O cavalo branco continuava a trotar enquanto a paisagem começava a mudar, com o crepúsculo dando lugar aos poucos para a noite escura durante o tempo em que a própria lua começava a nascer com o seu brilho amarelado. Adrien estava montado no equino e usou a boca para desamarrar as cordas de seus pulsos, mas ao ver-se liberto, fitou a mulher encapuzada à sua frente, guiando as rédeas com a sombra cobrindo parte de seu rosto e mantendo seu foco na trilha que seguia dentro de uma floresta que estava sendo iluminada pelo astro noturno.

Eles seguiram silenciosos durante o trajeto, até então sem destino aparente, mas não era de suma importância naquele momento. O objetivo principal era de que o agora antigo príncipe de Valáquia continuasse vivo perante às perseguições da organização que começaram contra ele, pois era o último membro da família real que estava vivo, e o propósito deles era claro: impedir que no futuro, ele reclamasse o trono que lhe era por direito, mas além disso eles se perguntavam onde Drácula estava e mesmo que soubessem onde, o antigo monarca fora declarado morto.

Mas no momento, diante da grande força e poder conquistados pela Ordem, as chances de revolta e oposição eram nulas. Adrien sabia disso pois fora testemunha e estava consciente de que se ousasse confrontá-los na forma que estava, ele seria morto, provavelmente à espada como ia acontecendo antes de seu resgate ou na fogueira como sua mãe faleceu de maneira trágica diante dos olhos dele, e, passar essas memórias em sua mente o perturbava, pois o sentimento de estar só no mundo sem seus pais e em uma crise como aquela após a trágica morte deles o deixava completamente inseguro e incapaz.

— Jovem mestre, essa floresta nos levará para a fronteira com o império otomano em dois ou três dias, talvez o sultão tenha misericórdia, pois o vizir é da família adotiva de sua mãe, então eles poderão acolhê-lo durante um tempo. — A mulher falou sem virar o rosto para o jovem, não querendo perder o foco durante sua fuga, enquanto ele concordava com a cabeça.

— Permanecerei lá, talvez se eu fizesse um acordo com o sultão, ele poderia me dar o apoio que necessário, mas duvido que ele o faça, o orgulho e a necessidade dele de conquista de outros países além de Valáquia o cegaram. — Adrien fechou seus olhos por um momento, franzindo o cenho enquanto escondia seus reais sentimentos com a sua seriedade e aspecto sombrio.

— Não pense nisso por agora, jovem mestre, desejo apenas que fique seguro, como a sua mãe mandou-me fazer. Ela sentiu um mau pressentimento antes mesmo do festival começar e ordenou que cuidasse de sua segurança dentro das sombras, a prioridade dela era o senhor. — A serva abaixou um pouco a cabeça e lutou para conter suas lágrimas por causa do sentimento de ter perdido sua senhora.

— Agora eu entendo do porque me resgatar quando o meu destino iria ser o mesmo que ela. — Ele virou a cabeça levemente para o lado, olhou para a paisagem e começou a pensar, com as lágrimas molhando o seu rosto, enquanto as suas memórias do trágico festival passavam pela sua mente.

Começou a pensar no que tinha acontecido com Victória e se ela e a família Leblanc haviam deixado o local em segurança, mas não somente isso, se as outras famílias fundadoras haviam conseguido o mesmo. Mas além disso, se perguntou do porquê da Ordem ter poupado os seis generais que estavam gravemente feridos e cercados de médicos. Talvez fosse por uma falsa misericórdia para depois matá-los ou por ver neles alguma utilidade para que os servisse, mas ele duvidava, aqueles oficiais da elite eram leais à Drácula e fizeram um juramento de lealdade à sangue.

Apesar disso, sua tristeza aos poucos se esvaiu. Seus olhar começou a se estreitar enquanto o seu coração começou a se acelerar e seus dentes se cerraram, mas tentou controlar-se para não machucar a sua serva em meio àquele sentimento de repulsa e raiva por aquela maldita organização, tanto pelo ato de covardia ao usar a morte de sua mãe como uma afronta ao seu pai, quanto por terem tomado o poder que era da família Tepes.

— Elana, apresse-se, agora! — Adrien logo saiu de seus pensamentos ao sentir uma presença maligna e a serva, por sua vez, tratou de obedecer, movimentando as rédeas do equino para que ele fosse o mais veloz que ele pudesse e logo puderam ouvir um uivo alto além de passos que faziam tremores no chão.

— Uma besta corrompida! — Elana olhou para trás e seus olhos se arregalaram ao ver uma criatura lupina cinzenta de três metros de altura, com olhos azuis marcantes e uma tatuagem em seu braço que denotava a quem ele pertencia. Era claro que fora a organização que a mandou. — Adrien, continue segurando firme!

A jovem serva continuou a movimentar as rédeas de seu cavalo, que relinchou em resposta e permaneceu trotando de maneira veloz para tentar escapar de tal criatura a qual ele sentia em seus cascos os tremores que o ameaçava parar, mas Elana não permitiu que isso acontecesse. Mas então, a besta parou, o que fez o rapaz e a mulher desconfiarem se podiam fugir para um local seguro e isso os deixou em guarda.

Então, o lobo preparou-se e deu um grande salto com suas garras à mostra em direção às suas duas vítimas. Ao verem aquilo, Adrien e Elana saltaram rapidamente e terminaram rolando no chão. Após isso, viram aquela besta ao lado do cadáver com uma grande ferida de garras a qual saía sangue que escorria pelo chão, mas o que os chocou fora a sua montaria ser comida brutalmente na frente deles e logo receberam os olhares predatórios do canino.

Ao levantar-se, Elana se pôs na frente de seu senhor, logo desembainhou a espada e ficou alerta ao lado dele enquanto a besta começou a rodeá-los e preparando-se para atacar. No entanto, quando investiu contra a moça, ela conseguiu desviar ao lado de seu senhor e o empurrou para o lado enquanto a besta a atacou novamente e feriu-a nas pernas com a sua garra, o que fez a moça começar a ficar fraca devido a um veneno contido nas armas naturais da besta, mas ela conseguiu fincar sua espada na pata esquerda do animal, em seguida o golpeou no focinho e levantou-se com dificuldade.

A fera rugiu de dor, mas em um movimento rápido conseguiu dar um golpe em Elana que a fez acertar a árvore e a serva começou a respirar ofegante enquanto sua visão ficou turva, vendo dois lobos saltando contra ela. Adrien começou a pensar e culpou-se por não ter estado com a sua espada naquele momento, então se aproximou rapidamente e jogou terra no animal, cegando a besta por um momento enquanto ele pegava a sua serva em seus braços e começou a correr.

— Adrien…corra…precisa se salvar… — Elana olhou para o jovem e fechou os olhos em seguida enquanto sentia sua pele suar. Já ele, por sua vez, ignorou aquelas palavras e então fitou a ferida da sua serva, que estava roxa, sangrava e a dor fazia ela soltar grunhidos e franzir as sobrancelhas.

— Não desiste, não é? — Adrien rapidamente esquivou do golpe do lobo após senti-lo preparando-se para saltar, então deixou a garota embaixo de uma árvore, pegou a espada dela e terminou por se posicionar para o combate mostrando um círculo de luz vermelha que o rodeava enquanto seus olhos âmbar brilhavam em amarelo. — Lumina me ajude.

O lobo por um instante ficou distraído ao ver a coloração dos olhos do rapaz e sentiu-se um pouco intimidado, porém voltou a rosnar e começou a rodeá-lo em busca de uma nova oportunidade para atacar. Adrien, por sua vez, permaneceu com seus olhos atentos na criatura de aura maligna para o movimento que ela iria fazer, então invocou duas bolas de fogo de aspecto de magma contra o canino e o acertou, fazendo com que ele soltasse grunhidos caninos de dor.

Porém ele era resistente, as queimaduras causadas pelo ataque mágico não o afetou completamente e novamente saltou para atacar o rapaz que por sua vez esquivou rolando para o chão e lançou a espada na outra pata do animal mas viu que não se deu por vencido e olhou para a serva, lambendo os lábios em seguida. Adrien soube das intenções dele e pensou rápido, lançou uma onda de fogo contra o lobo mas a fera conseguiu desviar e correu até Elana, que naquele instante aparentava estar com bastante fraqueza e tontura.

— É melhor não pensar nisso! — O jovem avançou rapidamente contra o lobo e fincou a espada no estômago dele, o fazendo grunhir com bastante dor, contudo, ele viu a criatura começar a encará-lo de maneira predatória e nesse instante Adrien percebeu que a luta ainda não havia acabado.

Após pegar a sua espada ensanguentada, ele encarou a criatura de maneira igual. Com uma rápida investida, o canino o atacou com toda a sua fúria e golpeou o jovem na perna, o que o fez ficar debilitado mas não o suficiente para não desviar do próximo passo do animal que o rodeou esperando o veneno contido nas garras dele, fazer o mesmo efeito que fez na serva que naquele momento já estava inconsciente após algumas poucas vezes que assistiu a luta e estava pronta para o abate do lupino que ansiava por sua presa.

Adrien tentou resistir ao veneno que começou a agir em seu corpo, fazendo-o respirar ofegante e suar, além de fazer sua visão ficar turva. Então, levantou-se com a sua espada na mão e avançou contra a criatura mas com sua velocidade reduzida por estar debilitado. Contudo, o lobo, por sua vez, esquivou e com outro movimento conseguiu atacar fortemente o jovem com a sua pata e o fez acertar a árvore enquanto o predador olhava para a sua presa suculenta.

— Não…NÃO!... — Adrien arregalou o seu olhar preocupado ao ver o lobo se aproximando de sua serva, então chocou-se assistindo sem reagir, o canino se alimentando do corpo de Elana. O rapaz levantou-se cambaleando enquanto a ferida de sua perna sangrava e respirava ofegante enquanto via a fera se recuperando completamente de suas feridas, então olhou predatoriamente para ele. — Sua…sua besta miserável…

Adrien cerrou seus dentes enquanto seu sangue fervia, franzindo o cenho enquanto seu coração se acelerava e sua mão segurava a espada, a qual pertencia à sua serva e que agora, apenas restaram pedaços de carne espalhados embaixo da árvore onde ela estava. O lobo então avança contra o jovem e o golpeia, mas dessa vez, em seu peito, na esperança de matá-lo

No entanto, o rapaz usou todas as suas forças para resistir, não queria morrer ali. Ao lembrando-se do que ocorreu, começou a pensar que o desejo de sua mãe seria que ele permanecesse vivo e essa foi a sua motivação para continuar. No entanto, o veneno estava em estágio avançado e ele já estava sentindo sensações de desmaio que logo o deixariam inconsciente assim como fez com Elana.

Mas de repente, uma ideia se projetou em sua mente e ele perguntou em sua própria consciência: o que aconteceria se caso ele comesse a carne do lobo que se recuperou comendo o corpo de sua serva. No entanto, tinha um obstáculo: não era garantido que iria funcionar, porém ele não tinha escolha, não queria morrer ali e essa tentativa era a sua única esperança naquele momento de tensão e incerteza.

Após levantar-se, Adrien encarou o lobo pela última vez e empunhou com muito esforço a sua espada. Então, permaneceu parado debaixo da árvore sentindo o veneno em seu estágio final, mas resistiu para não cair inconsciente naquele momento e esperou o canino se aproximar para o esperado momento acontecer onde ele tentaria atacá-lo novamente para depois comer o seu cadáver.

Mas quando a besta atacou, ele desviou com muita dificuldade e então fincou a sua espada no corpo dele, porém não tinha certeza se havia acertado o local desejado devido à sua visão debilitada. No entanto, ele não esperou mais, aproveitou a oportunidade e mordeu com tanta força o lupino, que ele grunhiu com muita dor ao sentir um pedaço de sua perna sendo arrancada e revidou com um golpe de garras no jovem, que por sua vez, esquivou e acabou por ver a marca na árvore.

— Isso é por Elana…sua besta miserável… — Pensou Adrien, que sentiu o gosto amargo de carne de lobo crua em sua boca. Mas após mastigar e egonlir o pedaço que arrancara, sentia-se, em parte, revigorado, porém resistiu ao seu estômago que embrulhou-se.

Mas felizmente, aquilo já era o suficiente para avançar mais uma vez contra a criatura, dessa vez com a cruel intenção decepar a pata dele, o que fez os olhos do rapaz brilharem em vermelho vivo. Finalmente, após aquele movimento, ele terminou fincando sua espada no estômago do animal debilitado e em seguida rasgou a sua garganta, o que fez a criatura escurecer o seu olhar sem vida, o que fez o rapaz respirar aliviado e sentiu seus olhos voltando ao normal.

Mas ainda não acabou, o veneno ainda estava em seu corpo. O jovem grunhiu em terra que de repetir aquele processo, mas mesmo à contra gosto, ele tratou comer um pouco da carcaça daquela criatura para curar-se por completo. Porém, por dentro ele sentia-se impuro devido ao seu feito para salvar a sua vida e lutou contra sua vontade de vomitar, mas resistiu e finalmente olhou para a árvore onde os poucos pedaços de Elana estavam e não resistiu, gritou com toda a sua força e no fim deu socos no chão para descontar o que sentia, acabando por se derramar em lágrimas.

— Elana…sinto muito…nós deveríamos escapar com vida, mas me protegeste até o fim. Agora apenas rezarei que tenha o descanso eterno que tanto merece…após os anos que serviu à mim e à minha família. — Ele segurou os pedaços de sua serva, chorando mais um pouco, então cavou um buraco, os enterrou ali debaixo daquela árvore, colocou um círculo de flores selvagens na tumba improvisada e se ajoelhou, começando a rezar.

— Elana…descanse em paz…agora eu preciso me purificar antes de partir para o império otomano, eu peço às deusas proteção e que olhem por mim. — Após rezar e estas palavras, Adrien levantou-se olhando com profundo pesar para aquela cova, então pegou a espada, deu uma última olhada naquela tumba e começou a caminhar sem rumo, sem saber que outros olhos azuis marcantes o observavam pelas moitas próximas dali.

— Custe…o que custar… — Essas palavras vinham em sua mente enquanto observava o jovem, lembrando-se de seus senhores as quais lhe deram essas ordens, ele estava apto a cumprí-las não importasse o que acontecesse, e no fim, estava crente de que iria entregar a cabeça decepada do príncipe para seu mestre.

Notas finais
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