Roommate for Unknown

28 #28 Capítulo pra você que pensou que tava tudo bem


Notas iniciais
de volta aos flashbacks

Blaine ignorou o fato de seu carro ter um amassado na porta do motorista e resolveu não descontar o conserto da mesada de Leo, sabendo que o mecânico cobraria três vezes mais a quantia que o garoto recebia simplesmente por se tratar de um carro de luxo. Os dias foram passando em Lima e a amizade entre Leo e Calvin havia se transformado em um curioso começo de namoro. Os garotos viviam de flertes, assim como os pais na época da escola.

Tudo corria bem.

– Essa é a melhor notícia que eu poderia receber, Joey. — Blaine falava sorrindo no celular. O homem estava na quarto de hóspedes da casa, onde agora funcionava como quarto dos instrumentos. Kurt ouvia a conversa sem saber ao certo o que o ex-marido conversava animadamente no telefone. Deixou o livro de lado e ficou da sala tentando pegar alguma dica no ar. — É claro, eu tenho algumas músicas novas prontas e outras em andamento. Você não sabe como estou feliz agora, poderia abraçá-lo. — Gargalhou baixo. — Tudo bem, vou enviar por e-mail e você me diz o que achou. As partituras estão na nota errada, mas acho que consigo alcançá-las. — Kurt arqueou uma das sobrancelhas. — Tudo bem. Te vejo mais tarde, até.

O Anderson desligou a ligação e foi até a sala, onde encontrou o marido lhe encarando com uma feição confusa e logo foi tratando de se explicar.

– Era o Joseph. — Disse com um sorriso como se aquilo explicasse tudo.

– Isso eu ouvi. — Sorriu.

– Você lembra daquela gravadora que me ajudou anos atrás? New Records? — O mais velho assentiu rapidamente, não gostando do rumo que a conversa estava levando. — Eles resolveram contatar Joey, querem lançar um álbum meu com algumas músicas novas e regravar algumas antigas. Querem me colocar no mercado de novo. — Disse com um sorriso de canto de orelha.

– Blaine, que maravilhoso. — Kurt forçou um sorriso e se levantou do sofá, indo com passos firmes até o namorado. — Eu não sabia que você queria voltar à fama, não depois de tanto tempo. — Disse com certa insegurança.

– É uma coisa que eu e Joey estávamos planejando há alguns meses. — O moreno não notou o olhar preocupado do marido. Pegou suas mãos e dizia animado. — Vai ser maravilhoso. Eu nunca gostei de sair dos palcos e desde que Nancy apareceu e me disse todas aquelas coisas de fã eu fiquei encantado com a possibilidade de voltar!

– Fico feliz que você esteja bem. — Mentiu. — Você nunca me contou que havia terminado aquela música que estava escrevendo.

– Sim, eu terminei há algum tempo. A inspiração voltou e consegui escrever outras. Bom, agora eu tenho que pegar as partituras e me encontrar com Joey para passarmos as letras e tudo mais. Vou almoçar com Joey. — Beijou rapidamente os lábios do castanho. — Nos vemos a tarde?

– Claro. — Disse engasgado.

– Te amo, até.

E antes que Kurt pudesse responder alguma coisa, Blaine saía feito um foguete pela porta principal da casa, abraçado com algumas pastas e folhas. Não demoraram mais que alguns segundos até ouvir o ronco do motor de seu carro rua abaixo, assumindo que o moreno já havia ido embora.

O curioso é que Kurt ainda sentia sua garganta engasgada, como se ali tivesse algo o incomodando. E certamente tinha. Kurt não gostava da ideia de Blaine famoso novamente. Não que fosse mesquinho o suficiente para não deixar o moreno concluir seu sonho e voltar a cantar, sabia que a música era o que fazia o Anderson feliz, mas aquilo parecia errado. Uma sensação de nostalgia enorme, e de repente o Hummel se sentiu novamente quando tinha seus vinte e seis anos, perdido em sonhos e esperança.

"Blaine entrou correndo pela casa e pulou as caixas que ainda haviam espalhadas pelo corredor. Kurt terminava a mudança e irritado se perguntava onde estava o marido para o ajudar com aquelas caixas que faziam uma pequena parede na sala de estar. A ideia de remobiliar a casa havia sido dele, então onde estava para servir com as obrigações?

Haviam até deixado Leo com Burt para poderem terminar a faxina da renovada casa e arrumarem os móveis antes que pudessem se mudar de volta finalmente. Antes que pudesse reclamar com o moreno, Kurt era erguido do chão e Blaine o girava no ar, rindo abertamente.

– Você ficou louco?! — Perguntou o castanho curioso.

– Não, só estou feliz. Muito feliz! — Desceu Kurt, continuando com o castanho em seus braços. — Guy me ligou e confirmou que a gravadora está interessada em mim e que vai patrocinar meu novo álbum. Isso não é maravilhoso? Ele até citou que os donos da agência estavam pensando em uma turnê. Uma turnê, Kurt! — Blaine nunca pareceu tão feliz.

– Eu não estou acreditando. — Os olhos de Kurt estavam marejados ao ver o marido tão feliz. Estavam casados à dois anos e nesse tempo Blaine havia se tornado um cantor nacionalmente conhecido com suas músicas publicadas na internet, mas uma gravadora disposta a apostar tudo no Anderson era a maior e melhor notícia que poderia receber. — Isso merece uma comemoração!

Blaine sequer deixou Kurt continuar e beijou aqueles lábios com fervor, chupando a língua do mais velho e fazendo o Hummel perder o chão no melhor beijo de suas vidas. Afastou-se trazendo o lábio inferior do marido consigo, enquanto ainda tinha um sorriso triunfal no rosto.

– O que acha de passarmos a semana em Nova Iorque? Podemos ir até o Plaza, tomar muito cabernet, merlot ou qualquer outra coisa. Esse é o melhor dia de nossas vidas, Kurtie!

– Eu vou a qualquer lugar, desde que seja com você!"

Sorriu ao se lembrar da ingenuidade de ser mais novo, de como estava animado com a possibilidade antiga de Blaine viajar em tour sem saber que seria aquilo o começo de todas as brigas e discussões que vieram ao divórcio um tempo depois. E era isso que seu coração aclamava, era isso que estava preso na garganta de Kurt. Era a mesma gravadora, provavelmente o mesmo contrato abusivo com os mesmos patrões.

Lembrou-se de como sentia falta de Blaine enquanto o marido estava em tour, de ter que ficar em casa com Leo ainda criança aprendendo as coisas mais importantes da vida e o moreno não estar ao seu lado. Do primeiro dente de leite, dos primeiros passos e de quando Leo aprendera a escrever o próprio nome. Sentiu-se então engasgar pensando nas possibilidades que Blaine poderia perder em uma nova tour.

Nas coisas do filho que seriam importantes e que Blaine não estaria ao lado para ver. O primeiro coração partido com Calvin, ou então a conversa que os pais tinham com os filhos quando eles começavam a namorar alguém. Talvez o pedido de noivado e até o casamento. Tudo isso arruinado por um sonho bobo de continuar famoso... Mas não era bobo, era?

Kurt ponderou a pensar. Ele mesmo era um dos mais renomados estilistas da atualidade, de férias no momento, mas convocado pela as mais belas estrelas do cinema e da música. A honra de vestir um modelo Hummel nas passarelas era inigualável. Então absorveu tudo que havia feito. Nos modelos que havia recusado e nas oportunidades, todas por Leo. Lembrou-se das vezes que recusou desenhar para pessoas internacionais e se arrependeu amargamente por isso, apenas para estar com Leo nos momentos mais comuns, como uma noite de febre ou um joelho ralado de um passeio de bicicleta.

O castanho sempre havia aberto mão da carreira quando fora necessário para estar com o filho, porém Blaine... Bom, Blaine era o músico mais bem pago dos últimos anos. Os tabloides diziam que ele não tinha tempo nem para a própria família, e não estavam errados. E agora tudo voltaria... Kurt definitivamente não estava bem. Seus dedos deslizaram pela tela de vidro do celular e discou para a primeira pessoa que teve em mente.

– Pai? — Disse embargado.

[...]

Blaine estava estonteante e qualquer pessoa em Lima poderia dizer isso simplesmente por ver o músico com um sorriso enorme no rosto. A conversa com Joey havia sido boa, para não dizer esplêndida. Tudo havia corrido certo e o empresário agora tinha em mãos as novas letras do Anderson, junto com as partituras e todos os ajustes que haviam feito nas últimas três horas que passaram juntos.

Ao chegar em casa estranhou o silêncio do lugar, já que geralmente quando nesse horário Kurt e Leo discutiam sobre quem ficaria com o controle da TV, ou então Leo jogava algum jogo de video-game violento na sala enquanto Kurt preparava jantar na cozinha. Não dessa vez. Tudo estava um silêncio eterno e não era nem quatro horas da tarde. Caminhou até o andar de cima e entrou em seu quarto com o Hummel, encontrando o marido sentado na cama mexendo em algumas caixas.

– Kurtie? — Perguntou calmo enquanto entrava na luz fraca do quarto.

– Oi, Blaine.

O moreno pôde perceber a voz falha do marido, então caminhou com passos lentos e se sentou na cama ao lado de Kurt, podendo ver agora seus olhos vermelhos.

– Você estava chorando, meu amor? — Pegou sua mão livre.

– Eu estava pensando umas coisas... — Disse em um tom baixo.

– Você pode falar comigo, sobre qualquer assunto, eu vou estar sempre aqui por você. — Blaine sorriu fraco e aconchegou o marido em um abraço terno. — Vamos, me diga, o que te entristece?

Então Kurt disse. Disse todas as coisas que estavam guardadas, de como ele havia se sacrificado pelo filho e de como nunca tivesse recebido nada em retribuição, de como aquilo era ser um pai e de como estava com medo de que Blaine se ausentasse novamente durante essa nova possível turnê. Contou das vezes que Leo precisou dos dois pais e somente um estava por lá, das vezes que discava o número de Blaine no celular mas hesitava em discar. Blaine ouviu tudo com o coração quebrado, mas deixou o marido falar todas as coisas que o doíam para finalmente intervir. Foi no descanso de um suspiro que Blaine completou.

– Fique tranquilo, Kurtie. — Beijou a palma da mão do Hummel. — Você tem que esquecer as coisas ruins do passado. Eu estou aqui agora, nada vai acontecer, tudo bem? Leonard e você são os meus tesouros, as melhores coisas que aconteceram comigo até hoje e eu seria um louco se deixasse isso de lado novamente. Fiquei tempo demais separado de você pra deixar essas coisas acontecerem novamente, e sempre que pensar nisso lembre que minhas novas músicas são só sobre você, sobre como eu te amo e como nunca deixei de te amar. Kurt, eu... — Foi interrompido pelo som do toque de seu celular, mas resolveu ignorar por alguns segundos. — Eu aprendi com meus erros. Não há nada mais importante pra mim do que o meu marido e meu filho e... — O celular zumbia no bolso do moreno que estava começando a se sentir incomodado.

– Atenda. — Kurt disse em um sorriso fraco.

– Só um minuto. — Beijou o topo da testa do marido e colocou o aparelho no ouvido, atendendo a ligação de Joey um pouco irritado pela interrupção. — Não é um momento bom, Joseph.

"Guy e Lance estão na cidade." Joey disse como em um grito e Blaine perguntou-se Kurt poderia ter ouvido aquilo. "Você tem cinco minutos pra colocar um terno e nos encontrar na cobertura do Wallace Building. Eles não quiseram esperar pelo e-mail e vieram pegar suas músicas pessoalmente, Blaine. Isso é demais. Traga seu violão."

– E-eu não posso ir agora. — Engoliu seco tentando desviar os olhos de Kurt. — Estou no meio de uma coisa importante e... Não posso. Você não pode os mostrar as músicas sem mim? — Dizia embargado pela insegurança. Sabia como a reunião com os donos da gravadora era importante, mas não podia. Não agora.

"Você está louco?! Você seria o primeiro cantor a apresentar suas músicas para a gravadora sem estar aqui. Você ao menos se importa com sua carreira? Não era isso que trabalhamos nos últimos meses até tarde da noite?!" Blaine hesitou em responder. "Blaine, eu estou falando com você."

– Eu não posso, Joey. Já lhe disse. — Respondeu tentando ser firme.

– Vá. — Kurt interviu, fazendo Blaine o encarar rapidamente. — É importante, vá, Blaine. — Sorria fraco tentando ignorar que era exatamente aquilo que estava o chateando, coisas como aquela de reuniões surpresas e Blaine nunca ter tempo para conversar.

– Mesmo? — Colocou o aparelho no ombro tapando o auto-falante. — Eu posso ficar, Kurt. Não tem problema, eles vão entender e... — Foi interrompido.

– Eles não vão entender. — Forçou um sorriso torto. — Pode ir.

– Joey. — Blaine colocou o celular novamente na orelha. — Estou indo.

"Você tem quatro minutos."

O músico sorriu e desligou a ligação, voando pelo quarto se despindo da camiseta e do jeans apertado que usava para colocar uma roupa apresentável. Vestiu-se em um recorde de dois minutos, deu um selinho rápido no marido e correu escada abaixo, novamente sumindo rua abaixo junto com o ronco do motor de seu carro.

Kurt desceu as escadas após guardar a caixa de fotos e esperou o filho chegar do colégio. Hoje seria a primeira vez que Leo traria Calvin em casa como um namorado e não como amigo, então o castanho fez um café reforçado e esperava os adolescentes chegaram do colégio. Sua mente ignorava o fato de que Blaine estava perdendo também esse momento importante da vida do filho, mas logo seus pensamentos foram passados à porta onde Leonard entrava todo ensanguentado e machucado apoiado em Calvin, que estava no mesmo estado, um pouco menos.

– Leo, Calvin?! O que aconteceu?! — Kurt correu do sofá até o filho que mancava um pouco e tinha um dos olhos roxo. Sua boca estava ensanguentada e o olho esquerdo mal abria do inchaço.

– Uns idiotas. — Leo resmungou.

– Eles bateram em vocês?! — O genro assentiu lentamente enquanto caminhava com o namorado até o sofá da casa. Kurt sentiu o peito queimar. — Foi por causa da orientação de vocês?

– Acho que sim. — Calvin parecia mais calmo. — Na verdade eles vieram pra cima de mim e Leo comprou a briga, por isso que acabaram o machucando mais. Falaram coisas absurdas e depois foram embora. Perdemos o ônibus, por isso demoramos.

– Eu não acredito que esse tipo de coisa ainda acontece!

– Eu não estou tão machucado, mas acho que Leo torceu o tornozelo. Tentamos ligar para o Sr. Anderson no caminho, mas o telefone estava ocupado. — Kurt engoliu seco.

– Vamos, garotos. Vou levar vocês ao médico.

Kurt pegou a chave do seu carro e caminhou com o filho nos ombros até a garagem, não se importando mais uma vez em manchar sua roupa rara com o sangue do filho. Calvin foi no banco de trás contando como os neandertais agiram e nas coisas que falaram enquanto batiam nos dois. Contou também que um deles ficou desacordado por causa do soco que o Hummel-Anderson havia dado e em como aquilo só piorou as coisas pra Leo.

O caminho inteiro foi calmo, mas a mente de Kurt apenas gritava, mais uma vez, sobre o fato de Leo precisar do outro pai e ele não estar ali. E novamente as coisas pareciam se repetir e uma nostalgia nada boa atingiu o coração de Kurt.

Ele não aguentaria passar pela mesma coisa outra vez, aguentaria?

Notas finais
Quando vocês acham que tá tudo bem, eu vou lá e estrago tudo hihihihi