Rosa dos Ventos
3 III • Heil Hitler!
Notas iniciais

PUS A MÃO NA BOCA pra evitar cuspir boa parte do meu biscoito de baunilha na mesa. O acesso de tosse após me engasgar foi inevitável.
— O que foi que você disse? — Perguntei novamente para o garoto à minha frente, sem conseguir acreditar no que tinha ouvido. Ele deu uma gargalhada.
— Eu disse — Ele repetiu, ainda sorrindo. — que a menos que você não queira comer o pão que o diabo amassou, é bom procurar um parceiro, e logo.
A minha expressão incrédula devia estar muito engraçada mesmo, pois o sorriso não deixou sua boca.
— Mas, ehr... hun, quando você diz parceiro...
— Sim, isso mesmo.
Comecei a olhar ao redor, para todos os rostos nas mesas vizinhas, com a impressão cada vez mais crescente que alguém fosse me apunhalar pelas costas, ou coisa pior.
— Você não pode estar falando sério. — Falei, ainda balançando a cabeça em negação.
— Não sei por que a surpresa — Ele disse, tomando em seguida um gole do suco de laranja de caixinha. —, apesar da reputação que o Sr. Rondarolli tenta zelar, é inevitável: garotos trancados por meses a fio num lugar... tsc, tsc, bem, digamos que se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Tentei não pensar no lastimoso segundo sentido da frase.
Na mesa à nossa esquerda, um garoto que eu diria em tudo ter vindo de algum país do norte da Europa sentou-se cumprimentando a todos. Ele ficou na ponta da mesa, preparando-se para comer. Um menino que não devia ter mais de quinze anos aproximou-se dele e pôs a mão delicadamente sobre sua coxa.
Engoli em seco.
Depois de alguns minutos de silêncio, resolvi perguntar:
— Mas, qual a probabilidade... quais as chances de tantos garoto gays serem matriculados na mesma escola?
O menino à minha frente deu mais uma risada. Eu estava começando a ficar irritado.
— Você ainda não entendeu? Nem de perto a maioria é realmente gay, pelo menos até ter entrado aqui. Eu prefiro não falar tudo a você agora, porque é até interessante descobrir como funcionam as coisas nesse lugar, mas — Ele aproximou o rosto do meu, o que me fez recuar um pouco. —, siga meu conselho: arranje alguém logo, ou sua vida vai ser um inferno.
Fiquei muitos minutos digerindo aquelas palavras. Era realmente assustador. Por algum motivo, o fato de eu ter levado duas cantadas no mesmo dia não tinha me atentado para o que devia acontecer ali dentro.
Dane-se, pensei, o dia não tinha parecido muito promissor desde que começou. E ainda era a hora do café-da-manhã.
Ter acordado com a sensação de estar atrasado ajuda um pouco pra desabar as boas energias do dia. Enquanto eu tentava fazer meu cérebro voltar à realidade de fora dos braços de Morfeu, as três camas vazias ao meu lado deixaram-no cada vez mais embaralhado. Quando, por fim, percebi que todos já haviam descido para comer, tomei banho numa velocidade recorde e usei todas as minhas habilidades instintivas para achar o refeitório.
Encarando nesse momento o prato com pães com patê e dois biscoitos, a única coisa que eu pensava era em como levaria uma eternidade para me adequar à rotina de acordar junto com o Sol.
Aos poucos, as mesas foram ficando vazias, as pessoas iam com seus grupos para os jardins, a biblioteca, ou sei lá o que mais. Quando a moça da limpeza começou a nos encarar como se quisesse nos expulsar dali a vassouradas, resolvemos sair também.
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Samuel era um cara legal, isto é, se você conseguisse lidar com seu dom de ser sincero ao extremo.
Andamos juntos pelo colégio. Ele me ensinava pacientemente como chegar em qualquer lugar, até mesmo os que o Sr. Rondarolli nem desconfiava existir. A parte que me deixou mais tenso, entretanto, foi a interminável lista de casos e polêmicas que aconteceram em cada canto do lugar. Fiquei num dilema entre rir ou procurar a saída mais próxima quando ele me contou sobre os quatro meninos que foram descobertos em coma alcoólico e sem roupas na biblioteca.
— E ainda tiveram que arrastá-los até os dormitórios antes que algum funcionário visse. — Samuel disse, rindo mais uma vez. Imagine só como foi subir Titã carregando quatro marmanjos pelados.
— Titã?
— Titã, a escada imensa no saguão de entrada. Não sabia disso ainda?
— Não. — Respondi, sem saber se achava graça do fato da escada ter nome. Afinal, não era um nome tão impropício assim.
Samuel me levou até a parte externa do colégio, onde havia uma pracinha com uma árvore muito grande e exuberante no centro. Os bancos ao redor estavam ocupados por vários meninos. Casais, pensei, nervoso. Descendo as escadinhas, chegamos aos jardins abertos, onde a grama era milimetricamente homogênea. Eu não desconfiaria se me dissessem que cada folha havia sido aparada no mesmo comprimento em centímetros.
Sentamos em um dos bancos próximos à praça, Samuel me encarou com o olhar zombeteiro.
— Você parece um camundongo encurralado com essa cara.
Não sei a que "cara" ele se referia, mas pus uma expressão mais neutra em meu rosto, e desviei o olhar dos casais ao lado. Depois de algum tempo perguntei:
— Samuel, quem é o seu... hun, seu parceiro? — Perguntei, cauteloso.
Infelizmente me arrependi na mesma hora da pergunta, porque ele amarrou a cara instantaneamente.
— Ele é da Ala Leste. — Respondeu, como isso fosse suficiente.
— Ah.
Não imaginei porque motivos o simples fato de o garoto ser da outra Ala poderia deixá-lo tão irritado. Mas então uma sirene, que em tudo parecia de quartel, gemeu nos alto-falantes. A voz inconfundível do Sr. Rondarolli falou, com pompa.
Hoje à tarde haverá uma exposição para os alunos novos, na Sala dos Troféus. Sintam-se obrigados a ir, meus pequenos calouros. Até lá. O anúncio terminou com uma versão graças a Deus. reduzida do hino da escola.
Algumas risadinhas surgiram aqui e ali entre os alunos.
— Por favor, me diga que o Diretor não vai ser o guia dessa exposição. — Eu disse, suplicante, a Samuel.
— Como assim guia? — Ele perguntou, franzindo o cenho.
— Guia, ué. É ele que vai nos mostrar a exposição?
— Ah, então você acha... — Ele me olhou com uma óbvia pena no olhar. — Você tem muita coisa pra aprender, Ulisses, muita.
E então me explicou.
...
Eu preferiria não ter tanto a aprender.
A exposição não seria de troféus, ou de objetos importantes da escola, acompanhada de uma palestra provavelmente chata ministrada pelo Diretor. Não, o que seria exposto não eram objetos, pelo menos não em primeira análise.
Nós é que seríamos expostos.
Assim que Samuel me disse essas palavras eu tomei completa consciência dos meus defeitos. O fato de meu cabelo não assentar direito para um lado, ou então minha postura desajeitada. Mas o que me aterrorizou, acima de tudo, foi a possibilidade de ficar na frente de uma multidão de garotos me escaneando de cima a baixo, como a um pedaço de carne particularmente suculento.
— Calma...ei, calma. Não, vocês não vão precisar ficar sem roupa na frente de todo mundo.
Tentei recuperar o fôlego pra entendê-lo.
— Não?
— Não... bem, eu acho que não. Pelo menos ano passado não precisamos.
Ele parecia meio tenso, o que não ajudou muito.
Mais tarde, encontrei um conjunto de roupas de educação física na minha cama. Supus ser de educação física, pois os shorts eram bem curtos, azuis, feitos de um tecido leve e fino, e a camisa branca, sem mangas, igualmente propícia para o exercício físico. Um pouco menor que o meu número, talvez, mas me caiu muito bem. A essa altura, eu já estava mais tranquilo, pois era bem provável que o teste tivesse algo a ver com esportes, avaliação física, esse tipo de coisa que eu não me saía tão mal, afinal.
Umas duas horas depois, nos dirigimos até a Sala de Troféus. Eu rezava pra cada santo que vinha à memória para que os veteranos não pudessem entrar lá. Se todos estivessem num grau de hierarquia equiparado, o mico não seria tão grande.
Uma tonelada de preocupações saiu das minhas costas quando cheguei à porta da sala e um dos professores — aquele que havia chamado minha atenção na quadra — apontou para os alunos do segundo ano que tentaram entrar atrás de mim.
— Ei, vocês não. Ah, pode entrar, garoto. — Ele me deixou passar, certamente lembrando do que acontecera no dia anterior. Imaginei se ele se divertiria o dobro do usual com a minha situação.
A Sala dos Troféus fazia jus ao nome. Vitrines de vários metros de comprimento estavam lotadas de prêmios, medalhas, taças, e uma porção de coisas reluzentes. Pude enxergar que a maioria dizia respeito a grandes conquistas em artes marciais, coisa para a qual eu não tinha a mínima vocação. Anotei mentalmente uma observação para perguntar a Samuel se existiam competições ou times de futebol na escola.
Nós, amedrontados e diminutos calouros, vestidos exatamente com a mesma roupa, nos dirigimos até o pequeno palco na parede oposta à porta. O Sr. Rondarolli sorria maquiavelicamente. Imaginei ele obrigando-me a tirar a roupa com um chicote naquele palco, na frente de todos, e dizendo coisas do tipo "Ah, como é pequenininho o amiguinho dele! Riam e apontem junto comigo, calouros." Ao ver um chicote em exibição na parede à direita, entrei em pânico.
— Olá, meus queridos novos estudantes do Rosa dos Ventos. Sejam muito bem-vindos. Sempre espero a oportunidade de conhecê-los melhor, e, mas que alegria!, oportunidade essa que usufruirei agora! Não se sintam acanhados, se aproximem... se aproximem!
Com o grito, nós todos corremos até a beirada do palco.
— Muito bem. Como vocês certamente já devem ter perguntado a seus veteranos adoráveis, vocês virão ao palco para serem expostos, mas esse ano eu criei uma nova atividade e... ah, existe melhor forma de ensinar do que com um exemplo? Deixem-me escolher um de vocês.
O dedo rechonchudo dele apontou para o garoto exatamente ao meu lado. Tinha a mesma altura que eu e cabelos pretos cortados curtos, a pele parda. O menino estava visivelmente nervoso, andando como se se equilibrasse em varetas ao invés de pés.
— Ah, ótimo, ótimo. — Ele puxou o garoto até o seu lado, assim que ele chegou ao palco. — Qual o seu nome, meu jovem?
— Igor. — O menino respondeu, sua voz sumida.
— Igor! Então, Igor, você tem moral? — Ele perguntou, fitando diabolicamente o rosto do outro.
O menino, o tal Igor, ficou parado, sem compreender o que o Sr. Rondarolli havia dito.
— Como?
— Perguntei se você tem moral, oras.
Mesmo sem estar no palco, eu estava morrendo de medo. Admirei a força do Igor, pois eu com certeza já teria desmaiado.
Ele continuou lá, estático, olhando nervosamente para o Diretor.
— Senhor, eu não entendo...
— Vejo que o colega de vocês está em dúvida de seus... ideais. Bem, acho que vamos ter que ver com nossos próprios olhos.
O Sr. Rondarolli virou-se de costas para nós, admirando uma mesa coberta com um pano roxo logo atrás dele, que eu não havia notado até então. Ele puxou cerimonialmente a coberta, revelando uma série de revistas empilhadas. Por um momento, eu não entendi o que ele estava planejando, mas então a verdade me acertou com se alguém tivesse lançado o chicote da parede contra a minha cara.
Dei-me conta do nosso uniforme criado especialmente para a ocasião. O short pequeno demais, apertado demais, leve demais, com o tecido fino demais.
Não era possível. Esse tipo de coisa provavelmente era proibida em escolas. Agora eu já estava em pânico de verdade.
Como se tirasse uma velha amiga pra dançar, o Sr. Rondarolli removeu a revista no topo da pilha à direita. Ele folheou as páginas, com um sorriso no rosto. Ao seu lado, Igor estava literalmente tremendo. De minha posição, logo na beira do palco, eu conseguia ver uma gota de suor escorrendo em sua testa.
O Diretor pareceu decidir o prato do menu: bateu com as mãos espalmadas na página de sua escolha.
— Muito bem, meu jovem, segure, por favor.
Trêmulo, Igor pegou a revista, fitando as páginas com os olhos arregalados. O que quer que ele tivesse visto, não havia esboçado a reação que o Sr. Rondarolli considerava boa. O Diretor olhava a todo momento para a área entre as pernas do menino, procurando uma perturbação mínima no local.
O Sr. Rondarolli se curvou e virou para a página seguinte, a revista ainda nas mãos do garoto. Vi o olhar de Igor percorrendo a página, e então aconteceu.
A elevação crescente e óbvia na parte abaixo da virilha de Igor virou o ponto de convergência de todos os olhares do recinto. O tecido não deixava margem para dúvidas do que estava acontecendo ali dentro. Ele tentou puxar a barra da camisa para cobrir, sem muito resultado. Apesar da cena constrangedora e humilhante, suspirei aliviado pelo garoto que, afinal, havia passado no teste, mas por algum motivo, ele estava ainda mais assustado.
Todos olhamos ansiosos para o Diretor, esperando que ele dispensasse o menino, mas seu rosto parecia o de um inquisidor da Idade Média. Emanava um prazer violento.
— Ora, ora, ora. Mas é mesmo uma pena, não é? Bem, Igor, pode se dirigir à quadra. Fique lá em companhia de nosso professor de Educação Moral e Cívica, o Sr. Leal, até que eu termine aqui com seus colegas, sim?
Igor desceu do palco com pressa, tive certeza que ele desataria em lágrimas assim que saísse da vista de todo mundo. Acompanhei-o com o olhar até que ele fechasse a porta.
— Agora... que tal você, jovem? — O Sr. Rondarolli perguntou, a voz maliciosa.
Voltei o olhar novamente para o palco. Tive a mesma sensação de uma flecha transpassando meu coração quando vi o dedo gorducho do Diretor apontando exatamente na minha direção.
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