Rosa de Vidro

1 Capítulo 1 - Choque


Capítulo 1 — Choque

Estava indo à Soul Society. Rukia, agora tenente, com o cabelo mais curto e as luvas da família Kuchiki, lhe deixara um de seus bilhetes codificados há quatro dias prometendo que voltaria em três. Ele jurou que se ela não voltasse ele iria atrás dela e lá estava ele se dirigindo à mansão do capitão do 6º esquadrão. Não precisara de Urahara. Observara várias vezes os shinigamis abrindo e fechando aquele portal. Nunca esquecera da primeira vez que viu, quando Renji o abriu para levarem Rukia embora para executá-la. Se cansou de sempre depender dos outros. Falou as palavras incontáveis vezes durantes dois dias até que finalmente conseguiu abrir o bendito portal. Yamamoto certamente não gostaria daquilo, mas ele não estava nem aí. Prometera enfrentar a Soul Society quantas vezes fossem necessárias por ela.

Eram quatro da manhã e ainda estava escuro. Chegando perto da porta da mansão, ele estranhou. Estava tudo aberto. Ele entrou vagarosamente, com cautela. Adentrou mais um pouco pelo hall, chegando perto da sala de visitas e seu coração disparou. Escutou um grito e um choro desesperado. Reconheceria aquela voz a quilômetros de distância. Correu desesperado. Entrou na grande sala de estar da mansão e seus olhos se arregalaram, horrorizados. O lugar estava parcialmente destruído, o corrimão do lado direito da escada desabara, o impecável assoalho de madeira estava ensanguentado e marcado com profundos arranhões. Alguns buracos nas paredes e no teto. Inúmeros oficiais mortos pelo chão. O mordomo e Renji, este muito ferido, jogados longe. Ichigo não sabia dizer se estavam vivos. Quando sua mente acordou, procurou pelo que mais lhe importava.

Ela estava ajoelhada de frente para aquela tragédia, chorando, chorando muito, abraçava um tecido branco ensanguentado.

— Rukia!! – Correu até ela e se abaixou ao seu lado.

Tocando os braços dela e olhando seu corpo procurando algum ferimento ou sangue, ficou mais aliviado, aparentemente não estava ferida.

— Rukia... O que aconteceu aqui?

— Eu... não sei... – foi o que ela conseguiu falar e voltou a chorar bastante.

Ele mesmo estava chocado com aquilo, seu coração ainda disparado. Se aproximou dela e a abraçou, enquanto tornava a olhar o cenário. Voltou-se para a shinigami novamente, estava tremendo. Afundou o rosto no peito dele enquanto chorava. Ichigo olhou para o manto branco que a tenente segurava com todas as forças e entendeu. Não era só aquele cenário terrível que a chocava, era o manto de Byakuya, manchado de sangue.

— Calma – sabia que era em vão, mas tentou – primeiro temos que chamar o quarto esquadrão e descobrir o que aconteceu aqui – dizia, afagando os cabelos dela.

Tinha que tirá-la dali, ela precisava se acalmar. Até porque sabia que se alguém chegasse, a tiraria dos braços dele. Não aguentava mais aquilo. Sempre que um dos dois estava sofrendo alguém os separava. Levantou-se, com Rukia em seus braços, ainda segurando o manto branco e pensou na única pessoa ali que poderia acolhê-los naquele momento.

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— Mas quem pode ser a essa hora? Ainda são quatro e quinze da manhã e nós só levantamos às cinco e meia – Ukitake usava apenas o kimono branco, pois estivera dormindo.

Enquanto se dirigia a porta do esquadrão, passou pelos aposentos de Rukia. A porta estava semi-aberta e não havia ninguém.

— É verdade... ela me disse que sairia cedo pra ir tomar café com o Byakuya...

Continuou seu caminho até a porta.

— Calma, estou chegando – disse para o ser desesperado que chamava como se o mundo fosse acabar.

Ele abriu a porta.

— Ichigo! Rukia-chan! O que aconteceu?!

Rukia estava nos braços de Ichigo, soluçando e chorando, abraçada ao que provavelmente era o manto branco de Byakuya.

— Ukitake-san, ela pode explicar o que sabe depois que se acalmar. Eu só peço que a deixe descansar aqui e que avise ao quarto esquadrão para comparecer urgente á mansão Kuchiki. Há mortos e feridos lá, incluindo Renji e o Mordono.

Ele arregalou os olhos. Puxou os dois para dentro, fechou a porta e os levou até o quarto onde Rukia estivera dormindo antes de sair.

— Por favor, me deixe ficar aqui com ela.... Eu nunca lhe faria mal.

— Eu sei disso Ichigo. Eu sempre digo que além de Byakuya não há ninguém mais indicado para cuidar dela que você.

Ichigo se surpreendeu com o pensamento do capitão e sua afeição por ele cresceu ainda mais.

— Fiquem aqui. Eu vou averiguar a situação e chamar o quarto esquadrão. Darei notícias quando voltar. Se Rukia ou você precisarem de alguma coisa podem chamar um dos oficiais. Logo estarão acordados.

— Obrigado Ukitake-san.

Ukitke se vestiu e saiu do esquadrão. Ichigo o observou sair e voltou ao quarto. Deixou Rukia deitada no futon e fechou a porta. Encostou as zampakutous de ambos na parede e sentou-se no chão ao lado dela e ficou a observá-la. Algumas lágrimas ainda caiam de seus olhos azul-escuros, já cansados. Novamente tocou sua cabeça, afagando os cabelos negros. Alguns minutos depois Rukia fechou os olhos e dormiu, cansada, mesmo tendo acordado há pouco tempo. Ela se encolheu. Não soltava o manto branco. O que teria acontecido com Byakuya? E por que ocorrera aquela guerra na sala de estar da mansão?

Não adiantava. Só saberia quando Rukia, Renji ou o mordomo acordassem. E nem tinha certeza que lembrariam de alguma coisa. Resolveu esquecer aquilo por hora e importar-se somente com uma coisa. O pequeno ser adormecido ao seu lado. Puxou o lençol sobre ela e beijou delicadamente sua testa, voltando-se a sentar ao lado do futon.

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Chegando à sala de estar da mansão Kuchiki, Ukitake arregalou os olhos e ficou boquiaberto, aterrorizado com a cena. Correu o mais rápido que podia até o quarto esquadrão, desculpando-se por acordar a capitã tão cedo. Esta acordou sua tenente e mais alguns oficiais, dirigindo-se rapidamente ao local. Todos ficaram pasmos com a visão. Com todo o autocontrole necessário a uma capitã, Unohana andou por entre os feridos e mortos para constatar quais permaneciam vivos.

— Rápido! Levem o mordomo e o tenente Abarai para a emergência! Ambos estão vivos e necessitado urgentemente de tratamento, principalmente o tenente. Eu chegarei em breve e quero um relatório de cada um. Quanto aos demais... não há mais o que fazer – ela disse, triste.

— Sim capitã – responderam os oficiais, colocando os dois em macas e levando-os dali.

— Isane e o resto de vocês, removam os mortos. Vamos analisar os corpos de todos. Talvez nos ajude a descobrir quem fez isso. Eu vou relatar imediatamente a situação ao comandante.

Eles continuaram o trabalho enquanto ela se retirou.

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— Alguém presenciou o que aconteceu?

— Não sei ainda capitão. Nós recolhemos os mortos e os dois feridos. O tenente do 6º esquadrão está sendo operado. O mordomo tem ferimentos razoáveis, mas já foi tratado e não corre nenhum risco. A sala onde tudo aconteceu está destruída e o corrimão de um dos lados da escada desabou. A casa está sob vigilância do 2º esquadrão. A capitã Soi Fong já enviou grupos de busca para checar a Sereitei e Rukongai.

— E quanto aos dois Kuchikis?

— A tenente Rukia Kuchiki está em choque, descansando no seu esquadrão no momento. Ichigo Kurosaki chegava a Soul Society minutos depois de tudo acontecer e a encontrou aos prantos no lugar. Ele a questionou sobre o acontecido, mas ela não conseguiu falar. Então a levou para o 13º esquadrão, do qual ela havia saído minutos antes. Dormiu lá, mas levantou ainda de madrugada, pois queria ir tomar café com o irmão.

— Aquele garoto... o que ele veio fazer aqui? E como chegou? Com certeza com ajuda de Kisuke Urahara.

— Nós ainda não sabemos.

— Isso fica para segundo plano. Onde está o capitão do 6º esquadrão?

— Ele desapareceu. Tudo que deixou para trás foi seu manto branco, manchado de sangue. Este, segundo as informações que recebi do capitão do 13º esquadrão, Rukia levou com ela. Quando ela acordar irá ao 4º esquadrão. Segundo Ichigo Kurosaki ela não está ferida, mas eu checarei se ela está bem e vou analisar o manto. Quando ela e os dois sobreviventes acordarem, tentaremos colher mais informações. Por hora é tudo que sabemos.

— Muito bem. Volte a me informar quando possível.

Retirou-se e voltou ao esquadrão.

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Rukia começava a retomar a consciência. Abriu os olhos lentamente e levou algum tempo para colocar os pensamentos em ordem. Lembrou-se dos últimos acontecimentos e aquela dor insuportável voltou ao seu coração. Abraçou novamente o manto branco até que lembrou de Ichigo e o procurou. Olhou para o lado e lá estava ele. Dormindo de bruços ao lado do futon, com o queixo apoiado nos braços cruzados. Ela sentou, tirando o lençol de cima de si. Sentiu o corpo doer, como se tivesse dormido de mau jeito. Ficou apenas observando-o. Ser acolhida pela proteção dos braços dele na noite passada fora tão bom... Ele se mexeu, virando para o lado e derrubando acidentalmente, com os pés, as duas zanpakutous apoiadas na parede. Arregalou os olhos, acordando com o susto quando foi atingido e virando-se rápido. Percebendo o que tinha feito, ajeitou novamente as duas espadas e se virou.

— Rukia...? Como se sente?

Ela não respondeu. Ele se aproximou e sentou ao lado dela.

— Eu sei que não está bem, mas precisamos que fale. Você pode saber de alguma coisa que de repente ajude.

A Kuchiki apenas abraçou mais forte o manto do irmão. Ichigo nunca vira tanta tristeza em seu rosto.

— Esquece... não precisa falar agora se não quiser. E também não precisar aguentar tudo isso sozinha. Me conte o que está acontecendo. Quando quiser contar, vou estar aqui pra ouvir.

A morena de pele alva suspirou profundamente.

— Eu dormi aqui depois do trabalho. Avisei ao capitão que acordaria e iria embora ainda de madrugada pra tomar café com o nii-sama. Eu fiz isso. Quando cheguei em casa vi tudo aberto e as luzes acesas. Corri pra dentro e encontrei aquilo que você viu. Você chegou só dois minutos depois de mim.

— E Byakuya?

— Eu não sei. Ele sumiu. A reiatsu dele não estava em nenhum lugar da casa ou perto dela. O manto dele estava jogado na entrada quando cheguei. E nem sei se Renji está vivo...

— Ele está. Foi operado e não corre risco. Ukitake veio aqui e me contou tudo antes de eu dormir. Seu mordomo foi tratado e não corre perigo. Mas os oficiais... estão todos mortos.

Ela se encolheu.

— Rukia, sei que não quer falar disso agora, mas precisa me dizer... se lembra de mais alguma coisa? Não notou nada? Você se feriu?

— Não, isso é tudo que sei. Não me feri.

— Tudo bem... – ele apoiou a testa em uma das mãos e o cotovelo no joelho.

Percebeu a tristeza inundar os olhos dela novamente.

— Não fique assim. Byakuya já sumiu uma vez e ficou tudo bem depois. Nós vamos encontrá-lo.

Ela não se sentiu melhor com aquilo, embora uma esperança invadisse parte de seu coração, junto com a gratidão pela companhia de Ichigo e o desejo de que ele não a deixasse naquele momento.