Notas iniciais
Cingir: reprimir Mba'e vaieté: significa “algo muito ruim” Karaí: xamã-profeta

“Mba'e vaieté.”

Decretara o Karaí.

Ainda assim, ali estava Kai, admirando-a, tocando-a, como se estivesse tudo bem. Ao deixar de cingir seu corpo e coração, Raoni foi livre pela primeira vez.

Pela manhã, despertou sobre um peitoral musculoso.

— Oi, Pira’y.

O olhar dele era repleto de perguntas silenciosas.

— O que foi?

Pareceu refletir um pouquinho, depois perguntou suavemente:

— Você é trans?

— Não. – Declarou. – É… complicado.

— Ninguém deveria ser obrigado a ser quem não é.

— Quando se nasce na Uiyara, Kai, você se torna quem precisa ser. Sou um Boto, é tudo o que importa. – Ela se levantou. – Estamos atrasados.

Notas finais
Como vocês viram, Kai pensou na possibilidade de Raoni ser um homem trans... Não é o caso, mas seria a primeira coisa que eu pensaria se fosse ele também. Para quem não se lembra, Uiyara é o nome da organização mágica da qual Raoni é a líder. E, por fim, explicando melhor as primeiras linhas do capítulo: Quando Raoni nasceu, uma menina-boto, seu pai a levou para avaliação do Karaí, ou o Xamã-Profeta, que disse "Mba'e vaieté" (algo muito ruim, em tupi). Isso foi visto como mau-presságio e, após muita discussão entre os anciãos, o "caso" foi abafado: Raoni seria criada como garoto, até que seu pai gerasse um novo herdeiro homem. Entretanto, ele não teve mais filhos, morreu prematuramente e Raoni o sucedeu.