Logo, os céus que antes estavam limpos com a lua cheia brilhando, agora novamente fora tomada por densas nuvens de chuva que ameaçavam se desabar em intensas torrentes de água por toda Valáquia. Parecia até mesmo um sinal de que o espírito da Donzela Sagrada havia se compadecido do que ocorrera, tanto a tragédia envolvendo a morte da rainha Beatrice quanto a tomada da Ordem ao poder que antes pertencia ao rei Vlad Drácula, mas nada elas podiam fazer diante de tanto sofrimento.

Podia-se ver que todos os cidadãos valaquios estavam em profundo luto. A melancolia estava presente em toda a população, que em suas condições, estavam vestidos de branco para expressarem a sua dor em meio às suas lágrimas e rostos caídos enquanto marchavam em direção ao local onde o funeral da antiga rainha seria realizado, enquanto os outros que estavam já presentes apenas aguardavam o corpo que viria mais tarde. Mas não se importavam, iriam esperar o tempo que fosse necessário.

Enquanto isso, a Ordem acompanhada por alguns de seus membros, que por sua vez, vestiam-se de branco com suas capas em um tom púrpura mais claro, expressavam sorrisos vitoriosos em seus rostos ao observarem o grande pesar do povo valáquio e seus três mestres, então, ergueram suas taças para o alto em um brinde para então se deliciarem com o vinho. O trio após isso passou a observar pela janela o tom fúnebre e de profundo pesar da população, o que os fez sentir um grande prazer por terem lhes causado uma imensa dor que dificilmente iria cicatrizar.

— Meu senhor, sua ordem foi cumprida, duas bestas foram mandadas para irem atrás de Adrien Tepes. — De repente, um lacaio entrou na imensa sala do trono onde em seu fim, estavam escadarias que levavam a um trono de cor vermelha com detalhes dourados e pretos enquanto ao redor havia detalhes luxuosos feitos de prata. — A primeira eu posso afirmar que fora abatida.

— E a segunda? — O primeiro lorde olhou para o seu subordinado totalmente encapuzado com a cor marrom que estava ajoelhado diante dele e de outros dois senhores, o encarando enquanto balançava lentamente sua taça dourada com vinho em círculos. — Conseguiu obter resultado?

— Sim meu senhor, a segunda besta conseguiu. Mas tem um porém. — O segundo lorde fitou o aquele empregado com a escuridão em seus olhos enquanto segurava sua taça dourada com força, o que fez ele tremer e suar frio enquanto seu olhar denota decepção. — O corpo de Adrien não foi encontrado no local de sua morte.

Líviu não se conteve mais. Ao ouvir aquelas palavras, ele descontou a sua raiva jogando a sua taça com força em direção àquele lacaio, que por sua vez, urrou de dor e sentiu o líquido vinho sobre as suas vestes, ao mesmo tempo que pôde sentir o peso de sua própria estupidez e incompetência enquanto fechava os olhos e tentava ignorar a sua dor naquele momento.

— Seu tolo…aquela besta pode não ter conseguido eliminá-lo, aquele verme maldito ainda pode estar vivo em algum lugar! — Aquele lorde então caminhou em passos firmes em direção ao seu subordinado e então o pegou com firmeza pelas cordas de sua capa, puxando-a com força para fazê-lo aproximar-se dele. — Se isso ocorrer e a população souber…estaremos arruinados!

O lacaio sentiu seu rosto sendo esbofeteado uma vez, então fora jogado no chão o cuspe de seu superior atingiu a sua face enquanto o senhor se afastava e limpava a sua boca. Então, ele se levantou e deu uma rápida olhada nos dois senhores e após isso, abaixou a cabeça ao ajoelhar-se no chão e preparou-se para ouvir pesadas palavras de repreensão vindo deles após perceber os olhares de desprezo e desgosto nele mesmo, até que ouviu a voz do terceiro lorde.

— Sabes bem que o nosso objetivo é eliminar completamente a casa dos Tepes, agora, se único sobrevivente ainda está vivo, significa que as chances dele querer reclamar o trono serão grandes e isso causará rebeliões. — Simon estreitou o seu olhar e franziu a sobrancelha enquanto cerrou o seu punho.

— Perdão meu senhor…eu enviarei mais bestas para procurar o herdeiro e eliminá-lo de uma vez por todas. — O lacaio então ajoelhou com o seu rosto encostando o chão e suando frio enquanto suas mãos tremiam, mas seus pensamentos eram em compensar sua incompetência naquele momento, tentando ignorar o seu medo pela morte.

O primeiro lorde então fechou seus olhos. Ao colocar sua mão em seu queixo, ele começou a pensar por um momento em alguma solução, então sorriu de maneira cínica e em seguida sentou-se em seu mais novo trono, para depois olhar para o seu subordinado de forma sombria ao finalmente raciocinar o que ocorreu após Adrien ter sobrevivido ao ataque de duas bestas, o que fez o lacaio estremecer e ficar confuso.

— Não será necessário fazer tal coisa. Ou pelo menos, da forma que está pensando. — Iulian abaixou um pouco a cabeça e bebericou um pouco de seu vinho antes de falar. — Primeiramente, nós temos que usar a cabeça. Senhores, pensem comigo, para onde mais o Tepes iria em busca de refúgio?

— É claro, ele iria para o território otomano. Lembrem-se que Beatrice era a filha adotiva do vizir e ele tinha mais duas filhas. — Simon começou a caminhar pela vasta sala e contemplando a decoração pitoresca que envolvia alguns quadros sombrios de figuras humanas as quais considerou imorais. — Soube que as duas casaram com príncipes do império e uma delas até virou rainha.

— Então por amor àquela mulher, a rainha iria convencer o sultão de acolher o seu sobrinho adotivo. Que coisa meiga, não? — Líviu então pôde sorrir cinicamente ao seguir o raciocínio de seus companheiros, sabendo dos laços de família e aliança que rondavam a família Tepes. Então, ele cerrou o punho e estreitou o seu olhar sombrio para o primeiro lorde. — São quantos dias de viagem para lá?

— Cinco dias no máximo, mas duvido que ele sobreviva até lá. Se duas bestas normais não conseguiram pegá-lo, devemos usar algo maior. — Ele respondeu esfregando seus dois dedos no queixo enquanto olhava para o confuso lacaio. — Mas para isso devemos usar um sacrifício, não é? Para poder chamar a atenção dele, pois sabemos de sua teimosia.

— P-piedade vossa excelência…por favor! — Exclamou o subordinado, que levantou a sua cabeça em desespero enquanto o seu corpo tremia, suava frio e contia as lágrimas de seu rosto. — POR FAVOR NÃO ME OFEREÇA A ELE! EU FAÇO QUALQUER COISA!

Em vão foram suas súplicas, Iulian chamou dois de seus soldados e o mandaram levá-lo dali o quanto antes até o andar mais inferior do castelo. Então, as portas se fecharam e o lorde pôde suspirar de alívio ao pensar na criatura que ele iria mandar, o qual obteria mais êxito no objetivo principal e por isso, passou a degustar mais de seu vinho enquanto seus companheiros o olhavam.

— Agora que essa tempestade finalmente passou…porque não vamos apreciar a nossa bela vista? Se querem saber…o sofrimento dessas pobres almas apenas acrescenta mais sabor ao nosso vinho em comemoração à nossa vitória. — Iulian sorri cinicamente enquanto levanta-se de seu trono e caminha até a janela, de onde pôde observar várias pessoas indo na mesma direção para comparecer ao funeral.

— De fato, eu devo concordar. Agora…porque não eliminamos os resquícios daquelas deusas após aquele enterro? O mestre irá rezar pela alma de Beatrice e como eles estão vulneráveis, será melhor se atacarmos agora. — Liviu olhou com desgosto para aquela gente enquanto cerrava o seu punho, e então, direcionou seus olhos para o primeiro lorde. — Apenas dê a Ordem, Iulian!

— Paciência é uma virtude, Líviu, apenas vamos aguardar, após isso, nós iremos continuar com os nossos planos. — Simon colocou a mão no ombro de seu companheiro e tentou acalmá-lo enquanto seu olhar era brando, mas que de fato não conseguiu convencer o lorde de aguardar mais um pouco antes dos próximos passos. — Por enquanto, mande fecioares para supervisionar o funeral e o enterro, eles não podem fazer mais nada visto que estão muito fracos em poder de batalha.

Iulian assentiu com a cabeça para o segundo lorde, então levantou-se e juntou-se aos seus companheiros. Ele tratou de servir-se mais uma vez com vinho enquanto seus pensamentos sobre a situação atual se extinguiam, dando lugar para outro que ele considerava importante: o de escolher uma nova Donzela Sagrada, era um dever importante como um mestre da Ordem que ele não deveria ignorar.

Enquanto pensava, ele olhava para as pessoas, o que o fez sorrir levemente de escárnio. Mas não viu quando seus companheiros chamaram a líder das fecioares para o dever de supervisionar o funeral e por isso, ao vê-la, foi chamado a atenção por Simon e logo atentou-se para a mulher de cabelos castanhos e vestida com roupas inteiramente pretas e com uma espada em sua cintura.

Lívio, por sua vez, deu a ordem para aquela dama, uma das soldadas chamadas de fecioare. Ele estava ciente de que aquela mulher era apenas uma das demais que se dedicavam à organização e que nunca se casavam, sendo essa a razão de serem chamadas de virgens. Dada o dever, ela, então, retirou-se da sala marchando para repassar o que lhe foi mandado para as outras de seu esquadrão, não podendo questionar nada.

Já passado algum tempo, os três lordes assistiram a armada de oficiais partindo com a sua líder, que por sua vez, andou se misturando com a população e assistiram a grande concentração de pessoas na praça. Porém, passou-se uma hora e nada do corpo da falecida chegar, o que fez com que elas ficassem impacientes e quisessem partir, mas não podiam pois receberam ordens para estarem ali vigiando para que nenhuma oposição ocorresse.

O tempo passou, as nuvens carregadas de chuva despencaram em torrentes que fizeram algumas soldadas pensarem que alguns iriam se recolher em suas casas, contudo não aconteceu. Enquanto chovia, as pessoas esperavam ansiosas para poderem se despedir enfim de sua amada rainha e trataram de pegar suas velas, untá-las com uma substância viscosa e depois acenderem-nas enquanto rezavam para que a chuva pudesse ser amenizada.

Então, por volta da meia noite, a chuva diminuiu. As pessoas agradeceram em suas orações enquanto viam um esquadrão fúnebre que começou a passar por ali e todos começaram a acender suas velas, olhando para o caixão de vidro onde jazia Beatrice, com o seu corpo restaurado, não parecendo ser a mesma que estava chamuscada há horas atrás e por isso agradeceram aos embalsamadores por tamanho trabalho.

A bela mulher, por sua vez, estava com seus cabelos ondulados loiros soltos, além de vestir-se com roupas luxuosas de sua cor favorita e adornada de algumas joias, especialmente em seu pescoço e dedos. Já sua expressão, era de plena calma, como se estivesse dormindo enquanto estava deitada em meio à rosas brancas e isso comoveu a muitos que estavam a vê-la e arrancou lágrimas de mulheres e crianças.

— Lumina lhe dê um local de paz e descanso eterno, vossa majestade… — Disse uma mulher aparentando ter sessenta anos, que segurava uma espécie de rosário contendo um losango entalhado em madeira com uma bijuteria em seu centro. A senhora estava com seus olhos inchados e vermelhos de tanto que havia chorado e acompanhava com seus olhos o caixão sendo levado pelo esquadrão.

Enfim, uma grande caminhada começou em direção ao cemitério. A cidade passou a ser iluminada pelas velas carregadas pelas pessoas enlutadas, que por sua vez, ecoavam cânticos fúnebres e orações para que a alma pudesse encontrar descanso e a mais completa paz nas mãos da Donzela Sagrada enquanto elas continuavam marchando, olhando até mesmo para as nobres amigas da rainha que choravam enquanto seguravam seus rosários.

Ao chegarem no cemitério, os coveiros pegaram o caixão com cuidado e o carregaram para um mausoléu que pertencia à família Ardelean e que fora construído há séculos atrás. Entre as pessoas que acompanhavam o enterro e choravam fazendo orações com seus rosários em mãos, estavam Helena Arnaud e Amélia Iliescu, que por sua vez rezavam em silêncio enquanto seus olhos estavam fechados e seus rostos mostravam seu luto, mas não choravam, apenas sentiam um grande pesar.

— Elana levou Adrien para longe, só espero que ele esteja seguro e longe dos perigos da Ordem. — Helena falou baixo para apenas sua amiga ouvir e logo mexeu uma mecha de seu cabelo castanho para trás de sua orelha enquanto olhava para o túmulo sendo levado para dentro. O planejado seria que o caixão fosse colocado no centro dentro do túmulo, a fim de que qualquer um pudesse visitar o local para prestar alguma homenagem.

— E ele está, com certeza. Beatrice não esperava que fosse necessário que a sua serva tivesse que agir, mas foi em uma ótima hora. Ela pôde proteger o único bem precioso antes que pudesse partir. — Amélia soltou um longo suspiro enquanto observava as pessoas deixando flores e viu a própria iminência do templo sagrado rezando e falando suas considerações finais em seguida. — E quanto ao Vlad? Helena…

— Ele está morto. — Ela falou com um grande pesar em sua voz, olhando para a sua amiga que ficou chocada com o que ouviu. Não restava dúvidas, finalmente, após anos, a Ordem finalmente havia vencido e elas podiam esperar agora pelo pior com os três mestres estando no poder, sabendo que eles iriam emitir o seu primeiro decreto logo e que afetaria a todos.

A abolição.

Notas finais
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