Rony Weasley e a Câmara Secreta
16 A Câmara Secreta
Notas iniciais
Fazia alguns dias que Rony não conseguia mais que alguns minutos por noite. As lembranças da Floresta Proibida ainda estavam vívidas em sua mente, e o pouco tempo que passou não foi o suficiente para fazer sua mente amenizar seu trauma; Rony continuava assustado, achando que a qualquer momento uma aranha gigante ia pegá-lo. Estava tão na defensiva que quase matou o sapo de Neville, Trevo, que sem querer encostou na barra de sua calça, achando que era uma aranha que tinha aparecido por ali. Porém o tempo foi capaz de esclarecer as coisas em sua cabeça: a descoberta que poderia mudar tudo, mas possivelmente tarde demais – Definitivamente a garota morta há cinquenta anos era a Murta-Que-Geme.
— Tantas vezes estivemos naquele banheiro, e ela ali a apenas três boxes de distância — Rony resmungou na mesa de café, no salão principal, dando um longo bocejo —, e poderíamos ter perguntado a ela, agora vai ser impossível! Aquele banheiro vive vigiado pois está ao lado da cena do primeiro ataque. Será difícil despistar os professores.
Porém a professora Minerva conseguiu tirar todo o foco da Câmara Secreta e das descobertas que fizeram ainda nos primeiros minutos de aula, quando anunciou que as provas chegariam em uma semana.
— Exames? — gritou Simas Finnigan. — E vamos ter exames?
A turma inteira se alvoroçou e começou a falar ao mesmo tempo, e na bagunça Neville deixou cair sua varinha, fazendo desaparecer sua carteira, caindo estatelado no chão. A professora restaurou-a com um aceno da própria varinha e se virou de cara amarrada para Simas.
— A razão de se manter a escola aberta neste momento é para vocês receberem educação — respondeu ela duramente. — Portanto, os exames vão se realizar normalmente, e confio que vocês estejam estudando a sério.
Rony balançou a cabeça, incrédulo. Com tudo o que estava acontecendo, jamais imaginou que aplicariam os exames finais. Já estava indo mal nos estudos por não ter uma varinha decente e por isso não ter conseguido cumprir nenhum feitiço sem causar um acidente, e depois que Mione fora petrificada, tudo que pensava era tirá-la o mais rápido possível daquela situação. Não tinha cabeça para pensar em como transfigurar colheres em estantes quando havia tanta coisa preocupando-o. Todos os alunos começaram a protestar, e a professora amarrou ainda mais a cara.
— As instruções que recebi do Profº. Dumbledore foram no sentido de manter a escola funcionando o mais normalmente possível. E isto, não preciso dizer, significa descobrir o quanto os senhores aprenderam neste ano.
Ia reprovar e ia reprovar feio. Sem Mione para lhe dar aulas particulares, sem varinha para fazer feitiços... Se parasse para pensar, não havia rendido quase nada naquele ano, especialmente em feitiços e transfiguração. Sua mãe ia matá-lo, sem dúvida nenhuma disso.
Os dias passaram com os professores passando milhares de revisões. Rony continuava dormindo mal, primeiro porque devido a ansiedade pelos exames que estavam por vir, estudava feito louco até tarde da noite, aproveitando cada exercício passado, cada anotação feita, segundo porque vinha tendo pesadelos constantes envolvendo aranhas gigantes que o seguravam pela cintura que o acordava no meio da noite gritando. Se Mione não tivesse petrificada, certamente ficaria orgulhosa de sua dedicação. Ainda assim, mesmo que conseguisse aprender tudo que os livros tinham a ensinar, sabia que não seria o suficiente para passar, pois não havia condição de realizar os exames práticos sem uma varinha. A primeira notícia boa que recebeu desde então foi três dias antes dos exames, no café da manhã, quando a professora Minerva anunciou que as mandrágoras já estavam prontas para serem colhidas e trazer as pessoas petrificadas de volta. Assim elas poderiam dizer finalmente o que as atacou e principalmente, teriam Mione de volta.
— Então, não vai fazer diferença falar com a Murta. Mione provavelmente terá todas as respostas quando a acordarem! — disse Rony a Harry. — E mais, vai endoidar quando descobrir que vamos ter exames dentro de três dias. Ela não estudou. Seria melhor que a deixassem onde está até os exames terminarem.
Harry riu.
— Mione vai pirar mesmo. Mas sobre a Murta, eu ainda acho que deveríamos...
Nesse instante Gina se aproximou e se sentou ao lado de Rony. Ela estava tensa, abria e fechava a boca repetidas vezes, torcendo as mãos no colo. Com tanta preocupação esqueceu-se de Gina. Desde o início do ano sua irmã não era nem de perto o que costumava ser. Passou o ano todo sozinha, isolada, mal conversava com as pessoas e parecia sempre assustada. Já tinha tentado falar com ela algumas vezes, mas era sempre esquiva, e isso já estava o deixando irritado.
— Que foi que aconteceu? — perguntou preocupado.
Ela olhou de um lado para o outro, aflita, como se alguém a observasse.
— Fala logo de uma vez! — Exclamou Rony, observando-a.
Ela se balançava para frente e para trás, sem parar de espiar por cima dos ombros. Já ia brigar com ela novamente quando finalmente abriu a boca.
— Tenho que lhe contar uma coisa — murmurou Gina de cabeça baixa.
— O quê? — Harry perguntou curioso.
Gina fez uma careta, tentando achar as palavras certas.
— Que é? — Rony bradou, impaciente
Harry repreendeu-o com o olhar. Ele chamou Gina com a mão e se curvou na direção dela, puxando Rony junto.
— É uma coisa sobre a Câmara Secreta? Você viu alguma coisa? Alguém se comportando estranhamente? — Harry cochichou.
Rony quase riu de Harry. Gina não estava envolvida com aquele tipo de coisa... não é? Ele virou-se para a irmã, que suspirou, olhando de Rony para Harry, tomando coragem, e em a seguida abriu a boca para falar.
— Se você já terminou de comer, fico com o seu lugar, Gina. Estou morto de fome. Acabei de ser liberado do serviço de vigilância.
Gina deu um pulo da cadeira, com a mão no peito, respirando rápido. Percy estava atrás dela, esperando que se levantasse, impaciente. Ela virou-se para Rony com os olhos marejados e em seguida saiu correndo. Gina não chorava, poderia contar nos dedos as vezes que a viu derramar alguma lágrima. Seu irmão mais velho se sentou e pegou uma caneca no meio da mesa.
— Percy! — bradou Rony. — Ela ia começar a nos contar uma coisa importante!
O rosto de Percy ficou vermelho vivo na mesma hora, e engasgou-se com o chá que tinha acabado de levar à boca.
— Que tipo de coisa? — perguntou desesperado.
— Ela estava muito nervosa. — Rony começou a dizer — Acabei de perguntar se tinha visto alguma coisa estranha com relação à História da Câmara Secreta e ela começou a dizer...
— Ah, isso, não tem nada a ver com a Câmara Secreta — disse Percy na mesma hora.
— Como é que você sabe? — perguntou Rony desconfiado.
— Bem, se você faz questão de saber, Gina, hum, esbarrou comigo no outro dia quando eu estava... Bem, não importa, a questão é que ela me viu fazendo uma coisa e eu, hum, pedi a ela para não contar a ninguém. Devo dizer que achei que ela ia cumprir a promessa. Não é nada, verdade, só que eu preferia...
Percy estava completamente sem graça, apertando as mãos na frente do corpo, nervoso, e seu rosto atingindo uma coloração cada vez mais vermelha. Ele estava escondendo alguma coisa, e constrangedora. O sinal de “irmão mais novo querendo tirar sarro do mais velho” apitou em sua mente na mesma hora.
— O que é que você estava fazendo, Percy — Rony cutucou o irmão. — Vamos, conte para a gente, não vamos rir.
Percy bufou, empurrando Rony para longe, irritado.
— Me passa esses pães, Harry, estou morto de fome.
Assim que encontrasse Gina novamente iria persuadi-la a contar o que de tão constrangedor Percy estava fazendo.
O problema é que aquela foi a última vez que viu sua irmã.
Ainda procurou-a pelo caminho enquanto voltavam da aula de Lockhart no meio dos outros primeiranistas mas nada de Gina. Esse sumiço repentino começou a preocupa-lo. Ela estava mais nervosa que o normal, delatar Percy não a deixaria daquele jeito. E se não fosse sobre ele o que ela queria falar?
Por hora teve que parar de pensar em Gina, para dar lugar a aula de Defesa Contra as Artes das Trevas. Ele podia estudar sobre a vida dele sozinho, já que era isso que tinha de conteúdo das aulas. Naquele momento poderia estar estudando outras matérias, ou até mesmo falando com Gina. Mas não, tinha que ouvir o professor falar que ele não estava bem arrumado e que seu cabelo não estava mais tão sedoso quanto de costume pois estava vigiando o quarto andar, o que, segundo ele era besteira, pois o mistério da Câmara estava solucionado, com sua ajuda é claro, e que a primeira coisa que os alunos petrificados diriam quando acordasse seria “Foi Hagrid”, e que as medidas de segurança como acompanhar os alunos até suas salas já não eram mais necessárias
— Concordo professor — disse Harry, convicto, dando um sorriso à Lockhart.
Rony tomou um susto com a atitude do garoto, derrubando os livros que carregava no chão..
— Obrigado, Harry — Disse o professor, e virou-se para juntar os livros com um aceno da varinha. Enquanto ele estava distraído, Harry sorriu, piscando para Rony, e então ele entendeu onde seu amigo queria chegar. — Quero dizer, nós, professores, já temos muito o que fazer sem ter que acompanhar alunos às aulas e ficar de guarda a noite inteira...
— Tem razão — Rony concordou solícito — Por que o senhor não nos deixa aqui, só temos mais um corredor pela frente...
— Sabe, Weasley, acho que vou fazer isso. Preciso mesmo preparar a minha próxima aula...
Os meninos esperaram até que o professor sumisse de vista para finalmente pararem de andar.
— Preparar a aula — Rony debochou — É mais provável que vá é enrolar os cabelos.
Eles despistaram os outros alunos de sua classe e correram desembestados na direção do banheiro da Murta Que Geme. Já estavam quase lá quando Rony trombou com quem menos gostaria se encontrar naquele momento:
— Potter! Weasley! Que é que os senhores estão fazendo?
Era a Profª. McGonagall, e seus olhos faiscavam na direção dos meninos. Rony sentiu o sangue sair de seu rosto, certamente ganhariam uma detenção.
— Íamos... Íamos... — gaguejou, tentando pensar em algo — Íamos... Ver..
— Mione — disse Harry de repente, seu semblante era triste e sua voz baixa. Rony não tinha entendido nada, até levar um pisão no pé do amigo, então fez a mesma expressão. Não sabia o que ele pretendia, mas ia confiar em Harry — Não a vemos há séculos, e pensamos em entrar sem sermos vistos na ala hospitalar, sabe, e contar a ela que as mandrágoras já estão quase prontas e... Para não se preocupar...
Apelar para o emocional, claro. Rony jamais iria pensar numa coisa daquela tão rápido, talvez nem mesmo se tivesse tempo de pensar. Rony se empenhou em fazer o semblante mais triste que conseguiu fingir. A professora ficou um tempo calada, e quando pensou que ela não tinha caído no teatro deles, ela falou com a voz estranhamente rouca:
— Claro — disse, e uma lágrima escorreu por seu rosto. — Claro, compreendo que isto tenha sido mais duro para os amigos dos que foram... Compreendo bem. Está bem, Potter, Weasley, é claro que os senhores podem ir visitar a Srta. Granger. Vou informar ao Profº. Binns onde foram. Diga a Madame Pomfrey que têm a minha permissão.
Os garotos andaram a passos apertados sem nem sequer olhar pra trás, mal acreditando na sorte que deram. Um pouco distante, ainda a ouviram assoar o nariz.
— Essa foi a melhor história que você já inventou. — Rony parabenizou Harry, que riu.
Não tiveram escolha senão ir até à ala hospitalar ver Hermione. Mesmo com a autorização da professora Minerva, Madame Pomfrey relutou para deixá-los entrar, dizendo que não tinha sentido nenhum conversar com uma pessoa petrificada. Não tinha mesmo, mas precisavam manter o disfarce. Além do mais, ver Hermione mesmo que ela não o visse não lhe pareceu uma má ideia. Sentia falta da amiga pra falar a verdade.
Eles seguiram até onde ela se encontrava, e Rony sentiu a mesma angustia da primeira vez e sua face congelada numa expressão de pavor contribuía para essa sensação ruim. Como queria poder tirá-la dessa situação. Mesmo sabendo que a professora Sprout estava perto de recuperar a todos, cada dia sem Mione por perto era um martírio, e vê-la ali tornava tudo ainda pior.
— Mas eu me pergunto se ela terá visto quem a atacou — comentou Rony, passando a mão onde seria o cabelo de Mione, que também estavam duros como pedra. — Porque se ele chegou sem ser visto, ninguém nunca vai... o que?
Harry o chamava, ansioso, apontando para a mão de Hermione. Rony aguçou a visão e percebeu que sua mão fechada guardava um pedaço de papel amassado lá dentro. Rony, checando se Madame Pomfrey estava prestando atenção e vendo que não, puxou a cadeira de modo a ficar na frente de Harry, escondendo-o da enfermeira.
— Tente tirar! — cochichou, tomando conta da retaguarda.
Harry penou para puxar o papel, Hermione agarrou-o com muita força quando foi petrificada e Harry não queria que rasgasse. Com muito esforço, o papel saiu sem maiores danos, e quando Harry o abriu, viram que se tratava da página de um livro. Rony se aproximou e então leram:
Das muitas feras e monstros medonhos que vagam pela nossa terra não há nenhum mais curioso ou mortal do que o basilisco, também conhecido como rei das serpentes.
Esta cobra, que pode alcançar um tamanho gigantesco e viver centenas de anos, nasce de um ovo de galinha, chocado por uma rã. Seus métodos de matar são os mais espantosos, pois além das presas letais e venenosas, o basilisco tem um olhar mortífero, e todos que são fixados pelos seus olhos sofrem morte instantânea. As aranhas fogem do basilisco, pois é seu inimigo mortal e o basilisco foge apenas do canto do galo, que lhe é fatal.
— Por que Hermione rasgaria o livro nessa parte? Não entendi... você está bem, Harry?
O garoto tremia com o papel na mão, nervoso, com os olhos verdes arregalados.
— Rony... — sussurrou aflito. — É isso. Isso é a resposta. O monstro na Câmara é um basilisco, uma cobra gigantesca! E por isso que andei ouvindo a voz por todo lado, e ninguém mais ouvia. É porque entendo a língua das cobras...
Ele olhou para os cantos, assustado, como se o monstro fosse aparecer a qualquer momento — O basilisco mata as pessoas com o olhar. Mas ninguém morreu, porque ninguém o encarou. Colin viu o bicho através da lente da máquina fotográfica. O basilisco queimou o filme que havia dentro, mas Colin só ficou petrificado. Justino... Justino deve ter visto o basilisco através do Nick Quase Sem Cabeça! Nick recebeu todo o impacto, mas não podia morrer duas vezes... E Mione e aquela monitora da Corvinal foram encontradas com um espelho ao lado delas. Mione acabara de perceber que o monstro era um basilisco. Aposto o que você quiser que ela preveniu a primeira pessoa que encontrou para antes de virar um canto, primeiro olhar o outro lado com um espelho! E aquela garota tirou o espelho da mochila... E...
Rony não podia acreditar. Era uma cobra, uma cobra gigante e centenária que vivia em Hogwarts que estava petrificando as pessoas. Tudo que Harry falara fazia sentido, exceto...
— E Madame Nor-r-ra? — perguntou, ansioso.
Harry ponderou por uns momentos.
— A água... — disse lentamente. — A inundação do banheiro da Murta Que Geme. Aposto como Madame Nor-r-ra só viu o reflexo... E tem mais: “O canto do galo... Lhe é letal!". Os galos de Hagrid foram mortos! O herdeiro de Slytherin não queria nenhum perto do castelo quando a Câmara fosse aberta! As aranhas fogem do basilisco! Tudo se encaixa!
Rony ainda estava resistente a acreditar. Uma cobra gigante, se for dessa forma, ela estaria por ali a pelo menos cinquenta anos. Como ninguém nunca notou?
— Como é que o basilisco anda circulando pelo castelo? — perguntou Rony. — Uma cobra gigantesca... Alguém a teria visto...
Harry, porém, apontou para a palavra que Mione escrevera no pé da página.
— Canos. Canos... Rony, ela está usando os canos. Tenho ouvido aquela voz dentro das paredes...
Foi como se todas as respostas tivessem caído de uma só vez direto em sua cabeça. Se a cobra gigante estava usando os canos para se locomover então...
— A entrada para a Câmara Secreta! — disse, puxando Harry para mais perto — E se for um banheiro? E se for o...
— Banheiro da Murta Que Geme — completou Harry.
Os dois ficaram sentados ali, a excitação circulando com rapidez pelo corpo, mal conseguindo acreditar.
— Isto significa que não devo ser o único a falar a língua das cobras na escola. O herdeiro de Slytherin deve ser outro que fala também. É assim que ele controla o basilisco. — Harry concluiu.
— Que vamos fazer?
— Vamos direto à Profª. McGonagall? — Disse Harry, levantando-se num salto e puxando Rony — Vamos à sala dos professores, ela vai para lá dentro de dez minutos. Já está quase na hora do intervalo.
Os garotos correram para baixo. Não querendo ser encontrados perambulando por outro corredor, entraram diretamente na sala dos professores, que ainda estava deserta. Era um aposento amplo, as paredes forradas com painéis de madeira, as cadeiras de madeira escura. Harry e Rony ficaram andando de um lado para o outro, excitados demais para se sentar.
Mas a sineta do intervalo jamais tocou.
— Em vez disso, ecoando pelos corredores, ouviram a voz da Profª. McGonagall, magicamente amplificada.
"Todos os alunos voltem imediatamente aos dormitórios de suas casas”.
“Todos os professores voltem à sala de professores. Imediatamente, por favor”.
Eles entreolharam-se, assustados.
— Não outro ataque! Não agora!
— Que vamos fazer? — perguntou Rony, assustado — Voltar ao dormitório?
— Não — disse Harry, olhando à sua volta. Ali dentro. — ele apontou um armário mal pintado que guardava as capas dos professores — Vamos ouvir o que foi. Depois podemos contar o que descobrimos.
Os garotos se esconderam dentro do armário, escutando o barulho de centenas de pessoas andando no andar de cima e a porta da sala de professores se abrir e bater. De uma pequena fresta, viram os professores entrarem na sala, parecendo nervosos falando todos ao mesmo tempo, discutindo sobre o que provavelmente tinha acontecido. Então chegou a Profª. McGonagall, e todos se calaram na mesma hora.
— Aconteceu, — disse ela na sala silenciosa, sua voz trêmula. — Uma aluna foi levada pelo monstro. Para a Câmara.
O Profº. Flitwick deixou escapar um grito fino. A Profª. Sprout tampou a boca com as mãos. Snape agarrou com muita força o espaldar de uma cadeira e perguntou:
— Como você pode ter certeza?
— O herdeiro de Slytherin — disse a professora muito pálida — deixou outra mensagem. Logo abaixo da primeira.
"O esqueleto dela jazerá na Câmara para sempre.”
O Profº. Flitwick rompeu em lágrimas, e foi amparado pela professora Sprout.
— Quem foi? — perguntou Madame Hooch, que afundara, com os joelhos bambos, numa cadeira. — Que aluna?
— Gina Weasley — respondeu McGonagall.
Rony sentiu como se todas as suas forças se esvaíssem de uma vez. Seus joelhos cederam e ele escorregou para o chão. Sua irmã, sua irmãzinha. Por que ela? Gina tinha o sangue puro... Lembrou-se que ela havia o procurado mais cedo para lhe contar algo. Aliás, há meses notou que ela estava estranha, quieta. Será que ela sabia que ia ser capturada? Deveria ter conversado com ela, perguntado o que houve. Prometeu que cuidaria dela, mas durante o ano inteiro mal lhe deu atenção. Como sempre não ouviu sua intuição, assim como fez com Hermione. Agora era tarde para se lamentar, com culpa ou não, ele precisava trazer sua irmã de volta.
— Teremos que mandar todos os alunos para casa amanhã — continuou a professora. — Isto é o fim de Hogwarts. Dumbledore sempre disse...
A porta da sala de professores bateu outra vez. Por um momento delirante Harry teve certeza de que seria Dumbledore.
Mas era Lockhart e ele sorria.
— Lamento muito, cochilei, que foi que perdi?
Ele não pareceu notar que os outros professores o olhavam com uma profunda expressão de ódio. Snape se adiantou, dando um sorriso vitorioso.
— O homem de que precisávamos! Em pessoa! Uma menina foi sequestrada pelo monstro, Lockhart. Levada para a Câmara Secreta. Chegou finalmente a sua vez.
Lockhart perdeu a cor.
— Isto mesmo, Gilderoy — disse a Profª. Sprout, num notório tom de sarcasmo — Você não estava dizendo ainda ontem à noite que sempre soube onde era a entrada da Câmara Secreta?
— Eu... Bem, eu... — gaguejou Lockhart.
— É, você não me disse que tinha certeza do que havia dentro dela? — falou o Profº. Flitwick.
— D-disse? Não me lembro...
— Pois eu me lembro de você dizendo que lamentava não ter tido uma chance de enfrentar o monstro antes de Hagrid ser preso — continuou Snape. — Você não disse que o caso todo foi mal conduzido e que deviam ter-lhe dado carta branca desde o começo?
Lockhart contemplou os rostos duros dos colegas à sua volta.
— Eu... Eu realmente nunca... Vocês devem ter entendido mal.
— Vamos deixar o problema em suas mãos, então, Gilderoy — concluiu a Profª. McGonagall. — Hoje à noite será uma ocasião excelente para resolvê-lo. Vamos providenciar para que todos estejam fora do seu caminho. Você terá oportunidade de cuidar do monstro sozinho. Enfim, terá carta branca.
Lockhart olhou para os lados desesperado, esperando que caísse alguém do céu para que o tirasse daquela situação. Rony suspirou, como sempre soube, aquele homem era um molenga. Com os professores olhando para ele, Lockhart perdeu a compostura. O sorriso cheio de dentes que não saía de seu rosto o abandonou, e no lugar uma carranca assustada estava uma expressão de desolamento.
— M-muito bem — falou em voz baixa — Estarei em minha sala me... Me preparando.
Ela saiu da sala, batendo a porta atrás de si.
— Muito bem — disse a professora McGonagall por fim —, com isso o tiramos do caminho. Os diretores das casas devem ir informar os alunos do que aconteceu. Digam que o Expresso de Hogwarts os levará para casa logo de manhã. Os demais, por favor, certifiquem-se de que nenhum aluno fique fora dos dormitórios.
Os professores se levantaram e saíram, um por um.
Rony sentiu Harry puxando-o para fora do armário, e ele seguiu o amigo, sua cabeça girando com tanta informação. Os dois chegaram na sala comunal segundos antes da professora Minerva aparecer. Todos os alunos já estavam no local, e se calaram no momento em que ela surgiu pelo buraco do retrato. Fred e Jorge se aproximaram dos garotos.
— O que aconteceu? Ela nunca vem aqui... — Jorge comentou.
Rony sentiu seu coração acelerar, não queria ter que dar aquele tipo de notícia à eles, porém antes que pensasse em algo, a professora Minerva começou a falar.
— Preciso dar alguns avisos. — disse, e sua voz estava trêmula — É com pesar que anuncio que mais um aluno foi vítima aqui na escola.
Um burburinho se instalou entre os alunos.
— Infelizmente não foi como das outras vezes. Os alunos petrificados logo voltarão à normalidade, porém dessa vez, a aluna está desaparecida. Já estamos trabalhando para encontrá-la, esperamos que com vida. Amanhã pela manhã o expresso de Hogwarts estará aqui para leva-los de volta. Não podemos arriscar mais a vida de vocês. Comecem a arrumar suas malas imediatamente.
Todos começaram a falar ao mesmo tempo, nervosos. Rony suspirou, olhando para os próprios pés. Se ela esperava encontrá-la com vida, sinal que havia uma chance considerável de não ser dessa maneira.
— Professora, mas quem foi o aluno afinal? — Dino Thomas perguntou, e todos os outros alunos se calaram, curiosos.
A professora olhou para os quatro ruivos, pesarosa, e por fim anunciou:
— Foi Gina Weasley.
Rony olhava para baixo, mas pôde sentir o olhar de toda a Grifinória em cima de si. Fred e Jorge arfaram, e Percy parecia ter sido petrificado. A professora saiu da sala, e pouco se ouviu nas horas seguintes. Todos estavam tristes demais para conversar.
Os garotos sentaram-se em um canto da sala comunal mais afastados. Assim como Rony, Fred e Jorge também não conseguiam falar. A perspectiva de perder a caçulinha da família estava deixando-os muito angustiados. Percy se sentia responsável pelo que aconteceu. Como mais velho, deveria ter cuidado de Gina e impedido que fosse capturada. Estava tão mal que não ficou junto com os outros, saiu dizendo que iria despachar uma coruja para casa, pois como o mais velho, tinha a obrigação de informar aos pais ele mesmo, e já fazia um tempo que não aparecia. Logo depois, Fred e Jorge também saíram, dizendo que não suportavam mais ficar ali.
— Ela sabia alguma coisa, Harry — disse Rony, e sua voz saiu estranha. Já era final da tarde, e só então notou que não tinha falado nada desde que saíram do armário dos professores mais cedo. — É por isso que foi sequestrada. Não era uma bobagem sobre o Percy, nada disso. Descobriu alguma coisa sobre a Câmara Secreta. Deve ter sido por isso que foi... — Sua voz queria embargar, e seus olhos marejarem, mas Rony segurou o choro. O clima já estava melancólico demais para ter mais alguém chorando. — Quero dizer, ela era puro-sangue. Não pode haver nenhum outro motivo.
Harry não sabia o que responder, e Rony não o culpava. Era inevitável não se culpar; deveria ter ouvido sua irmã, que talvez tivesse por ali ainda se tivesse dado importância ao que ela tinha a dizer. Se tivesse feito diferente, ela não estaria correndo risco de vida, se é que estava viva ainda.
— Harry — disse Rony. — Você acha que pode haver alguma chance de ela não estar... Sabe...
Ele não precisou falar, seu rosto entregou o que realmente achava, assim como todos os outros. “O esqueleto dela jazerá na Câmara para sempre.” Era o que diziam... Mas não, ele não poderia se entregar. Ia procurar sua irmã, e ia encontrá-la com vida. Ficar parado não ajudaria em nada.
— Sabe de uma coisa? — falou subitamente, levantando-se. — Acho que devíamos ir ver Lockhart. Contar a ele o que sabemos. Ele vai tentar entrar na Câmara. Podemos contar onde achamos que é, e avisar que tem um basilisco lá dentro.
Como Harry não tinha uma solução melhor acabou concordando. Os alunos da Grifinória na sala estavam tão infelizes e sentiam tanta pena dos Weasley, que ninguém tentou impedi-los quando se levantaram, atravessaram a sala e saíram pelo buraco do retrato.
Já era quase noite quando finalmente chegaram na sala do professor. Havia uma movimentação intensa lá dentro, um arrastar de móveis barulhentos e resmungos. Ele disse algum tempo atrás que iria descansar... o que devia estar acontecendo lá?
Harry se adiantou e bateu à porta, e no mesmo momento a sala ficou extremamente silenciosa. Devagar, a porta se abriu em apenas um filete, e o olho azul de Lockhart apareceu.
— Ah... Sr. Potter.. Sr. Weasley... — disse, abrindo um pouco mais a porta. — Estou muito ocupado no momento, se puderem ser rápidos...
— Professor, temos umas informações para o senhor — disse Harry. — Achamos que podem ajudá-lo.
— Hum... Bem... Não é tão... — O pouco que conseguiam ver do professor mostrava que ele estava muito nervoso. — Quero dizer... Bem... Muito bem...
Vendo que não havia mais jeito, ele abriu a porta, ainda relutante.
No momento em que entraram na sala, tomaram um susto. Claramente Lockhart estava de mudança, pois haviam dois malões enormes onde vestes verdes cintilantes, lilás, azul-meia-noite, tinham sido apressadamente dobradas e guardadas em um deles; livros tinham sido enfiados de qualquer jeito no outro. As paredes estavam nuas, e nelas haviam marcas de onde um dia houveram quadros pendurados. Rony viu Harry crispar os lábios, sinal claro de irritação.
— O senhor vai a algum lugar? — perguntou entre os dentes.
— Hum, bem, vou — disse Lockhart, arrancando um pôster com a sua foto em tamanho natural das costas da porta, enquanto falava, e começando a enrolá-lo. — Chamado urgente... Inevitável... Tenho que partir...
Era inacreditável, ele estava arrumando as malas! Rony sempre soube que ele não tinha toda coragem que dizia ter, mas não sabia que sua covardia chegava a tanto. Não ia deixa-lo escapar dessa.
— E a minha irmã? — perguntou.
— Bem, sobre isso... Foi muito azar... — respondeu Lockhart enquanto puxava uma gaveta com força e começava a esvaziar o seu conteúdo em uma mochila. — Ninguém lamenta mais do que eu...
— O senhor é o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas! — acusou Harry. — Não pode ir embora agora! Não com todas essas artes das trevas em ação!
— Bem... Devo dizer... Quando aceitei o emprego... — resmungou Lockhart, agora amontoando meias por cima das vestes — nada na descrição da função... Não era de esperar...
— O senhor quer dizer que está fugindo? — perguntou Harry, incrédulo. — Depois de tudo que fez nos seus livros...
— Os livros podem ser enganosos — disse Lockhart gentilmente.
— Mas foi o senhor quem os escreveu — gritou Harry.
— Meu caro rapaz — disse Lockhart se endireitando e amarrando a cara para Harry. — Use o bom senso. Meus livros não teriam vendido nem a metade se as pessoas não achassem que eu fiz todas aquelas coisas. Ninguém quer ler histórias de um velho bruxo feio da Armênia, mesmo que tenha salvo uma cidade dos lobisomens. Ele ficaria medonho na capa. Nem sabe se vestir. E a bruxa que afugentou o espírito agourento tinha lábio leporino. Quero dizer, convenhamos...
— Então o senhor só está recebendo crédito pelo que outros bruxos e bruxas fizeram? — perguntou Harry, incrédulo.
— Harry, Harry — disse Lockhart, sacudindo a cabeça com impaciência —, a coisa não é tão simples assim. Há muito trabalho envolvido. Eu tive que procurar essas pessoas. Perguntar exatamente como conseguiram fazer o que fizeram. Depois tive que lançar um Feitiço da Memória para elas esquecerem o que fizeram. Se há uma coisa de que me orgulho é do meu Feitiço da Memória. Não, foi muito trabalhoso, Harry. Não é só autografar livros e tirar fotos de publicidade, sabe. Se você quer ser famoso, tem que estar preparado para dar duro.
Rony e Harry se entreolharam estupefatos. Aquele homem era definitivamente um charlatão dos maiores, e não se envergonhava nem um pouco disso. Ah! mas quando sua mãe soubesse...
— Vejamos — disse fechando os malões. — Acho que é só. Agora só falta uma coisa.
E tirou a varinha e se virou para os garotos.
— Lamento muito, rapazes, mas tenho que lançar um Feitiço da Memória em vocês agora. Não posso permitir que saiam espalhando os meus segredos por aí. Eu jamais venderia outro livro...
Rony ameaçou a pular em cima do professor, iria sair no tapa com ele se fosse preciso. Do jeito que era uma farsa, não conseguiria brigar mesmo com um bruxo de treze anos. Porém antes que o fizesse, Harry sacou a própria varinha e apontou para o professor:
— Expelliarmus!
Lockhart foi atirado para trás e caiu por cima do malão. Com o feitiço, a varinha foi atirada para longe, e Rony se precipitou, agarrando-a ainda no ar, e atirou pela janela. O professor abriu a boca, assustado, e Rony e Harry olharam-se, vitoriosos.
— O senhor não devia ter deixado o Profº. Snape nos ensinar isso — Harry falou debochado, chutando o malão para o lado e apontando a varinha diretamente em sua cabeça.
— Que é que você quer que eu faça? — perguntou Lockhart com a voz fraca — Eu não sei onde fica a Câmara Secreta. Não há nada que eu possa fazer.
— O senhor está com sorte — disse Harry forçando Lockhart a se levantar com a varinha. — Achamos que sabemos onde fica e o que tem lá dentro. Vamos.
Os três saíram da sala. Harry mantinha o professor andando à frente, hora ou outra durante o percurso fazendo-lhe ameaças. Na verdade, Harry parecia estar gostando de ameaça-lo daquela forma, como se fosse uma vingança pelo que passou durante o ano.
Ao chegar no banheiro feminino, encontraram Murta Que Geme sentada na caixa d’água no último boxe.
— Ah, são vocês — disse quando viu Harry e Rony. — Que é que querem agora?
— Perguntar como foi que você morreu. — Harry perguntou sem rodeios.
Rony pensou que a falta de sutileza de Harry iria ofendê-la, mas pelo contrário, ela nunca parecera tão encantada por responder uma pergunta à eles. Fantasmas eram seres estranhos.
— Aaaah, foi pavoroso — falou, encenando tristeza. — Aconteceu bem aqui. Morri aqui mesmo neste boxe. Me lembro tão bem! Eu tinha me escondido porque Olivia Homby estava caçoando de mim por causa dos meus óculos. Tranquei a porta e fiquei chorando e então ouvi alguém entrar. Disseram uma coisa engraçada. Deve ter sido numa língua diferente, acho. Em todo o caso, o que me incomodou foi que era a voz de um garoto. Então destranquei a porta do boxe para mandar ele sair e ir usar o banheiro dos garotos e então... — Murta estufou o peito, pondo a mão nos olhos, como se estrelasse uma peça de teatro — Morri..
— Como? — Harry perguntou impaciente.
— Não faço ideia — ela sussurrou. — Só me lembro de ter visto dois olhos grandes e amarelos. Meu corpo inteiro foi engolfado e então me afastei flutuando... — Ela declamou sonhadora. — E então voltei. Estava decidida a assombrar Olivia Homby, sabe. Ah, como ela lamentou ter rido dos meus óculos.
— Onde foi exatamente que você viu os olhos?
— Por ali — respondeu Murta apontando vagamente na direção da pia em frente ao boxe em que estava.
Harry e Rony correram para a pia. Lockhart ficou parado bem mais atrás, uma expressão de puro terror no rosto.
Era uma pia comum, mas se os olhos apareceram dali, certamente havia algo de diferente. Os garotos examinaram com cuidado, procurando em cada quina, no cano que passava por trás, tudo, e tinham razão. Ao lado da torneira havia um pequena cobra lapidada da mesma cor: A serpente de Slytherin! Harry ainda tentou abri-la para ver se saía água ou algo diferente, mas Rony entendeu qual seria o próximo passo:
— Diga alguma coisa, alguma coisa em língua de cobra. — Rony sugeriu.
— Mas... — Harry mirou a pia, desesperado — As únicas vezes que falei a língua de cobra foi quando estava na presença de uma cobra de verdade, não sei se consigo dessa forma.
— Precisa tentar. — Rony incentivou — Tenho certeza que é esse o meio de abrir a câmara.
Harry se concentrou, olhando fixamente para a figura encrustada na torneira, de sua testa chegou até a apareceu uma gotícula de suor.
— "Abra" —, mandou.
Ele olhou para Rony, que sacudiu a cabeça. Língua comum. Ele não conseguiu.
Harry voltou a mirar a cobra concentrado. Suas mãos agarravam a borda da pia com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Então algo estranho aconteceu: As pupilas de Harry dilataram e sua expressão suavizou, ao mesmo tempo que seu rosto endureceu. Era como se outra personalidade estivesse assumindo seu lugar, então finalmente ele abriu a boca, e dessa vez não foram palavras que saíram. Um silvo estranho, como um assobio disforme junto com chiados saiu da boca do garoto, e no mesmo instante, a pia começou a se deslocar até sumir de vista, deixando um grande cano exposto, um cano largo o suficiente para um homem escorregar por dentro dele.
Os garotos se olharam, contentes. Finalmente encontraram a câmara, agora poderiam salvar Gina.
— Vou descer — Harry anunciou.
— Eu também — Rony afirmou.
Houve uma pequena pausa até uma terceira voz se fazer presente.
— Bem, parece que vocês não precisam de mim — disse o professor Lockhart com um sorriso amarelo, bem diferente dos seus sorrisões. — Eu vou...
Ele levou a mão à maçaneta, mas rapidamente Rony e Harry sacaram as varinhas e apontaram para o professor, que parou na mesma posição em que estava.
— Você pode descer primeiro — Rony rosnou, apontando sua varinha remendada na direção do rosto do professor.
De rosto lívido e sem varinha, Lockhart se aproximou da abertura.
— Rapazes — disse com a voz fraca. — Rapazes, que bem isto vai trazer?
Harry cutucou-o nas costas com a varinha. Lockhart escorregou as pernas para dentro do cano.
— Eu não acho... — Ele continuou a falar, mas Rony não queria mais ouvir. Estava de saco cheio daquele charlatão de uma figa e sem que ele esperasse, deu-lhe um empurrão, fazendo o professor cair desajeitado buraco à dentro até desaparecer de vista. Os meninos deram de ombros, divertidos, e Harry ajeitou-se para descer. Colocou seu corpo para dentro e em seguida soltou-se, desaparecendo de vista. Rony contou alguns segundos para dar tempo de Harry sair do caminho e não acabarem um em cima do outro, e então seguiu o mesmo caminho. O cano era nojento e úmido. Conforme descia ia arrastando o braço por pedaços de metal enlodados e outras coisas que preferia nem saber o que era. De relance conseguia ver outros canos saírem para outras direções, canos menores, nenhum largo a ponto de abrigar uma pessoa como aquele em que estava, muito menos um monstro. Pelo tempo que estava escorregando, certamente estava bem abaixo da escola, mais até que as masmorras mais fundas. Não era tão bom de localização, mas a posição que o cano estava levando-o, parecia estar saindo da direção da escola.
Com a velocidade em que descia, Rony começou a preocupar-se com o que apararia sua queda, pois certamente se não houvesse nada iria se machucar feio. Porém de repente o cano começou a nivelar e sua velocidade a diminuir, e de repente foi arremessado para fora, batendo no chão úmido de pedra num túnel pouco iluminado. Harry estava se ajeitando já de pé, enquanto Lockhart estava abaixado, todo sujo e parecendo ter visto um fantasma.
— Devemos estar quilômetros abaixo da escola — disse Harry, sua voz ecoando no túnel escuro.
— Provavelmente debaixo do lago — sugeriu Rony, apertando os olhos para enxergar as paredes escuras e limosas.
Os três se viraram para encarar a escuridão à frente.
— Lumus! — murmurou Harry para sua varinha que acendeu.
— Vamos... — Rony chamou, empurrando Lockhart, e lá se foram os três, e durante algum tempo tudo que puderam ouvir foram seus próprios passos no chão molhado.
— Lembrem-se — sussurrou Harry depois de um tempo —, a qualquer sinal de movimento, fechem os olhos imediatamente...
Mas não houvera sinal de monstro nem de absolutamente nada, e o primeiro som inesperado que ouviram foi quando Rony pisou em alguma coisa que descobriram ser um crânio de rato. Harry baixou a varinha para olhar o chão e viu que se encontrava coalhado de ossos de pequenos animais. Ver isso dava uma imensa sensação de desespero; como estaria sua irmã? Balançou a cabeça para afastar os pensamentos agoniantes que vieram, então Rony deparou-se com uma cena ainda pior. Mais à frente havia uma sombra disforme se mexendo bem devagar, algo enorme, e rosnava baixinho.
— Harry... Tem alguma coisa ali... — disse puxando o amigo de volta.
Harry suava frio, mas tentou parecer corajoso.
— Talvez esteja dormindo — sussurrou.
Harry tomou a frente e avançou cautelosamente me direção à coisa, sendo seguido de perto por Rony. Era a pele de uma cobra, uma cobra gigantesca de pelo menos uns seis metros, colorida, e se encontrava enroscada no chão. As pernas de Rony estavam trêmulas e, de repente, sentiu um encontrão em suas costas que quase o derrubou.
— Droga — xingou.
Era Lockhart que havia caído no chão de medo. Rony estava sem paciência para o professor, e trincou os dentes, irritado, apontando a varinha para o professor.
— Levante-se — disse com rispidez.
O professor levantou-se, a cabeça baixa, e sem que esperasse, atirou-se contra Rony, derrubando-o no chão. O ruivo até tentou se defender, mas o fator surpresa deu uma enorme vantagem ao professor, que arrancou a varinha de sua mão e levantou-se, vitorioso, sorrindo aberto como o Lockhart de sempre.
— A aventura termina aqui, rapazes. Vou levar um pedaço dessa pele de volta à escola, dizer que cheguei tarde demais para salvar a garota e que vocês dois enlouqueceram tragicamente ao verem o corpo dela mutilado, digam adeus às suas memórias!
Ele ergueu sua varinha emendada acima da cabeça. Rony levantou-se num pulo e correu na direção do professor, mas não foi rápido o suficiente e então ele gritou:
— Obliviate!
A varinha explodiu com a força de uma pequena bomba. Rony foi arremessado para trás junto com Lockhart no momento em que enormes pedaços do teto começaram a cair. No impulso, levantou-se e puxou o professor consigo, escondendo-se dentro de um pequeno cano. Houve muito barulho, muito pedregulho e muita terra. Rony chegou a se perguntar se seria soterrado, mas depois de alguns segundos a bagunça cessou. Se o local antes já era escuro, agora estava quase um breu total. Rony saiu do esconderijo e deu de cara com uma parede maciça formada pelos destroços.
— Rony! — o ruivo ouviu a voz abafada de Harry vindo do outro lado — Você está bem? Rony!
— Estou aqui! — gritou em resposta, e então virou-se para Lockhart. O professor tinha o olhar perdido, sua boca estava meio aberta e ele olhava as coisas em volta com extrema curiosidade. De repente, ele pisou em uma pedra e escorregou aos pés de Rony, sustentando o olhar perdido. — Estou bem, mas esse bosta aqui não está, a varinha acertou nele...
O professor puxou a barra de sua calça para levantar-se, e por pouco não o deixou só de cueca. De raiva, deu um chute em suas costelas fazendo o professor recuar, e voltou sua atenção para a parede. Era muito grossa, à julgar pela voz de Harry parecer tão distante. Não tinham muito tempo, Gina estava ali em algum lugar, e ele estava preso com um retardado.
— E agora? — Rony perguntou desesperado. — Não podemos passar, vai levar séculos...
Harry ficou em silêncio por mais um tempo. Rony não aguentava mais de ansiedade. O teto estava completamente rachado, se tentasse alguma coisa poderia desabar o túnel inteiro em cima deles, e tirar as pedras demoraria demais. Lockhart mais uma vez agarrou a barra de sua calça, e Rony o chutou para longe de novo.
— Rony, espere aí — gritou — Espere com Lockhart. Eu vou continuar... Se eu não voltar dentro de uma hora...
Houve uma pausa cheia de significado.
— Vou tentar afastar umas pedras enquanto isso — disse Rony, sentindo o desespero tomar conta de si. Era sua irmã, sua obrigação salvá-la. Mas não poderia, não seria egoísta a esse ponto. Agora só restava confiar em Harry. — Para você poder... Poder passar na volta. E, Harry...
— Vejo você daqui a pouco — Harry gritou, cortando-o. Ele ia fazer o possível, Rony sabia disso.
Encarou a barreira, tentando analisa-la para saber por onde começar para afastar todos aqueles escombros.
— Ei, garoto! — Lockhart o chamou, sua voz estava diferente, e as palavras saíram levemente emboladas. — Esse lugar é estranho, o que estamos fazendo aqui?
Rony parou o que fazia, olhando incrédulo para o homem na sua frente.
— Não lembra o que viemos fazer aqui?
— Não consigo me lembrar... — O professor coçou a cabeça — Você mora aqui? É um pouco escuro... Aliás, qual é o meu nome?
E então Rony compreendeu. O feitiço virou contra o feiticeiro. No momento em que tentou os amaldiçoar, a maldição voltou contra ele, e sua memória foi completamente apagada, e pelo visto houveram outras sequelas.
— Você se chama... — Mas o professor parara de prestar atenção e passou a fitar o teto com curiosidade. — Esquece, depois te explico. Agora me ajude a retirar essas pedras do caminho.
Porém ele continuava olhando para os cantos, franzindo o cenho, tentando lembrar-se de alguma coisa. Rony, maldoso, teve uma ideia. Poderia não dar certo, mas ia tentar:
— Você é o melhor nisso, sabe? Serviços braçais, digo. É sempre o mais requisitado quando o assunto é levantar peso.
O rosto de Lockhart se iluminou com o elogio, e ele pegou dois pedregulhos de uma só vez.
— Vamos lá, garoto. Está cansado?
Rony riu e começou a mover as pedras. Em algum lugar lá dentro Lockhart ainda gostava de ser o centro das atenções, talvez aquilo não fosse algo permanente. Que seja, não era hora pra pensar na demência de Lockhart, precisava afastar todas aquelas pedras antes que Harry voltasse com sua irmã, e ele voltaria, Rony tinha certeza. Harry tinha o dom de salvar as pessoas, e sabia que ele não desistiria até conseguir; e era com isso que ficaria em mente até vê-los sãos e salvos.
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