Notas iniciais
Boa noite meus leitores favoritos! Como estão? Passando aqui para compartilhar algo que estava me atormentando por dias, e eram pensamentos tão insistentes que só se acalmaram quando eu decidi, finalmente escrevê-los.
Esta história está dividida em três partes( a última ainda estou finalizando). Está aqui, já disponível, se passa no ponto de vista da nossa amada Felicity Smoak, e seus pensamentos enlouquecedores.
Espero que apreciem está fic. Escrevi com muito amor e carinho, então...Divirtam-se!

Londres séc XIX

Pov Felicity Smoak

Eu estava incrivelmente nervosa.

Não que eu não estivesse acostumada com esses eventos da alta sociedade. Como filha de viscondes, presenciar bailes e mais bailes na sociedade londrina era algo presente desde que eu aprendi, ainda pequena, as regras dos talheres. Se havia uma quantidade significativa desses itens na mesa, significava que o banquete teria muitas fases, e para não correr o risco de virar chacota nos maravilhosos eventos reais, minha mãe, a Viscondessa, fazia questão de estar presente a cada lição de etiqueta dada por professoras. Queixo reto, costas eretas, o uso de luvas…

Uma completa tortura.

Eu odiava todas elas.

Odiava o fato de ser extremamente inteligente em casa, e ainda sim, ter que me contentar somente com isso. Meu pai, em mão contrária aos desprezíveis aristocratas, me incentiva a aprender coisas novas. Desde matemática até literatura. Eu aprendi tudo em casa, passando horas na biblioteca. E não que minha mãe não apoiasse, ela se esforçava muito para fazer a sociedade me enxergar como uma “perfeita mulher inglesa”, mas também julgava necessário que, para cumprir esse papel com maestria, era meu dever ser mais que um rostinho bonito.

Eu os amava muito.

E embora as obrigações que me fazem seguir, eu sabia que ambos só queriam o melhor para mim. O mundo não era fácil.

Especialmente para uma mulher.

Ambos só queriam que eu me saísse bem.

E aqui estou eu, cumprindo o meu papel, me lançando na temporada de “caça maridos”, como minha melhor amiga, a Lady Thea Queen, apelidou carinhosamente. Nós duas iríamos debutar este ano, e éramos poucas das donzelas que não achavam o evento a coisa mais magnífica do mundo. Claro que queríamos casar, mas havia tantos homens com pensamentos medíocres…Ah.

Eu tinha medo de não encontrar o meu “grande amor”.

Eu tinha medo de, pôr meus pensamentos diferentes, não fosse aceita.

Eu tinha medo de colocar à deriva a honra da minha família.

Eram muitas coisas a se considerar.

Eu acreditava no amor. Queria sim ter uma família, filhos, mas queria poder fazer outras coisas também.

É errado demais desejar isso?

— Querida…- a voz suave de minha mãe ecoou atrás de mim, em um aviso.

Deixei os pensamentos mórbidos para trás e coloquei uma cara feliz. Regra número 1 da sociedade: se estiver triste, parece feliz. Aqui as aparências importam. Saber conduzir um momento de crise, lidando com um sorriso doce e um balançar sofisticado de leques é crucial.

— Você está linda.- continuou.- Vire pra mim.

Seu olhar fora desde as luvas de seda branca, que cobriam do cotovelo para baixo, ao vestido branco em pequenos bordados dourados. Minha silhueta estava bem acentuada devido ao espartilho( que eu odiava) mas estava acostumada. Seus olhos azuis, tão similares aos meus, enfim pararam em meu rosto, onde um pequeno colar de diamantes, combinado as presilhas em meu coque bem arrumado, se destacava. Assentiu com a cabeça, em aprovação.

— Perfeita.

Sorri, e então me virei. A vista nessas viagens era algo que sempre me agradava. Todos os casarões que visitávamos eram únicos, mágicos e impotentes. Mas o de hoje…Ah

Acho que nunca havia visto um lugar tão belo assim

Em exceção a casa campestre dos Queens.

O casarão estava repleto de luzes, que iluminavam os jardins em mais uma noite atípica londrina. O céu, quase sempre repleto de nuvens, estava escuro como as trevas, dando destaque a aquela residência, que reunia hoje a noite toda a sociedade. Meu pai estendeu o braço para mim ao atravessarmos o chafariz do enorme jardim, que dava à escadaria principal. Já era possível ouvir os risos, a música clássica que soava por detrás daquelas antigas paredes, e os drinques. Me detive no último degrau, os fazendo parar, e suspirei.

Era agora.

— Se quiser começar amanhã…- a voz de meu pai, aparentemente mais assustado que eu, interrompeu o momento em que me preparava para entrar.- Não precisava… — Ah, por favor, Noah. Assim parece que quem vai debutar é você.- prendi o riso. Parte de minhas respostas ácidas vinham de minha mãe. — Eu só estou dizendo… — Eu vou.- os interrompi.- Somos a família Smoak, e a família Smoak enfrenta os tormentos de cabeça erguida e com classe.- o olhar de minha mãe cintilou, orgulhoso.- E eu não vou fugir.- encarei meu pai, também sorrindo.- Agora vamos.

Endireitei-me, e ao finalmente atravessarmos a enorme porta um calafrio percorreu minha espinha. Era minha noite. Uma nova vida, o início da temporada que, se executada em êxito, acabaria comigo casada.

Era minha vida em jogo.

E eu faria o melhor para que pudesse sair com algum prêmio.

Andei ao lado de meu pai pelo salão, sem deixar de sorrir. Cumprimentamos diversos amigos, até que finalmente fui ao lado de minha mãe, deixando-o resolver os assuntos da família. O salão estava repleto de pessoas da realeza, todos bem vestidos, em conversas fúteis.

Ninguém me chamou atenção.

Suspirei, tentando manter a calma. Era o primeiro dia, logo um pretendente apareceria. Alguém que não obtivesse pensamentos tão retrógrados, como o conde Malone, que um ano antes da minha entrada na temporada, já se mostrara interessado. Ele poderia ser considerado “bonito”, no entanto, perdia qualquer resquício de beleza ao abrir a boca. Malone não via mulheres como mulheres.

Mas sim como um objeto, um brinquedo.

E aquilo me irritava.

Espero não encontrá-lo hoje.

Observei os arredores, me detendo ao fundo. Perto da mesa onde taças faziam uma espécie de pirâmide, havia um grupo de cavalheiros que conversavam. Um deles olhou para trás, e sorriu para mim. Fiz a reverência, mantendo o contato visual. As táticas de sedução começaram, e eu usaria todas elas. Diferente das muitas moças inglesas, eu sabia bem o que realmente acontecia entre um homem e uma mulher quando estavam sozinhos. Sabia como os homens pensavam, e o que buscavam nas relações. Alguns pareciam ser controlados por isso.

Sexo.

O que chegava a ser patético, na minha nada humilde opinião.

De repente, senti outro olhar em mim. Ele estava lindo como sempre, impecável em seu paletó preto, perfeitamente alinhado. Encontrei aqueles olhos azuis tão conhecidos, sentindo meu coração disparar e meu corpo se mover, inquieto. Não esperava vê-lo hoje. Não que ele não vinhesse a esse tipo de evento, mas sempre que podia, fugia.

Típico libertino.

Mas havia algo especial naquele libertino. Ele não era qualquer pessoa.

Era o meu libertino.

O agora conhecido( após o falecimento do pai) Duque Queen era meu melhor amigo. Crescemos juntos, brincando nas casas de campo de nossas famílias, fosse na lama ou no lago. Minha relação com Oliver era especial, e de certa forma, diferente. Claro que mantínhamos as aparências. Muitas pessoas nocivas jamais viriam de forma aceitável uma amizade entre um homem e uma mulher, mas Oliver simplesmente não ligava. Nem nossas famílias.

Que eram muito unidas.

Conversávamos sobre tudo, e quando ele estava longe, continuávamos nossas conversas incansáveis por cartas. Eu gostava quando estávamos sozinhos, longe das regras da sociedade. Só eu e Oliver.

Podendo ser nós mesmos.

Somente nós dois.

E eu amava o momento em que o mundo era somente nós dois. Houve um tempo que cheguei a pensar que…Ah, não importa. Jamais iria acontecer.

Suspirei tristemente.

O cumprimentei de longe, em um sorriso de canto. Oliver também fez a reverência, piscando.Nossa conversa silenciosa fora interrompida pela chegada de outro cavalheiro, e quando finalmente me virei, todo meu bom humor sumiu. O conde Malone estava aqui, e sorria radiante para mim.

E começava a tortura.

— Lady Felicity Smoak.- sorriu.- Viscondessa. — Milorde.- minha mãe sorriu, de forma educada.- Como o senhor está? — Felizmente bem. Ficaria ainda mais se a Lady Smoak pudesse me acompanhar em uma dança.- seu olhar, cheio de segundas intenções, caiu sobre mim.

Eu não queria.

Mas não tinha o luxo de dizer não.

E em um sorriso falso, soando graciosa e delicada, respondi, em meu melhor teatro:

— Seria uma honra.

Malone nos conduziu até o meio do salão, sem deixar de encarar aos arredores, se certificando que nos vissem. Fiz o cumprimento, e então me aproximei. Coloquei minha mão sob seu ombro, enquanto a outra continuou sendo segurada por Billy. A música começou, e rodopiamos em silêncio.

Mais uma rodada de conversas fúteis.

— E como andam as coisas, milorde?- perguntei sem vontade alguma. — As coisas com o governo andaram um pouco estremecidas, de fato.- trinquei os dentes ao sentir sua mão subir mais do que deveria.- Mas acredito que assuntos do governo não lhe interessam. — Perdão? — Sobre o seu debute. Ouvi algumas pessoas, todos estão encantados por você.- Billy sorriu consigo mesmo, encarando meu rosto como se fosse um prêmio.- Parece um anjo nesse vestido.

Era o que deveria parecer.

Ao menos algo havia dado certo.

— Já tem algum pretendente? — Estou...Estou avaliando as opções.- forcei um sorriso. — Mulheres não deveriam pensar muito. Dizem que faz mal.- me segurei para não revirar os olhos.- Deveriam focar no que realmente importa: serem esposas devotas. É notável que… — hum.

Um arranhar de garganta interrompeu a série de comentários idiotas que Billy pretendia fazer. O Conde estufou o peito, mas o homem ao nosso lado não pareceu nenhum pouco intimidado. O observei em sua postura centrada. Calmo, mas ainda sim, ameaçador, que o deixava ainda mais belo, enquanto atacava Billy pelo olhar. Seus olhos azuis, enigmáticos e ferozes, como as águas de um oceano em tempestade pediam para o conde me soltar. Billy engoliu em seco.

Completamente desconcertado.

Não podia julgá-lo. Oliver obtinha esse poder nas pessoas.

— Perdão a intromissão. Mas acredito que o conde não irá se importar, não é mesmo?- sorriu cinicamente.- Lady Smoak, me daria a honra desta dança? — Seria um prazer.

E realmente era.

Fui tirada daqueles braços repulsivos, me encaixando agora em um lugar seguro. Oliver ainda parecia que iria matá-lo. Seu rosto estava contraído, sério, em completa fúria. Apertei seu ombro, em sinal de advertência, o fazendo olhar apenas para mim e esquecer o resto. Toda aquela postura raivosa se dissipou, e com ombros mais leves e um semblante relaxado,me trouxe mais para perto Sua mão, parada em minha cintura, nos girou.

— O que está fazendo aqui?- cochichei. — Nenhum “ Olá Oliver”, como você está bonito hoje. Que bom que me salvou daquele babaca.- imitou a minha voz. Revirei os olhos. — Libertinos e suas posturas narcisistas.- reclamei, sem deixar de sorrir. Me aproximei um pouco mais.- Estou feliz que veio. — Também estou feliz por estar aqui. — Mentiroso.- escutei sua risada baixa ecoar em meu ouvido.- Você odeia tudo isso. — Odeio. Mas abri uma exceção. Não é todo dia que minha irmã e minha melhor amiga entram oficialmente para a amada temporada.- sua voz soou sarcástica.- Falando nisso. Como estão os pretendentes?

Gemi em desgosto.

Oliver riu.

— Tão ruim assim? — Todos parecem ter os mesmos pensamentos. São chatos. Fúteis. E sinceramente, me surpreende que vocês, homens, conseguem tomar banho sozinhos.

Um brilho obscuro tomou conta de seu olhar, e eu soube ali, vendo seus lábios se estreitarem em um sorriso malicioso que algum comentário obsceno e depravado estava por vir. Como já havia dito, era de meu conhecimento o que um casal fazia a dois. Entender sobre meu corpo e coisas matrimoniais eram outro tópico que minha mãe fez questão de explicar desde cedo. Não que meu conhecimento viesse somente disso. Eu e Thea sempre fomos curiosas, prestando atenção nas coisas.

Seu irmão era uma delas.

Conversávamos sobre tudo, e isso também estava incluso. Claro que às vezes ele me provocava. Eu era virgem. Não tinha, infelizmente, o livre arbítrio de sair por aí me entregando aos prazeres carnais como o sexo masculino fazia, porém, saber sobre essas coisas, especialmente porque é nosso corpo é essencial.

Já havia visto Oliver com as mulheres da ópera, e o próprio já me contou suas aventuras. Nossa amizade continha um potencial anormal. Ele se sentia livre comigo, e eu me sentia eu mesma com ele. Era estranho.

E maravilhoso.

Mas também é assustador.

Eu não tinha essa conexão com ninguém. Nem mesmo com Thea.

Somente com ele.

— Não ouse dizer o que está pensando.- o repreendi. Oliver se animou ainda mais. — Mas eu não disse nada! — Ia dizer. Não se esqueça que eu o conheço muito bem.- Um pequeno sorriso tomou conta de seus lábios, enquanto me observava, em silêncio. Retribui o olhar, e permanecemos assim, encarando um ao outro sem dizer absolutamente nada. — Você está andando com uma mente muito obscena Lady Smoak.- arqueei as sobrancelhas.- Eu só ia dizer… — Oliver… — Que por sermos criaturas tão primitivas, como o sexo feminino fica feliz em apontar.- seus olhos cintilavam, iguais aos de um menino, pronto para pregar uma peça.- É comum termos ajuda de moças tão empenhadas na hora do banho. E…

Um gemido baixo escapou de seus lábios ao sentir meu salto se afundar em seu pé. Permaneci sorridente, enquanto giravamos mais uma vez, sem Oliver se mover. Ao cair novamente em seus braços, prendi o riso, devido a sua cara em pura indignação.

— Você é uma mulher muito atrevida. — Ah, eu sei.- sorri docemente.- Mas meus pretendentes não.- pisquei.- Será um tremendo choque. — Deus salve o pobre cavalheiro.- lamentou. Apertei seu ombro, ouvindo seu riso baixo. Também o acompanhei.- Alguém lhe chamou atenção?

Senti Oliver prender a respiração, aguardando minha resposta.

— Não.- respondi.- Ainda não. — Bom.- soltou o ar ao falar. Seus olhos me percorreram dos pés à cabeça.- Você está… — Não diga um anjo.- fiz careta. — Eu ia dizer maravilhosa.

Meu coração acelerou. Mordi os lábios e olhei para os arredores, desviando daqueles olhos. Ainda sem olhá-lo, comentei:

— Espero que seja maravilhosa o suficiente para encontrar algum pretendente.

Oliver demorou a responder.

— Vai encontrar.- encontrei seus olhos, agora sérios, sem brincadeiras. — Eu..Eu espero.- me desconcertei. Limpei a garganta.- Já dançamos três danças. — Não percebi. — Mas acredite, as outras pessoas perceberam.- indiquei com o queixo.- Se continuar assim, amanhã o boato será que o libertino desejável duque Queen está me cortejando. — Desejável, é?- arqueou as sobrancelhas, de forma maliciosa. Bufei. — De todo o contexto, essa foi a única parte que lhe chamou atenção?- perguntei, irritada. — Com certeza.- sorriu com graça, mas vendo minha falta de animação, suspirou.- Desculpe. — Tudo bem. Eu é que estou nervosa.

A música parou, e nos cumprimentamos, novamente. Oliver me guiou até minha mãe, e ao notar meu nervosismo, inclinou a cabeça em meu ouvido e sussurrou:

— Uma dica para conquistar um homem: não pise no pé dele.- levei a mão à boca, abafando o riso, tardiamente. Algumas pessoas nos olharam.- e nem rir deste modo. — A culpa é sua!- tentei me controlar. Oliver riu também.- Depois da dança está fazendo isso para me afastar de possíveis opções. — Se suas possíveis opções são o conde Malone, fico feliz em atrapalhar.- sorriu sarcasticamente.- Além disso… — Vossa graça.

Minha mãe, que nos lançava um olhar com quê de recriminação, sorriu para Oliver. O mesmo a cumprimentou, ainda segurando meu braço.

— Pareciam estar se divertindo muito.- seu tom fora de advertência, e ao mesmo tempo, com graça. Minha mãe e a Duquesa eram muito amigas, e não era segredo para ninguém que ela adorava Oliver. — Estávamos conversando sobre possíveis pretendentes.- comentou Oliver.- O conde Malone… — Por que não vai se intrometer nos pretendentes de outra pessoa?- o cortei. Minha mãe nos assistia divertidamente.- Sua irmã. Eu ainda não a vi. — Ela está…- o semblante de Oliver se fechou ao vê-la dançar com o conde Harper.- Sinto informar, mas preciso ir. Senhoritas.- Abaixou a cabeça.- Cuidado com os pés alheios. — Vá se… — Felicity!

Em meio a repreensão de minha mãe, o vi sair, rindo baixinho. Tentei permanecer séria, no entanto, meus lábios teimavam em permanecer arqueados. Encontrei o olhar de minha mãe, que me observava em silêncio, e então encarei o salão. Outro rapaz, alto e magro, apareceu.

E lá íamos nós outra vez.

— Viscondessa.- cumprimentou minha mãe.- Lady Smoak.- sorri de forma doce, arrumando a postura.- Gostaria de dançar? — Eu adoraria.

***

Meus pés estavam me matando.

Me espreguicei ao me sentar nos banquinhos no fundo de nosso jardim. Sempre que tinha a oportunidade, caminhava até ali, passando horas observando o céu nublado e natureza. Sem pessoas, sem pressão, sem regras.

Apenas eu me minha mente.

Haviamos chegado do baile poucas horas atrás. Após eu dançar com mais cinco cavalheiros, pedi para que fossemos para casa. Fora apenas o primeiro dia, eu precisava me preparar para o segundo.

E o consecutivo ao segundo.

Até finalmente achar um marido

Meu estômago se agitou.

Sim, de fato eu dancei com muitas pessoas hoje, mas nenhuma fora especial. Não senti meu coração acelerar, ou a respiração falhar. Para ser honesta, não senti absolutamente nada.

Apenas tédio.

E isso estava me assustando.

Caso eu não encontrasse…Engoli em seco, fechando os olhos. Isso não era uma opção. De maneira alguma eu terminaria a temporada solteira. Estaria casada.

Casada.

Teria minha própria casa, e por sorte, um bom marido. Meu maior medo era ser arrastado a um matrimônio infeliz. Já ouvira o relato de tantas mulheres que sofriam…

— Céus, como você está séria.

Sorri ao vê-lo parado ali, de braços cruzados. O palito fora deixado de lado, estando apenas com a camisa social branca, um pouco desabotoada. Aquele cantinho também era meu ponto de encontro com Thea e Oliver, já que éramos vizinhos. Costumávamos a passar a tarde inteira brincando de pega-pega na nossa chamada “floresta mágica” quando pequenos. Um tempo tão bom.

Sem pressão.

Sem responsabilidades.

Sem preocupações.

Oliver se sentou no banco ao meu lado. Pegou minha mão, que ainda usava luvas, e a beijou. Fechei os olhos com a carícia, me arrepiando por inteiro.

— Me dê seu pé.

Descalçei o sapato, e o coloquei em seu colo, sentindo suas mãos firmes o apertar. Um gemido satisfeito escapou de meus lábios.



— Você e suas mãos maravilhosas.- sua risada rouca me fez querer me xingar.- Pervertido. — Todos somos.- brincou. Seu sorriso diminuiu ao me observar.- O que a aflige, Lis?

Muita coisa.

Puxei minha perna, tendo a sensação da grama molhada entre meus dedos e suspirei.

— Alguém tentou alguma coisa com você?— perguntou em tom baixo. Encontrei seu olhar, frio como o inverno londrino, com resquícios de fúria.- Algo indecente? — Não.- o vi soltar o ar, aliviado.- Só estou pensando. — No que está pensando?- inclinou o corpo a frente, nos deixando próximos. — Sabe que quando a temporada acabar, e se tudo correr bem- enfatizei.- vou estar casada, não sabe?- seu rosto estava contraído. O maxilar trincado.

Parecia incomodado com algo.

O assunto em questão, que o deixara assim, estava fora do meu conhecimento.

— Sei.- sua voz mal saiu. — E sabe também que vou ter que me mudar.- o vi suspirar. — Sei, Lis.- falou aborrecido.- Mas o que isso… — São muitas mudanças.- respondi sua dúvida.- Muita coisa está para acontecer. Minha mãe quer um casamento grandioso. Não posso falhar. — E o que você quer?

Meus olhos marejaram.

— Eu quero…- minha voz falhou.- Eu quero ser feliz, Oliver.- o encarei, desesperada.- Preciso achar um bom marido, preciso casar. Mas e se eu falhar?

Seus lábios se entreabriram, no entanto, nada foi dito. Oliver, que me encarava de forma tão aberta, continha um brilho misterioso no olhar, refletido pela luz da lua. Eu não sabia no que ele estava pensando.

Mas queria saber.

Pois assim, de forma definitiva, acabaria com os desejos daquela menininha que habitava em mim, e que acreditava que o amigo, assim como ela, a amava. Contudo, eu sabia até onde algo dessa proporção era real.

Ou imaginação.

Sim, nos amávamos, como amigos. Oliver cuidava de mim como cuidava de Thea, e eu o protegia sempre que possível. Fazíamos parte da vida um do outro, parte importante, e acredito que, por conta disso, uma parte de mim confundira os sentimentos. Ele era meu amigo, e eu sabia que era uma das poucas pessoas que eu poderia contar. Para sempre.

Seus braços me puxaram. Me enterrei em seu peito e chorei, exausta. Exausta por ter que fingir estar bem o tempo todo. Exausta pela pressão imposta pela sociedade.

Por minha mãe.

Por todos.

Caso eu falhasse…

— Um homem teria que ser um tolo para não ver você.- sussurrou no pé de meu ouvido. — Homens são tolos.- embora com a voz trêmula consegui o alfinetar. Oliver gargalhou. Me arrumei em seu peito, erguendo a cabeça a tempo de vê-lo em sua ação tão simples, mas que havia me deixado tão feliz. — Felicity Smoak e seu humor ácido.- disse com graça. Dei de ombros. Seus olhos encontraram os meus.- É normal sentir medo.

Seu braço passou por minha cintura, enquanto sua outra mão acariciava meu rosto de forma suave.

— Vai encontrar um marido.- a frase em si soou abafada, como se Oliver fizesse um esforço enorme em dizê-la.- E também vai ser feliz.

Sorri, o abraçando ainda mais forte. Oliver suspirou relaxado e também me apertou. Sua mão, antes em meu rosto, agora tocava minha luva de seda.

— Eu espero. Espero mesmo. Não que seja difícil conquistar vocês. — Você e suas táticas.- sorriu. — Elas funcionam. — Eu sei. Me recordo bem a última vez que um de meus colegas se encantou por você.- lamentou, fazendo careta.- Pobre Barry Allen. — O barão Allen era fofo.- me recordei do rapaz, ao qual cheguei a trocar algumas cartas.- Eu gostava dele. — Ele não era bom pra você.- revirei os olhos por seu tom protetor.- E antes que diga: sei que é capaz de tomar as próprias decisões. É uma mulher forte, e sabe que a tenho em alta conta por isso.- minhas bochechas queimaram.- Mas ele não era o certo. Muito menino. — Deveria então dar chance a libertinos como você?- perguntei com graça.- Falando nisso. O senhor Wayne…

Oliver gemeu em desgosto

Eles não se davam bem.

— Por favor, Lis. Fique longe desse homem. — Ele me pareceu um cavalheiro notável hoje à noite.- Oliver estreitou o corpo. Me afastei para observá-lo. Seu rosto estava carrancudo.- Bem recatado. Boas palavras. — Ele não é bom pra você.— repetiu voraz. — Eu decido isso. E até o momento ele é quem mais me chamou atenção.- Oliver se levantou, agitado. — Não pode fazer isso!- rugiu.- Wayne não quer se comprometer. Ele pode fazer parecer que tudo é um mar de rosas. Mas no momento em que a levar para o jardim…- seus olhos cintilavam, furiosos.- Eu o conheço o suficiente. É calculista. Não caia nos jogos dele. Principalmente por você ser tão... — Inocente? Ah, por favor, Oliver.- o interrompi, aborrecida.- Não sou tão tola ao ponto de deixá-lo me levar a um jardim.- fiquei de pé, irritada com sua postura.- Sei muito bem definir os meus limites. — Eu não a chamei de tola. — Não? Perdão vossa graça.- Oliver trincou o maxilar. Odiava me ver chamá-lo pelo título quando estávamos sozinhos, e eu sabia disso.- Fora uma má interpretação. — Felicity… — Escute bem. Eu não sei o que o deixou com tanto mau humor hoje, mas isso definitivamente não é problema meu. E se veio aqui para descontar sua raiva deveria ir a um bordel.- falei ofegante.

Dei um passo em direção à casa, mas sua mão me deteve. Encontrei seus olhos, antes tão tormentosos, agora pareciam achar um controle. Oliver respirou fundo, em uma batalha interna, onde sangrava ao vencer. Seu rosto então ficou sereno.

— Me desculpe. O problema não é você. Eu é que tive uma discussão com minha mãe antes de vir para cá também.- confessou em tom baixo. Continuei a encará-lo, impassível.- Ela tem pegado muito no meu pé por conta da temporada.

Era bem o feitio de Moira fazer isso. No entanto, seus esforços para ver Oliver com alguém nunca funcionavam. Ele não queria casar.

Ao menos ainda não.

Parte de mim ficava aliviada, enquanto a outra se descabelava.

— Isso não justifica minha explosão. É que…- sorriu amargo.- Você é importante para mim. Já Wayne… — Ele é tão ruim assim?- ousei perguntar, sentindo um calafrio. Oliver assentiu em silêncio.- O quão ruim? — Ruim o bastante para você odiá-lo.- engoli em seco.- Digamos que ele e Billy estão no mesmo patamar. Billy demonstra, Wayne não. Isso que o torna perigoso.

Encarei nossas mãos, pensativa. Um dos meus maiores medos era casar com um marido violento, e saber que estive tão perto hoje de uma pessoa assim...Ah, chegava a dar nos nervos. Não que eu tenha o cogitado como real pretendente, apenas disse para ver a reação de Oliver, que respondeu com preocupação.

— Lis.- me chamou, aflito.- Estava mesmo cogitando… — Claro que não. É que você fica tão insuportável quando o assunto é o meu debute que eu simplesmente falei isso pra te irritar.- expliquei. Respirei fundo, também me acalmando. — Desculpe. — Tudo bem.- sorri, me aproximando.- Sobre o debute… — Podemos falar de outra coisa? — Eu só ia dizer para ficar despreocupado. Não se esqueça que fora no casarão Queen onde aprendi a socar alguém.- Oliver sorriu. — Difícil esquecer quando você fora a pessoa que levou o soco.- disse com graça.- Sei que sabe se defender. Tanto verbalmente quanto fisicamente.- sorriu, orgulhoso.- Só peço que tome cuidado com alguns.

Assenti.

— Você é homem...Poderia me dar algumas dicas.- sorri.- Não que as minhas não sejam fantásticas. Mas em momentos de crise toda ajuda é válida.

Oliver ponderou.

— Quer que eu te ajude a seduzir alguém? — Algo do tipo. Eu estava pensando…

Arfei.

Em um movimento ágil, meu corpo foi puxado, sendo flexionado a frente, contra seu peito. Embora a noite fosse fria, eu não poderia estar sentindo mais calor. Em meus braços, seios.

No meio de minhas pernas…

Estremeci por seu hálito quente bater em meu ouvido.

— Calor humano é essencial. Você terá que ficar a uma distância respeitável.- sussurrou, Minhas costas arrepiaram com o roçar de sua barba em meu pescoço. Oliver me apertou mais.- Mas assim que puder, o toque no ombro, ou nas mãos. Isso ajuda nas coisas.- seus lábios febris escorregaram até meu lóbulo, me deixando completamente sem ar.- Ajuda muito.- continuou, com a voz grave. — É? E o que mais?- consegui, com muito esforço, perguntar.

Céus. Minhas pernas pareciam que não queriam funcionar. E o sentir assim, tão colado a mim com a camisa desabotoada...Gemi baixo com o toque de seus dedos, subindo por minhas costas. Afastou seu rosto, quase encostando nossos narizes, e me observou.

— Contato visual também ajuda. Diz muito sobre você. Sobre o que pretende.- Encarou meus lábios, e em seguida, meus olhos.- Diz muito sobre o que quer. Entendeu?- apenas assenti, sem conseguir formar uma única frase.- E há também o beijo.

Meu corpo se agitou. Minha boca estava seca, as mãos trêmulas e pernas bambas. Ele estava me provocando devido à Wayne. Eu sabia disso. Mas por que queria que ele continuasse?

Que não parasse?

Que me beijasse?

— Essa, sem sombra de dúvidas, é uma parte muito interessante.- comentei, sem fôlego.- Não acha?- os olhos de Oliver escureceram.- Espero me sair bem.- o vi prender a respiração.- Que a pessoa, seja quem for, goste. Acha que vão gostar?

Era uma pergunta pervertida, que sem sombra de dúvidas, mexeu com ele. O corpo de Oliver estava ainda mais rígido. Encarei sua pele exposta pelos poucos botões desabotoados, imaginando como ele era sem aquele tecido. Seu olhar acompanhou o meu, e arfou ao notar onde eu observava.

— Creio que irão gostar muito.- foi tudo o que respondeu antes de se afastar.

Respirei fundo, tentando me recompor.

— Ja lhe dei muitas dicas. Agora é por conta própria.- o mesmo estava ofegante, no entanto, leve, como se nada tivesse acontecido.- A vejo amanhã? — Com...Com certeza.- forcei um sorriso.- Mande um beijo a Thea. — Boa noite Lis. — Boa noite, Oliver.

O assisti sair com as mãos no bolso, sem olhar para trás. Levei minha mão ao pescoço, onde seus lábios estiveram tão próximos, e fechei os olhos. Respirando fundo.

Isso não deveria ter acontecido.

Passei horas naquele jardim me questionando o que teria acontecido se de fato ele me beijasse.

***

Não consegui dormir.

Após longas horas na banheira, tentando relaxar cada músculo que ainda se encontrava tenso devido às provocações de Oliver, tardei a dormir. E quando finalmente fechei os olhos, acordei ofegante. Sonhei com aqueles lábios quentes, que em minha mente fantasiosa, desciam muito além do meu pescoço. Passeavam por meus seios, brincavam com minha barriga.

Desciam um pouco mais

E mais…

A cena fora tão real que meu corpo reagiu. Tentei me controlar, e acalmar aquele calor que só Oliver sabia incendiar em mim, e mesmo após horas, continuava pensando naqueles olhos azuis. Oliver disfarçava bem suas emoções. Por ser o duque, permanecer neutro e demonstrar calma em situações fora algo ensinado desde o berço. A questão era que ás vezes ele fingia tão bem que me confundia saber o que ele sentia. Eu o conhecia como ninguém, via com os meus próprios olhos aquela postura durona se quebrar em uma risada, ou um sorriso largo. Mas quando se tratava de sentimentos como antes, por conta de minhas dúvidas, não sabia dizer se enxergava a realidade ou a fantasia de meus pensamentos. Ele parecia ter se sentido afetado.

Demonstrou sentir.

Inferno, eu o escutei gemer ao seguir meu olhar por sua camiseta.

Mas ainda assim… Ainda sim eu não tinha certeza de nada. Oliver e eu éramos amigos, e eu, logo mais, me casaria. Ele era meu melhor amigo, e até mesmo, estava me ajudando a avaliar possíveis pretendentes. Todo carinho e afeto vinham disso.Eu precisava parar de confundir as coisas como fazia antigamente.

Não era mais uma garotinha.

Eu era uma mulher que sabia separar as coisas.

Oliver também.

Ao ser acordada por minha dama de companhia, a senhorita Snow( que eu também continha uma bela amizade) me ajudou a soar "aceitável''. Coloquei um vestido azul escuro de mangas compridas e um pequeno par de luvas brancas. Além de brincos rubi escuros, fizemos um coque baixo, prendendo com algumas jóias o pequeno chapéu preto, que eu usaria mais tarde ao caminhar pelo parque. Segundo minha mãe, a melhor maneira de ser lembrada é, principalmente, ser vista.

E eu seria vista hoje.

— Que tal?- me virei para Caitlin dando uma voltinha. A mesma estava sentada na cadeira de minha penteadeira, e sorriu, orgulhosa. — Eu tenho um bom gosto incrível.- se gabou. acabei rindo.- Como foi o baile? Não conversamos ontem. — Foi…- suspirei.- Foi o primeiro baile.- Caitlin assentiu, pensativa, quando um sorriso malicioso brotou em seus lábios. — Soube que o duque Queen dançou ontem.- balancei a cabeça.

Ah, os boatos.

Eu avisei a aquele teimoso que as pessoas comentariam.



— Três vezes.- continuou, alargando o sorriso. — Caitlin…- a repreendi. — Ele parece gostar muito de você.- comentou, encontrando meu olhar.- Sim, ele é seu amigo, mas às vezes sinto algo mais vindo de vossa graça quando se trata de você.- prendi a respiração.

Se ela tivesse presenciado a cena do jardim então…

— E eu também vi que ele veio aqui ontem a noite.- gelei.- Fiz com que nenhum funcionário passasse por lá. Sei que gosta de privacidade para conversarem.

Ela não havia visto.

Ninguém havia visto.

Respirei aliviada.

— Você me conhece mesmo.- Caitlin me lançou um olhar carinhoso.- Está merecendo umas férias. Poderia… — Em plena temporada? De jeito nenhum!- me cortou, se pondo de pé.- Quero estar ao seu lado quando o escolher. A ajudar a arrumar o vestido.- meus olhos marejaram.- Quero presenciar seu dia especial.

Sorri, e então a abracei. Eu e Caitlin também não ligavamos para as regras que a sociedade impunhavam sob nós. Ela era minha amiga, e sua classe social não significava nada para mim. Na realidade, jamais deveria significar coisa alguma.

Para ninguém.

Em nenhum lugar.

— Vamos descer. Precisa estar bem alimentada para a caça a cavalheiros.- brincou, também chorosa. — Que comece o dia.

Descemos em silêncio até a sala das refeições. Uma enorme mesa já estava posta, desde pães a bolos, e diversos tipos de suco. Meu pai, pelo o que soube, havia saido cedo para resolver negócios, e minha mãe estava na ponta da mesa, me aguardando com um olhar ansioso.

Suspirei.

— Bom dia mãe.- sorri de forma educada ao me sentar.- Dormiu… — O que achou dos pretendentes de ontem?- foi direta.- Gostou de algum? — Eu… — Claro que foi o primeiro dia.- ignorou minha fala.- Vamos conhecer mais… — Mãe… — O baile aqui em londres deve ser considerado. Todo membro da sociedade estará lá. A rainha, o rei… — Mãe!- ergui minha voz, finalmente a despertando.- Será que eu posso comer e falar de homens depois? Eles não vão encher minha barriga. — Tão ácida pela manhã.- aquela voz, aquela maldita voz, me fez virar imediatamente para trás, ao seu encontro.- Não há um código de etiqueta que diz que mulheres são sempre delicadas e amorosas? — Se quiser casar com uma sem sal tudo bem. Mas mulheres reais gritam com você.- disse Thea, trajando um vestido rosa claro com babados e um pequeno chapéu da mesma cor.- Ah, espera.- seu sorriso mudou para provocação.- Você não quer casar. E claro que nenhuma donzela gritaria com você. Seria um crime a Londres gritar com vossa graça.- tampei os lábios com a mão, abafando um riso. Oliver me encarou divertido, e depois arqueou as sobrancelhas para a irmã. — Terminou? — Por hora.- satisfeita, sorriu para minha mãe, caminhando até a mesa.- Lady Smoak. — Olá Thea.- cumprimentou, com diversão.- Vossa Graça. — Senhora Smoak.- sorriu.- desculpe a intromissão em seu café da manhã. — Já parei de ligar há muito tempo.- Não era a primeira vez que isso ocorria. Eu mesma aparecia na residência Queen diversas vezes. Oliver sorriu, aliviado.- Se sentem.

Os Queens se acomodaram. Thea ao meu lado e Oliver de frente para nós, perto de minha mãe. Seu olhar encontrou o meu, e eu aguardei, apreensiva.

Que as coisas não tenham mudado,

Que as coisas não tenham mudado…

Oliver apenas sorriu, e piscou. Engatou uma conversa com minha mãe, enquanto eu ouvia os comentários de Thea.

— Não foi tão ruim. Achei que seria pior. — Alguém lhe interessou?- Oliver se empertigou na cadeira com a pergunta da irmã, e ao invés de falar com minha mãe, como estava fazendo, aguardou minha resposta em silêncio. — Ainda não.- fui sincera.- E você? A vi dançando com o Conde Harper.- arqueei as sobrancelhas. Thea ficou vermelha.

Ela estava vermelha!

Começarei a ficar de olho nesse conde Harper.

— Ele é legal. Ainda idiota como qualquer homem.- ri baixinho pelos lábios abertos de Oliver, ofendidos pela irmã, que ao notar minha diversão, seguiu meu olhar. — Eu também sou idiota, Speedy?- a chamou pelo apelido de criança.

Thea mostrou a língua.

E minha mãe disfarçou um sorriso.

— Você, caro irmãozinho, é o maior de todos eles.- respondeu.- E sabe o porquê.

Oliver parou de sorrir.

Thea o desafiou com o olhar, e em uma reclamação inaudível, o vi revirar os olhos.

— Bom…Eu estava pensando em ir ao parque hoje.- tentei amenizar a discussão silenciosa.- Quer ir comigo? — Claro! Seria ótimo.- concordou, animada. Oliver me agradeceu em um aceno, e eu apenas pisquei. — Vocês duas deveriam ir sim. O clima está ótima para uma volta ao ar livre, não acha Vossa Graça?- Oliver assentiu.- Se incomodaria em levá-las?

Encarei minha mãe com um pedido claro.

“Não faça isso!”

Mas ela era Donna Smoak, e não havia nada nesse mundo que não conseguisse fazer. Desde negócios a até convencer homens a passarem o dia conosco. Muitas vezes não os dava saída.

Oliver entreabriu os lábios, surpreso.

— Eu… — Ótimo.- falou animada.- A devolva cedo.- ordenou. Oliver assentiu prontamente, um pouco assustado. — Como quiser Lady Smoak.

Minha mãe se recolheu, sorrindo animadamente para Oliver. Terminamos o café, e após me limpar, e dizer a Caitlin que estávamos de saída, fomos. Usamos a carruagem dos Queens. Thea conversava com Caitlin sem parar, e eu apenas tentava apreciar o céu nublado. Não estava tão frio, nem tão calor.

Eu sentia falta do sol.

Minha pele aquecida em uma tarde de verão, com uma brisa quente…Suspirei ao fechar os olhos, imaginando aquele lugar. Sem dúvidas, sem receios, sem pressão. Despertei com o toque discreto da mão de Oliver sob minha luva. Estávamos lado a lado, ambos em silêncio. Virei o rosto e o encarei, encontrando um pequeno sorriso.

Qual eu retribui imediatamente.

Tudo estava bem afinal.

A praça estava cheia como de costume. Algumas famílias faziam piquenique, outras conversavam. Homens do governo real carregavam o jornal nas mãos, sérios, e a passos apressados. E claro que haviam também muitas debutantes ao redor dos lagos, caminhando com cavalheiros.

Flertando.

Como era o esperado.

Oliver nos ajudou a descer, e caminhamos pela estrada de terra entre o gramado, sem deixar de cumprimentar as pessoas que passavam. Todos faziam reverência, principalmente por Oliver estar conosco. Thea viu uma conhecida, e puxou Caitlin com ela, alegando que voltaria rápido.

— Pobre senhorita Snow.- Oliver comentou com pesar, ri baixinho.- Thea é… — Intensa.- brinquei.- Mas eu a amo muito.- Oliver sorriu de canto, e me encarou profundamente. — Sorte a dela.- olhei para os arredores. Ainda sentindo o olhar de Oliver em mim, voltei a observá-lo, arqueando as sobrancelhas. — O que foi? — O que foi o quê? — Você.- Oliver ainda parecia confuso. Bufei impaciente.- Está me olhando com esses olhos intimidantes. — Os acha intimidantes, é?- falou com graça. — Responda a pergunta.

O senti me encarar abertamente, sem dizer uma única palavra. Seus olhos estavam distantes, e ao mesmo tempo, perto demais. Seus lábios se arquearam em um pequeno sorriso de canto. Ele apenas suspirou, como se tomasse fôlego, e disse:

— Nada. Só…Só gosto de vê-la de azul. É sua cor favorita, e ela a deixa extremamente bela.

Meu coração acelerou.

Tentei fazer alguma piada com a situação, mas no momento, eu era incapaz de pensar. Ou falar.

Ou fazer qualquer coisa.

Limpei a garganta, olhando para minhas luvas.

— Thea está demorando. — Está sim.- concordou.- Quer fazer alguma coisa?

Meu olhar serviu como pergunta.

— Não se preocupe. Não a levarei para o mal caminho.- sorriu maliciosamente. — Vindo de você.- alfinetei, voltando ao nosso habitual jogo.- Sempre há perguntas. — Seu amor por mim é notável.- ri ao notar sua indignação.- Tão sincera. — Você já se acostumou.- pisquei. — Em ser maltratado? Jamais. — Dramático.- revirei os olhos.- Olha lá se não é Laurel Lance.- indiquei.- Ainda cogita se casar com ela?

Oliver fez careta. Laurel Lance foi uma das poucas moças direitas qual Oliver dançou ou chegou a fazer qualquer tipo de cortejo, e ela se gabava por isso.

Até hoje.

Não nos dávamos muito bem.

— Me dê seu braço.- pediu. O encarei confusa.- Vamos. — Oliver, às pessoas… — Eu já disse que não ligo.

Suspirei, e estendi meu braço, o encaixando ao seu. Caminhamos tranquilamente.

— Não.- cochichou. — Não o quê?- fingi um sorriso ao perguntar, enquanto caminhávamos. — Não penso em me casar com ela.- suspirei.- Sei que não gosta dela. — E…? — Sua aprovação é importante para mim.- nos olhamos.- Jamais faria algo assim sem que você soubesse, ou que me falasse o que acha a respeito.- meu peito se apertou ao imaginar o dia em que Oliver me apresentaria sua futura esposa.- Você é importante para mim, Lis.

Eu sabia onde ele queria chegar.

A discussão ontem a noite, claro.

— Entendo sua preocupação. Mas como disse: sei me cuidar.- cochichei.- E claro que você vai saber quando eu o escolher.- seu maxilar ficou tenso.- Também é importante para mim, Oliver. — Somos importantes um para o outro então.- voltou a olhar a frente. — Algo assim.

Paramos de conversar assim que passamos pelos os Lances. Laurel me olhou furiosa, e eu apenas sorri, educada, exatamente como Oliver, que achava graça da situação. Seguimos em frente, prendendo o riso, até chegar ao lago.

— Se ela me matar a culpa é sua.- Oliver riu, o acompanhei.- Foi merecido. — Definitivamente. — O que é tão engraçado?

Thea finalmente apareceu, sorrindo cúmplice com Caitlin. Indaguei pelo olhar, entendendo o joguinho das duas.

Muito maduro

— Onde diabos você estava?- questionou Oliver. — Fazendo coisas. — Que coisas? — Pela rainha. Como você é irritante.- reclamou. — Eu… — Ai meu Deus.- Caitlin balbuciou, nervosa. — O que foi?- a encarei, preocupada.- Tudo bem? — O príncipe está vindo para cá. — Príncipe? Que príncipe?- perguntei, confusa. — Como assim você não sabe? O príncipe Ray Palmer da Áustria. Chegou há uma semana em Londres para procurar uma esposa.- comentou Thea.- É o grande partido da temporada.

Ouvi as reclamações de Oliver, e apenas arrumei a postura. Um homem bonito de cabelos curtos bem arrumado, e de olhos escuros assim como seu cabelo caminhava de forma elegante até nós. Fizemos a reverência,, assim que se aproximou.

— Vossa alteza.- Cumprimentei. —Ladies.- sorriu, educado.- Vossa Graça.

Oliver o encarou seriamente, antes de se curvar.

— Alteza.- foi tudo o que respondeu.

O olhar de Ray caiu em nós.

— Aproveitando o dia? — Está ótimo para caminhar.- sorriu Thea, e ao notar seu olhar, seu sorriso se alargou ainda mais.- A Lady Smoak ama o ar livre. — É mesmo Lady Smoak?- se virou para mim, com interesse.- É Felicity, correto? — Sim alteza.- sorri, curiosa.- Como sabe meu nome? — Ouvi falar muito bem de você.- Oliver bufou.- É mais bela do que me contaram.

Seu sorriso doce aqueceu meu coração.

— Vai aprender em seu tempo em Londres, alteza.- cochichei- que nessa cidade há muitos fofoqueiros.

O príncipe riu, e me encarou divertido.

— Se todas as fofocas continuarem me trazendo até a senhorita, então acho que não haverá problemas.

Sorri, o observando interessada.

— Bom, vou deixar que continuem o passeio. Espero vê-la nos próximos bailes, Lady Smoak. Guarde uma dança para mim. — Seria uma honra.- pisquei. — E eu seria um sortudo.

Nos encaramos, até que Ray se despediu. Virei o rosto para acompanhar o caminho que seguia, sempre em boa postura, exalando elegância.

Eu gostei dele.

Realmente gostei.

— Será que teremos uma futura princesa?- Thea sorriu, animada. — Não seja tola. Ele apenas foi educado.- falei sem graça. — ‘Guarde uma dança para mim”. Por favor.- Thea me deu um empurrãozinho.- O que acha dele, Ollie?

Seu semblante estava sério. Arrumou a postura e ao me encarar, sorriu de canto.

— Ele…Ele parece aceitável. — Acha mesmo?- questionei. Tentando a todo custo achar alguma reação. — Acho.

Nada.

Ele apenas parecia preocupado mesmo.

Tomei isso como minha resposta para as perguntas de mais cedo. Se ele realmente sentisse algo, jamais me atiraria nos braços de outro.

Éramos apenas amigos.

Como deveria ser.

— Bom.- sorri.- Vamos para casa? — Vamos. Se eu ficar mais cinco minutos em sociedade vou xingar alguém.- ri com Thea.

O caminho de volta fora silencioso. Oliver uma vez ou outra me encarava, mas logo tratava de desviar o olhar. Tentei me concentrar em Ray, e em algo que poderia surgir.

Será que era ele?

Minha mãe enlouqueceria ao saber que o príncipe estava interessado em me cortejar.

***

As semanas se passaram corridas. Entre concertos e mais concentrou, chás da tarde e até mesmo exposições de arte. Uma monotonia completa. Havia sim conhecido vários cavalheiros, e até saí em uma volta no parque com alguns, mas ainda sim…

Ainda assim não sentia nada.

Nenhuma faísca.

Me encontrava com Oliver no nosso lugar de sempre. Conversávamos por horas no jardim, mas sempre que eu mencionava o debute, o via ficar distante. Não o via andar com frequência no parque, mesmo quando eu o convidava, e quando falava sobre Ray…

Ele demonstrava que o achava uma boa opção.

E logo sumia, simplesmente sumia.

Oliver lançava sorrisos, às vezes permanecia quieto e apenas concordava com a cabeça. Eu o entendia por querer fugir um pouco do assunto. Além de duque, ele assumiu o papel de pai no debate de Thea. Precisava proteger a irmã.

Precisava participar da temporada.

Mesmo que odiasse.

E falando de Thea…

Acho que minha amiga estava apaixonada. Não que ela assumisse, mas via seus sorrisos bobos ao ler as cartas do Conde Harper. Era bonito, era romântico.

Queria estar assim também.

Havia uma pessoa em si que andava me chamando atenção. O príncipe Palmer sempre aparecia nos meios sociais, e como era muito cobiçado, diversas mulheres o rodeavam, no entanto, sempre dava um jeito de trocar algumas palavras comigo. Fosse um elogio, um comentário engraçado.

Um olhar…Diferente.

Quando minha mãe soube quase enlouqueceu.

Sim eu estava feliz, porém…Não sentia aquela coisa. Talvez fosse, provavelmente, por estarmos nos conhecendo ainda. Não tivemos tempo para nos apaixonarmos. Era isso.

Precisava ser isso.

Suspirei, arrumando o vestido azul claro, de mangas baixas de rendas com cinza floral na saia. Um par de brincos rubi vermelhos davam destaque ao meu penteado, arrumado com cachos em um coque baixo. As luvas brancas, como sempre, me faziam companhia.

O baile de hoje ocorreria aqui em Londres, em um dos principais e mais famosos salões da realeza. Todos estariam lá. O rei, a rainha…

O príncipe.

Eu precisava estar perfeita.

Arrumei a postura, e confiante, saímos da carruagem. Meu pai, como sempre, estava ao meu lado, mais nervoso que eu.

— Pai…- cochichei.- Pode diminuir o aperto em meu braço?- pedi em um sorriso, enquanto caminhávamos de forma elegante. — Desculpe querida.- pediu, envergonhado. Nos olhamos.- Você…Você está tão linda. — Não é como se eu fosse casar hoje, não precisa ficar tão emotivo.- brinquei ao notar sua voz embargada. Meus olhos marejaram.- Acha…Acha o príncipe aceitável?- questionei, insegura.- Ele daria um bom casamento. Nossa influência aumentaria e… — Não me importo com nenhuma dessas coisas. Quero que entenda que não precisa casar por nossa família, mas sim por você.- enfatizou.- Se o amar, se tiver certeza, então sim, ele será aceitável.- meu peito se aqueceu.- É sua vida, filha.

Acho que nunca tive tanto orgulho dele.

Segurei a queimação na garganta. Estávamos em público, não haviam momentos para demonstrar lágrimas, e por isso, apenas falei:

— Saiba que eu te amo muito. — Também te amo, querida.

Cumprimentamos algumas pessoas, até que avistei Thea, dançando com o Conde Harper. Sorri de longe, e notei suas bochechas vermelhas.

Thea estava realmente apaixonada.

Quem diria.

— Eles formam um belo par, não?

Minhas costas arrepiaram com aquela voz quente tão próxima do meu pescoço. Oliver sorriu e parou ao meu lado, observando a irmã com certo divertimento.

— Não vai bancar o irmão protetor?- provoquei. — Ah, eu já fiz isso.- sorriu, satisfeito.- Observe.

O conde Harper ergueu o olhar, e ao encarar Oliver, engoliu em seco, se tornando mais distante de Thea que o necessário. Ri baixinho.

— E o duque Queen aterroriza os pretendentes da irmã.- nos encaramos.- Por que eu sinto que você está amando fazer isso? — Porque você me conhece, e sabe que eu realmente estou amando fazer isso.- abafei a risada, Oliver me acompanhou, e logo em seguida, sorriu de canto ao me observar.

Exatamente como no parque.

Acabei notando que eu estava de azul outra vez.

Caitlin e minha mãe queriam que eu usasse um rosa claro, branco, mas algo em mim simplesmente escolheu o azul. Não que houvesse relação com seu comentário. Era minha cor favorita.

E ele sabia.

Me perguntei quais mais detalhes Oliver sabia sobre mim.

— Quer dançar?

O encarei, surpresa.

— Você sabe o que aconteceu da outra vez. Os boatos, e ainda houve o episódio no parque…- suspirei, cansada.- Não quero o colocar em problemas. — Eu já disse que não ligo para nenhum desses imbecis,arrogantes e fofoqueiros.- comentou, levemente irritado. Eu o entendia. Assim como eu, Oliver estava sempre em constante pressão da sociedade.

Ele era um duque.

Eu a filha herdeira dos viscondes.

Era exaustivo.

Para ambos lados.

— Vamos, Lis.- me chamou pelo apelido.- Dance comigo.Claro que vou entender se não quiser. Pisar em pés alheios… — Não foram alheios, foram os seus.- indiquei, respondendo a provocação.- E já que insiste…- estiquei minha mão.- Uma dança. — Como quiser.

Seguimos até o meio do salão. Fiz a reverência, assim como Oliver, que segurou minha mão, enquanto a outra parou em minha cintura. Engoli em seco, sentindo minhas pernas tremerem.

Era inacreditável como com um toque, ele me desestabilizava por inteiro.

Oliver pareceu perceber, pois sorriu, convencido.

Idiota.

— Tire esse maldito sorrisinho do rosto.- ordenei. Oliver sorriu ainda mais. —É natural, sabe? ajuda muito quando estou em uma conquista.- revirei os olhos. — Pobres mulheres, não sabem onde se metem.- Oliver riu, e balançou a cabeça. — Sempre tão doce.- falou em tom sarcástico. — Obrigada pelo elogio, Vossa Graça.- pisquei.- Vai ficar aqui a noite toda? — Acredito que sim. Minha mãe está aqui também.- falou cansado. Apertei seu ombro, em tom solidário. — Ela ainda está pegando no seu pé? — Algo do tipo.- desviou o olhar, para um ponto qualquer.

Oliver estava escondendo algo, e fosse o que fosse, o incomodava, muito.

— Depois conversamos sobre isso.- ele sabia sobre o que me referi, pois assentiu. Seu olhar encontrou o meu. — Me conhece tão bem assim? — Claro que sim.- sorrimos juntos.- Até porque… — Com licença.

O sorriso de Oliver desapareceu. Olhei para trás, encontrando o príncipe, que sorria.

— Alteza. — Lady Smoak.- cumprimentou animado.- Acho que já pode começar a me chamar de Ray. — Claro alteza…Quer dizer, Ray.- me corrigi, Ray sorriu ainda mais. Seu olhar fora para o lado, e notei que ainda estava nos braços de Oliver.- Vossa Graça.

Oliver continha o rosto sério, muito sério.

— Alteza.- sua voz saiu áspera, apertei sua mão. — Se importa de eu pegar a Lady Smoak emprestada por um tempo? — De maneira alguma.

E sem me olhar. Oliver se retirou. Tentei falar com ele, preocupada, mas Ray tomou seu lugar.

Aquilo ficaria para depois.

Sorri, e começamos a dançar.

— O que está achando do baile?- perguntou. — Está maravilhoso. A rainha tem muito bom gosto.- o vi sorrir.- Então alteza…Ray. Preciso me acostumar com isso.- rimos em tom baixo. — Terá tempo para isso.

Quase parei, em choque. Então ele realmente…

Encontrei o olhar de Oliver, e por segundos me perdi ali. O vi cochichar algo a Moira, que em um semblante preocupado, o observou sair, em sentido ao corredor.

O que será…

— Lady Smoak?- a voz do príncipe me trouxe a realidade. Me recompus. — Perdão. — Lhe perguntei se gosta do campo. — É certamente um de meus lugares favoritos.- sorri, nostalgica.- O cheiro das flores, a água das nascentes…- fechei os olhos, voltando a aquele lugar.- E você, Ray? Como é a Áustria? — É bela, muito bela. No entanto, o interior londrino me cativou.- confessou, em um meio sorriso.- Há muita vida aqui. E claro que seria um ótimo lugar para passar um tempo com a minha esposa, caso assim ela deseje.- sorriu.- Teríamos obrigações. — Princesas não só cuidam de bailes e recepções?- tentei soar sem desdém. — Elas cuidam disso também, porém, podem dar suas opiniões sobre o governo.- o encarei, interessada.- Sou um apoiador da causa.

Sorri.

— Isso é raridade. — Acredite, eu sei.

Ele parecia saber mesmo.

Ray parecia perfeito. Seja na educação, na fala, no jeito romântico. Ele era...Bom.

De repente não consegui respirar.

— A áustria é linda, a senhorita iria amar.- tentei prestar atenção.- Amanhã… — Perdão, acho que preciso usar o toilet.- o interrompi. — Está se sentindo bem?- perguntou, preocupado. — Não muito.- fui sincera.- Mas vou ficar, não se preocupe. eu só preciso… — Claro.

E eu fui.

Caminhei pelo salão, tentando aparentar neutralidade, mas no momento em que vi toilete, e a enorme porta que levava ao jardim, não pensei duas vezes. Meus pés me levaram até a fria noite londrina, e continuei a caminhar, sem parar. Respirei profundamente, tentando me acalmar.

Não soube bem porque a fala de Ray me deixou tão preocupada. Toda mulher sonharia em saber que o príncipe estava interessado, e eu…

Eu simplesmente não soube lidar.

— Não deveria estar aqui sozinha.

Ah não.

Olhei para o lado, e encontrei o conde Malone, em um sorriso presunçoso. Dei um passo para trás.

— Está linda hoje, Lady Smoak.- minha espinha gelou.

O jardim, eu estava no maldito jardim…

— Eu não queria ter que fazer isso, mas parece o único jeito de tirá-la das mãos do príncipe. — Malone, para trás.- pedi, aflita. — Não torne as coisas difíceis, garanto que vai ser bom.- engoli em seco.- E quando eu entrar em você- meu estômago se revirou.- vai pedir para que eu não pare. — Eu jamais deixaria que um homem tão nojento e repugnante como você encostasse em mim.- esbravejei. o vi arquear as sobrancelhas. — Moças não deveriam falar assim. — Vá se fuder.

Tentei correr, porém Malone foi mais rápido. Seus braços fortes me agarraram, e me debati, desesperada.

Não podia, não podia, não podia…

Meus olhos lacrimejaram, e no momento em que fui imprensada contra um arbusto, aproveitei seu afastamento para chutá-lo no meio das pernas. Suas mãos rasgaram minha manga, e eu o soquei, diretamente no nariz. Escutei seu xingamento ao cair, e eu corri.

Corri muito.

Meu coração estava acelerado, as mãos tremiam. Eu precisava sair dali, precisava ir embora.

Eu havia o socado!

Isso não era nada bom.

E eu quase fui…Abafei um soluço, e o sentimento de repulsa. Senti minhas costas arderem, porém, não parei. Meu pai apareceu na porta que a pouco atravessei, e me encarou, aflito.

— Filha, o que… — Precisamos ir embora.- clamei, desesperada.

Seu olhar me percorreu, e vi seus ombros arquearem com a constatação.

— Quem?- perguntou, irritado. — Depois. — Quem filha? — Quem o que, Noah? O príncipe me disse que Felicity estava passando…- minha mãe se calou, com os olhos arregalados.

Me abracei, tentando parar a tremedeira.

— Donna, precisamos… — Entregue seu casaco a ela.- disse firme, seus olhos cintilavam, raivosos.- Vamos para casa.

Agradeci, respirando fundo. Meu pai me abraçou, e juntos, andamos pelo entorno do salão, evitando os grupos sociais, e quando finalmente chegamos em casa, corri para o quarto, e passei horas na banheira quente. Ninguém ousou me fazer nenhuma pergunta.

Eu mesma não saberia responder.

***

Foi uma noite horrível.

Às três da manhã acordei ofegante. Acabei vomitando em nervosismo, principalmente ao notar, pela claridade das velas, que meu ombro estava com um hematoma, hematoma causado por aquele monstro.

Desgraçado.

Que tivesse tido uma noite pior que a minha.

Caitlin e minha mãe apareceram, e nos três conversamos em tom baixo. Eu sabia que meu pai estava na porta, preocupado, e ao mesmo tempo, esperando um nome. Mas se eu dissesse…Malone se aproveitaria da queixa, e ainda por cima, provavelmente diria que eu o chamei até o jardim, e após beijá-lo e ser flagrada por meu pai, havia criado aquela história. Além de me deixar sem honra, teria um argumento para forçar um casamento.

E eu não casaria com ele.

Jamais.

Minha mãe direita também havia ficado dolorida devido ao impacto, e a vermelhidão sumiria em alguns dias. Por enquanto, as luvas, como sempre, serão minhas companheiras.

— Você o socou?- questionou minha mãe. Evitei seu olhar, aguardando julgamento. — Sim.- respondi. Caitlin sorriu. — Muito bom.

A olhei mais uma vez, vendo seu sorriso orgulhoso. Meu pai também finalmente apareceu, aparentemente satisfeito com minha fala. Me deixaram dormir novamente, onde apaguei. Não sonhei com Malone.

Nem com ninguém.

Simplesmente apaguei.

Acordei horas depois com o chamado de Caitlin, sentindo o peso de meu corpo.

— Precisa levantar. — Por quê?- reclamei, puxando os lençóis. Caitlin os tirou de mim. — O príncipe está aqui.- me ergui, preocupada. — Mas… — Só confie em nós, ok?- pediu, apressada.- Agora no momento, precisa colocar um vestido.

Não protestei, mesmo quando notei que algumas peças de roupas minhas haviam sumido, Coloquei um vestido vermelho, que destacava minha cintura pelo pano branco na parte da frente que descia até meus pés. Achei um exagero as mangas rendadas, e o chapéu, como se eu fosse sair.

Eu estava apresentável.

Hora de descer.

Caitlin fora atrás de mim, e pela primeira vez, prestei atenção em seus trajes, que também pareciam de viagem.

Havia alguma coisa estranha.

Muito estranha.

Segui de queixo erguido enquanto descíamos as escadas. Caitlin murmurou que o local que deveríamos ir era a sala livre, onde geralmente passavamos as tardes tocando piano ou fofocando no sofá. Não sabia se estava sem ar, pelo espartilho apertado ou pelo nervosismo. Havia alguma coisa.

Algo que eu não sabia.

Acontecendo na frente dos meus olhos.

Encontrei o príncipe que conversava com minha mãe, preocupado. Entreabri os lábios, perguntando se ela havia o contado alguma coisa.

Por favor não, por favor não…

Ray, assim que me viu, se pôs de pé.

— Alteza.- o cumprimentei, aflita.- O que… — Você está bem? Sua voz parece um pouco arrastada, definitivamente.- comentou, me observando com atenção.- A viscondessa me contou sobre ontem a noite.

Meus ombros ficaram rígidos.

Ela não…

— Disse que a senhorita está um pouco indisposta, e que pode ser a pressão da temporada. Concordo com ela de que, talvez, já que ama tanto o campo, passar alguns dias lá irá ajudá-la a melhorar.

Meu rosto refletia a mais pura confusão.

— Quero que saiba que, enquanto estiver fora, para não se preocupar.- sorriu sem jeito.- Posso mandar algumas cartas no tempo que não estiver aqui. Esqueça tudo e apenas aproveite a natureza, tenho certeza que ficará melhor.- assenti, sem dizer uma única palavra. — Infelizmente eu e o Visconde não a acompanharemos, estamos com muito trabalho aqui. Mas Caitlin certamente se encarregará de fazê-la se sentir melhor. Não é, querida?- seu tom fora doce, e Caitlin, escondendo um sorriso vitorioso, que eu conhecia bem, assentiu. — Com certeza senhora. — Fico contente.- falou Ray. Seus olhos caíram em mim outra vez.- Faça uma boa viagem, Felicity. — O-Obrigada alteza.

Ray pegou minha mão, coberta pela luva, e a beijou. Fiz a reverência, ainda em choque, e no momento em que estávamos realmente sozinhas, levei as mãos à cintura.

— O que vocês fizeram?- minha voz soou mais ríspida do que eu pretendia.- Que história é essa de viagem? — Você vai gostar.- minha mãe sorriu.- sempre amou a residência dos Queens.

A encarei, perplexa.

— Conversamos com Moira, e não, ela não contou a Oliver.- respirei fundo, aliviada.- Thea, querida? Pode aparecer.

Vi minha amiga surgir de um sofá, onde, aparentemente, estava encolhida, ouvindo a conversa. Seu rosto estava sério em linhas rígidas, porém, um pequeno sorriso custoso brotou em seus lábios.

— Ainda bem que ele é um imbécil.- comentou, com graça.- Só um tolo não percebe que uma dama, no meio da temporada, passar uns dias no campo não tem nada a ver com um mal- estar.- seu sorriso hesitou, perdendo a força.- Ainda bem que podemos contar com a falta de esperteza do príncipe, não é?

Tentei sorrir, mas minha voz soou fria, fraca.

— É.

O rosto de Thea ficou preocupado.

Se aproximou de mim, pegando minhas mãos.

— Vai ser bom para nós ficarmos esses dias lá.- tentou me animar.- Longe de tudo isso. Longe daquele imbecil.

Meu coração disparou, nervoso.

— É claro que sei quem é.- falou firme, em ódio explícito.- Cait também.- a olhei, e assentiu, discretamente. — Não conte nada a Oliver, por favor.- clamei, desesperada.- Se ele souber vai fazer besteira. Posso lidar com isso. — Claro que pode, mas isso não quer dizer que, ás vezes, não precisa de ajuda.- continuou.- Não vou falar nada para o meu irmão, mas ele não é idiota que nem o príncipe. Vai desconfiar.

Suspirei.

Eu lidaria com Oliver depois.

— Onde ele está? — A caminho da propriedade. Minha mãe pediu que partisse cedo, para arrumar as coisas.- explicou.- Vamos partir em uma hora.

Assenti.

Encarei aquelas três mulheres no salão, com um misto de agradecimento e amor. Tudo o que estavam fazendo por mim…

A compreensão.

O apoio diante de uma quase assombrosa experiência…

Minha mãe me abraçou e sussurrou.

— Vamos lidar com ele.Juntas.- sorri.- Ninguém mexe com uma Smoak e sai impune. — Com cautela, podemos atrapalhar os negócios dele em Londres.- minha mãe sorriu, e acariciou meu rosto. — Muito esperta.- falou orgulhosa.- Aproveite esses dias na propriedade dos Queens. Relaxe, pense..- enfatizou a última parte.- Ás vezes quem amamos está diante de nossos olhos, mas por procurarmos demais, acabamos enxergando algo longe, não o que está perto.- sua frase me deixou confusa, muito confusa.

O que está perto…

— Faça uma boa viagem.

***

Não demoramos a embarcar.

Em menos de uma hora, eu, Thea e Caitlin estávamos dentro de uma carruagem rumo ao campo. Ao que parecia, a duquesa Moira fora junto com o filho, a fim de deixar tudo pronto. Avistei, durante o percurso inteiro, nos distanciarmos de Londres, e no momento em que a cidade cinzenta deu lugar a estradas de terra e campos verdes, respirei, aliviada. Alivia por estar longe de toda aquela loucura. Aliviada por dar aquela pausa em busca de um pretendente.

Aliviada por estar longe de Malone.

Muito longe.

Me alegrava em saber que, por mais terrível que minha situação tenha sido, consegui acertar uma parte baixa sua, muito baixa, o que o deixaria com problemas para brincar.

Se eu pudesse o cortaria fora.

Não conversamos muito durante o caminho, já que mantive meus olhos nas colinas adiante, nos raios solares que iluminam os galhos das árvores, e por mais que nossa carruagem se remexesse, eu não poderia estar mais relaxada

Amava a natureza.

Amava o calor dos bosques londrinos. Era um alívio inexplicável.

Alívio.

Pensei em Oliver, e como responderia suas perguntas.

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Ele não era idiota, como a própria Thea apontou. Sabia que algo estava errado, mas o que era uma grande questão. Não queria contar a ele, principalmente porque eu queria esquecer aquela história. Queria apenas estar com ele, abraça-lo na grama quente e fechar os olhos, como sempre fazíamos. Ele estava estranho no baile.

Queria saber o porquê.

Mas como poderia exigir uma resposta, se eu mesma omitiria o que ele me perguntasse?

Fechei os olhos, aproveitando o silêncio. Depois de duas horas, chegamos ao Casarão Queen, e eu sorri, animada.

Amava esse lugar.

Como toda casa aristocrática, era enorme, e continha um charme exuberante. Fosse por seus muros cobertos de flores, ou o chafariz em frente a porta… As flores, eu amava as flores. Os Queens tinham um jardim na propriedade encantadora, à qual eu sempre que vinha aqui, visitava. A carruagem parou, e um homem abriu a porta, para que desembarcassemos. Procurei Oliver, no entanto, somente Moira nos esperava. Fiz a reverência a duquesa, sempre linda e elegante, que ignorando completamente as etiquetas, me abraçou. Suspirei nos braços de Moira.

— Sabe que não precisa fazer isso.- murmurou em meu ouvido. Nos afastamos, e suas mãos seguraram meu rosto, com carinho. — Obrigada.- agradeci, com os olhos marejados. — Nós mulheres devemos nos proteger. E além disso…- notei que sua voz falhou.- É da família Felicity.

A abracei mais uma vez.

Quando nos soltamos, olhei novamente aos arredores, e como se soubesse minha pergunta, respondeu.

— Ele está com Tommy no escritório, resolvendo problemas no condado.- explicou.- Ele não sabe, mas me fez perguntas. — Imaginei.- mordi os lábios, nervosa. Moira apertou minha mão. — Vai saber como lidar. Aprendi com o passar dos anos que vocês dois se conhecem melhor do que ninguém.- seu tom doce, misturados a um olhar enigmático me fizeram corar. A duquesa então se virou, abraçando a filha, em seguida Caitlin.- Senhorita Snow. — Vossa graça.- falou, nervosa. — Não quero que me chame assim aqui. Apenas Moira.- sorriu.- Creio que aproveitará muito os dias seguintes. — Como?- perguntou, confusa. Sorri. — Se eu estou tendo uns dias de folga, você também terá.- falei.- Está aqui como convidada. — Mas… — Sou a duquesa, não me obrigue a fazê-la se divertir.- falou Moira, com graça.- Venham. Tem chá e biscoitos nos aguardando.

Olhei para aquelas janelas brancas, que se destacam em meio ao vermelho, sabendo exatamente onde ele estava. A cortina do local se moveu, e cheguei a acreditar que alguém me olhava dali também.

Mas ninguém apareceu.

Talvez fosse o vento.

Segui as meninas até o interior da casa. Passamos pela recepção, onde geralmente a família aguardava em grandes eventos, guiando os hóspedes para o salão enorme ao lado.Observei a sala com o pequeno piano, me recordando de quando Oliver tocava ali. Era lindo.

Como se fosse possível ele ficar ainda mais belo.

Dois homens surgiram do alto da escada enquanto eu encarava o instrumento. O primeiro, com cabelos escuros desarrumados, trajando um colete preto liso, se destacando na blusa branca de gola alta, sorriu para mim, em um ar de confusão e saudade. Eu conhecia aquela peça.

Tommy Merlyn.

Também filho do conde Merlyn que, ao herdar as coisas do pai e aprontar todas na faculdade de Oxford com Oliver, decidiu se mudar para o campo. Eram raros os momentos em que Tommy aparecia em eventos da sociedade. Segundo o mesmo, ter que aturar todos os dias ingleses chatos dando pitacos em sua vida era um pesadelo. Ele também odiava as regras, não via sentido, e por não ser um homem de muita paciência quando alguém questionava seu modo de viver, se mudou definitivamente. Era um bom homem, extremamente bondoso.

— Olha só pra você, toda arrumada nesse vestido vermelho.- me abraçou. — Olá Tommy.- murmurei em seu peito. — Achei que não quisesse mais me ver. — Você parece um rato fugindo. Daqui a pouco vão colocar uma placa de procura-se.- brinquei, Tommy gargalhou. — Continua com seu senso de humor.- seu olhar correu atrás de mim, e o vi hesitar.

Realmente hesitar.

Me virei levemente, observando a figura que o deixará sem palavras.

— Lorde Merlyn.- o rosto de Tommy se contraiu com a saudação, e eu sabia o porquê. — Lorde Merlyn era o meu pai. Me chame apenas de Tommy.- pediu, em um meio sorriso. Malcolm Merlyn não era o pai do mundo, e ele e Tommy viviam em constante conflito. Ser comparado a ele era quase um insulto.- E você é a senhorita… — Snow. Caitlin Snow.- se apressou em dizer.- Sou a dama de companhia da Felicity. — Na realidade estes dias ela é nossa hóspede.- interviu Thea, em um sorriso suspeito para Tommy e Caitlin.- Mamãe disse isso. — Mas… — Não ouse questionar as ordens da duquesa.- abafei um riso. — Eu não faria isso. Conselho de amigo.- Tommy piscou, a fazendo corar. — Vamos, vou lhe dar alguns vestidos.- Thea a puxou.- Oi pra você também, Ollie.

Olhei até a escada, e ele estava ali, nos observando, parado com a mão no corrimão. Nossos olhares se cruzaram, e por minutos permanecemos assim, em silêncio. Oliver desceu devagar, tentando entender a situação. Sorri, usando todo o teatro que eu fazia durante as festas naquele momento, para que ele pensasse que estava tudo bem.

— Oi fujão.- brinquei, forçando um sorriso.- Não o vi mais no baile.

Que bom, pois se ele tivesse ficado mais, Malone agora estaria gritando aos quatro cantos que o duque o atacou covardemente.

Ele era o covarde.

— Tive…Coisas para resolver.- foi vago. Ainda me encarava, atento, até que vi seus ombros relaxarem, e soltar aquele maravilhoso sorriso que eu tanto amava,- A conversa com o príncipe foi tão ruim assim para que viesse parar aqui?- provocou. Revirei os olhos.- Vossa alteza é tão displicente quando se trata de cativar as damas? — Ele é uma pessoa maravilhosa se quer tanto saber.- o mostrei a língua.- Melhor do que dançar com você.- cutuquei. — Você ama dançar comigo.- falou seguro, cruzando os braços, me desafiando a contradizê-lo.

Arrogante, maldito libertino arrogante!

— Você está me xingando mentalmente, não está?- seu sorriso se ampliou enquanto me observava.- Posso ver o ódio em seus olhos. Por que não diz em voz alta? — Não vou dizer em respeito a sua mãe.- esbravejei. Oliver riu. — Prevejo que deve começar com “Arrogante, libertino, irresistível…- revirei os olhos- E filho da… — Oliver Jonas Queen!

Tommy riu pela repreensão que o amigo recebeu da mãe. A duquesa se aproximou de ambos, e os puxou pelo o braço.

— Nenhuma palavra Merlyn. Vamos lanchar. — Mas senhora Queen… — Nenhuma palavra!

Abafei o riso ao ver os dois tão cobiçados da Inglaterra serem calados pela duquesa. Thea desceu acompanhada de Caitlin, que trajava um lindo vestido florido de tecidos leves, aliviador para o calor do campo.

— Oliver perguntou algo?- embora estivesse tímida pelas roupas, foi direta, o que me fez sorrir. — Não. Ficou ocupado me perguntando se o príncipe era tão sem charme para me fazer vir para cá.- Thea riu, balançando a cabeça. — Depois de hoje tenho que concordar com meu irmão.- brincou.- Ele ficaria muito feliz com isso.

A encarei, curiosa.

— Não é segredo para ninguém o afeiçoamento que o duque tem pela Lis.- Caitlin comentou, sorrindo sugestivamente.

Desviei o olhar, sem graça.

— Vamos comer?

As acompanhei até a sala de jantares, sempre em cômodos abertos, arejados, com grandes janelas que davam para os extensos e cuidadosos jardins. Oliver que nos observava, assim como Tommy que não tirou os olhos de Caitlin, sussurrou, assim que sentei ao seu lado.

— Vou levá-la para dar uma volta a cavalo depois. — Perto do lago?- perguntei em voz baixa, enquanto me servia de uma torrada. — Sim. Perto do nosso lago.

O olhei para Oliver, onde em um olhar cúmplice, sorrimos um para o outro. Thea nos encarava fixamente, e piscou, me deixando completamente vermelha.

Uma volta ao lago.

Seria ótimo para relaxar.

***

Acabei dormindo mais que o previsto.

Após o chá da tarde, me recolhi. No entanto, meu cansaço da noite mal dormida fora tão pesado que acordei somente no dia seguinte, beirando, pelo sol forte nas janelas, ao meio dia. Caminhei de forma lenta até a janela arejada, respirando profundamente o ar limpo do campo. Estava quente.

Não nublado como naquela cidade cinzenta.

Havia sol, e até mesmo as árvores pareciam alegres, calmas.

Serenas.

Fiquei pouco tempo na banheira, até que finalmente despertei. Decidi usar um vestido de tecido mais leve. Sem tantos bordados ou saias bufantes. Meu ombro ainda estava com um hematoma, e tristemente, tive que colocar um casaquinho que escondia parte de minha pele, sem deixar de pegar as luvas( curtas desta vez), que também escondiam meu punho roxo. Mesmo que eu tivesse que usar tudo isso( contra vontade) me dei ao luxo de, pelo menos por hoje, ficar livre daquele espartilho desgramado.

Desci a escada revestida de madeira com cuidado, sem chamar atenção. A casa parecia vazia, tendo apenas o canto dos passarinhos ao longe. Meus olhos se detiveram no piano, e me sentei ali, encarando as teclas. Tocar instrumentos nunca fora um de meus dons, para ser sincera, me dava muito melhor em esgrima ou resolvendo problemas matemáticos a arte em questão. As pessoas pareciam fazer isso tão facilmente…

Toquei a primeira tecla, pulando de susto com o barulho. Olhei aos arredores.

Sozinha.

Eu estava sozinha.

Tentei mais uma vez seguir uma partitura colocada ali. Ao que parecia, alguém havia tocado. Fui seguindo a risca, e meu rosto, franzido, eram sinal de o quão ruim aquela melodia estava soando. Encarei minhas mãos, cobertas pelo tecido branco e reprimi um suspiro choroso. Eu estava com raiva dele, muita raiva. Pelo o que pretendia fazer.

Pelo o que iria fazer.

Por achar que havia algum direito sobre mim.

Por achar que podia fazer.

Desgraçado, filho da puta!

Já me avisaram que isso era comum de acontecer. Mas só de lembrar de suas expressões, maliciosas, e seu toque…Meu estômago revirou, e antes que eu notasse, uma pequena e solitária lágrima escorria por meu rosto.

Eu estava cansada.

Cansada de, por eu ser a vítima, tive que fugir como um criminoso. Cansada de ter que ser forte. Mas eu não podia desmoronar, simplesmente não podia. Minha vida estava em jogo, se eu desse um passo em falso, Malone se aproveitaria e estragaria tudo.

— Você está triste.

Encontrei seu olhar, preocupado. Não havia como esconder que eu estava mal, principalmente dele. Meu amigo. O homem que eu confiava a minha vida.

E despertava tantas outras coisas…

Ignorei a voz que dedurava meus desejos primitivos e suspirei, batendo com a mão no espaço ao meu lado.

— Toque para mim.- pedi.

Oliver se sentou ao meu lado, ainda me observando, quando estalou os dedos. As primeiras notas da melodia começaram, lentas e melancólicas. Eu conhecia aquela dádiva francesa, e por conhecê-la o encarei sem receio, tentando entender por qual motivo ele havia escolhido tocar justamente aquela música.

“Vou deixar bilhetes para você

Abaixo da sua porta

Abaixo da lua cantante

Bem perto do lugar onde seus pés passam

Escondidos nos furos dos tempos de inverno

E quando você estiver sozinha por um momento

Beije-me quando você quiser”

Repassei a letra em minha memória, enquanto o ouvia tocar somente a parte acústica. Oliver sempre fora um pianista nato, no entanto, eram raras as vezes em que o via tocar na capital. Seus olhos estavam fechados, e eu me permiti, por alguns minutos, apreciar aquela utopia com ele. Era triste, romântica e nostálgica.

“ Beije-me quando você quiser”

Observei seu rosto, em especial os lábios, enquanto finalizava as últimas notas. Houveram muitos momentos em que eu quis beijá-lo.

Era uma pena ele não sentir o mesmo.- pensei, com amargura.

Nossos olhares se cruzaram, intensos. A música parou.

— Por que escolheu essa?- seus lábios se abriram, incertos, fazendo meu coração disparar. — Gosto dessa.- foi tudo o que respondeu.

Oliver, pegando em minha mão, notou o uso das luvas. Seu cenho se franziu, geralmente quando eu estava aqui não as usava, porém não ousou perguntar. Vi a pergunta estampada em seu rosto, mas ele apenas olhou para mim.

— Onde estão os outros?- perguntei primeiro, não o dando espaço para questionamentos. Oliver suspirou, um pouco irritado. — Como a senhorita decidiu hibernar hoje- sorri- Caitlin, Thea e Tommy decidiram fazer um piquenique lá fora. Ainda dá tempo de acompanhá-los.

Olhei para o jardim, ansiosa.

— Vamos.

Oliver não pestanejou, ao contrário, apenas me deixou que o guiasse.

— Já disse o quão mandona você é?- o ouvi perguntar. Mesmo que eu não o olhasse sabia que estava sorrindo. — Já disse o quão chato você é?- provoquei.

Ouvi seu riso e sorri enquanto caminhávamos. Eu sabia onde eles geralmente faziam os piqueniques, então não estranhei andarmos alguns pastos até finalmente chegarmos até o famoso campo em que jogavam futebol. Oliver em um momento ficou ao meu lado, e de mãos dadas, prosseguimos em silêncio. Logo foi ouvido o riso de Thea e as reclamações de Tommy.

— Isso não vale! Speedy!- a chamou pelo apelido. Thea não ligou, continuou a correr com a bola em seus pés, enquanto levantava o vestido, prestes a fazer um gol. — Cait o distraia!- gritou. Vi minha amiga ficar na frente de Tommy, o impedindo de prosseguir. — Não posso deixar que passe, Lorde Merlyn.- seus olhos brilhavam, divertidos. — Já disse para me chamar de Tommy, senhorita Snow.- sorriu, cruzando os braços.- Sabe que um homem do meu tamanho pode derrubá-la em questão de segundos, não é? — Sei sim senhor. Mas ao invés disso você está parado aqui, enquanto Thea está prestes a fazer um gol.- indicou com o olhar. Sorrindo.- Estou tendo sucesso em minha missão de distrai-lo?- provocou. — Absolutamente.

Caitlin sorriu, um pouco vermelha.

Ela estava sorrindo.

Tommy estava sorrindo!

— É o que eu estou pensando?- cochichei com Oliver, que assistia a cena. Inclinou o rosto, repousando seus lábios sob minha orelha.

Estremeci.

— Se está se referindo ao possível interesse de Tommy em Caitlin, sim eu vi.- sorriu ao olhá-los.- Formam um casal bonito. — Formam mesmo.- os observei conversar. Thea a essa altura comemorava a vitória.- É uma pena que Caitlin não se veja dessa maneira.- suspirei. Por conta de sua posição social, Caitlin muitas vezes se sentia inferior aos demais, e tendo um Conde a cortejando deveria estar a deixando maluca. — Tommy não liga para posições sociais.- falou Oliver, sério. — Eu sei, mas ela liga. — Por quê? — Porque quando se é mulher, principalmente em nosso tempo, tudo é mais complicado.- suspirei pesadamente.- Temos que tomar cuidado para não sermos “corrompidas”- revirei os olhos.- pois se não não valemos nada. E ainda há homens que acham que tem algum direito sob nós.- minha voz saiu raivosa, e apertei as mãos, sabendo que ali, havia o hematoma de um desses monstros que habitam nosso mundo.- Os boatos são maldosos, e por mais que falemos que não ligamos, eles acabam nos incomodando sim.- senti o olhar de Oliver fixo em mim.- Acha que Caitlin não pensa no que iriam chamá-la caso aparecesse com Tommy?- o encarei.- Você sabe do que iriam chamá-la.

Seu rosto contraído e a falta de palavras me deram a resposta.

— Infelizmente, por conta dessa sociedade horrível, não podemos fazer o que queremos. Por mais que desesperadamente desejemos isso.

Olhei para o campo a frente, os vendo rir. Uma brisa fresca bateu em meu rosto e fechei os olhos, tentando relaxar. Senti alguém se mover, e quando ergui minhas pálpebras, Oliver estava na minha frente, me encarando sério.

Muito sério.

— Já deixou de fazer algo que não queria?- suspirei. — Você sabe que sim.- respondi baixinho. Quando Oliver entrou na faculdade de Oxford eu fiquei muito contente por ele, mas uma parte de mim me lembrou que eu jamais poderia partilhar de uma sensação semelhante como aquela.- E ainda tenho que dar a sorte de me casar com algum homem que tenha o mínimo de decência e que não partilhe dessas ideias ridículas sobre as mulheres. Caso ao contrário, meu casamento vai ser um constante “ não estou nem aí se meu nome tem o seu sobrenome, eu vou fazer isso sim.”- revirei os olhos.

Oliver me lançou um sorriso tímido.

— Jamais deixaria você somente cuidando de festas, ou escondia.É inteligente demais para ficar atrás das cortinas.

Meus lábios arquearam em um sorriso involuntário.Eu não sabia o que dizer, ou o que fazer, então apenas senti meu coração se aquecer com sua fala, além de acelerar.

Oliver se aproximou ainda mais.

Engoli em seco.

— Além de inteligente é muito bela.- sussurrou.- E convenhamos que ninguém seguraria você. É forte, e colocaria qualquer homem em seu devido lugar caso a desrespeitasse. Poderia até o dar um soco.

Ri, nervosa. Oliver me acompanhou, divertido, e depois seguiu até o grupo. Massageei minha mão machucada, balançando a cabeça.

Eu realmente havia o dado um soco.

Mas Oliver jamais saberia disso.

— Acordou, finalmente.- Thea sorriu, indo ao meu encontro. entrelaçou nossos braços. — Não está com calor, Lis?- indagou Tommy ao me ver com o casaco. Oliver também me olhou, aguardando a resposta.

Tentei parecer o mais calma possível.

— Na realidade não. O pano é bem fino.- dei de ombros, como se não fosse nada.- Por conta da capital estou acostumada a usar essas coisas. Não que você se lembre dos trajes sociais.- o provoquei, Tommy sorriu.- Sua presença em Londres é mais esperada do que qualquer evento social. — Prefiro usar botas pesadas para andar na lama do que passar uma noite tendo que aturar as pessoas da capital.- ri de seu comentário.- Gosta do campo, Cait? — Gosto. É certamente mais fácil do que viver com os abelhudos de londres.- Tommy gargalhou, a encarando, encantado. — Temos algo em comum então.

Olhei para Thea que piscou, me puxando para nos afastarmos. Quando estavamos longe o suficiente, seu olhar se tornou preocupado.

— Não, ele não descobriu.- a vi soltar o ar, aliviada.- Mas está desconfiado. As luvas lhe chamaram a atenção.- balancei os dedos.- e agora o comentário de Tommy sobre o casaco… — Você contornou bem a situação. Pareceu uma duquesa.- seus olhos brilharam, divertidos.- Seria uma bela duquesa. — Thea… — Só estou dizendo.- piscou.- agora vamos terminar nosso piquenique. Assim que voltarmos, tenho que mandar uma carta ao Conde Harper.

***

Terminamos o piquenique quase ao entardecer. O céu se tornou laranja, com pequenas fendas de violeta mesclado com vermelho, destacando o casarão Queen em meio a aquele meio verde, cercado por árvores. Oliver estava resolvendo algo no escritório, assim como Thea, que em seu quarto, escrevia uma carta para o Conde Harper. Caitlin havia ido descansar um pouco, e eu, sozinha, decidi ir para a biblioteca da casa. Tommy era o único que se encontrava na sala de estar comigo, conversando bobagens.

— A temporada está em alta então?- continuou, interessado.- Já achou alguém que preste?

Ri de seu comentário.

— Tem um príncipe da Áustria. O nome dele é Ray Palmer.- comentei. Eu deveria estar empolgada e gritando aos ventos que estava sendo cortejada pelo príncipe, mas eu não sentia nada.

Absolutamente nada.

— Ele parece legal. É charmoso, educado.- seus olhos azuis liam por trás de cada palavra que eu dizia, pensativo.- É um homem de honra. — Mas que aparentemente não tocou seu coração, não é?

Minhas costas arquearam, surpresa com sua fala.

— Por que diz isso? — “Ele parece legal”. Por céus, quem diz isso de alguém que está apaixonado?- indagou.- Thea está nesse momento escrevendo para o conde, e eu fortemente acredito desde que você chegou que não pensou em escrever em nenhum minuto para vossa alteza.

Tentei argumentar, mas não houveram palavras. Eu não sentia nada por Ray.

Nada.

Me encostei no sofá, deprimida.

— Posso aprender a amá-lo.- murmurei.- Ele é um bom homem. — Mas não o suficiente para fazer você amá-lo.- sua frase me deixou pensativa.- Oliver também é um bom homem.- comentou em tom baixo. Seus olhos encontraram os meus, como se guardasse um segredo.- Lento? Sim. Mas é um excelente homem.

suspirei.

— Oliver não me vê dessa forma, Tommy.- disse incomodada. — Você o vê?

Não respondi.

Por céus! É claro que eu o amava. Como amigo, como confidente…

Talvez mais…

Sim, é verdade que eu ficava incomodada quando o via com alguém, e sim, ele fazia minhas pernas tremerem, o coração acelerar. Com um sorriso bobo, um comentário gentil ou depravado. Ele me fazia sorrir.

E querer estar perto dele.

O tempo todo.

Entendi o que Tommy queria dizer.

Ele parecia acompanhar meu raciocínio, pois sorriu e piscou.

— Se quer saber, ele anda bem mais irritado ultimamente.- comentou como se não houvesse importância.- Desde que a temporada começou.- enfatizou.- Curioso, não? — O que é curioso?

A voz de Oliver, animada, ecoou atrás de nós. Encarei Tommy, em um pedido silencioso, encerrando nossa conversa. Um sorriso cúmplice brotou em seus lábios.

— O príncipe. Felicity me contou sobre ele, parece adorável.- o rosto de Oliver se tornou carrancudo ao se sentar no sofá ao meu lado.- É educado, sabe dançar, conversar… — Se ele é tão bom assim, por que não casa com ele, Tommy?- Oliver o cortou, impaciente. O moreno sorriu. — Fico lisonjeado que vossa alteza se interesse em mim. Claro que sou muito bonito,e poderia o dar uma noite de núpcias fantástica.- cobri a boca com a mão, abafando a risada.- No entanto, meus gostos estão apenas em mulheres. O príncipe Palmer vai ter que se contentar com a perda. Talvez possa consolá-lo, Lis.

Oliver pegou uma das almofadas e o acertou, em cheio.

— Cale essa maldita boca. — É uma ótima ideia! Ele estaria triste, e a Lis, com suas táticas.- piscou para mim.- o seduziria em questão de segundos. — Me parece um bom plano.- continuei a brincadeira. Oliver bufou.- Eu o ajudaria a superar Tommy. — Mas me convidaria para o casamento como padrinho. — Com toda certeza.

Oliver bufou, e Tommy, satisfeito com a brincadeira, se levantou.

— Quando o jantar for servido podem me avisar? Vou me recolher, estou cansado.- fez uma reverência. — Por que não vai para sua própria casa?- perguntou Oliver, impaciente. — Sua mãe me convidou para passar os dias aqui. Jamais poderia negar tamanho pedido.- sorriu cinicamente.- Até logo.

Abafei o riso, vendo Tommy desaparecer. Olhei para o lado, encontrando um Oliver carrancudo e de braços cruzados. Instintivamente me aproximei, aproveitando que estávamos sozinhos para pegar em sua mão.

— Você fica uma graça quando está bravo.- murmurei. Suas expressões, surpreendentemente, pioraram mais.- Vai acabar com rugas. — Não ligo para rugas.- respondeu de forma seca. Ele ainda parecia zangado. — Não vai deixar as brincadeirinhas de Tommy nos fazer perder a noite, não é?- ergui minha mão até seu rosto, o virando delicadamente até mim. Senti Oliver relaxar, e enterrar ainda mais sua face em minha mão. Gostei daquilo, e algo parecido com confiança e poder se apossaram de mim.- Temos tanta coisa para fazer nesses dias aqui.- continuei.- Visitar nosso lago.- enfatizei, Oliver sorriu. — Lembro da primeira vez que fomos lá.

Recolhi minha mão, mas Oliver a segurou a tempo de me encarar com aqueles malditos olhos.

Era claro que eu lembrava.

Como havia dito, já estava acostumada em visitar a casa de campo dos Queens. Sempre que podiamos vínhamos aqui, e eu realmente me esbaldava. Em um dia ensolarado de minha adolescência, Oliver decidiu levar eu e Thea para passear, e assim fomos. Andamos pelos pastos baixos, até chegar em uma verdadeira clareira no meio da floresta. Era linda, era calma, e ainda continha um pequeno rio que seguia pelas árvores, tornando assim o ambiente em um verdadeiro paraíso. Thea havia dormido na grama após o piquenique, e eu, notando a ausência de Oliver, fui o procurar. Jamais poderia imaginar o que eu veria.

E que visão.

Não que eu soubesse que estaria lá, e não era minha culpa por tê-lo visto nu. Oliver decidiu se banhar no rio, e esse rio era um lugar público. Qualquer um poderia ter passado ali.

E eu passei.

E fiquei o encarando, por minutos.

Até ser flagrada.

— Você está lembrando, não está?- um sorriso malicioso brotou em seus lábios. — Não, não estou não.- fechei os olhos com força. Oliver riu, e me puxou para mais perto. — Ah, está sim.- sua voz grave me arrepiou.- Está lembrando com perfeição. Meu peito, minhas costas, meu…

O empurrei, me erguendo do sofá. O ouvi gargalhar, apertando a barriga enquanto se contorcia. Cruzei os braços, aborrecida.

— Foi um acidente!- tentei, em vão, me defender. — Você podia ter ido embora assim que me viu, mas ficou lá, me olhando.- arqueou as sobrancelhas. Entreabri os lábios, sem saber o que dizer. — Eu…Eu só estava passando e…Ah, a culpa disso tudo é sua!- esbravejei.- Tomando banho em plena luz do dia, em um lugar que qualquer um poderia aparecer! — Mas você ficou.— voltou a enfatizar, sorrindo.- Por quê?

eu não ia responder aquilo. afinal, por que eu havia ficado? Fiquei porque o achava lindo? Porque sempre fui atraída por ele? Pela paixão…Meu coração se acelerou com o pensamento.

Paixão.

Eu ainda era apaixonada por ele?

Amar eu o amava, tinha consciência disso. Mas há tantas formas de amar…

Você sabe a resposta- uma voz sussurrou.

No meio de minha reflexão, não havia notado que Oliver estava de pé em minha frente, me encarando, pensativo.

Engoli em seco.

E com esforço, tentei responder a pergunta.

— Fiquei porque…Não importa.- Oliver sorriu. — Bom, se fosse por curiosidade você não precisaria se esconder atrás de uma árvore para me ver.- inclinou o rosto, deixando seus lábios quase encostados em minha bochecha. Apertei as mãos. — Oliver…— tentei o repreender. No entanto, minha voz saiu como um pedido. — Poderia pedir, e eu simplesmente iria te mostrar o que quisesse.- sussurrou. Seus lábios quentes acariciaram minha pele, me fazendo estremecer.- É só pedir.

Tentei me afastar, ou falar alguma coisa, fazer alguma coisa. Mas eu não conseguia, não podia.

Não queria…

Encontrei os olhos de Oliver, cheios de desejo, quase encostando nossos narizes. Encarei seus lábios, tão perto dos meus, e suspirei. Devia ser ótimo beija-los. Tê-los percorrendo minha pele… O olhar de Oliver se fixou em um ponto em mim, e notei, pelo franzir de suas sobrancelhas e pelo maxilar trincado que não era algo bom.

— O que aconteceu com o seu ombro?

Toda a magia, desejo e eletricidade foram por água abaixo.

Olhei para meu ombro, notando que o pequeno casaco que eu usava havia, provavelmente no momento em que me levantei, escorregado brevemente, deixando assim a mostra o hematoma. Tentei o cobrir, mas Oliver me impediu. Ele estava sério.

Muito sério.

— O que aconteceu com o seu ombro, Felicity? — Eu…Eu cai.- menti.- Estava testando uns sapatos para a temporada quando acidentalmente escorreguei na escada. — Quer dizer então que você se machucou caindo?- falou não convencido.- Simplesmente caiu? — Algo simples para uma situação simples.- dei de ombros. — Por que sinto que você está me escondendo algo?- me encarou, com os lábios entreabertos. — Eu não estou te escondendo nada. — Está sim.- meu peito doeu pela mentira. Mas eu não podia contar.

Não podia!

E por isso, fingi estar irritada.

— Eu já lhe expliquei o que aconteceu. Se quiser acreditar ou contratar um detetive particular para me seguir é problema seu.- me afastei, tentando a todo custo não chorar.- Eu não sou uma mentirosa. E você deveria acreditar em mim.

Aquilo o machucou. Ele estava se sentindo culpado.

Não deveria se sentir culpado.

O único culpado nisso tudo era aquele monstro.

Sua mão encontrou a minha, me virando, desesperado. Vi a angústia em seu olhar, me sentindo a criatura mais horrível do mundo.

— Eu não queria ofendê-la, Lis. É que…- suspirou, ansioso.- Você está estranha. Eu sinto isso.- meu coração se acelerou.- E eu estou preocupado, porque você é alguém que eu a…- prendi a respiração. Oliver também pareceu em choque com as próprias palavras.- Que eu me importo muito.- se corrigiu, balançando a cabeça consigo mesmo.- Só quero ajudá-la. — Eu sei.- respondi em tom baixo, deprimida. — Então me deixe ajudar.- clamou, desesperado.- Seja lá o que for daremos um jeito.- sorri, e segurando as lágrimas, coloquei minha mão em sua gola, a arrumando.- Por favor. — Não posso, não agora.- senti a mágoa em seu olhar. Tentou recuar de meu toque, mas eu o segurei, firme.- Oliver, você é uma das pessoas que eu mais confio nesse mundo. E se não estou te contando alguma coisa é porque não é o momento. Será que por hora pode aceitar isso?- o senti suspirar.- Por mim?

Nossos olhares se encontraram,intensos e enigmáticos.

— Você também é importante para mim.- sussurrei. — Eu sei. — Então não duvide jamais que eu não confio em você.

Oliver assentiu. Ainda estava chateado, eu sabia disso. Um pequeno sorriso se formou em seus lábios ao erguer uma de suas mãos, a colocando por cima de minha luva.

— Desculpe. — Não tem que se desculpar.- falei, incomodada. Ele realmente não devia.- Estamos bem? — Estamos sim.

Sorri, relaxada.

— Perdão a intromissão, mas o jantar está pronto.

Me afastei rapidamente, com as mãos trêmulas e completamente envergonhada por ser flagrada por Moira em uma situação tão íntima com Oliver. Vi a duquesa arquear as sobrancelhas para o filho, que suspirou, irritado. Moira sorriu, e se virou para mim.

— Quer me acompanhar enquanto Oliver chama os outros, querida? — Cla…Claro. Seria uma honra.

Oliver a olhou fixamente, e em uma conversa silenciosa, saiu, rumo às escadas. Acompanhei Moira até a sala de jantar, nos sentando em lados opostos.

— Está gostando da estadia? — Sim, estou bem relaxada.- respondi, ainda envergonhada. Moira sorriu. — Deveria visitar nosso jardim amanhã. Tenho certeza que o que vai encontrar lá vai deixá-la sorridente por muito, muito tempo.

***

Dormi rapidamente.

Após o jantar e as brincadeiras entre amigos, decidi me recolher. Claro que pensei em Oliver e nos acontecimentos do dia. Nossas provocações, os momentos em que eu queria matá-lo.

Outros que eu queria beijá-lo…

Era muita confusão.

E ele havia quase descoberto sobre Malone. Eu sabia que seria díficil esconder algo dele, mas eu não imaginava que seria tanto. Eu queria contar, e tirar esse peso das costas. Mas eu não podia.

Não agora.

Suspirei, passando a mão pela minha bochecha, onde seus lábios ousados encostaram ontem a noite. Oliver despertava coisas em mim.

E eu estava quase descobrindo o quê.

Mas não saberia as respostas deitada.

Me levantei, tomando um banho gelado. Permanecia calor no campo, ainda mais que no dia anterior, e por conta disso, decidi usar um vestido mais refrescante de tonalidade azul escuro na saia e marrom claro na região do peito, me certificando que desta vez, o tecido cobriria meu ombro machucado. E claro, não poderia me esquecer das luvas.

Desci as escadas, e me recordando das palavras de Moira ontem a noite, segui para o ar livre.. O sol brilhava quente entre as nuvens, finas que se espalhavam pelo enorme céu. O caminho de pedra me levou até o maravilhoso jardim da família, que continha em sua entrada um arco coberto por trepadeiras. As flores eram banhadas por raios solares, que as faziam brilhar em suas diferentes cores. Havia rosas brancas, vermelhas, orquídeas rosas, e as minhas favoritas, e também raras, tulipas azuis.

Tinha uma fascinação por elas.

Gostaria de saber como haviam tantas aqui.

Até onde eu sabia, só existia esse tipo de flor fora de nosso país.

Sorri ao vê-las ali, tão lindas. O canteiro estava cheio, alguns botons para desabrochar ainda, porém as que já estavam abertas continham uma beleza surreal. Inspirei aquele ardor fresco, me deliciando com a sensação de tê-las nas pontas dos dedos.

— São lindas mesmo.

A voz de Moira me tirou de meu momento particular. Os olhos da duquesa eram gentis e sábios ao se aproximar, observando com divertimento o canteiro de flores.

— Estão desabrochando.- comentei, seguindo seu olhar para a pequena tulipa.- Tem um ótimo cuidado com seu jardim, senhora Queen. — Ah, não sou eu que cuido destas.- me encarou, sorridente. Franzi as sobrancelhas. — Não? Pensei que adorasse aqui. — E eu adoro. Mas não cuido dessas flores.- indicou com o queixo.- Meu filho tem uma estranha fascinação por elas.

Meu coração acelerou e a observei, impactada. Moira sorriu diante de minha reação.

— Oliver cuida delas? — Sim. Todo ano manda buscar grandes remessas nos países baixos. Custam uma fortuna, é claro. E no começo discutimos, mas depois eu simplesmente desisti.- deu de ombros.- No entanto, sempre me perguntei o real motivo para fazê-lo gostar tanto de tulipas.Ele não tem todo esse carinho com as rosas ou orquídeas, mas insisti em tulipas, em especial as azuis.- enfatizou. Seu olhar encontrou o meu, como se já soubesse a resposta para fosse lá o que iria perguntar.- É sua cor favorita, não?

Assenti, sem conseguir falar.

— Interessante.

E me deixando completamente sem palavras, a duquesa se retirou, caminhando tranquilamente entre os canteiros. Encarei as tulipas novamente.

“ Ele não tem todo esse carinho com as rosas ou orquídeas, mas insisti em tulipas, em especial as azuis.”

Azuis.

Minha cor e minha flor favorita em uma só.

Era muita coincidência, a não ser…

A não ser que não fosse.

Observei Oliver parar no arco, um pouco surpreso. Nossos olhares se cruzaram, e depois de muito tempo eu o encarei por outros olhos. Meu amigo.

Um amor nunca esquecido.

Eu não tinha sentido nada por nenhum pretendente, porque ainda estava apaixonada por Oliver. E saber que ele fazia essas pequenas coisas…

O vi se aproximar com cautela, notando meu olhar intenso. Se agachou, arrancando uma pequena tulipa azul da terra e a entregando em minha mão ao ficar de pé. A levei até meu nariz, sorrindo com as pétalas, que acariciavam minha pele.

Oliver sorriu com a cena.

— São minhas favoritas. — Eu sei.- respondeu, sem desviar o olhar.

Ousei falar:

— Sua mãe está cuidando muito bem delas.

Oliver hesitou. Seus lábios se entreabriram, e em um olhar envergonhado, encarou os pés.

— É, ela realmente cuida muito bem delas.

Sua pequena e boba mentira me fez o amar ainda mais.

Peguei sua mão, o vendo erguer a cabeça, confuso.

— Você me deve uma ida ao lago, esqueceu?- Seu maravilhoso sorriso acelerou meu coração.- Temos que ir agora. — Como desejar Lady Smoak.- soltou um riso baixo.- Como desejar.
Notas finais
Comentem muitoooooo!

O próximo capítulo será sobre o ponto de vista do nosso charmoso Duque Queen, então preparem-se.