Romeu e Romeu

4 Volta às aulas


O despertador tocou, fazendo Felipe acordar atordoado.

“Adeus, férias”

As férias tinham acabado oficialmente. Por mais que tenham sido entediantes, tudo o que o garoto queria agora era dormir mais um pouco.

“Só mais dez minutos”, pensou.

— Felipe! – Gritou sua mãe, enquanto batia na porta do quarto – Acorda, senão você vai se atrasar pra escola. Acabou a boa vida de dormir até tarde.

“Aaaah”

— Já vou! – Gritou Felipe, enquanto resmungava para sair da cama.

Colocou a música “Máscara”, da cantora Pitty, para reproduzir em seu celular, enquanto lavava o rosto e escovava os dentes. Esperava que a música lhe desse um pouco mais de coragem, naquela manhã. Até que funcionou: o ritmo era agitado. Além disso, era uma das cantoras que Felipe mais gostava de ouvir. Curtia o estilo dela.

Depois de tomar café e se despedir de sua mãe, foi para o ponto de ônibus. Durante o trajeto, quando o ônibus não estava lotado – e geralmente estava – gostava de colocar seus fones de ouvido e ouvir músicas de diferentes estilos. Felipe se considerava bem eclético, e era raro não gostar de algum estilo musical. Tinha músicas para diversas situações: se estava triste, alegre, animado, ansioso, com insônia. Gostava até das românticas, embora não fosse uma pessoa que se apaixonasse com frequência.

Marcos era diferente, Felipe sabia. O amigo se fechava mais ao rock, embora Felipe soubesse que, de vez em quando, ele ouvia pop. Só não fazia questão que os outros soubessem que ele ouvia Lady Gaga ou Beyoncé.

“Aquele Marcos é um bobo, mesmo”. Felipe se pegou pensando, enquanto ria.

Cerca de 40 minutos depois de entrar no ônibus, chegou ao seu destino. O ponto onde descia não era tão longe da escola, de modo que o garoto só precisaria andar por cerca de mais dois quarteirões.

Ao chegar, Felipe percebeu que a escola estava bem movimentada, naquele dia. Era o primeiro dia de aula, e já tinha se desacostumado a ver tantas pessoas juntas.

“Será que não dá pra pular para a parte em que eu termino a escola?”

Ainda faltavam dois longos anos, Felipe sabia. Só conseguia se lamentar por causa disso, enquanto andava pelos corredores da escola, em busca da nova sala de aula. Até fazer isso era complicado: Parecia a ele que as pessoas ficavam o olhando, o julgando.

Depois de uma longa caminhada – que quase pareceu eterna – Felipe chegou à sala. Ficava próxima à sua sala antiga, e até podia ver alguns novatos do primeiro ano dentro dela.

— E aí, Magrão.

Luan tinha mesmo que ser o primeiro da classe que Felipe iria ver? O ano escolar realmente não iria começar com o pé direito.

Suspirou.

— E aí... – Respondeu.

Alguns colegas já tinham chegado. Felipe entrou na sala e escolheu um lugar. Queria ficar só, mas o outro pareceu não ler seus pensamentos.

— Então – Continuou Luan – Fez o que nessas férias?

— Nada demais. – Respondeu Felipe – Nem saí de casa.

— Cara, você precisa sair mais. Depois não adianta reclamar que não pega mulher, se nem sai de casa. Eu mesmo fui a algumas festas, por aí, e até uma coroa arrumei. Tinha dinheiro e ainda dava “pro gasto”. Me dei bem.

“Que interessante”, pensou Felipe. Estava tentando pensar no que responder, quando ouviu uma voz familiar.

— Lipe, amor!

Era Amanda. Felipe não poderia estar mais feliz por vê-la.

— Oii! – Respondeu, abraçando a amiga – Como você tá?

Os dois começaram a conversar sobre coisas aleatórias, cabendo a Luan apenas se afastar, pois ficou deslocado no assunto.

— Obrigado por isso. Mesmo. – Disse Felipe, depois que o outro já tinha saído.

— Quando eu vi a sua cara, de longe, imaginei que aquele babaca estava te enchendo o saco. – Respondeu a amiga. – Não sei como o Marcos ainda se enturma com esses caras.

— Realmente, eu também não sei.

— Por falar no Marcos... – Disse Amanda, enquanto Felipe se virava.

Ver Marcos chegando trouxe uma sensação boa a Felipe. O fez lembrar os poucos motivos que ele ainda tinha para vir para a escola. Ele e Amanda eram seus melhores amigos, e o garoto, sinceramente, não acharia que pudesse aguentar aquele ambiente sem eles.

— E aí, gente. – Disse Marcos, enquanto abraçava os dois amigos ao mesmo tempo. – Preparados para o segundo ano?

— Vamos viver um dia de cada vez – Respondeu Felipe, fazendo o trio rir.

Os três se sentaram, e Felipe percebeu o amigo pensativo.

— Tá tudo bem, Marco? – Indagou Felipe. – Sua cara não tá muito boa.

— Tá, sim. – Respondeu Marcos. – Eu só não estava acostumado a acordar cedo, por causa das férias, e não dormi muito bem nessa noite.

— Ah, tá. – Respondeu Felipe. Conhecia Marcos suficientemente para saber que o amigo estava escondendo algo. Mas decidiu que prosseguiria com o assunto em outro momento.

O trio ficou conversando até chegar o horário da primeira aula, o que não demorou muito. A primeira professora entrou. Era uma mulher jovem, bonita e arrumada, que se apresentou e anunciou que ministraria a disciplina de física, ao longo do ano, o que despertou a curiosidade de Felipe.

— Que curioso. – Cochichou. – Ano passado nosso professor de física era um cara quase aposentado. Não é muito comum ver pessoas como ela nessa posição.

Marcos fez uma expressão de sofrimento:

— Tudo o que eu consigo pensar é que toda segunda feira começará com uma aula de física. – Respondeu. – Poderia ser pior?

Felipe riu, e Amanda respondeu:

— Eu gosto. É melhor do que aquelas aulas de filosofia, em que você quase queima o cérebro, de tanto pensar em coisas abstratas. Prefiro a física. Tem um campo mais... concreto.

Felipe viu que Marcos já estava com uma resposta na ponta da língua, quando a professora interviu.

— A conversa entre o grupinho parece estar interessante. Estão dispostos a compartilhar a discussão com a turma?

Quando os três se calaram e assim permaneceram, a professora continuou.

— Como eu pensei. Como estava dizendo...

A aula até que fluiu bem. A nova professora sabia como tornar a aula leve e dinâmica, embora nem isso tenha prendido a atenção de Marcos. Felipe sentiu que o amigo estava muito distraído, como se estivesse com os pensamentos em outro lugar.

“Depois eu converso com ele”, pensou.

Outras aulas sucederam a primeira e o tão sonhado intervalo chegou.

“Liberdade.”

— Vamos pra cantina? – Perguntou Amanda, e os outros dois assentiram.

Quando estavam lanchando em uma mesa, a turma de Luan chegou. Além do próprio, também tinha o César, Caio e Matheus. Felipe não gostava muito da forma como aquela turma o tratava. Muitas vezes o chamavam por nomes que o faziam se sentir desconfortável e o olhavam de maneira estranha. Mas, de vez em quando, Marcos andava com eles, então Felipe precisaria aguentar aquilo.

Além disso, o garoto também podia perceber que Amanda gostava menos ainda do grupo, pois não fazia questão de disfarçar a expressão de desprezo.

— Marcos, meu brother! – Disse Luan, enquanto apertava a mão de Marco. – Como vai essa força?

— Opa! – Respondeu Marcos – Tudo tranquilo, galera. E com vocês?

— Na paz, na paz. Então, cara, estamos querendo fazer uma festa de boas vindas ao segundão, nesse final de semana, lá na casa do Caio. Aparece lá, vai ser demais. Chama a tua galera, também. Eles vão gostar.

Felipe olhou para Amanda e viu que ela não gostou muito da ideia.

— Vamos, Magrão? – Luan se dirigiu a Felipe, dando um tapa no ombro dele. – Você vai gostar. Lembra do nosso papo.

— Não sei... – Respondeu Felipe, meio constrangido. – Pode ser.

Marcos interviu:

— Vamos, Lipe. Vai ser legal sair e ver a galera.

“Talvez”, pensou Felipe.

— Então, estamos combinados? – interviu Caio. – Na minha casa, às 20. Estejam prontos para a bebida e para a mulherada. Vamos ver qual delas derruba a gente primeiro. – Completou, enquanto os outros três riam e batiam uns nas mãos dos outros, como um cumprimento. Felipe esboçou um discreto sorriso.

— Até lá. – Disse Luan, e se afastou do trio.

— Sério que você vai a essa festa? – Perguntou Amanda, se dirigindo para Felipe.

— Qual o problema? – Retrucou Marcos – É bom sair e ver a galera fora da escola, de vez em quando.

— É... o Marco tem razão – Disse Felipe – Acho que tô precisando disso, sabe? Me enturmar mais com a galera.

— Bom, eu não vou falar nada. Você que sabe. Só acho que não precisa fazer algo que não te deixe à vontade.

Felipe decidiu mudar de assunto:

— Vamos comer, porque o intervalo, infelizmente, é curto.

Depois de terminarem de comer, Amanda foi ao banheiro e Felipe ficou sozinho com o amigo.

— Marco, o que tá acontecendo? Tô vendo que você não tá muito legal.

Marcos ficou pensativo por alguns segundos.

— Desencana, Lipe. Eu tô bem. Como eu te falei, é só o sono. – Respondeu Marcos, enquanto dava duas batidinhas no braço do amigo.

Por algum motivo, Felipe não estava acreditando cem por cento naquela resposta. Mas, decidiu esperar até um momento em que o amigo quisesse se abrir espontaneamente.

— Tá certo. De qualquer forma, sabe que pode contar comigo para qualquer coisa. – Continuou Felipe, enquanto olhava dentro dos olhos de Marcos.

Marcos assentiu, desviando o olhar para baixo.

O sinal anunciou o fim do intervalo bem na hora em que Amanda voltava do banheiro.

— Então, meninas. – Disse a garota, ficando no meio dos dois e passando os braços em volta dos deles. – Vamos voltar para a sala?

As aulas após o intervalo se mostraram mais penosas. Felipe não tinha saco para Literatura, e era difícil controlar o sono após o lanche. As horas, definitivamente, não estavam dispostas a passar, e pareceu uma eternidade até as aulas do dia acabarem.

Quando o sinal finalmente tocou, Felipe se despediu dos amigos e foi para o ponto de ônibus. Por sorte, o dia não estava tão quente e o ônibus não demorou mais do que dez minutos, e tinha espaço o suficiente para o garoto ir sentado até em casa. Colocou o player de música do seu celular em modo aleatório, e gostou de ouvir que a música selecionada foi “Don’t you remember”, de Adele. Era triste e melancólica, mas Felipe amava músicas assim. Se recostou na cadeira do ônibus da melhor forma que pode e fechou os olhos, tentando aproveitar o momento.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.