Rony e Hermione na Terra dos Cangurus
26 Armações e Despedidas
HERMIONE
Eu e Rony, junto de meus pais, decidimos esperar mais um dia, até que Nyree recebesse alta do hospital, antes de pegarmos o avião de volta para Londres. A transportadora aérea que levaria os móveis e demais apetrechos da clínica já havia mandado um caminhão até o hotel, onde tudo foi devidamente encaixotado e mandado para o aeroporto. Iríamos partir no dia seguinte.
Durante o decorrer do dia, Darel parecia recuperar aos poucos o humor e a alegria, enquanto ligava de hora em hora para o hospital e ouvia a voz da namorada do outro lado da linha. Papai e mamãe pareciam encantados da vida com a figura boba e apaixonada do nosso amigo maori.
Rony olhava para essas demonstrações melosas de afeto com uma estranha cumplicidade. Corei ao pensar que talvez ele também se sentisse como Darel.
Eu era só mais uma garota nesse mundo enorme... e Rony andava me tratando como se eu fosse a única garota nele.
Era assustador... mas era deliciosamente maravilhoso também.
Imaginar aquele ruivo insuportável que foi meu amigo durante anos e tentar concilia-lo com esse novo Rony carinhoso, desbocado e sensível era muito complicado para meu cérebro digerir. Pela primeira vez na minha vida, não conseguia explicar algo racionalmente.
– Ela está bem melhor — comentou Darel — disse que está ficando um saco ficar deitada numa maca olhando para o teto.
– Imagino — ri, contente por saber que Nyree estava melhorando — você sabe se chegou alguma coruja para nós?
Darel girou os polegares para o teto.
– Uma ou duas, trazendo umas cartinhas vermelhas.
Droga... deviam ser novos berradores da Sra. Weasley.
Meu estômago afundou um pouco. Finalmente voltei a ficar arrependida por ter causado tudo isso na vida dos Weasleys.
"Mas a culpa não foi sua", minha mente tentou me absolver. "Foi aquele panaca que te seguiu como um cachorrinho..."
Era verdade. Aquele pateta veio mesmo quando eu não queria. Revirei os olhos mentalmente. Ah, Rony... aquele moleque não existia...
– Ele queimou as cartas? — indaguei.
Darel piscou.
– Sim... mas mandou um patrono janela afora — ele deu de ombros.
Arregalei os olhos, surpresa. Rony havia mandado uma mensagem de volta para a Inglaterra? Provavelmente avisou que estaríamos voltando em breve para casa...
Falando no diabo, vi Rony surgir afobado dentro do quarto, com os olhos saltados.
– Hermione, rápido! Vem comigo! — ele puxou minha mão, enquanto meu coração dava um salto. O que havia acontecido?
Darel nos seguiu enquanto Rony me guiava pelo corredor e descia as escadas correndo.
– O que foi, Rony? — disse, arfando, colada em suas costas.
Ele não respondeu. apenas continuou andando muito rápido.
Darel o alcançou, mas eles dobraram um dos corredores do hotel e desapareceram entrando em uma das portas, de onde se via uma fresta sem iluminação.
Entrei correndo dentro da escuridão do cômodo, imaginando o que diabos era tão sério para justificar toda aquela correria.
E quase morri do coração quando a luz do quartinho se acendeu.
– SURPRESA!!!!
Tapei a boca com as mãos, chocada, quando meus pais e Rony riam com meu susto. Darel ergueu as mãos, como quem se exime de culpa.
Havia um aro de bexigas ao redor de uma mesinha encostada na parede. Em cima dela, um bolo com glacê marrom e dezoito velas era rodeado por vários brigadeirinhos e docinhos finos. Havia quatro caixas de presente amontoadas ao lado da mesa.
Meu Deus... era meu aniversário!
Eu tinha esquecido completamente...
– Feliz aniversário, filha! — mamãe batia palmas, parecendo uma menininha.
Com tanta coisa acontecendo nos últimos dias, eu nem estava preocupada com meu aniversário. Eu achava que nem precisava me preocupar, já que não tinha muitas esperanças de viver o suficiente para comemora-lo. O bunyip que me atacou podia confirmar isso.
– Que droga, Ronald! — exclamei como quem dá bronca, mas, no fundo, morria de rir — foi você que armou essa patacoada toda?
– Foi — Rony exibia um sorriso tão lindo que senti minha barriga gelar de carinho — eu lembrei seus pais... não, espera... — ele riu, batendo de leve no ombro de papai, que gargalhava.
Me aproximei da mesinha, envergonhada.
– E o parabéns? — disse Darel.
Ri enquanto todos cantavam parabéns para mim, me sentindo sem graça com tanta atenção. Eles haviam me pegado de surpresa. Que armação...
– Ande, querida! — mamãe me abraçou, sorrindo — assopre as velas. faça um pedido.
– Ah, mãe. Passei da idade — brinquei.
– Deixe de chatice, Hermione — Rony bateu de leve em minhas costas — pede logo.
Pus o dedo na boca, fingindo pensar. O que eu poderia pedir?
Bom, eu já tinha amigos que eu amava demais da conta. Minha família agora estava de volta. Ia voltar à estudar em breve. Tinha um namorado que superava minhas expectativas a cada dia.
Putz... o que uma menina que já tinha tudo poderia querer?
Olhei para Rony e me peguei pensando... o que faltava para uma garota assim ter uma vida completa?
Estendi meus dedos sob a mesa, e sacudi o anular. Ah...
"Ah, que se dane. Cedo ou não, ridículo ou não, é o meu pedido... é só o que me falta nessa vida miserável", brinquei com minha mente.
Assoprei as velas com força, pensando fixamente num lindo aro dourado circulando aquele dedo.
Todos bateram palmas. Darel assoviou.
– E aí, o que você pediu? — perguntou Rony.
Ah, não. Eu nunca iria falar para ele. Nem pensar.
– Contar dá azar — resmunguei, olhando quase cobiçosa para os presentes ao lado da mesa. Apanhei um, que tinha um embrulho dourado — de quem é esse?
– Meu e de Nyree — Darel revirou os olhos — ela insistiu que eu comprasse alguma coisa...
Abri o presente, curiosa. Enfiei a mão na caixa, e puxei-a, trazendo algo pequeno e macio entre meus dedos.
– É um lenço de pescoço — ele riu — Nyree falou que você ficaria linda com um.
– Ahn... obrigada — agradeci, amarrando o lencinho vermelho em minha nuca — como estou?
– Lindinha — Darel comentou, antes de ser fuzilado pelos olhos chocados de Rony — que foi? É um fato...
Mamãe riu, balançando a cabeça.
– Tá bom... — desmanchei o nó do lenço e o coloquei em cima da mesa, rindo. Peguei outro da pilha, de cor madeira com laço verde — e este aqui?
– Meu — papai ergueu a mão.
Desembrulhei correndo, ansiosa. Trouxe em minhas mãos algo mais pesado e duro do que o último presente.
– Um livro — olhei para papai. Era tão previsível... ele acertava sempre.
– Você disse outro dia que queria a coleção original dos contos dos Grimm.
Fui até papai e o abracei, segurando minha edição definitiva de contos de fadas na mão.
– Obrigada, papai!
– Não por isso, gatinha — papai segurou o livro, inclinando a cabeça — vá lá abrir o próximo...
O presente seguinte era rosa-choque. Dengoso e mimado, como o de toda mãe.
Mamãe piscou e apontou com o queixo, me incentivando a abrir.
Fiquei corada ao distinguir um conjunto de lingerie. Tipo, uma lingerie francesa, com babados e tudo. Nem tive coragem de puxar muito para fora.
– Mãe... — gemi, horrorizada e, ao mesmo tempo, contente — ah, nossa... obrigada.
Ela sacudiu a cabeça, deixando os três homens no recinto com a confusão estampada nos rostos. Devolvi a embalagem para a pilha.
Finalmente, fui para o último presente.
Ergui uma sacola ocre, toscamente fechada. Já até sabia de quem era...
– Rony — murmurei enquanto abria a sacola. Ele deu um sorriso culpado.
Quando abri, porém, fiquei surpresa com outra embalagem na sacola. Era uma caixinha preta, de veludo, em forma de coração.
Será que papai estava vendo isso? Ih, rapaz...
Abri a caixinha delicada, sentindo meu rosto se estender de felicidade e vergonha quando focalizei o lindo colar prateado que estava aninhado no veludo vermelho dentro da caixa.
Puxei a correntinha, exibindo-a para todos. Pendurado no colar, havia um pingente com um tipo de laço que tinha a forma de um oito.
– Símbolo do infinito — murmurei, baixo o suficiente para que só Rony ouvisse. Ele assentiu, sorrindo.
– Que lindo, filha — arfou mamãe, arregalando os olhos para Rony.
Rony puxou a corrente de minha mão, abrindo o colar e colocando-o em meu pescoço. Afastei meu cabelo para que ele enxergasse, e tive que disfarçar um arrepio de prazer quando seus dedos deslizaram por minha nuca.
Olhei para baixo quando Rony terminou. O pingente contrastava belamente com minha blusinha azul-marinho. Ela lindo... devia ser de prata.
Senti minha garganta se fechar de um modo gostoso.
– Rony, eu... — pisquei, comovida — obrigada. É maravilhoso.
Rony sorriu em resposta... um sorriso avassalador de alívio. Meu coração bateu mais rápido só de ver aquilo.
Beijei sua bochecha rezando para que papai não esse um chilique e ciúme, e o abracei.
– Bom... chega de presentes — Darel bateu as mãos uma na outra — hora de comer!
A festinha durou pouco mais de uma hora após aquilo. O bolo — cortesia do hotel para os hóspedes aniversariantes — estava delicioso. Fiquei surpresa ao saber que havia sido Rony o talentoso chef que fizera os brigadeiros, que também estavam fantásticos.
Depois que a salinha de festas foi limpa e reorganizada, saímos de lá, voltando à suíte. Papai e mamãe haviam ficado com o quarto de Darel, que iria dormir no chão com um saco de acampamento que trouxera.
Sem querer abusar da sorte, com meus pais na suíte do lado, não me arrisquei a me "entreter" com Rony antes de dormir — tive que garantir à papai que haveria um muro impenetrável de castidade entre nós (o que significava nem olhar para Rony na hora de dormir). Apenas recebi meu segundo presente de aniversário — um beijo ardente que quase me fez entrar em combustão -, agradeci Rony com uma lágrima intrometida no olho, o abracei e obriguei-nos à dormir.
___________________ O______________________
No dia seguinte, fomos acordados por um Darel completamente animado.
– Nyree voltou. A ambulância a trouxe de volta — o garoto parecia querer saltar como um canguru de felicidade.
Descemos, já com as malas prontas para partir, para receber Nyree na entrada do hotel.
A maori estava toda enfaixada, mas, fora isso, parecia perfeitamente bem. Soria para nós, enquanto cumprimentava meus pais.
Abracei-a com cuidado, não querendo machuca-la, mas fui engolfada por um abraço bem apertado de minha amiga.
– Nossa... — brinquei — você realmente está bem melhor — virei os olhos em direção ao chão, sem graça, e sussurrei para ela — Nyree... quanto à Kristina, eu...
– Pare, pare — Nyree franziu o cenho... parecia tanto com Darel ao fazer aquilo... — você não teve culpa de nada.
– Vamos? — chamou papai, abrindo a porta traseira da Hilux alugada de Darel. Entramos no carro, e foi só quando estávamos já acomodados que percebemos a ausência de alguém no automóvel.
– Nyree! — arfei, colocando a cabeça para fora da janela.
Ela sorriu, segurando minha mão.
– Não vou caber aí dentro, senhorita — ela parecia arrasada e triste, embora sorrisse — vou ficar aqui, hospedada com um amigo de Darel... Queria agradecer.. — ela balançou os ombros — por tudo. Por trazerem Darel de volta para a aldeia... de volta para mim...
Nyree se aproximou do banco do motorista, de onde Darel a encarava, surpreso e feliz, e plantou um beijo carinhoso na boca do nosso guia. Rimos baixinho quando Darel arregalou os olhos, parecendo ter gostado do beijo.
– Volte logo — Nyree piscou.
– Sim, senhora — Darel beijou a mão de Nyree, sorrindo.
Nyree se afastou, acenando para nós. Senti meus olhos arderem e um soluço bobo se formar em minha garganta.
Acenei de volta para ela, sorrindo. Ia sentir falta daquela maori maluquinha.
– Adeus! — funguei, junto com Rony.
– Cuide-se, querida! — disse mamãe, se despedindo também.
Darel olhou uma última vez para a namorada, parecendo um pouco preocupado, mas deu partida no carro e o colocou na rua.
Ao menos para ele, aquilo seria um "até logo", e não um adeus.
Vimos a silhueta de Nyree ficar cada vez mais distante, até que o Hilux virou e Nyree desapareceu no horizonte.
__________________O___________________
Chegamos ao aeroporto meia hora antes do voo, o que veio a calhar, já que pudemos nos despedir de Darel com maior dignidade.
Enquanto meus pais organizavam a bagagem com um funcionário, eu e Rony conversávamos com Darel.
– Você nunca vai fazer ideia — eu disse, suspirando — do como me ajudou... nos ajudou... nessa viagem. Nunca vou poder retribuir o que você fez por nós.
– É, cara — Rony completou — você ganhou meu respeito e minha amizade agora...
Darel sorriu, nos dando um bizarro mas agradável abraço coletivo.
– Vocês já me retribuíram... me tiraram do marasmo do escritório turístico, me deram uma viagem empolgante — ele riu — me ajudaram a reconquistar Nyree — Darel piscou — essa última eu nunca vou poder retribuir mesmo.
– Seu bobo — bati de leve em seu peito.
– Está tudo pronto — avisou mamãe — vamos?
– Vamos — apertei a mão de Darel — nos vemos por aí, bombadão — brinquei — cuide bem da Nyree...
– Vai ser meu objetivo de vida agora, senhorita Granger — Darel respondeu, sério, antes de estragar a máscara com um sorriso encantador.
Viramos em direção à alfândega, já sentindo uma bruta saudade daquele maori encrenqueiro. Acenei uma última vez para Darel antes de abraçar a cintura de Rony e me dirigir ao avião que nos levaria para casa.
Fale com o autor