Roommate for Unknown

12 #12 Voltando a ser uma família "normal"


"[...] Era uma noite fria e cobertas não eram suficientes. Seria inevitável que ambos os corpos procurassem outra fonte de calor. Não demorou muito até Kurt e Blaine estarem abraçados na cama, dormindo como dois anjos. Foi por instinto do corpo. Nenhum dos dois homens se deu conta que estavam assim durante a noite, mas mesmo se percebessem, provavelmente não se distanciariam.

Leo que gostou da imagem que viu quando levantou pela manhã."

Blaine piscou lentamente assim que um raio de sol acertou um de seus olhos, suspirou vendo que a manhã já havia chegado. Ao tentar se levantar notou um peso em cima de seu braço direito e tentou esconder um sorriso ao ver que esse peso era um Kurt Hummel sonolento.

Pensou na possibilidade de passar mais algum tempo ali naquela cama, com aquele calor humano e aquela sensação boa que há tempos não sentia, mas o relógio marcava hora de levar o filho para o colégio. Em um ato rápido e desapercebido apertou Kurt em um abraço e o virou na cama, sem acordar o ex-marido.

Na sala Leo esperava um dos pais acordar enquanto tomava uma xícara de achocolatado e terminava de estudar para sua prova de história.

– Bom dia, Leo. — Blaine arrastou as pantufas até o armário onde pegou também duas xícaras e despejou um pouco de leite dentro de ambas. — Onde está o achocolatado?

Leo, sem tirar os olhos da postila, apontou para um lugar em especial em cima da pia. O pai assentiu e preparou as duas porções pensando que o filho não havia percebido. Ao tentar caminhar lentamente até o quarto segurando uma em cada mão ouviu o filho sussurrar: — Vamos conversar sobre isso no caminho, certo?

– Certo. — E sorrindo seguiu até o quarto. Encontrou Kurt sentado na cama, com olhos pesados do sono piscando contra o mesmo feixe de luz que o acordara mais cedo. — Bom dia, dorminhoco.

– Que horas são? — Apertou os olhos antes de encarar o ex-marido com os cachos todos revirados, adoráveis de uma maneira diferente.

– Sete e quarenta. — Entregou o achocolatado para Kurt. — Tome, vai te fazer sentir melhor. Vou levar Leo na escola e volto logo em seguida, tudo bem?

Kurt assentiu enquanto tomava um longo gole do chocolate em suas mãos. O moreno esperou alguns segundos para sair do quarto, e logo Kurt podia ouvir a porta principal sendo fechada.

– Então... Você e o papai dormindo juntos? — Leo esperou o carro entrar na rodovia para entrar nesse assunto. Blaine sorriu sem tirar os olhos da estrada.

– Queria que o deixasse dormir no sofá?

– Eu vi o sorriso que você chegou à cozinha hoje de manhã. — Leo tinha um sorriso maior que o do pai. — Vocês dois não me enganam. Ele também está caidinho por você.

– Leo, isso não tem nada a ve... E-ele está?

O filho caiu na gargalhada por pegar o pai, que continuou dirigindo fazendo força para esconder um sorriso. O filho infelizmente estava certo, havia acordado com um enorme sorriso no rosto por ter dormido com Kurt e isso... Isso não era bom. Levara anos para esquecer o castanho, não podia passar pelo capricho de se apaixonar novamente pelo Hummel.

– Pai? Já chegamos. — Leo olhava para Blaine com uma das sobrancelhas levantadas. — Eu hein?! Você vem me buscar ou ainda estou de castigo e vou pra casa de ônibus?

– V-venho te buscar. — Deu um beijo na testa do filho. — Boa aula.

Leo caminhou pra dentro do McKinley rapidamente, tentando esconder do pai que estava com um sorriso no rosto. Aproveitaria a aula no laboratório para enviar um e-mail rápido para Linda, que precisava saber o que estava acontecendo na vida do adolescente.

Blaine aproveitou que a casa estava cheia e passou no mercado para comprar alguns ingredientes para o almoço. Pensou em fazer seu famoso salmão defumado com brócolis (porque estava com vontade, não por ser o prato preferido de Kurt, não). Se atrasou um pouco mais do que o planejado fora, porém assim que o elevador parou em seu andar escutou música vinda de dentro do apartamento.

– Kurt, o que você está faz-... — Antes que Blaine pudesse largar as sacolas no balcão e correr até o castanho e o impedir de continuar a revirar as gavetas, Kurt respondeu.

– São novas? — Disse indo até Blaine com algumas folhas nas mãos, certamente partituras. Blaine largou as sacolas e arrancou as páginas incompletas da mão de Kurt.

– Não, velhas. — Caminhou até a gaveta onde o ex-marido havia achado. — Nunca consegui terminá-las, então desisti e foram para a "gaveta da perdição".

– Gaveta da perdição? — Tentou não soar muito irônico.

– Sim, é o lugar onde guardo as coisas que não são úteis pra nada, mas especiais demais para jogar fora. O-o que você fez no apartamento? -Finamente desligou o ipod, não conseguindo se concentrar antes ao ouvir sua própria voz.

– Eu estava limpando, até que achei as partituras e fiquei entretido demais para continuar. — Sorriu forçado e caminhou até as sacolas da feira. — Você deveria continuá-las, são muito boas.

– Já tentei várias vezes, mas aparentemente só consigo compor músicas pros outros. — Suspirou e caminhou até a cozinha junto com Kurt. — Essa faxina te deixou com fome?

– Um pouco. O que você tem aí? — Kurt se sentou na banqueta do outro lado do balcão enquanto observava Blaine tirar os ingredientes da sacola. — Creme de leite... Alcaparras... Brócolis... — Seus olhos criaram um brilho especial. — Blaine...

– Sim? — Continuou tirando as coisas da sacola, tentando esconder um sorriso maior que o de Kurt (se Leo estivesse no cômodo iria surtar com aqueles dois).

– Você não... — Kurt viu Blaine tirar da sacola algumas postas de salmão.

– Eu sim. — Sorriu finalmente encarando Kurt, porém apenas com alguns segundos. Logo colocava os ingredientes ao lado tentando colocar ordem na cozinha. Kurt acompanhava todos os movimentos de Blaine com os olhos vidrados no moreno. — Você... quer ajudar a preparar?

– Você deixaria? — Kurt parecia Leo quando Blaine permitia comer sorvete antes do jantar. O olhar com as pupilas dilatadas era o mesmo.

Blaine assentiu sorrindo e fez sinal para Kurt chegar mais perto. — Você pode ir colocando o peixe em uma tigela e colocar no microondas por 45 segundos. — Kurt assentiu. — Enquanto isso eu preparo o molho branco.

– Pronto. — Tirou a tigela do aparelho microondas quarenta e cinco segundos depois. Kurt parecia criança em seu primeiro dia de aula, com os olhos ainda brilhando. — Você pode cortar o salmão em tiras agora.

– V-você vai me deixar encarregado do salmão? — Perguntou com medo.

– Não é uma bomba, Kurtie. É só um peixe... — Sorria sem encarar Kurt.

– É que você está confiando em mim o mais importante do prato, e e-eu não sou bom e cozinhar, você se lembra do dia que deixei queimar o arroz e-... — Blaine segurou as mãos de Kurt que tremiam.

– Você vai ficar bem. — Assentiu fazendo Kurt sorrir. — Você só precisa cortar ele em tiras não muito finas, mas também não muito grossas porque senão ele não cozinha por dentro, tudo bem?

– É facil falar... — Kurt revirou os olhos em um tom divertido e começou a cortar o peixe. Enquanto isso Blaine colocava em uma tigela os aspargos e o creme de leite. — Você vai me revelar hoje seu "ingrediente secreto" pelo menos?

– Talvez. — Sorriu encarando Kurt rapidamente e depois voltando a atenção para a tigela. Ficaram em silêncio por alguns segundos até Kurt perguntar mais algumas coisas sobre o peixe, ou sobre o molho. Aquela estava sendo a aula mais divertida que Kurt já tomara.

– Isso é um saco. — Leonard se encostou no armário ao lado do de Calvin.

– O quê te fez ficar assim, Leo? — O menino fechou seu armário e deu um pouco de atenção ao amigo que revirava os olhos ao seu lado. — Qual é o problema?

– Todos! — Levantou as mãos ao alto. — Parece que todos me tratam diferente porque tenho dois pais, ao invés de um pai e uma mãe como todo o resto. E o que mais me irrita é que pensei que esse pensamento havia se acabado anos atrás. Na minha outra escola não era assim...

– Claro, um menino de escola preparatória... — Calvin gargalhou. — Se isso te incomoda tanto, vá na diretoria e converse com a orientadora. Ela vai te ajudar no que fazer.

– Vou chutar alguns traseiros, é isso que vou fazer. — Leo assentiu bufando, caminhando até a diretora. Calvin ficou pra trás e gargalhava baixo com o amigo.

A secretaria estava deserta, era quase horário de almoço. Alguns alunos voltavam para casa, outros comiam no refeitório. As funcionárias provavelmente já estavam a caminho de casa, e Leo quase deu meia-volta porém uma voz o chamou na sala da diretora. — Leonard? Entre, por favor.

– Com licença, diretora. — Ela assentiu.

– Como posso te ajudar? O que te incomoda?

– Todos. — Suspirou sentando-se à frente da mulher. — Todos me olham como se eu fosse uma aberração, e tudo porque tenho dois pais gays diferente dos outros.

– Entendo, no tempo de colégio dos seus pais acontecia a mesma coisa. A única diferença é que eles eram gays, e não os pais deles.

– Você os conheceu nos tempos de colégio, Sra. Sylvester?

– Eu era a diretora.

– Nossa, então você deve ser muito velh- Eficiente para estar no cargo há tanto tempo. — Leo tentou se corrigir, porém a treinadora lhe lançou um olhar reprovador. — E o que eles fizeram para parar?

– Nada. E é exatamente isso que você deve fazer. Os que te incomodam só fazem isso porque sabem que isso te afeta de algum jeito. A partir do momento que você parar de se importar, tudo irá parar. — O garoto revirou os olhos. — Talvez eles te incomodem por outro motivo, não especificamente seus pais. Você é gay também?

– Não! — Afirmou. — Bom, eu não sei... Eu nunca...

– Quantos anos você tem? Com a sua idade eu já participava de orgias com mais de quinze pessoas... — O adolescente arregalou os olhos com o segredo da treinadora. — Digo... Vá pra casa, tudo irá se resolver.

O garoto agradeceu e saiu da sala, caminhando até o estacionamento onde esperava o carro de seu pai vir o buscar. Não demorou muito o carro de Blaine apareceu ao longe, porém Kurt o dirigia. — Pai? — Perguntou ao entrar no carro. — Pensei que o papai viria me buscar.

– Ele ficou ocupado com o almoço. Bom... só um pouco porque eu fiz metade do prato. — Sorriu e deu partida assim que o adolescente entrara e colocara o cinto de segurança. — Aconteceu tudo bem na escola hoje?

– Sim. — Mentiu não sabendo que Kurt poderia distinguir quando o filho mentia ou não, porém o Hummel deixou esse assunto por ali mesmo. A conversa se encerrou até chegarem no edifício de Blaine. Almoçaram como uma família normal, independente se os pais eram gays ou se eram separados. Na percepção de Leo, finalmente pareciam uma família.

De: leonardhummelanderson@microx.com

Para: linda.applebee@yath.com

Assunto: Você não me odeia, odeia?

Ainda estamos brigados? As coisas estão acontecendo lentamente, mas estão. Linda, sinto taaaanto sua falta! Como estão as coisas aí? E o campeonato de ginástica, como está? Estou tentando ser um bom garoto para receber meu celular de volta, então poderemos conversar como antes. Bom, as coisas lá em casa não poderiam ser melhores. Meus pais estão caminhando lentamente para o casamento novamente. Hoje acordei e vi meus pais abraçados na mesma cama. Pois é, me segurei para não gritar. Depois vi meu papai (papai Blaine, pai Kurt, ok?) chegar na cozinha com um sorriso enorme! Eu sei que ele ainda gosta do pai, mas não sei porque vivem negando. Talvez o vovô possa me ajudar nas histórias do passado. Tenho a impressão que a morte de Douglas só uniu ainda mais nossa família, e agora que sei como é ter uma, não vou deixar isso escapar. Ah, e talvez nas férias de Julho convenço meu papai a me levar à Nova Iorque, afinal ele tem uma casa lá... Bom, é isso. Sinto sua falta! Mantenha contato.

Notas finais
E ficamos nisso por hoje!