Notas iniciais
Hétego: aquele que tem doença que provoca um definhamento evolutivo do organismo.

Ninguém nunca chegou tão perto.

— Quem é refém agora? – Sussurrou.

Só que aquela proximidade causou algum tipo de pane no sistema de Raoni. O coração, descompassado e as pernas, bambas como as de um hétego em estágio avançado. Faltava-lhe ar, mas aquele era um sufoco diferente.

— Não me subestime, humano. – Sua voz saiu rouca. Seus olhos azuis brilharam quando invocou o encantamento:

Ã’ã yvy, nhanderuvixa ohenói. Peẽ peju?

A força espiritual preencheu seu corpo. Com um movimento rápido, girou Kai, lançando-o, de costas, contra o soalho.

— Ai!

— Não me provoque. – Raoni saiu pela porta, antes que ele visse suas bochechas coradas.

Notas finais
“Ã’ã yvy, nhanderuvixa ohenói, peẽ peju?” significa: "Espíritos da natureza, seu mestre chama. Vocês virão?" Os Botos, neste universo, podem se conectar com a energia dos espíritos da natureza. Os espíritos estão em todo lugar, uma energia que pode ser acessada, desde que o encantamento seja feito corretamente. É por essa habilidade que os Botos são os líderes dos seres mágicos. Reparem que, na frase em tupi, Raoni se declara como mestre dos espíritos e pergunta se eles virão. Assim, caso eles não a achassem digna, poderiam se recusar. A relação entre os seres mágicos e os espíritos é de respeito mútuo. Outro detalhe que precisa ser esclarecido: quando o Naurú a pegou, ele carregava consigo um patuá que bloqueou o chamado de Raoni. Além da magia dos espíritos, os Botos possuem sua magia interna, que é bem mais sutil. Podem encantar, convencer e até seduzir humanos, um poder fortalecido com a Lua Cheia. Essa magia, Raoni notou no início da história, não funciona com Kai.