Rony e Hermione na Terra dos Cangurus
3 Emoção e Crueldade
RONY
Eu realmente não devia ter feito aquilo.
Depois de vários momentos pensando no como Hermione ficava vulnerável em reação à mim, pensando no como aquilo poderia ser um ponto fraco que alguém mal intencionado poderia explorar, eu sabia muito bem que era estupidez e crueldade chantageá-la emocionalmente.
Mas quando Hermione falou que planejava partir sozinha no dia seguinte, o sangue simplesmente subiu à minha cabeça.
Eu havia prometido a mim mesmo que jamais ficaria longe dela. Vê-la desafiar essa promessa me deixou ainda mais furioso. Hermione e suas malditas convenções éticas...
Não esperava derruba-la no chão. Santo Deus, eu nunca teria feito isso conscientemente. Quando a vi se erguer, irritada, fiz a única coisa que ao mesmo tempo possibilitaria acalma-la e convencê-la. Apenas a puxei para mim e a beijei.
Ela tentou resistir. Estava furiosa, dava para perceber — como eu só a vira estar quando estava vampirizada semanas atrás. Seu corpo estava rígido e ela empurrava meu peito com os braços. Mas assim como chocolate no fogo, sua resistência foi derretendo aos poucos. Ela parecia estar quase convencida...
E foi nesse momento que Hermione me empurrou, me encarando de boca aberta, simplesmente furiosa.
– Será que isso responde o por quê eu tenho que ir com você? — indaguei.
Pensei que ela ia avançar em mim, mas Hermione apenas piscou, a boca tremendo, parecendo indignada, e se virou em direção à cama. Ela bufava, lembrando vagamente um cão raivoso, enquanto conjurava uma maleta, aonde começou a guardar algumas coisas, sem realmente prestar atenção ao que fazia.
Para minha surpresa, ela conjurou uma segunda maleta ao lado da sua.
Me senti ao mesmo tempo orgulhoso e envergonhado ao ver que havia conseguido, mesmo que provisoriamente, um consentimento de má vontade para acompanha-la.
Me adiantei e comecei a organizar a maleta que Hermione conjurara, sem dizer nada.
Agora que eu fizera aquela chantagem estúpida, tudo me pareceu ter sido uma burrice egoísta e hedionda da minha parte. Eu queria me desculpar por convence-la de modo tão cruel, mas não podia arriscar que ela retaliasse outra vez minha disposição de segui-la até a Austrália. Achei que valia a pena ter apenas um pouco de sua mágoa e irritação se isso permitisse que eu ficasse ao seu lado. Não podia pedir desculpas... não naquele momento, pelo menos. Então permaneci calado.
O resto do dia se passou sem que Hermione me dirigisse uma única palavra. Papai e mamãe não perceberam o muro invisível que nos separava durante o almoço e o jantar, mas Gina, com seu dom de dedução, analisava cada tijolo dele, completamente pasma.
Quando Hermione foi dormir no quarto de Gina, sem nem se despedir — pelo menos de mim — Gina saiu dele, fechando a porta atrás de si, e me encarando curiosa.
– O que estão fazendo?
– Vamos para a Austrália amanhã...
– É O Q... — Gina começou a exclamar, antes que eu tapasse sua boca com a mão.
– Psiu — ralhei com ela, olhando ao redor — não é pra você falar para ninguém.
– Eu não falo, não se preocupe — Gina revirou os olhos, tirando minha mão de seu rosto com um tapinha — mas é bom vocês partirem o mais cedo possível, então. Mas a minha pergunta na verdade era... sabe... — ela indicou a porta com o polegar- o que você fez com essa menina...
– Ahn... ela não queria que eu fosse — dei de ombros, envergonhado — então eu... a convenci.
Gina balançou a cabeça, chocada.
– Caramba, Rony. Caramba! — ela bateu as mãos na cintura — mas você realmente é um legume insensível de primeiro escalão... Precisava maltratar os sentimentos de Hermione desse jeito... depois de tudo que essa menina passou?
– Infelizmente, sim — suspirei — de outro modo, ela ia fazer de tudo para que eu não fosse. Você sabe disso.
– É, tem razão — Gina cruzou os braços — mas assim que vocês chegarem lá, trate de pedir desculpas para a garota. Ou eu duvido muito que essa relação de vocês, seja qual for, vá durar muito tempo naquele calor de trinta e dois graus. Não vai querer passar o resto dessa viagem com ela emburrada ao seu lado, vai?
– Acho que não — bocejei, concordando.
– Bom... eu e Harry vamos tentar despistar papai e mamãe até vocês irem. Você sabe que eles vão ficar furiosos, não é? Mamãe provavelmente vai só esperar você voltar para te enforcar.
– Sim, sei, Gina — resmunguei.
– Beleza, então — ela deu uma risadinha de cumplicidade, e, para meu espanto, me abraçou — boa noite, maninho. E vê se toma cuidado nesse passeio na Austrália... vocês dois.
Retribuí seu abraço. sorrindo.
– Pode deixar...
– Até daqui à dois meses — ela brincou, fechando a porta e acenando.
Fui para meu quarto, sentindo o peso na consciência de ter "maltratado" Hermione me esmagar até eu adquirir a provável estatura de uma barata.
Harry estava na parte de cima da beliche do meu quarto quando entrei.
– Então... você vão amanhã mesmo?
– Vamos — me deitei na parte de baixo — assim que o dia amanhecer.
– Bom... — Harry deu um enorme bocejo, e eu senti as molas do colchão acima de mim rangerem quando ele se virou — boa noite... e boa sorte para vocês dois.
– Boa noite, Harry — deitei de lado. pousando a cabeça no travesseiro.
– Rony?
– O quê?
– Tentem aproveitar esse tempinho... sabe... — ele riu — para se acertarem.
– Espero que isso aconteça, cara — fechei os olhos, me sentindo exausto — espero que isso aconteça...
Em alguns minutos, acabei caindo no sono, pensando no como coquinhos eu iria acalmar a fera que eu acompanharia até a Austrália na manhã seguinte.
Acordei sobressaltado de um pesadelo que envolvia luzes verdes, sangue e gritos.
Mas o sangue e os gritos do sonho me eram desagradavelmente conhecidos... pertenciam à garota que provavelmente ainda dormia no quarto ao lado.
"Vai ficar tudo bem", eu disse a mim mesmo, enquanto tentava me acalmar. "Vai dar tudo certo... nada de mal vai nos acontecer...".
Eu não fazia ideia do quanto estava enganado.
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