Romeu & Júlio

1 Era uma Vez...


Não, esta não é uma história de amor. Os fatos que se sucedem nesta narrativa são obra do mero acaso. Não se trata de matemática ou sorte, pois os acontecimentos que aqui foram expostos não podem ser mensurados por explicações científicas ou exotéricas. Assim como a diz a definição de “acaso”, tudo se tratou de um ato em que os indivíduos envolvidos não tinham nenhuma intenção prévia.

Diariamente convivemos com centenas de pessoas que nos cercam – todas elas com diferentes graus de familiaridade. É do contato com novas pessoas e perspectivas que a nossa vida se mantém em constante movimento, é conhecendo outras realidades que repensamos sobre nós mesmos e nossas ações em relação aos outros.

Você não precisa pensar muito para descobrir o quanto a participação de centenas de pessoas fez a sua vida tomar rumos que você não imaginava. Em cada descoberta ou experiência vivida colocamos mais uma peça neste quadro chamado “eu” que sempre está em construção. Basta observar em sua própria história que irá perceber que quanto maior o seu círculo de amizades, maiores foram as transformações que ocorreram dentro de si, já que na medida em que você cresceu você acumulou experiências.

As primeiras pessoas que temos contato são com os membros de nossa família. Pai, mãe, irmãos... Estas são as pessoas vão fazer parte das suas experiências desde amarrar os cadarços até o financiamento da faculdade. Eles vão rir em segredo quando você estiver apaixonado, mas vão fingir que não sabem nada quando estão na sua frente só pra que se sinta melhor. É com eles que você vai se alegrar, chorar, aprender e também ensinar. Você sempre poderá contar com eles quando precisar enfrentar os seus medos ou precisar de ajuda.

Depois que atinge certa idade você conhece o seu melhor amigo. Ele é sua maior amizade por que assim como ele, você também o escolheu para chamar de amigo. Vocês compartilham de códigos e segredos e ele entende as suas manias estranhas. Vai amá-lo e também odiá-lo. Ele pode ser legal ou a pessoa mais irritante do universo. Mas por mais que ele te deixe chateado, sempre que qualquer pessoa tente te deixar triste ele vai te defender com todas as suas forças.

A natureza é injusta, pois em determinado momento ela retira alguém que é muito importante em nossa vida. Repentinamente, sem nenhuma explicação, vemos pessoas queridas nos deixarem para sempre. Ausência física, pois aquilo que um dia nos representou importância fundamental sempre terá um espaço nas lembranças...

De fato, das centenas de pessoas que conhecemos algumas marcarão a nossa memória para sempre, já outras passarão despercebidas. O que faz com que uma pessoa seja lembrada ou esquecida vem do esforço de cada um em ter um mérito de estar na memória – o que pode acontecer de maneira positiva ou negativa.

Se uma pessoa deseja esquecer outra é por que a experiência que se deu entre as duas aconteceu de maneira negativa. O esquecimento é a forma que os indivíduos encontram para se libertar de coisas ruins, pois quando a lembrança é vivenciada com frequência é impossível escapar do desgaste mental. Acreditar que é possível apagar o passado é uma forma de negar acontecimentos e propor que as coisas poderiam ser melhor caso não tivessem acontecido. As cicatrizes de um erro cometido e que estão guardadas na memória são as mais difíceis de serem curadas.

Já as boas experiências não exigem muito esforço para acontecerem de início, porém é preciso de muita disposição e vontade para mantê-las e transformá-las. É deste desempenho que faz com que simples “colegas” se tornem “amigos”. A amizade é um fardo. Ser amigo é suportar as dificuldades e obstáculos não apenas em si, mas também num outro ser que representa importância fundamental em sua vida. Assim como disse Antoine de Saint-Exupéry, “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que te cativas”. Uma vez que se conquista o espaço na memória de alguém, você será eternamente responsável por acreditar e apoiar ela.

Bem, esta é uma história em que o acaso provou que certezas podem ser desviadas de sua proposição inicial. Quando um poeta prostra sobre os seus desatinos ele se propõe a enfrentar todos os seus medos. Como uma ave de rapina ele atravessa a sua própria consciência e se entrega aos ventos para guiar o seu voo, sem destino final, a viagem para quem se arrisca passa a ser mais importante que o objetivo.

A primeira vez que Romeu viu Júlio foi no seu primeiro dia de aula. Nesta nova fase que iniciara o estudante ingressaria na turma do primeiro ano em uma realidade completamente de tudo que tinha vivenciado até então. O medo estava aparente em suas expressões, a insegurança pulsava em cada centímetro de seu corpo como se este desafio fosse a pior coisa que enfrentaria em toda a sua vida.

Os olhos de Romeu se perdiam entre o chão, as suas mãos suadas tocavam-se incansavelmente e as paredes pareciam fechar-se à sua passagem. Ele evitava olhar para as outras pessoas para que não fosse notado, e mesmo quando elas olhavam para ele, em seu coração ele se sentia realmente encolhido. Foi neste momento que ele viu Júlio pela primeira vez, quando prendeu os seus olhos em alguém para nunca mais retirá-los.

Júlio passava pelo corredor junto a um grupo de amigos. Eles pareciam estar muito contentes com o retorno às aulas, entretanto pareciam pouco dispostos a estudar e mais interessados em manter o império da popularidade com a turma dos novos estudantes que acabaram de entrar no colégio.

Uma breve troca de olhares se sucedeu entre os dois – tempo o suficiente para saírem faíscas de um encontro visual não planejado. Não se trata de amor a primeira vista. Não se pode dizer que o que um sentimento tão profundo pode acontecer de maneira tão rápida a ponto de ser apreensível apenas pelo olhar. O máximo que se pode presumir é que dois sentimentos foram compatíveis entre os garotos: num primeiro momento curiosidade, num segundo momento foi a certeza de que uma pequena mudança acabava de acontecer. O que de fato tornou Júlio e Romeu tão próximos, mesmo que eles ainda não se conheçam, é por que ambos compartilharam de sensações semelhantes quando um se deparou com o outro.

Seis meses depois eles quase não se viram mais, isso porque ambos ignoraram os sentimentos iniciais transformando-os em simples sensações. Em poucas semanas Romeu encontrou a sua turma e, apesar dos seus problemas, não se sentia tão inseguro quanto no início do ano. De todas as vezes que ele ou Júlio procuraram no olhar do outro as “faíscas” que aconteceram no primeiro contato encontraram apenas o desinteresse. Em função da ausência de claras expressões, o que ficou certo é que qualquer possibilidade se tornou inviável, pois pertenciam a universos diferentes, no entanto eles ainda não tinham descoberto que as suas expectativas estavam próximas a mudar devido a uma série de acontecimentos que faziam parte do calendário escolar. Após o retorno das férias que dividem os bimestres o evento mais importante iria acontecer: o Baile da Primavera.

Cento e trinta alunos reuniam-se metodicamente sentados no auditório. A sala estava escura e o único ponto que transmitia a luz vinha de uma pequena máquina que projetava imagens em um telão. À frente, o Professor Samuel, que lecionava Artes e Literatura há um ano naquela escola, discursava sobre o seu tema favorito: Amor na literatura. Ele dizia:

— Em algum momento você vai acreditar que terá um amor para a vida toda. Todos nós sonhamos ou sonharemos com isto. O problema é que apenas uma parcela de nós vai encontrar a sua cara-metade. Desta parcela, apenas alguns viverão até a velhice juntos... O que é o amor? Um casal de idosos, um bando de crianças correndo numa casa no campo?

O público estava fascinado com a perspicácia do Professor em discursar sobre este assunto. Ataques de risadas se tornaram inevitáveis em vários momentos da palestra, sendo que a cada momento Samuel se empenhava mais em fazer com que eles compreendessem que entre a literatura e a realidade há um abismo instransponível. É a partir da literatura que construímos uma série de projeções sobre o nosso cotidiano. O objetivo do Professor era mostrar as limitações de nossa consciência perante as expectativas, principalmente quando as questões sentimentais estão envolvidas.

Ele já esteve ali. Nas inúmeras vezes que estudou sobre o amor ele se deparou com um precipício, o mesmo que os estudantes acabaram de descobrir. Afinal, o que o amor é? Ele existe? Onde é possível encontrá-lo? O problema é que quando se está neste precipício, restam-se poucas alternativas...

Samuel escolheu se atirar nele para descobrir o que aconteceria. Foi mais feliz com isto, porém ele conseguiu apenas duas coisas: uma bagagem conceitual gigantesca que a maior parte do tempo não servia para nada, já que a psique humana é inapreensível; e metade do coração vazio, já que ele fazia parte da parcela que encontrou a sua cara-metade, mas não foi correspondido.

— Se tem uma coisa que lhes peço, é que acreditem no amor. _ o professor iniciou a conclusão de sua palestra _ Acho que nada te fará tão triste e tão feliz do que acreditar nisto. Amar é se decepcionar, da mesma forma que vivenciar a essência de toda a felicidade humana. Se você colocou os interesses do outro acima dos seus, você amou. Se você quer ver uma pessoa feliz, mesmo quando ela não está mais com você, você amou. Se for imensurável, é amor...

O professor falou por mais um tempo e encerrou a sua apresentação.

Peço a genialidade e a poética de um dos maiores intelectuais da literatura emprestada para argumentar sobre este tema: Willian Shakespeare dizia que “O destino é o que embaralha as cartas, mas nós somos os que jogamos”. Há muita razão no que ele diz, já que o resultado das possibilidades será medido a partir do desempenho em fazer com que desejamos dê certo.

Se formos feitos de experiências e são elas que constituem a memória, o melhor que se tem a fazer é tentar alcançar aquilo que deseja para que não haja arrependimentos. O mundo é feito de pessoas e pessoas são feitas de razão, de sentimentos e escolhas... Atravessando os meandros da razão e intuição é que Romeu e Júlio encontraram o seu “Era uma vez”...