Notas iniciais
Olá meus amores! Como estão? Aqui vai o último capítulo dessa short fic que eu amei escrever. Primeiramente, agradeço a todos os comentários. Fiquei com o coração quentinho com eles kkk. Vou falar mais coisas nas notas finais. Beijos e boa leitura!

Pov Felicity Smoak

Esse vestido estava me matando.

Além das joias, repletas de rubis vermelhos, que apertavam o meu pescoço. Não me entenda mal, não estou sendo mal agradecida. Fora um presente, realmente, maravilhoso que o príncipe me dera. Rubis, entusiasmo e paixão. Pedra da realeza cobiçada por muitos, principalmente por serem tão valiosas. No primeiro dia em que as usei, me senti como se ainda estivesse em uma joalheria, sendo observada.

Calculada.

Dos pés à cabeça.

Como se se questionassem se eu realmente valia a pena.

E ainda havia o anel, ah, o anel. Só de olhá-lo em meu dedo sentia meu estômago embrulhar. Estava tão atordoada, que quando Ray se ajoelhou e fez o pedido, com diversas testemunhas ao redor, eu entrei em pânico. O príncipe havia me pedido em casamento, momento que seria considerado o ápice da felicidade de qualquer jovem londrina. Mas para mim…Ah, eu não continha uma opinião formada.Apenas disse um “sim”. Em completo choque.

Desde Oliver eu me sentia perdida.

E por falar nele….

Não havíamos conversado mais, e eu sinceramente não fazia questão. Mas uma parte de mim, profunda, aguardou ansiosamente que nos primeiros dias eles aparecesse, e que tudo se resolveria.

Mas ele não apareceu.

Nenhum dia.

E eu engoli amargamente o sentimento, que agora, só ao pensar, me irritava. Eu não queria sentir aquelas coisas por ele, eu não podia.

Ainda sim eu o provoquei.

Ainda sim eu o beijei.

E pedi para que não parasse.

Aquela noite me marcou mais do que eu poderia imaginar. A forma como ele me tocou…Tão terna e delicada, e ao mesmo tempo, desesperada. Estávamos nervosos. O risco de sermos pegos naquele momento, a confusão de nossos sentimentos…Mas eu estava cansada de negar. Estava cansada de negar que não o ama e que não o queria ardentemente, cansada de, dia após dia, me perguntar se o que eu sentia por Oliver era real. Bom, era real.

Ao menos para mim.

Ele, por outro lado, não sentia a mesma coisa.

Não posso dizer que lidei bem. Ouvir de sua boca que “não podia” e que me queria “desesperadamente” mexeram comigo, brincou com minhas emoções. Oliver, apaixonado por mim.

Talvez não estivesse tão apaixonado assim afinal.

Ele me deixou ir fácil demais.

Após a nossa pequena discussão, onde ele mal conseguia olhar em meus olhos, eu parti, desesperada até o encontro de Caitlin. Minha amiga não me fez muitas perguntas, apenas assentiu quando eu disse que teria que ir embora.

Era parecia aliviada também.

Algo havia acontecido entre ela e Tommy.

Mas não me contou.

A respeitei, da mesma forma que a mesma fizera comigo. Achei que me sentiria melhor ao estar em casa, mas no momento em que pisei na capital meu mundo caiu, e eu me vi, aguardando a volta da família Queen ansiosa.

Patética.

Minha mãe, de certa forma, percebeu meu comportamento. Eu não reclamava mais dos bailes, ou dos pretendentes como sempre fazia, eu apenas…Aceitava, aceitava tudo em um sorriso. Foi dessa forma que me aproximei do príncipe.

Meu futuro marido.

Acho que vou vomitar.

Apesar dos meus nãos constantes, ele não havia desistido. A cada passeio ao parque eu fazia ele estava lá, nos salões de dança, chás da tarde…Ray era um cavalheiro, um homem extremamente bondoso. Se importava com as pessoas, e não se sentia superior devido ao título real. Ele era perfeito, mas ainda sim…

Prendi o choro, engolindo em seco e continuei a caminhar pela multidão.

Ele era cuidadoso, como no parque por exemplo, onde fomos caminhar com meus pais. Tudo estava indo bem até que aquele par atormentante de olhos azuis, que como um imã, não me deixava desviar de seu alcance apareceu. Oliver estava ao lado de Moira, como sempre elegantes, mas quando me olhou…Quando nos olhamos…Meu mundo parou, e eu não enxerguei mais Ray ao meu lado, tão pouco o que estávamos conversando. Eu apenas o encarei, feliz por vê-lo depois de tanto tempo, raivosa por ele estar ali, magoada pelo o que acontecerá. Ele se tornava o centro de meu mundo, acelerando meu coração e despertando coisas que eu não sentia por ninguém. Imediatamente lembrei de seu beijo, e sua mão quente, que apertou minha coxa. Tentei me recompor, especialmente pelo pigarrear nada discreto da duquesa. Nós dois permanecemos daquela forma.

Tensos.

Sem conseguir ignorar a existência um do outro.

O vi rir do buquê de rosas que Ray me dera, e o desafiei a falar algo. Ouvir sua voz em um falso entusiasmo, contando ao príncipe que ele havia escolhido com perfeição minhas flores só havia me irritado mais. Era óbvio que ele havia feito aquilo para me provocar, sabia exatamente de quais eu gostava.

Cultivava um canteiro cheio delas…

Tentei ignorar o pensamento, e pedi para irmos embora, pois se ficássemos ali algo ruim poderia acontecer. Moira encarou o fundo de meus olhos, sorrindo de forma tímida, como se se desculpasse, e no momento em que nossos olhares se cruzaram pela última vez…Não havia mais ironia, tampouco cinismo, apenas havia dor. Palavras não ditas, e pela minha suspeita, continuariam a ser assim. Não consegui mais focar no passeio, ou apreciar a companhia de Ray e fiz o que estava fazendo nos últimos meses: Fui para casa, e fiquei deprimida na biblioteca.

— Não concorda Lady Smoak?- despertei de meus pensamentos. Estávamos em mais um chá no castelo, onde membros da realeza me interrogavam. O marquês de Basilweathe me mantinha em um monólogo irritante, falando de suas propriedades. Fingi um sorriso, e apenas concordei com sabe-se lá o que ele estava falando.

— Perfeitamente.- assenti, o vi sorrir e minha mãe, que acompanhou o meu deslize, o dispensou delicadamente.

— Felicity? Quer ir embora?- perguntou em tom baixo.

— Prometemos ao príncipe que passariamos a tarde aqui, não foi? Sou uma mulher de palavra.- respondi, desinteressada.- Além do mais, temos que nos acostumar com isso, já que faremos parte.

— Não precisa se não quiser. Ainda não tiveram a cerimônia com a rainha para falarem oficialmente do pedido…- apertei os olhos.

— Não queria um casamento fabuloso? Pois então- sorri amarga.- agora temos.

A vi se preparar para refutar, no entanto, se calou, formando um sorriso doce nos lábios. Olhei para trás, encontrando Ray, que caminhava com graciosidade até nós. Fiz a reverência.

— Alteza.

— Lady Smoak.- beijou minha mão.- Se divertindo?

— Absurdamente.- fingi entusiasmo. Ray riu, e balançou a cabeça.

— Eu também não gosto.- cochichou ao se pôr ao meu lado.- Tem vezes que eu simplesmente me imagino em um campo na Áustria, e tudo fica suportável.

— Achei que o príncipe fosse gentil. Esse comentário é carregado de indelicadeza.- brinquei. Ray soltou um riso baixo.

— Segredo.- piscou.- Me acompanharia até o terraço?

Olhei para minha mãe, que assentiu por haver mais pessoas lá fora. Era dia, não havia perigo algum.

— Eu adoraria.

Aceitei seu braço e caminhamos, com todos os olhares em nós. Assim que atravessamos as enormes portas francesas, e o jardim real tomou conta de nossas vistas, relaxei. Estava sendo um dia difícil hoje.

Muito.

— Também gosto do campo.- o vi comentar ao meu lado. Ray havia se encostado na sacada, e mantinha seu olhar a frente. Fiz o mesmo.

—É muito belo.

— Igual a você.- seu olhar encontrou o meu, e o vi sorrir, animado.- É muito linda, Felicity.

Sorri sem jeito. Ray sempre encontrava uma maneira de me elogiar, fosse falando do palácio ou das raras vezes que o céu se abria. Ele havia se tornado um bom amigo, mas ainda sim…Ainda sim eu não conseguia amá-lo.

E estava me sentindo horrível por isso.

Ray merecia alguém que o amasse.

Pura e verdadeiramente.

— Por que está chorando?

— Hmmm?

Não havia percebido até que sua voz suave me acordasse. Pisquei algumas vezes, tentando me recompor e parecer amigável.

— Fiz alguma coisa?- perguntou preocupado.- Algo que a machucou lady Smoak?

— Não, você…É perfeito.- sorri, desesperada.- É só…- engoli em seco.- É só a pressão do casamento.- menti.- Fico imaginando a distância entre aqui e a Áustria…

— Não precisamos ir agora.- tocou em minha mão, solidário.- Se quiser, podemos passar a lua de mel lá, e depois ficar uns meses em Londres.- minha garganta se fechou.- Como preferir. Será minha esposa e…- deu um passo à frente, nos deixando próximos, muito próximos.— Quero que se sinta confortável. Podemos adiar a cerimônia, já que ainda não fizemos o comunicado oficial- coçou a cabeça.- temos tempo.

Sua respiração quente soprava levemente até minha bochecha, e eu, completamente petrificada, não me movia. Não que houvesse problema ele me dar um pequeno beijo. Iríamos nos casar, as pessoas sabiam disso, só faltava a confirmação. Mas ainda sim… Engoli em seco, sentindo falta de ar, e virei o rosto, fazendo com que Ray beijasse minha bochecha.

— Desculpe.- me afastei um pouco.

— Vamos ter tempo pra isso.- disse compreensível. Seus olhos encararam os meus, como se me analisasse.- Realmente é só isso que a aflige, Felicity?

Iria responder, no entanto, minha mãe apareceu. Suspirei aliviada.

— A rainha pediu para chamá-lo, alteza.- sorriu, educada.

— Vá.- o tranquilizei, pois parecia incerto em me deixar.- Estou bem.

Ray permaneceu parado, e após se certificar que eu realmente estava bem, saiu, fazendo uma reverência. Minhas mãos apertaram os malditos rubis, e senti uma necessidade absurda em tirá-los. Eram meus, e ao mesmo tempo, não eram.

— Pra casa, vamos para casa.- ordenou minha mãe ao acompanhar o movimento.

— Achei que quisesse discutir mais coisas sobre a cerimônia. O príncipe disse que a mãe dele ama rosas…

— Suas flores favoritas não são rosas, não é querida?

Estranhei a pergunta.

— Por que precisa saber disso?

— Nada. Apenas…- me olhou pensativa.- Apenas me recordei de algo.

A lancei um olhar interrogativo, sem entender seu ponto.

— Tulipas azuis, certo?- assenti. Um sorriso doce se formou em seus lábios.- O casarão Queen tem muitas delas.

Fiquei tensa, e desviei o olhar.

— Moira disse…

— Não importa.- a cortei, seca. Seu olhar se tornou rígido.

— Você parece se importar muito.- comentou em tom baixo.- E o duque também.

Iria rebater, irritada, mas ao cruzar seu olhar sábio e experiente, desisti. Apenas resmunguei, e arrumei a postura ao sairmos.

O duque também.

Se Oliver realmente se importasse, teria aparecido.

Marchei mais firme, colocando minha raiva em meus sapatos enquanto procurávamos a saída do castelo.

***

A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi tirar aquele colar. O escondi na gaveta de minha penteadeira, onde eu não pudesse vê-lo e usei a banheira para me acalmar. A água quente massageava meus ombros, e me fez dormir por alguns minutos.

Fui acordada por Caitlin, que informou que sairíamos para a sorveteria.

Seu rosto estava rígido e pude notar, enquanto me trocava, que Caitlin bisbilhotava as cortinas por mais vezes que eu pudesse contar. Balançava a cabeça e mantinha um olhar aborrecido e frustrado.

— Lorde Merlyn?- questionei, por cima.- Vocês estão bem?

— Não há nós, Felicity.- rebateu, irritada. Saiu da janela e olhou para o chão.- Como poderia? Sou sua dama de companhia, ele um Conde.- reclamou.

Parei imediatamente e observei a dor em seus olhos ao proferir aquelas palavras. Ela gostava dele.

Muito.

Mas não deixaria isso acontecer pelas malditas posições sociais.

Exatamente como eu e Oliver havíamos conversado.

— Caitlin.- suspirei.- Lhe dei espaço porque não me parecia certo importuná-la com isso. Mas ao te ver assim…- seus olhos lacrimejaram.- O ama, não?

Ela engoliu em seco, e me lançou o olhar mais sério do mundo.

— Amo.- respondeu firme.- E por amá-lo sei que não posso ficar com ele.- sua frase soou familiar a alguém…

A ele.

— Como pode amar alguém e mesmo assim decidir não ficar com essa pessoa?— perguntei sem pensar, com ódio guardado.- Como pode desistir dela?

— Eu o amo demais para fazê-lo passar por tudo isso.- sorriu amarga.- Imagine só o que as pessoas comentariam? Um conde com uma bastarda.- entreabri os lábios.- Não posso fazer isso com ele. Tommy é bom, é gentil, piedoso e romântico.- uma lágrima solitária escorreu por sua bochecha.- Não merece sofrer por estar comigo. Merece se casar com alguém que lhe passe segurança, facilite sua vida, não a complique. Eu tenho os meus demônios, não quero aterroriza-lo com eles.

Seu desabafo me pegou de surpresa, tão surpresa que eu não conseguia parar de olha-la completamente paralisada.

— Mas você o ama.— minha voz soou fraca, quase um sussurro.

— E por amá-lo eu estou o deixando ir.- deu de ombros, devastada.- O amo demais para fazê-lo sofrer.

Caitlin limpou o rosto, e sorriu, tentando me animar. A vi sair, e me apoiei na cadeira, completamente despedaçada. Jamais havia parado para pensar nessa perspectiva, e agora que a tenho…

“ E por amá-lo que estou o deixando ir.”

Caitlin não o usou, não fora uma libertina, ela apenas…Apenas tinha medo de machucar Tommy com seus próprios problemas, com sua reputação. Abriu mão de sua felicidade para vê-lo bem.

Coloquei minhas luvas, reflexiva. Encarei o anel em meu dedo, e o apertando com força, desci as escadas.

Talvez ele não havia sido o libertino que pensei.

Ignorei o pensamento, focando no homem qual eu iria me casar daqui um mês.

***

— Os sorvetes são um presente para os humanos. Cremosos, saborosos e caem bem em qualquer situação, seja para um desconsolo ou uma comemoração.- comentou minha mãe.

— Certamente.- respondi de boca cheia.

Estávamos sentadas na Ice Cream 's England, a sorveteria mais famosa de Londres. Toda sociedade frequentava o lugar, especialmente cavalheiros em época de cortejos. O lugar era arejado, havia de certa forma muita prataria, em especial pelas cristaleiras, mas as velas e flores postas nas mesas deixavam um sentimento tão romântico no lugar. Não havia maldade, apenas risos e sorvetes deliciosos.

— Por que não pegamos mais um?- sugeriu minha mãe.- Minhas garotas parecem tão abatidas.

Eu e Caitlin lançamos um sorriso tímido.

— Não há nada com que se preocupar senhora.

— Caitlin, já disse que não precisa me chamar assim.- a corrigiu.

— Não é apropriado…

— Que se danem todos eles.- a encarei de boca aberta.- Você Caitlin é da família, e ninguém jamais mudará isso.

Seus olhos lacrimejaram, e ela apenas assentiu, emocionada.

— Nunca agradeci pelo o que fizeram por mim.- comentou em tom baixo, mexendo seu sorvete com a colher.- Pela forma que me acolheram, me deram uma chance de viver.

— Então viva.- a aconselhou.- Se não fizer isso, vai se arrepender para sempre.

Sabia ao que ela estava se referindo, e encarei Caitlin, que apenas assentiu, tímida. Iria comentar, até que vi a família Lance passar pela porta. A Lady Laurel e Sara Lance cochichavam animadas, até que a mais velha me viu, e arqueou as sobrancelhas.

Ah não.

Olhei para Caitlin, que arrumou a postura e sorriu, às vendo caminhar até nós.

— Viscondessa.- cumprimentaram minha mãe com respeito.- Lady Smoak.- a voz de Laurel saiu fria.

— Já devemos chamá-la de vossa alteza?- brincou Sara. Entre as duas irmãs, Sara era minha favorita. Conversávamos durante os jantares até sua irmã chata aparecer.

— Ainda…Ainda não.- sorri desconfortável.

— Sempre em busca de um título, não é Lady Smoak?- alfinetou Laurel. Larguei o talher e a encarei friamente.

— Perdão?

— O príncipe… O duque…- seus lábios se apertaram, insatisfeitos.- Uma dama de sorte. Ambos parecem brigar por sua digníssima atenção.

— Não estou compreendendo. O que quer dizer, Laurel?

Minha mãe me repreendeu pelo tom irritado, mas eu queria muito saber sobre o que Laurel estava falando.

— Não seja cínica. Sabe muito bem o que a vossa graça fez.- respondeu, revirando os olhos.

— O que Oliver…Vossa Graça- me corrigi diante de seu olhar, que piorou ao me ver chamá-lo pelo primeiro nome.- fez?

— Parece não saber mesmo.- Sara disse, compreensiva.- O duque se envolveu em uma briga de bar há umas duas semanas.

Arqueei as costas, impactada.

— Com quem?

— O Conde Malone. Pelo o que comentaram foi uma briga feia.- disse.- O Conde, que aparentemente já havia brigado outra vez pelo hematoma no seu nariz- apertei as mãos com força, sentindo meu coração acelerar.- ficou com um belo olho roxo.

— E Oli…O duque.- me xinguei pelo deslize.- Ele está bem?

Percebi que havia esticado meu corpo para frente pelo toque de minha mãe em meu ombro, indicando que eu me recompusesse. Eu estava alterada, e as pessoas começaram a olhar. Sara pareceu entender, e sorriu calmamente.

— Fique tranquila. Ele se machucou, mas está bem.- suspirei, aliviada e a tensão se dissipou.

— Por qual motivo brigaram?- ousei perguntar, temendo a resposta.

Sara olhou no fundo de meus olhos, e em uma conversa silenciosa, respondeu minha pergunta. Agradeci por sua descrição.

— Isso não há como saber.- foi tudo o que respondeu, piscando.- Vamos Laurel? Quero um sorvete de creme.

As duas se foram, e eu, completamente paralisada, encarei meu sorvete. Ele havia brigado.

Por mim.

Ignorou o que isso pudesse trazer a sua reputação e me defendeu, sem deixar que a história verdadeira se espalhasse por aí. Engoli em seco, e ao molhar os lábios, notei os olhares de Caitlin e minha mãe, que apenas sorriram, e voltaram a conversar.

Oliver estava me deixando confusa, e para abafar a estranha sensação que crescia em meu peito, tomei mais uma colherada de sorvete.

***

A semana se arrastou em uma demasiada lentidão, e eu, ainda estava presa a conversa da sorveteria. Havia encontrado Thea, que não mencionara o duque para mim. Eu sabia que ela sabia de algo, assim como a mesma sabia que eu sabia.

Sabíamos muita coisa.

E no final ninguém sabia nada.

Eu realmente estava perdida.

Continuava a comparecer nos eventos sociais, sempre acompanhada de Ray. Brincávamos, riamos mas…Algo estava me consumindo, dia após dia, como um fogo intenso, que teimava em queimar. Suspirei, e continuei a caminhar pelo parque com meu pai e Caitlin. Minha mãe surpreendentemente havia recusado o convite. Segundo ela, estava indisposta para andar, então meu pai se ofereceu rapidamente para vir conosco. Não estava acreditando muito em suas palavras, mas apenas assenti.

talvez o ar fresco me ajudasse um pouco.

— Olha só se não são os Ramirez.- meu pai indicou com o queixo a família ao nosso lado.- Pessoas de bem. Gosto deles.

— O Barão Ramirez realmente é um bom homem.- sorri para Rene, que ao lado da esposa, brincavam com a filhinha chamada Zoe.- Eles tem uma criança muito bonita.

— De fato.- meu pai os cumprimentou.- Não vejo a hora de ter meus netinhos.- soltei um riso baixo.

— Também quero ser mãe.- meu sorriso diminuiu e engoli em seco.- espero que o bebê goste da Áustria.

Meu pai parou a caminhada de forma espontânea, observando meu rosto. Prendi a respiração.

O que ele estava fazendo?

— Quer mesmo se casar, querida?- questionou, sério.- Se for pelo Conde, já resolvemos, ele não irá incomodá-la.- balancei a cabeça em negativa.- Não compreendo.

— Não compreende o quê?

— Eu a conheço desde o dia que veio ao mundo, e sempre falamos do matrimônio de uma forma tão feliz e amorosa.- seu sorriso nostálgico sumiu ao me encarar.- Mas quando a vejo indo oficializar o pedido daqui uns dias com a rainha, tudo o que encontro é relutância, como se lutasse para a decisão de se casar com o príncipe permanecer.

— Pai…

— Você o ama?

Entrei os lábios completamente embasbacada. Ele estava me perguntando de forma direta. Me preparei para formular uma desculpa, mas a pessoa que vi a seguir me tirou completamente dos eixos. Ele estava um pouco machucado ao lado do maxilar, e as mãos, estavam para trás enquanto trazia Thea, que sorriu alegre ao me ver. Entrei em pânico, mas Caitlin apertou a minha mão, me dando forças.

— Boa tarde visconde.- Oliver fez uma reverência ao meu pai.

— Vossa Graça.- sorriu estranhamente animado.- Lady Queen.

— Visconde.- Thea sorriu.

Meu olhar encontrou o de Oliver, e o vi hesitar.

— Lady Smoak.- sua voz me arrepiou.

— Vossa Graça.- respondi. Encarei seu rosto mais de perto, notando os hematomas.- Você está bem?

Ignorei as etiquetas, minha raiva ou fosse lá o motivo que estava nos fazendo ficar separados. Oliver havia se machucado ao tentar me defender, e eu precisava saber se ele estava bem. Encarei o fundo de seus olhos, e notei seu corpo vacilar ao meu meu encontro, mas se manteve no mesmo lugar. Seu olhar, sempre tão centrado, demonstrava a mais profunda angústia.

Refletia os meus também.

— Estou.- soltei o ar, aliviada.- Estou bem.- repetiu, a fim de me tranquilizar.

Me sentia tão culpada…

— Acabei me machucando na aula de boxe.- mentiu, olhando rapidamente para meu pai, em um riso baixo.

— Acontece. Nem sempre golpeamos bem.- meu pai sustentou a história de forma brincalhona.

— Espero que ninguém tenha te convencido a entrar e se machucar.- Oliver me encarou.

— Eu decidi entrar. A culpa foi minha e de ninguém mais.- respondeu, sabendo exatamente ao que me referi.- De ninguém mais.

Desviei o olhar, evitando o intenso contato visual.

— E como a minha Lady favorita está?- sorri para Thea, que acompanhava nossa interação.- O conde…

— Digamos que, por ventura, chegou aos meus ouvidos que ele foi para o interior londrino pegar o anel de casamento dos pais.- sorriu, piscando. Acabei rindo.

— Porventura, claro.- assenti, prendendo o riso.- Você é uma tremenda fofoqueira.

Thea gargalhou e Oliver a acompanhou.

— Não posso evitar.- deu de ombros.

— Querida, já que está em companhia, se importa se eu falar com o barão Ramirez? Temos assuntos a tratar.- disse meu pai.

— Cla-Claro. Fique tranquilo.- o dei um beijo na bochecha.- Estou esperando aqui.

O vi sorrir, e olhar para Oliver, que de forma cômica deu um passo para trás, intimidado. Quem diria, um homem daquele tamanho com meu de meu pai.

Sorri, e Oliver arqueou as sobrancelhas, questionando. Apenas dei de ombros,

— Eu quero uns panos ali naquela barraca.- indicou o ponto colorido a poucos metros de distância.- Lady Snow? Você tem ótimos gostos para roupas, se importa de me acompanhar?

— De maneira alguma.- sorriu cúmplice.- Com licença Lady Smoak, vossa Graça.

As vi sair, deixando eu e Oliver sozinhos. Encarei o lago ao nosso lado.

Era a primeira vez que ficávamos sozinhos.

— O clima…

— Você viu…

Falamos ao mesmo tempo. Apertei as mãos, nervosa. Seu olhar acompanhou meu movimento, se detendo em minha mão esquerda.

— Bonito anel. O príncipe, certamente, tem um bom gosto.- elogiou com o rosto contorcido.

— É lindo.- concordo. Mexi no anel, sentindo pesar mais do que deveria. O cutuquei com tanta força que o mesmo escorreu de minha luva, caindo no chão.- Mas que droga.- praguejei baixinho ao me agachar. Oliver riu.

— Uma dama não pode proferir essas palavras em praça pública, se esqueceu Lady Smoak?- me provocou. Sorri com sua brincadeira. Me lembrou de quando estávamos bem, sem complicações.- Me deixe ajudá-la.

Oliver também se abaixou. O anel estava um pouco mais ao lado do gramado, não na terra onde eu procurava. O vi pegar, e nos levantamos.

— Me permite?- seu olhar enigmático me prendeu.

— Claro.

Não havia mal algum em deixá-lo colocar meu anel de volta, certo?

Errado.

O duque deu um passo à frente, e com a mão trêmula, segurou meu pulso de forma delicada, enquanto com a outra mão, se preparava para devolver o anel. Seu dedo acariciava minha pele, que embora coberta, sentia descargas elétricas. Prendi a respiração, e não desviei de seu olhar por nem mesmo um segundo. Ele estava afetado também. Os ombros rígidos, peito estufado. Era nosso primeiro toque desde a última vez.

E que última vez…

Oliver pareceu ler meus pensamentos, pois forçou o dedo a me tocar com mais pressão. Meu corpo se retraiu, e eu engoli em seco.

— Oliver…- o repreendi em tom baixo.

— Só estou colocando o anel em você.- respondeu rouco.

Seu olhar desceu por meu rosto, se fixando em meus lábios. O vi dar mais um passo à frente, e balançar a cabeça em negativa, como se estivesse no meio de uma batalha interna. O anel girou em seus dedos, até o senti colocar em mim. Acompanhei o movimento, imaginando se aquele momento se repetisse em uma igreja. Eu estava de branco, ele com um terno mais arrumado e gravata borboleta, me esperando no altar…

Aquela imaginação doeu demais em mim.

Meus olhos lacrimejaram, e fui puxar minha mão, mas ele a deteve, completamente perdido.

— Vai mesmo se casar com ele?- questionou em tom sofrido.- Vai mesmo pra Áustria?

Vi a angústia tomar conta de suas feições, e o intimidador duque de Londres estremeceu após sua pergunta.

— Lis…Não…

— O quê?- sorri, irritada.- Você quis assim.- o lembrei, com o coração dilacerado.- Então não ache que tem o direito de vir aqui e questionar minhas ações, ok? Ray é um bom homem, respeita as mulheres. Um cavalheiro.

— Mas você não o ama.- insistiu.- Vai mesmo se casar sem amor?

Meu corpo transbordou raiva, e meus olhos arderam pelas lágrimas seguradas.

— Ele não desistiu de mim.- Oliver entreabriu os lábios.- E até onde eu me recorde, amor foi a causa do meu sofrimento.

O rosto de Oliver estava petrificado. Ele ainda segurava minha mão quando a puxei, ficando um pouco mais distante. Aquilo estava doendo, doendo muito, e se eu permanecesse ao seu lado por mais um minuto, me desmancharia em lágrimas.

— Peço licença a Vossa Graça. Mas preciso ir.

— Felicity…

— Foi bom te ver, Oliver.- fingi um sorriso, mascarando a dor.

— Eu não desisti de você.- deu um passo à frente.

Eu senti a tensão. Vi seus ombros rígidos e os olhos, um mar agitado e tormentoso. Esquecemos os arredores, e fechei os olhos, me embebedando com sua respiração. Oliver era uma muralha à minha frente, que me fechava o caminho, me impedindo de sair. Reuni coragem para enfrentá-lo, e ignorando a ardência em minha garganta, questionei:

— Então por que me deixou ir embora?

Oliver não respondeu, e eu me desprendi daquela bolha energética, voltando a caminhar, o deixando parado no mesmo lugar. Acenei para Caitlin de longe, que veio ao meu encontro, assim como Thea, que olhou preocupada para o irmão, que ainda me observava.

— Felicity?

— Nada.- sorri para Caitlin tristemente.- Infelizmente nada.

Minha amiga me olhou com compaixão.

— Sinto muito.

— É. Eu também.- funguei.- Vamos atrás do meu pai.

***

Meu encontro com Oliver havia alguns dias atrás, de certa forma, me abalou muito. Achei que já estivesse melhor, mas assim que o vi, assim que senti seu toque tudo voltou. As risadas, as conversas.

os beijos

Os toques…

Esfreguei o rosto, e suspirei, tentando ser lógica. Precisava me concentrar nos preparativos do casamento, precisava me concentrar em Ray e em conhecer sua família.

Precisava, ao menos, ser uma noiva feliz.

Ray merece isso.

Estava em nossa sala de laser, tentando ridiculamente tocar piano quando uma caixa do palácio chegou. Imediatamente a colocamos no sofá e eu a abri, encontrando um cartão.



“ Para a futura princesa da Áustria.

Espero que goste dos presentes e que os use hoje a noite.

Com os mais sinceros cumprimentos, vossa alteza real”

Quase caí para trás.

Era um vestido deslumbrante. Rosa, brilhante desde o busto até a saia rodada com um enorme laço atrás.. Havia também um par de brincos de esmeraldas bem verdes, combinando com o colar do mesmo modelo.

— Aí senhor.- foi tudo o que consegui dizer.- São…

— Lindos.- minha mãe acariciou a peça apaixonada.- Ah, são tão lindos, filha. Se imagine neles.

Sorri com a peça. Eram realmente lindos.

Mas não sabia se deveria usá-los.

— Ele quer que eu os use no baile.- minha mãe assentiu.

— Vai ficar um arraso.- sorriu animada.

Fingi um sorriso animado, enquanto encarava o presente.

— Metade dos trabalhadores foram liberados senhora.- Caitlin anunciou de forma contente. Ao contrário do costume, notei que sua postura havia mudado de forma significativa nas últimas semanas.

— Perfeito.- minha mãe sorriu.

— Por que os liberou?- questionei, confusa.

— Se vamos ter uma noite de diversão, eles também merecem.- deu de ombros.- Acho melhor começar a se arrumar querida, ou não chegaremos a tempo.

Subi até meu quarto, levando juntamente comigo a caixa. Caitlin me acompanhou, separando o vestido e as joias enquanto eu me banhava. Passei meu creme de forma demorada em minhas pernas, braços, costas e pescoço até que finalmente me troquei, finalizando com as joias. No momento em que me sentei em frente a penteadeira e tive o vislumbre de minha imagem congelei. Eu estava linda, realmente muito bela, como uma princesa deveria ser. Mas ainda sim…

— Mas que graciosidade.- vi pelo espelho minha mãe encostada a porta, dando espaço para que Caitlin saísse.- Você gostou?

— É um belo vestido.- suspirei, apertando o colar.

— Eu perguntei se você gostou.

Nossos olhares cruzaram pelo reflexo, e eu pude ver seu semblante preocupado e ao mesmo tempo, rígido. Balancei a cabeça.

— Não importa.

— Meu Deus, Felicity.- aumentou o tom de voz, me fazendo encolher.- É claro que importa. É a sua vida! Não entendo o porquê de estar abrindo mão de um casamento por amor por um com…

— Com o quê?- me levantei irritada.- Por alguém que queira estar comigo? Que não teve medo de lutar por mim?

Minha garganta doeu, e eu tentei, em vão, segurar o choro contido. Eu havia me entregado a ele, ele simplesmente…

Ele simplesmente me deixou ir.

E não iria voltar atrás.

Eu não sabia o que mais doía, sentir odiosamente amor por Oliver ou saber que ele havia desistido.

— Ray é bom pra mim.- sorri entre lágrimas.- Ele me entende. Sabe conversar, me dá presentes…

— Mas você não consegue amá-lo, porque ama o duque.- completou, me olhando com piedade.

— Eu o amo mãe.- assumi, deixando um soluço escapar.- E não sei oque fazer.

A lancei o olhar mais perdido do mundo, e me atirei em seus braços, fechando os olhos. Me permiti desabar, e deixar que os acontecimentos recentes se manifestassem de alguma forma.

— Querida- sussurrou, enquanto acariciava meu cabelo.- se não quiser ir ao baile, pode ficar.- ergui o rosto.- Invento alguma desculpa ao príncipe.- a abracei novamente.

— Acho…Acho que preciso disso mesmo.- constatei, esmorecida.

A vi sair, e retirei todas aquelas jóias e o vestido, que pareciam me sufocar. Coloquei minha camisola e me sentei na cadeira, pensativa, olhando a aliança.

Não sabia o que fazer.

Somente sabia que as coisas não terminariam bem assim.

***

De certo modo, era reconfortante ficar sozinha.

A maioria dos empregados haviam sido dispensados pela noite, então, quando jantei, apenas Caitlin me acompanhou, e logo se retirou, um pouco animada. Retornei ao quarto, e acendi mais velas, fora as do lustre que deixavam o ambiente claro, mas ao mesmo tempo, um pouquinho escuro. Decidi que leria, e passei a pesquisar alguns livros em minha estante. Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, era um de meus favoritos, especialmente por descobrir, após sua morte em 1817 que era ela quem escreveu aquela obra. Quando o li pela primeira vez, fora de forma anônima. Não havia um nome do autor, apenas estava ali, nas prateleiras, pronto para ser explorada. Era triste saber que ela, uma mulher tão inteligente, teve que se esconder atrás do anonimato por conta do patriarcado.

O deixei de lado, e tateei uma obra de Shakespeare. Engraçado, por mais que este livro girasse em torno da vingança que o príncipe busca para honrar a morte de seu pai, ainda sim encontrou espaço para o amor. Ele amava Ofélia.

Muito.

— Hamlet?

Gritei, assustada, derrubando o livro no chão. Sua voz soou ofegante, e ao olhá-lo, notei o cabelo bagunçado, o peito, subia e descia, como se custasse a respirar. Ele estava formalmente vestido, porém, jamais havia o visto tão confuso.

Levei minha mão ao peito, tentando me recompor do susto, enquanto o mesmo parecia parado, em frente a porta de meu quarto.

— O que…O que diabos está fazendo aqui, Oliver?— questionei, irritada.

— Não era minha intenção assustá-la.- se desculpou, apertando os cabelos.- Posso?

Assenti, e me abaixei, recolhendo o livro. Senti seus olhos em mim, me analisando. Tentei permanecer calma, e quando fiquei de pé, cruzei os braços, arqueando as sobrancelhas.

— E então?

— Então o quê?- bufei.

— Não é comum invadir a casa das pessoas. Geralmente quando fazem isso são ladrões ou quando pretendem algo.- Oliver engoliu em seco.- Ao menos que tenha se perdido. Por seus trajes, ia ao evento real hoje.

Oliver apertou os lábios e esfregou o rosto, agoniado. Jamais havia visto o grande Duque Queen tão perdido. Seu suspiro profundo ao me olhar me fizeram arrumar a postura.

— Eu…Eu ia de fato. Mas…- se atrapalhou.

— Mas o quê?

— Descobri que você não estaria lá e então…- mais um suspiro.- Acabei aqui, parecendo um completo tolo por não saber dizer o que quero dizer a você.

Oliver balançou a cabeça, irritado, e fechou a porta, sem trancá-la.

— Eu não desisti de você.- soltei um riso baixo.

— Claro que não. Apenas me afastou e disse…

— Eu disse que não poderia ter você, não que havia desistido.- me corrigiu.

— E qual a diferença?- aumentei o tom de voz, deixando toda minha ira estrapolar.- Há diferença?

— Gigantesca.

— Então a explique, por favor.- sorri amarga.- Porque, pelos últimos acontecimentos, tudo o que eu menos tenho entendido é você, Oliver.- Oliver voltou a balançar a cabeça em tom negativo, mordendo a bochecha.- Faça sentido!

Ele fechou os olhos, e como se estivesse em uma conversa interna, se acalmou. A postura ansiosa permanecia ali, mas ele estava conseguindo controlá-la. Ao voltar a me encarar notei seu olhar mais firme e decidido e aquilo…Ah, aquilo acelerou meu coração, e me fez recuar um passo.

— Peço desculpas pela forma como agi, Lis.- sua voz soou baixa, calma.- Não queria que se sentisse usada.

— Aconteceu de qualquer forma.- constatei tristemente, sentindo a maldita ardência em minha garganta voltar.- Você me machucou.

— Eu sei.- me olhou com dor.- e sinto muito por isso. Não era a minha intenção.

— Eu sei.- voltei a repetir, cansada.

Silêncio.

Eu, de certa forma, havia sido dura com ele. O tratei mal, e após o relato da história de Caitlin…Tudo tinha tomado uma perspectiva diferente. O observei, me focalizando nos hematomas mais uma vez.

Ele não deveria ter se machucado.

Ainda mais por mim.

— Não.- o escutei, despertando.- Não faça isso consigo mesma.- abaixei o rosto.- Como disse no parque: eu sabia no que estava me metendo, e se lhe é reconfortante, ele está muito pior.

Sorrimos juntos, e uma pequena lágrima escorreu de meus olhos. Apertei a nuca, e comecei a andar de um lado para o outro. Essa situação…Ah.

Eu estava exausta dela.

— Temos que resolver isso, nós.- suspirei cansada.- Isso não é saudável, nem para mim, muito menos pra você.- Oliver concordou.

— É por isso que estou aqui.

Deu um passo à frente, e dessa vez não recuei.

— Muito antes daquela noite no casarão Queen, uma jovem inglesa já me atormentava.- sorriu, amargo.- Crescemos juntos, passávamos todo tempo juntos, e eu comecei…Comecei a sentir coisas por ela.- engoli em seco.- Ela se tornou uma mulher de extrema beleza, mas não era só isso que me encantava. Eu gostava de conversar com ela, gostava de sua companhia e de seus comentários ácidos que me faziam rir- deu um riso baixo, em desespero.- Ela se tornou o meu mundo, e quando cheguei ao estado de compreensão de tudo aquilo, me assustei. Me tornei um libertino, as pessoas conhecem minha reputação, e eu a prezo demais para deixar que isso interferisse na sua grande temporada.- Oliver suspirou, e praguejou baixinho.- A maldita temporada, que desde o começo me atiçou os nervos por saber que você poderia se casar a qualquer momento.

O duque teve um calafrio, e apertou as mãos, tentando se manter de pé.

— Quando o príncipe demonstrou interesse em você…- sorriu sarcástico.- Eu enlouqueci. Enlouqueci porque iria casar e, especialmente pela distância. Áustria…— pronunciou o nome do país com extrema dor e repulsa.- Tremia só ao pensar.

Permaneci o encarando, sem saber o que dizer.

Oliver riu mais uma vez.

— Tem…Tem ideia do que fez comigo?- questionou, agoniado.- Tem ideia do que amar você fez comigo?- tornou a repetir.- Você me tirou dos eixos, Felicity. Tenho trauma de deixar as pessoas se aproximarem por conta de meu pai. E quando descobri o que você realmente significava para mim…- abriu os braços, completamente perdido.- Eu surtei. Surtei porque, se fosse verdade, eu poderia ter de enfrentar aquela dor que tive quando o perdi. E era por isso…Por isso que eu não podia tê-la.

Prendi a respiração com sua aproximação, e tentei, em vão segurar as lágrimas.

— Achei que apenas não quisesse.- deixei aquela insegurança sair.- Que apenas havia me usado.- Oliver tocou em meu rosto, colocando o dedo indicador entre meus lábios, e sorriu, entre lágrimas.

— Os dias em que fiquei sem você foram, sem sombra de dúvidas, um de meus piores.- acariciou minha bochecha.- Até de implicar com você eu senti saudades, e de sua maldita teimosia.

Me afastei, levando as mãos à cintura. Oliver me encarou, preocupado.

— Está tentando me dizer…

— Por céus, mulher! Eu amo você!- falou, impaciente.- Amo você desde que nos conhecemos. Desde o dia em que fomos naquela floricultura, e eu descobri, após ver o seu sorriso, que eu adoraria cultivar tulipas azuis.- sorri.- Eu a amo. Sei que merece mais. — fora honesto.- E, dia após dia, vou pedir desculpas pelo o que a fiz passar. Como Hamlet disse na carta para Ofélia: “Duvide do brilho das estrelas. Duvide do perfume de uma flor. Duvide de todas as verdades. Mas nunca duvide do meu amor.“ E eu a amo, Lis. Mais do que eu poderia prever. Nunca, jamais, duvide disso outra vez.

Aquilo…Aquilo me tocou de uma forma inexplicavelmente profunda. Ele havia dito, havia explicado, e fora de uma forma tão sincera, tão bela. Eu conseguia ver o nervosismo em seus olhos, a respiração, que ainda permanecia instável. Ele estava com medo, com medo da minha resposta. E eu…Ah, pela primeira vez, sabia exatamente o que fazer.

Caminhei até seu encontro, deslizando minhas mãos, nuas, até sua nuca. Oliver estremeceu, e eu fiquei na ponta dos pés, até encostar seu lábios aos meus, e sussurrei:

— Eu também o amo seu libertino arrogante.- o vi sorrir- Te amo tanto que chega a ser assustador.

Fora como da primeira vez. Senti o nervosismo por ser beijada, a palpitação em meu coração, e as pernas, que não pareciam funcionar enquanto suas mãos marcavam minha cintura. A forma como nossos corpos se alinhavam, os gemidos, contidos, silenciados… Sua perna ficou entre as minhas, e meu corpo fora conduzido até bater contra a penteadeira. Paramos ofegantes, nariz contra nariz, sentindo fervilhar a sensação de ter nossas peles coladas uma na outra. Oliver voltou a me beijar de maneira lenta, delicada, pondo a prova de fogo meu autocontrole, que estava a um fio de se romper. Seja por seus lábios, ou suas mãos.

Que subiam por minha perna.

Desciam…

Apertavam…

Foi inevitável não gemer, Foi inevitável não abrir mais as pernas, para que ele se alinhasse em mim. Estava sendo inevitável…Oliver de repente parou, apertando os olhos e mordendo os lábios.

— Lis…- sussurrou meu nome com dor.- Não é certo. Não podemos. Mesmo que não tenha havido a cerimônia oficial para você dizer sim e comunicar o noivado, ainda sim é errado.- lamentou.- Sou um cavalheiro.

— E eu uma dama, que o deseja.- sussurrei, nossos narizes se encontraram.- A casa está vazia.- Oliver, de forma torturante, ponderou a ideia.

— Tem…Tem certeza?- Questionou, preocupado.- Sei que é sua primeira vez. Se não quiser…- o calei.

— Você quer?

— Ah, Lis. Essa não é uma pergunta que se faça.- riu, nervoso.- Aquela noite não sai da minha cabeça. E eu tive um autocontrole absurdo para não levá-la até meu quarto e fazer amor com você pelas próximas horas seguintes.- um calafrio percorreu minhas costas, e Oliver me observou, dos pés a cabeça, mordendo os lábios.- Aquela sua maldita camisola, as malditas luvas…- pegou uma de minhas mãos e a beijou.- Ah, só o senhor sabe como me torturaram.

Nos observamos. Eu ouvia sua respiração descompassada, ouvia a minha respiração descompassada. Tudo ao nosso redor era silencioso e se, de fato, houvesse algo lá fora, não estávamos interessados. O olhei profundamente, e assenti, segura. Oliver voltou a me beijar, aprofundando sua língua , deslizando seus lábios por meu pescoço.

— Vou ser cuidadoso.- disse, rouco.- Eu prometo.

Suas mãos, trêmulas, voltaram a me atormentar, tocando minha pele, apertando minhas coxas, e causando um ardor por debaixo do meu ventre deliciosamente perigoso. Oliver parou, e tomou um fôlego profundo em meu pescoço. Voltei a tocá-lo, sabendo que ele gostava, e o ajudei a desabotoar a blusa. O vi prender a respiração como da primeira vez, e seus olhos escurecerem, tomados por um desejo avassalador quando, com a ponta dos dedos, toquei seu abdômen.

— Merda, Felicity.- praguejou baixinho.- Não vou…- gemeu de olhos fechados.- Por céus, mulher. É melhor parar de fazer isso se não, não vou conseguir fazer o que quero fazer com você hoje.- soltei um riso baixo. Havia algo estranhamente satisfatório em saber que eu era a razão para deixá-lo daquela forma.

— O que vossa Graça quer?- sussurrei. Ergui minha mão até sua barba. Oliver abriu os olhos.

— Quero amar você.- seu olhar misterioso me arrepiaram.

Suas mãos seguraram a minha, e a acariciou. Dei um suspiro longo.

— Então me ame.

E ele o fez. Ah, como fez.

Sei que deveria estar mais nervosa. Como fora mencionado, minha mãe me explicara as coisas, e eu própria já havia sentido coisas, sozinha. Mas aquilo…Aquilo era muito mais do que eu imaginava. A forma como seus lábios dançavam sobre os meus, carinhosos e pacientes, as mãos, que me energizavam…Seus dedos invadiram o meu vestido, e foram subindo, pouco a pouco. Algo se agitou dentro de mim, ainda mais quando o próprio me lançou um maldito sorriso malicioso.

— Oliver…- o repreendi. O típico brilho em seu olhar me fizeram estremecer.

— Apenas relaxe, Lis. Feche os olhos.

— O que você…- sua risada me deixou confusa.

— Deveria ter imaginado.- balançou a cabeça, divertido.

Minha pequena confusão agora se transformou em uma enorme.

Oliver deu de ombros.

— Você é teimosa. Por que seria diferente aqui?- senti minhas bochechas queimarem.- Apenas confie em mim.

Seus lábios doces me distrairam, e no momento seguinte…Arqueei o corpo, o sentindo queimar, mas Oliver pressionou minha cintura, evitando que eu saísse. Seu dedo roçou minha intimidade em um movimento de vai e vem, e de repente eu não conseguia respirar. Mordi os lábios, em uma tentativa falha de abafar meus gemidos, quais eu não controlava mais.

— Você está absurdamente molhada.- Oliver grunhiu.- Quero sentir seu gosto em meus lábios.

Sua postura elegante o acompanhou enquanto o via ajoelhar-se diante de mim. Seu olhar obscuro tomou posse do meu, e por segundos eu permaneci hipnotizada. Meu vestido fora levantado, a meia calça abaixada… Oliver me despia sem quebrar o contato visual, e ao tirar a última peça, curvou-se. Agarrei a madeira com força, tentando me manter no lugar, mas ao sentir seus lábios tão perto de minha intimidade, sua respiração quente. Sua língua se fez presente, e o senti aprofundar em mim, indo mais fundo, e mais…

— Ah, Oliver.— balancei os quadris, mas o mesmo os segurou.- Isso é…

— Vai sentir mais,- deu uma pausa, beijando minha virilha.- Não vou parar até que sinta se derramando para mim.- meu corpo se arrepiou.- Se contorcendo, me chamando…- o calor em minhas pernas aumentou, e pulsava, cada vez mais rápido.- Clamando por mais.

Sua língua voltou a me tocar, e fosse lá o que eu iria dizer, se perdeu, no ar, juntamente com as palavras que eu dizia sem pensar. Fechei os olhos, deixando a sensação se aflorar, tomando posse de mim, e me incendiar por inteiro. Sua língua continuava a deslizar por minha carne, arqueando meu corpo ao passar pelos pontos certos, me levando ao limite. Me vi tremer, e aumentar a pressão, deixando meus dedos brancos pelo aperto. Aquela sensação, aquela coisa que crescia…Joguei minha cabeça para trás, soltando minha voz, que quebrou ao chamá-lo. Uma onda me percorreu, me deixando completamente suada, e eu senti, o líquido antes contido, cair de mim, que exausta, se apoiou com a outra mão na madeira, evitando que caísse. Estremeci por seus lábios voltarem a me beijar, lentos, me torturando, me deixando mais trêmula do que já estava. Oliver se ergueu, passando um dedo em mim, e o levando sua boca

— Deliciosa.- sussurrou, antes de me beijar.- Poderia viver nesse momento para sempre.- sorri, e o trouxe para perto de mim.- Mas ainda não acabamos.

— Sei que não.- olhei para o volume em suas calças, e mordi os lábios.- Temos que dar um jeito em você agora.- o escutei gemer quando o toquei.- Um bom jeito eu diria.

— Felicity…— disse como se não respirasse.- vai me matar.- praguejou.- Uma de minhas fantasias era ter você me tocando sem nada, sabia?- confessou, ofegante.- Sem as luvas.

— Me deixe fazer então.- sorri.- Mas ali.

Em um movimento rápido, paramos na cama.

Oliver estava por baixo, e eu me sentei em seu colo, ainda vestido pela calça, e comecei a tocá-lo. O vi estremecer quando meus dedos tocaram seu peito, sua barriga, e desciam…Inclinei meu rosto, e o beijei, sentindo seu corpo se sobressaltar. Oliver apertou as mãos com força, tentando se conter.

— Não consigo mais…- falou com esforço.- Preciso de você. Por favor.

Mexi meus quadris ao subir, e encostar meu rosto ao seu. Oliver gemeu mais uma vez.

— Então vamos resolver isso.- declarei, encostando seus lábios aos meus.- Agora.

Oliver retribuiu o jeito, e me deitou de lado. Aproveitei seu momento enquanto retirava suas últimas peças para me livrar da camisola, ficando completamente livre. Meus seios estavam um pouco pontudos por conta do frio, mas ainda sim não me intimidei, me senti…Poderosa. Os lábios de Oliver ficaram entreabertos ao me ver, e o olhar, que queimava como brasa, analisou cada ponto meu. Me permiti olhá-lo também, me focalizando no meio de suas pernas…De repente fiquei agitada, com receio novamente.

— Disse que vou ser cuidadoso.- me acalmou, sorrindo.- Prometo ser cuidadoso.- tornou a repetir.- Confia em mim?

Encarei sua mão estendida até mim. Um convite. Qual eu aceitei sem pensar duas vezes.

Oliver me adorou com as mãos, e com os lábios. Estava me sentindo sendo jogada à beira do precipício novamente, qual eu mal me recuperara de minutos atrás. Suas pernas afastaram as minhas, e eu prendi a respiração, soltando o ar ao senti-lo ali, devagar. Doeu um pouco, claro que doeu. Mas ele estava sendo tão paciente…Oliver se aprofundou, e eu arqueei o corpo.

— Está doendo?- perguntou, preocupado.- Posso ir mais…

— Não, apenas…Continue.- consegui dizer, inebriada pelo desejo.- Continue.

Oliver me deu um beijo de arrancar o fôlego, e seguiu meu pedido. A dor fora diminuindo, dando lugar ao ardor por debaixo de meu ventre que crescia…Passei a movimentar os quadris, incentivando que continuasse, mais rápido.

Forte.

Mordi seu ombro ao evitar um gemido, e o escutei grunhir, sem controle.

— Ah, Lis- seu quadril se afundava ao meu, e tudo o que eu conseguia fazer era chamá-lo de voltar, e o apertar contra.- Você primeiro.

Seus movimentos bruscos aumentavam, e meu corpo tremia…O senti se arrepiar novamente, e minha voz falhar. Arqueei o corpo novamente, o tendo completamente em mim, até que cai, exausta. Oliver me acompanhou logo depois.

Nossas respirações, exaustas, eram o único som que ressoavam pelo cômodo. Oliver me alinhou em seu peito, acariciando meus cabelos enquanto nós, com esforço, tentávamos nos recompor.

— Isso…

— Sim.- rimos juntos.

— Não queria que tivesse brigado com Malone por mim.- me virei, acariciando seu rosto.

— Ele estava falando de você. Não deixaria aquele filho da puta impune.- esbravejou.- Só de imaginar…

— Passou.- o acalmei. Oliver segurou minha mão que passava por sua bochecha e a beijou.

— Quanto tempo é do palácio real até aqui?- perguntou de repente.

— Duas horas indo. Duas horas voltando.- respondi, confusa. — Por quê?

— tenho mais tempo pra ficar assim você.- ri quando o mesmo me puxou, me abraçando.- Eu a amo tanto. Tem ideia de pelo menos uma fração do que eu sinto por você?- questionou, assustado.

— Eu também te amo, Oliver. Há muito tempo. Seja lá o que for, superaremos juntos, como o trauma de seu pai.- seus olhos encheram de lágrimas.

— Tive progresso nisso.- comentou.- E por falar nisso…- seus olhos encontraram os meus, sérios, muito sérios.- Não disse o sim oficialmente, disse?

— N…não.- franzi as sobrancelhas.

— Se, porventura, você recusasse e daqui, duas semanas, período aceitável para a sociedade, eu a pedisse em casamento, você aceitaria?

Seu tom fora brincalhão. Mas pelo seu peito estufado e os olhos angustiados…Sorri ao beijá-lo, e assenti.

— Se me pedisse agora, eu já diria sim.

***

1 mês depois.

Se alguma bruxa lesse minha mão e me contasse o quão minha vida mudaria em pouco tempo eu a chamaria de louca. Há pouco tempo, pessoas cochichavam que eu me tornaria uma princesa, e agora…Agora me chamavam de duquesa.

A futura duquesa.

E eu estava, particularmente, muito feliz com isso.

Após minha noite com Oliver, marquei, para o outro dia, um encontro com o príncipe Ray. O expliquei a situação, pedindo desculpas. Não fui honesta com ele, e o dei esperanças de algo que, no fundo, eu sabia que não daria certo. Ray me escutou com atenção, e apenas sorriu.

— Era notável seu afeiçoamento por vossa Graça.- comentou em nossa conversa.- E é uma história de amor, como eu poderia ser contra?- questionou, sorrindo.- Não comunicamos oficialmente, o que facilita as coisas. De qualquer forma, desejo que seja muito feliz, Lady Smoak.

E após aquela conversa eu me senti…Livre, sem o peso que andava carregando em minhas costas. Meus pais foram um dos mais felizes por minha mudança de cônjuge. Era perceptível seus sorrisos a duquesa, que também não disfarçava a alegria. Entramos em consenso que, para evitar boatos maldosos, esperássemos um pouco.

Como o casamento de Thea, por exemplo.

Que fora um festival completo.

Ela estava tão radiante, e no momento dos votos…Vi Oliver chorar disfarçadamente ao seu lado no altar, orgulhoso. Thea havia casado por amor. Não havia paz maior do que saber disso. Outro casal, que por debaixo dos panos fizeram uma cerimônia, foram Tommy e Caitlin. Ambos se acertaram, e apesar do preconceito da sociedade, estavam mais do que felizes pela união.

Meu casamento iria acontecer amanhã, e por isso, decidimos tirar o dia de lazer, para acalmar os ânimos. Caitlin voltara do campo e estava hospedada conosco, assim como Tommy, que como padrinho, estava com Oliver. Thea também estava presente, tagarelando sobre como seria a cerimônia.

— Vai ser tão lindo!- soltou um gritinho animado, pegando um dos biscoitos postos na mesa de centro.- Sempre soube que acabariam juntos.

— Estava mais que óbvio.- caitlin riu, bebericando o chá.

— Gostaria de saber o que os fez mudar de ideia.

Minha mãe estava ao meu lado, e a pergunta de Thea, que agora conversava com Caitlin, me recordou de uma dúvida esquecida. Me virei, encarando seus olhos azuis.

— O que foi querida?

— Só estava pensando.- comentei em tom baixo.- Na noite do baile, dispensou metade dos trabalhadores, não foi?- questionei. Seu rosto refletia uma serenidade profunda.

— De fato.- concordou calmamente.- O que há demais nisso?

— Lhe contei que Oliver apareceu aqui. Mas quem o avisou que eu estaria aqui?- inclinei o corpo para frente, deixando mais nítido meu interrogatório.

— talvez eu tenha comentado com Moira…

— Ou talvez- a interrompi- vocês duas combinaram isso. Você passou aquele dia inteiro me convencendo a ficar em casa. E de repente não há ninguém, vocês demoraram mais que o previsto para retornar…- semicerrei os olhos.- São muitas coincidências, tantas que acredito que não sejam milagres.

Minha mãe sorriu de forma convencida, e tomou seu chá.

— Você sabia, não é?- inevitavelmente sorri.- Mas que mulher ardilosa.

— Por ventura, eu e Moira comentamos sobre o comportamento de vocês dois.- deu de ombros.- ela disse como o filho estava deprimido, afogado no trabalho e em whiskeys. Então pensamos: por que não os fazer conversar?- sorriu.- Presumo que tenha funcionado.- me analisou.- Mais do que chegaríamos a acreditar, não é querida?

Meu rosto ficou vermelho.

Muito vermelho.

—Mãe…

— Não me deve explicações. Apenas quero saber…- sussurrou.- Foi bom?

Me engasguei sozinha, e comecei a tossir.

— Mãe!

— Pela sua reação já tenho minha resposta.- brincou, me entregando seu chá para que eu bebesse.- E convenhamos, querida. Vossa Graça é um pedaço de mal caminho.

— Um libertino arrogante.- falei com amor.

— Ex libertinos são os melhores maridos.

Acabei rindo, indignada com sua esperteza, e claro, a de Moira. Caitlin também estava envolvida, pois a vi piscar e dizer “ foi uma honra participar”. Um dos trabalhadores vieram avisar que Oliver estava na porta, e eu pedi licença, indo recebê-lo. Ao chegar lá, me deparei com a cena mais insana possível. Oliver estava com Tommy.

E o conde Malone.

Que parecia furioso.

— Eu vou vê-la!- esbravejou o Conde, irritado.

— Não, não vai.- declarou Oliver, com o maxilar trincado.- Se chegar perto dela ou ousar tocá-la, eu juro por Deus que termino o que comecei. Não que ela precise de minha ajuda, minha futura esposa é completamente capaz de acabar com você.- sorri, escondida.- Da última vez que se encontraram ela deixou seu nariz roxo, não?

Tommy riu de forma sarcástica.

— Mas que casal formidável. A esposa o deixou roxo, o marido terminou o trabalho. Impecáveis.

Abafei o riso, e Malone, odiosamente, olhou para Tommy com repulso.

— Você é a vergonha das famílias tradicionais. Se casando com uma ninguém, sujando a linhagem Merlyn.- não havia mais brincadeira, e Tommy estava sério, muito sério.

— O que disse?- questionou, em uma ira tão intensa que Oliver segurou seu ombro.

— Tommy…

— Não, eu quero ver se ele tem coragem de repetir.- se desvencilhou do amigo.- Escute bem o que vou dizer Malone: se ouvir um cochicho, qualquer comentário, por mais inocente que seja, referente a mim ou minha esposa, você terá problemas.- o ameaçou. Tommy era mais alto que Malone, e ao ficar frente a frente, deixou o outro Conde assustado.- começando por seus negócios. Tenho amigos em toda Europa, inclusive nas Américas, e acredito que o duque não se importaria de comentar sobre você- sorriu maldosamente.- Fale qualquer coisa, que eu sujo sua reputação, e agradecerá aos céus por qualquer moeda que alguém lhe jogue pelas ruas.

Billy cambaleou para trás, paralizado de medo, enquanto Tommy pedia para que Tommy se afastasse.

— Suma de nossas vidas, ou levarei em consideração o plano dele.- comentou Oliver, baixinho- Saía!

O vi passar os portões em passos apressados, temendo que fosse visto. Tommy respirou fundo, tentando se acalmar, quando apareci, os chamando atenção.

— Lis…

— Não vou brigar com vocês.- rapidamente expliquei, quando o abracei.- De fato, fizeram muito bem.- sorri, encontrando um Tommy carrancudo.- Tudo bem?

— Não vou permitir que falem dela, jamais.

— Eu sei.- segurei em sua mão, em um gesto solidário.- Por que não entramos? Malone será um capítulo passo a partir de agora, tenho certeza.

— Na realidade, não queremos atrapalhar a tarde das mulheres.- Oliver sorriu, doce.- Apenas…Apenas vim lhe entregar uma coisa.

O vi voltar até o portão, e pegar algo com um homem, que logo reconheci ser Roy. O mesmo colocou a coisa atrás de suas costas e caminhou calmamente, sorrindo de orelha a orelha.

— Achei que adoraria esse buquê de flores.

Entreabri os lábios, e encarei aquele buquê, tão lindo e significativo.

— As coisas que você teve que resolver no começo da semana…- minha voz embargou.

— É. Eu precisava colhê-las.

E naquele instante…Naquele instante eu sabia que, fosse lá o que acontecesse, ficaríamos bem juntos.

— Tulipas azuis.- o encarei, sem conter as lágrimas.

— Que significam a conquista de um amor impossível, mas de sentimentos extremamente sinceros e profundos.- completou, com a voz arrastada. notei que Oliver se segurava para não chorar.- O símbolo do nosso amor.

As peguei, acariciando cada pétala ali colhida.

— Te vejo no altar. Meu amor.- Oliver beijou minha testa.

***

Não poderia ter tido uma noite de sono melhor. Não que eu não estivesse nervosa, mas havia uma certa calma em saber que, a escolha que eu havia tomado, não continha arrependimentos. Eu iria me casar com o homem que eu amava.

Daqui alguns minutos.

Respirei fundo, e andei de um lado para o outro.

— Vai tropeçar no véu desse jeito, Felicity!

Parei diante do protesto de minha mãe. O vestido qual eu usava continha mangas curtas, continha o busto rendado, enquanto a saia deslizava até o chão com um véu transparente, com pequenas flores bordadas. Meu cabelo estava arrumado em um coque com uma coroa dada por Moira, onde meu véu estava prendido. Apertei as mãos, cobertas pelas luvas brancas e a olhei.

— Certo. A senhora está certa.- voltei a me sentar na cadeira.- Eu só quero ver…

— A igreja está impecável. Todos os convidados vieram e o duque já está lá.- revirei os olhos.

— Mas Caitlin não está aqui!- clamei, desesperada.- Eu preciso da minha amiga, a minha madrinha.

— Mas que romântica. São os efeitos do casamento?

Me levantei em um pulo, a abraçando fortemente.

— Caitlin Merlyn! Jamais me mate assim de novo!- esbravejei.

— Em minha defesa, Thea me prendeu no quarto ao lado para acalmar o seu noivo.- riu, animada.- Está pronta?

— Estou.- engoli em seco, sentindo minhas pernas tremerem.

— Então vamos começar.- disse minha mãe, me abraçando.- Vai dar tudo certo querida, só…Só sinta e seja feliz. Sempre poderá contar conosco.

— Eu te amo.- segurei as lágrimas.

— também te amo.- disse chorosa.- Vou chamar seu pai. Agora é a minha entrada e a de Caitlin.- enlaçou seu braço.- Boa sorte.

As vi sair, e respirei fundo, completamente sozinha. Peguei o buquê, e o apertei com força na mão direita. Acho que Oliver( além de saber do meu amor pelas flores), sabia que elas me acalmariam no final. Fui até a porta, onde encontrei meu pai me esperando.

— Você está tão linda, tão radiante.- me deu um beijo na testa.- Eu não poderia estar mais feliz pela minha garotinha.

— Eu vou chorar.- ri, o abraçando.- Obrigada pelo apoio, obrigada por me incentivar a crescer, mesmo que a sociedade me limitasse. O senhor me encorajou a ultrapassar esse limite inexistente, e eu não poderia ter ficado mais orgulhosa de ter o senhor como meu pai.

Limpei as lágrimas que escorriam por seu rosto, e juntos, arrumamos as posturas. A música começou. Um toque suave, romântico, melodramático, com um toque de amor profundo.

Ja Te Laisserai Des Mots

Uma dádiva francesa.

Sorri enquanto caminhávamos, acenando para os convidados presentes, até que cheguei…Nele. Nosso olhar se cruzou, e pude vê-lo arfar e apertar as mãos em um gesto nervoso. Tanta coisa havia acontecido.

Até que estivessemos ali.

Juntos.

Eu faria tudo outra vez.

À medida com que me aproximei, Oliver deu um passo a frente. Meu pai, mais nervoso que eu como o de costume, me deu um beijo na bochecha, e abraçou Oliver rapidamente.

— Se a fizer sofrer, juro que nunca encontrarão seu corpo.

Abafei um riso pela expressão horrorizada de Oliver, que apenas sorriu, e esticou o braço. Peguei o buquê de tulipas azuis, os beijando, antes de entregá-los a Thea, que estava ali do lado, sorridente.

— Você está linda.- Oliver sussurrou.

— Você também está incrível duque Queen.- brincamos enquanto nos endireitavamos.

A igreja se sentou, e o padre deu início a cerimônia.

— Podemos começar?

— Imediatamente Padre Diggle. Acho que vou desmaiar.- Oliver brincou. O homem alto e forte à nossa frente sorriu.

— Estamos juntos hoje para celebrar a união de Oliver Jonas Queen e da senhorita Felicity Megan Smoak. Um casal que pelo o que ouvi, formam uma dupla formidável.- nos olhamos brevemente.- e quem estão mais do que seguros de que querem passar a vida um com o outro. O tempo que tiverem.- assenti. Vossa Graça? Vamos fazer o juramento. Repita comigo.

— Eu, Oliver Queen. Prometo amá-la e respeitá-la até o fim de meus dias. Na saúde ou na doença, até que a morte nos separe.- repetiu Oliver, nervoso.

Fiz o mesmo, e ficamos olhando um para o outro.

— Hora dos votos. Vossa Graça?

Oliver se endireitou, apertando as mãos. O vi tomar fôlego duas vezes, até que conseguiu falar.

— Meu amor pela Lady Smoak existe há bastante tempo.- sorriu.- Desde suas visitas a casa de campo Queen, ou até mesmo, quando passou a frequentar os bailes. Eu sempre soube que havia algo de especial nela. Fosse sua inteligência, a falta de paciência e teimosia- ri, e limpei as lágrimas.- Cada dia mais eu a amava. E quando achava que não, a amava de novo. E eu quero que o restante de nossos dias seja assim: que você me ama cada dia mais. Mesmo em nossas brigas e discussões.- engoliu em seco.- Eu quase a perdi porque tinha medo de perdê-la, e quando eu senti aquele sentimento horrível…- fechou os olhos e deu um suspiro trêmulo.- Soube que não conseguiria passar a minha sem você. Era como um veneno, indolor no início, mas que me mataria aos poucos, dia após dias, que eu não tivesse você. Como eu disse em nosso pedido: duvide do brilho das estrelas, do perfume de uma flor, mas não duvide do meu amor.

Ignorei o protocolo e segurei sua mão, o trazendo um pouco mais para perto.

— Meu amor por você não é de hoje. E esse eu pedido “ que você me ama a cada dia mais” será fácil de cumprir, até porque eu tenho amado você ao longo de muitos anos.- Oliver sorriu, e beijou minha mão, a mantendo perto de seus lábios.- Foi algo confuso, misterioso, com tantas questões que chegavam a dar dor de cabeça.- me lembrei dos conflitos internos quais eu passei.- Mas quando eu estava com você, aquelas vozes em minha cabeça se silenciavam, e tudo ficava…Fácil, agradável. Eu encontrei no meu esposo o meu melhor amigo, o meu companheiro, o amor da minha vida. E eu não vejo a hora de passar o restante dos meus dias ouvindo os seus comentários narcisistas sobre si mesmo- Tommy, Caitlin, Thea e Roy riram atrás de nós.- Estou louca por todos os momentos. Bons ou ruins. Você sempre me fez acreditar que eu merecia a felicidade. Que tola eu fui ao cogitar em não partilhar dela com você.

Meu coração acelerou quando Oliver, devagar, retirou minha luva para assim pôr a aliança. O movimento fora lento, e a carícia discreta que o mesmo fez em minha pele me fez prender a respiração. Aquele toque era sagrado para nós, intenso. Ninguém jamais entenderia. Fiz o mesmo, o tocando lentamente, sabendo de suas fantasias secretas.

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— Duque Queen. Duquesa Queen.- o padre John Diggle pronunciou.- Eu vos declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.

Neste momento, pétalas azuis sopraram pela igreja, milhares delas. Desde onde estávamos até mesmo os bancos com os convidados. Coloquei meus braços ao redor de seu pescoço e ri, surpresa.

— Quantas tulipas você colheu?

— O necessário para te deixar feliz.- respondeu, apertando minha cintura e me trazendo para perto.- É neste momento em que você se gaba por ter um marido incrível.

— Argh. Libertinos e suas posturas narcisistas.

— Minha duquesa Queen e seus comentários ácidos.

Sorrimos um para o outro, e nos encaramos em completo silêncio. Amor muitas vezes pode nos deixar confusos, especialmente por termos medo de contarmos o que sentimos. Preferimos esconder, mascarar, mas quando vemos que estamos perdendo a pessoa que amamos por palavras não ditas…Eu decidi falar, e agora, posso-lhes dizer que estou mais que ansiosa para minha vida, ao lado do meu amor.

Meu libertino.

Notas finais
FIMMMMMM. Ah, espero que tenham amado tanto quanto eu. Escrever essa fic foi uma coisa maravilhosa, Desde tentar expressar os sentimentos de Oliver, a confusão da Felicity...Gostei tanto que, sinceramente, estou levando em consideração fazer uma short fic sobre Caitlin e Tommy, o que acham? Digam nos comentáriooos. Mais uma vez, agradeço por terem tirado um tempinho para lerem minhas histórias, e com isso, quero me desculpar com os meus leitores da long fic " Sweet and Bitter Love". Entrei em uma onda de bloqueio criativo, mas acredito que agora seja a hora certa para retornar. Fiquem tranquilos, eu não abandonei a história. Voltando a " Romancing Mister Queen"... Muito obrigada a todos! Comentem muito e se puderem, recomendem. Até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!