciais
OLÁ ANJOS DE MINHA VIDA. Como eu ainda estou me sentindo culpado por ter excluido/editado o capitulo anterior, estou postando esse (um pouquinho menor, mas igualmente importante para várias coisas que ainda vão acontecer) dois dias depois, como um presente. Espero que gostem, e obrigado aos lindos que já comentaram aqui Rosianne, PS, Mililika, Maria Antoniette, Twenty one pilots e a quem mais esteja aí apenas nas observâncias. Beijooss, amo todos vocês.

RIDICULAMENTE TENTADO A DESISTIR DE VIVER. Era assim que eu me sentia ao ver meus colegas de time treinando na tarde daquele dia.

Ex-colegas, pensei, me corrigindo. Era uma sensação esquisita sentir falta de estar no time sendo que, praticamente, jamais fiz parte dele.

Tentei encontrar algum consolo no som da chuva pesada caindo sobre o teto de metal do ginásio, mas este não conseguia cobrir o barulho das vozes e gritaria dos jogadores, que corriam pra lá e pra cá animados atrás da bola. Era como encarar uma comida deliciosa através da vitrine e de repente poder sentir o seu cheiro. E sem conseguir prová-la ou sequer tocá-la. Uma situação terrivelmente desesperadora.

Nathan me olhava de tempos em tempos com uma expressão de dúvida no rosto. Ainda não havíamos conversado sobre nada, e ele não entendia o fato de eu não estar lá treinando. Imaginei se ele iria ficar irritado com o fato de parte da culpa ser dele.

— Aqui! Aqui!

Meu mais novo inimigo declarado, Júnior, pediu a posse de bola a um garoto ruivo da Ala Sul. Recebendo-a, percorreu a extensão da quadra que faltava até a trave adversária e marcou um gol numa jogada, tive que admitir, perfeita.

Na verdade, todos eram assustadoramente talentosos. Eu não chegava à metade da técnica da maioria, e perceber isso quase me fez gostar do fato de não estar mais no time: como eu teria provado a todos eles a minha excepcionalíssima média 10?

Fiquei sozinho na arquibancada, à exceção de meia dúzia de gatos pingados do primeiro ano que babavam no talento dos Ventos — o muito pertinente nome do time. —, por mais dez minutos até o jogo acabar. O grupo de jogadores se dispersou, a maioria deles em direção aos chuveiros, outros provavelmente preferiram banhar-se nos banheiros dos próprios dormitórios. Apenas um deles continuou por ali, e veio andando até mim, a boca cerrada naquilo que era um dos raros momentos em que não estava sorrindo.

— Rondarolli. Acertei? — Nathan sentou-se ao meu lado, enxugando o rosto numa toalha que trazia pendurada no ombro.

Assenti, suspirando, derrotado. Ele passou a mão no cabelo, num gesto nervoso de indignação.

— Aquele cara... ele precisa de limites. Já não basta transformar esse internato numa amostra grátis da ditadura... ainda faz isso. E não minta pra mim, eu sei que a culpa foi minha.

Não pude negar, mas fiquei calado, o que ele interpretou como uma confirmação.

— Merda. — Nathan jogou a toalha com força ao seu lado. — Um dia eu ainda dou o troco naquele desgraçado.

— Escute... ele implica comigo desde o primeiro dia aqui, não se sinta tão culpad... — Fui interrompido por um pequeno lapso de déja vu... não sei se essa é a melhor palavra para usar, mas meu cérebro se partiu em dois por uma fração de segundo: o clone de Nathan apareceu na quadra, pela entrada mais distante de onde eu estava, e caminhou até a porta que saía na área da piscina e dos chuveiros. Nos encarou por um momento e virou o rosto logo depois.

Tive que olhar de novo para o Nathan ao meu lado, para ter certeza que aquele lá não era ele. Se não fosse o choque de realidade de ontem à noite, eu continuaria sem conseguir acreditar que não eram a mesma pessoa, mas o andar mais rígido e calculado do irmão de Nathan era um bom meio de distingui-los.

— Ehr... acho que preciso dar uma explicação. — Nathan falou, encabulado. Fiquei feliz pela mudança de assunto.

— Definitivamente precisa. — Concordei com veemência.

— Bem... Eu não te contei antes porque, sinceramente, achei que você já estava sabendo. Chega a um ponto que se torna muito normal e eu meio que esqueço que existem pessoas que ainda não nos conhecem. Eu e Nestor... não somos muito... digamos, apegados. E isso bem antes de entrarmos aqui três anos atrás. Eu sempre vivi com minha mãe e ele com meu pai.

Nestor. Então é esse o nome do outro. Tive um súbito ataque de compreensão da minha própria burrice, pois eu poderia ter olhado a qualquer momento a cabeceira da cama dele ou simplesmente seu crachá.

— E esse distanciamento piorou muito desde que entramos aqui. Ele se juntou ao grupo dos hardcore e eu fiquei meio que... largado. É quase como se não nos conhecêssemos, as pessoas naturalmente não associam mais um ao outro por já saberem dessa separação.

Fiquei calado, absorvendo aquilo. Então resolvi perguntar:

— Quais das vezes que nos encontramos... digo, quando é que era realmente você?

Ele deu um sorriso de canto de boca, daquele tipo nojentamente cafajeste que ele conseguia fazer independente da situação.

— Bom, pelo que me lembro, eu falei com você no primeiro dia... também fui eu que te salvei do Denis e julguei seu teste pra entrar no time. — Ele fez uma cara de desconsolo ao dizer essa última parte.

Então, todas as outras vezes... o encontrão no corredor era Nestor, assim como fora ele quem eu vira sentado na mesa ao lado de Júnior e cia., na biblioteca, e fora ele... a verdade me atingiu como um tapa.

Se era Nestor, e não Nathan, que ficava no mesmo dormitório que eu, então quem eu vira trazer um outro garoto para transar lá tinha sido ele. O que era algo muito interessante, considerando as suas tendências violentas em relação a quem fazia exatamente esse tipo de coisa.

Nathan tinha alguma ideia disso? Meu cérebro trabalhou nervosamente por alguns instantes, mas decidi não contar... pelo menos não por enquanto.

— Hunn... — Respondi, finalmente. Torci para ele não perceber que eu estava escondendo algo.

— É... Bem, mas apesar de tudo, fique tranquilo, eu vou dar um jeito de trazer você de volta ao time. Isso virou uma questão pessoal contra aquele idiota do Rondarolli. Pode apostar: eu não vou desistir de você.

Sorri internamente por causa da maneira boba e cativante pela qual ele tentava ser meu heroi. Levantamo-nos e andamos juntos até o refeitório, para jantar. Foi engraçado porque ali, naquele pequeno caminho, com ele perguntando se meu pulso já estava melhor e se eu já fizera muitos amigos, tive consciência de que ele era alguém em quem eu confiava.

Eu estava feliz.

Era final de fevereiro, e grande parte dos alunos já sentia na pele a iminência da primeira semana de provas, que aconteceriam dali a uma semana, de modo que todos se encontravam num estado de completo terror.

E nisso, eu estou devidamente incluído.

Nenhum dos internatos que eu frequentara e eram muitos, acreditem. tinha se mostrado difícil de lidar com a questão das avaliações, provas, notas, esse tipo de coisa. Por ser minha primeira experiência do tipo no Rosa dos Ventos, eu ainda não deveria ter noção do que me esperava, mas o medo estampado nos rostos de cada aluno que eu encontrava pelo colégio estava me dando nos nervos.

— Ai meu Deus, olha só pra isso. Você tem noção disso? Olha só isso! Eu... eu não to bem... acho que vou... — Samuel disse, fingindo quase desmaiar ao conferir o horário das provas no mural. — Educação Moral e Cívica e Química no mesmo dia? Isso deveria ser considerado inconstitucional. Tortura!

Ao nosso redor, uma porção de garotos se acotovelava para anotar seus próprios horários, olhando irritados para Samuel, que não saía da frente mesmo tendo praticamente decorado mentalmente cada detalhe da tabela do Segundo Ano Oeste.

Após eu mesmo tomar nota do meu horário (Graças aos deuses minha Moral e Cívica havia caído junto com Geografia, matéria que eu não tinha dificuldade nenhuma), convenci-o a dar espaço para quem ainda não havia conseguido e fomos caminhar pelo colégio.

— Velho, esse garoto é muito estranho. Ele é tipo, totalmente suspeito, tenho certeza que ele faz alguma coisa errada por aí.

Estávamos sentados nos degraus mais altos de Titã, conversando, quando o menino que ficava no mesmo dormitório que Samuel qual era o nome dele mesmo? Eduardo? desceu vindo da Ala Oeste e deu meia volta na mesma hora que nos viu ali. Seus passos ecoaram no mármore até ele sumir no corredor lá em cima.

— Ah... Edgar? Ele é... digamos, meio misterioso mesmo. Nunca falou com ninguém. Não se sabe da família dele, nem amigos. O Sr. Rondarolli sempre o chama até a sala dele... o pessoal suspeita que ele é bolsista.

Tentei imaginar a carga de negatividade em cima da palavra "bolsista" para ser utilizada como meio de discriminação.

— Sério? Não sei por que, mas tenho um mal pressentimento em relação a ele, um dia eu fui procurar você no seu dormitório e...

— Meu Deus! Ele disse, olhando assustado para relógio do outro lado do saguão de entrada. Já são quase nove horas da noite. Preciso ir dormir, senão estarei morto na aula de Educação Física amanhã. Vou indo, Ulisses.

— Tá, vai lá. Tô sem sono, vou enrolar mais um pouquinho aqui. — Respondi, me levantando. Samuel deu um tapinha de despedida na minha bunda e subiu correndo os degraus que faltavam até a Ala Oeste.

Resolvi checar a internet pelo celular, para passar o tempo, e acabei ficando por ali.

Foi quando ouvi um sonzinho esquisito. Parecia vir das teclas do meu celular, mas era bem menos eletrônico e, definitivamente, pertencia a algo vivo. O barulhinho aparecia e desaparecia em intervalos irregulares, de modo que comecei a ficar realmente assustado. Não havia ninguém por ali e o saguão só não estava completamente escuro por causa da lâmpada no teto, bem acima da minha cabeça.

Quando eu estava decidido a me levantar e sair correndo enlouquecido dali, vi a criaturinha redonda e pequenina correr até bem perto do meus pés e parar para farejar algo. Seus bigodinhos se mexiam eletricamente.

Ok, eu não tinha medo de ratos, mas este em especial estava me deixando nervoso: como aquele bichinho tinha ido parar ali? Pelo que eu sabia, o Sr. Rondarolli tinha simplesmente horror a qualquer tipo de praga que pudesse ser associada a falta de higiene ou limpeza. Um rato dentro do Rosa dos Ventos era mais impossível do que... sei lá, do que o Rondarolli arranjar uma namorada.

Um som de vozes e passos vindos do corredor fez a criaturinha se assustar e sair correndo escada abaixo, em direção ao corredor à minha esquerda. A curiosidade a respeito da presença dele ali foi grande o suficiente para me fazer levantar e ir atrás dele. E eu me arrependi muito de ter feito isso.

Segui-o de perto, na medida do possível, por todo o caminho até a quadra. Foi quando o perdi de vista por um momento que percebi que ele estava deixando um rastro quase imperceptível no assoalho. O rastro de alguma coisa... vermelha.

Sangue?, pensei, ainda mais assustado. Que diabos estava acontecendo?

Acompanhei a silhueta do ratinho atravessar toda a extensão da quadra, até a porta que levava à area da piscina. Fui correndo atrás dele, sem imaginar a besteira que estava fazendo.

Assim que cheguei lá, ofegante e suado, pensei seriamente em dar meia-volta e esquecer aquilo tudo. O ratinho já havia desaparecido novamente e eu não ia ganhar nada ficando ali. Mas, claro, como sou uma pessoa incrivelmente propensa a se meter em confusão, tive a ideia genial de molhar os pés na água da piscina.

Sentei-me à borda, tirei o tênis e afundei meus pés devagar na água fria, fazendo ondulações na superfície, que estava, curiosamente, esbranquiçada, como alguém tivesse deixado derramar xarope de leite de coco ou algo do tipo. Talvez fosse a temperatura mais fria ali. Olhei despretensiosamente para baixo, pensando nisso, e então eu vi.

Uma grande massa de braços e pernas se debatia, desesperada, no fundo da piscina.

Alguém estava se afogando.