Romance em Pemberley

1 Prólogo - Netherfield Hotel


Notas iniciais
Eu amo Orgulho e Preconceito, e sempre que tenho alguma ideia de história com eles, me sinto incapaz de não ir em frente e escrever logo, e claro, tenho que compartilhar. Espero do fundo do coração que gostem.
Derbyshire, 1960


_ Lizzy! — Lydia abre a porta do meu quarto desesperada. Quando me vê diante da minha penteadeira, se coloca atrás de mim e joga o jornal na minha frente, derrubando meu frasco favorito de perfume. Eu a fuzilo com o olhar através do espelho. — Estamos ferrados!

_ O que foi? — Recolho sem paciência os cacos, minha vontade mesmo era gritar, mas moramos em uma pousada, quanto menos barulho fizéssemos, melhor seria para não perturbar os hóspedes. Nossos aposentos ficavam no térreo e a pousada era tão pequena e as paredes tão finas que se tornava um lugar impossível de se guardar segredos ou ter qualquer privacidade. No total, tínhamos quinze quartos, quatro deles ocupados por nós e o restante era para alugar. — Desembucha!

_ O dono do Netherfield Hotel anunciou a data da inauguração, será em duas semanas, Lizzy! Duas semanas! — Lydia se joga em minha cama e cobre o rosto com uma almofada. — Acabou pra gente.

Sinto um calafrio de repente, Netherfield Hotel era um pesadelo antigo para nós, nós sabíamos que estava sendo construído, sabíamos que em algum momento abriria as portas, mas parecia tão distante que nos conformamos que ele nunca seria aberto de fato. Mas, pelo jeito, estávamos completamente enganados, esse negócio de confiar na sorte nunca foi uma boa ideia.

Pego o jornal para ler a matéria. Sinto algumas pontadas na cabeça, um claro sinal de uma das minhas longas enxaquecas.

“Finalmente chegou o momento: Derbyshire se renovou. A promessa de aposentos modernos, restaurante renomado e espaços de lazer em um só lugar, Netherfield Hotel vem aí. E eu nem falei a melhor parte, com preços acessíveis!

Se você procura um lugar moderno e confortável para passar alguns dias, é só fazer uma reserva a partir do dia 25 de abril pelo número de telefone que está em destaque logo abaixo. Serão 85 quartos, nosso repórter foi um dos primeiros a conhecer o local e o Sr. Bingley, proprietário do hotel, o deixou tirar algumas fotos em primeira mão para vocês.”

Lydia se aproxima novamente, roendo as unhas.

_ Você viu as fotos? — Toma o jornal da minha mão. — Até eu quero me hospedar lá!

_ Nosso pai já viu isso?

_ Não só viu, como está soltando fogo pelas ventas. Até se trancou no escritório. Mamãe está lá, tentando convencê-lo a sair.

_ Onde está a Jane?

_ Foi na costureira. Deve estar voltando já.

Jane era minha única irmã mais velha. Era nela que eu sempre confiava para conversar sobre assuntos sérios. Lydia, Mary e Kitty eram muito agitadas e dramáticas. Eu só saberia a real situação quando ouvisse da boca de Jane.

_ Se a vir antes de mim, peça que me procure. — digo a empurrando pra fora do meu quarto. — Agora se me dá licença, tenho uma bagunça aqui para limpar.

Lydia dá uma risadinha curta e sai saltitando do quarto, ouço quando bate na porta de Mary, provavelmente para dar a notícia. Não sei se ela está preocupada com a pousada ou se só quer ser a primeira a contar a fofoca.

Estou sentada no balanço que meu pai fez pra nós quando éramos crianças, balançando e refletindo sobre nossa situação quando Jane finalmente me encontra.

_ Acho que você é a única que ainda usa esse balanço. — Ela me empurra de leve me fazendo rir. — Você já está sabendo então.

Faço que sim com a cabeça e me levanto. Entrelaço meus braços aos dela e entramos na pousada. Vamos direto para o quarto que dividimos. Jane se senta em frente à penteadeira e começa a remover sua maquiagem. Pego uma escova e começo a escovar seus longos cabelos loiros. Quando eu era mais nova, morria de inveja, sempre achei que meus cabelos castanhos me apagavam muito, ao contrário do loiro de Jane, que a fazia reluzir por onde quer que passasse.

_ O que será de nós Jane?

Ela me encara pelo espelho, sua expressão de uma calma admirável.

_ Agora a gente espera. — diz. — Temos duas semanas para descobrir.

Mordo o lábio inferior.

_ Você ouviu alguma coisa sobre isso na cidade hoje?

_ As pessoas estão curiosas. — Jane ri baixinho.- Confesso que também estou. Ouvi dizer que o Sr. Bingley parece ser um jovem muito bonito e simpático.

_ Pois eu já o odeio. — faço uma careta, Jane era uma mulher muito boa, acho que é tão boa que não sobrou nada de bondade pra mim quando nasci, dois anos depois.

_ Não fale assim Lizzie. — Jane se vira pra olhar pra mim e pegar em minhas mãos. — Ele não tem culpa de ter mais condições que a gente. Infelizmente, não temos muito o que fazer, sempre soubemos que esse dia chegaria, as coisas vão se modernizando.

_ Eu sei, mas…

_ Vamos esperar. — ela me interrompe. — Temos alguns clientes fiéis. Temos que confiar que eles vão querer continuar com a gente.

_ Mas e se eles não forem tão fiéis assim?

_ Você é muito desconfiada Lizzie.

_ E você é muito ingênua Jane.

Minha mãe entra no quarto em prantos.

_ Meninas, Longbourn irá fechar as portas. Escuta o que eu estou dizendo.

_ Calma mãe. — Jane corre até ela. — O que houve?

_ Oh minha filha. — ela soluça.- seu pai acaba de me informar que se nossos hóspedes resolverem cancelar suas reservas para se hospedar naquele hotel de rico, não teremos como pagar as contas do mês.

_ Mas e a nossa reserva de emergência? — Me sento ao lado dela na beira da cama.

_ Que reserva é essa? — minha mãe grita. — Não temos mais nada além de dívidas Lizzie. NADA!

Engulo em seco, Jane pela primeira vez parece apreensiva.

_ Nossas reservas estão esgotadas até o fim do mês, calma vai dar tudo certo. — diz Jane enquanto massageia a nuca de nossa mãe. — Lizzie, pega um copo de água pra ela, por favor.

Faço que sim e me retiro rapidamente, mas assim que chego no corredor ouço minha mãe dizer que já tivemos três cancelamentos.

_ Está tudo bem? — um hóspede me para no caminho. Parece que viu um fantasma.

_ Estou ótima. — tento me desvencilhar dele. — Com licença.

_ Desculpe. — diz abrindo espaço para mim. Ele era um jovem soldado que estava em treinamento na cidade. Não era de falar muito, mas às vezes aparecia nas horas mais aleatórias.

Quando estou retornando da cozinha com a água da minha mãe, ouço um burburinho na sala compartilhada.

_ Eles já estão reservando. — diz um homem baixinho e careca que se hospedava com a gente a cada dois meses. — Ouvi dizer que colocaram essa data no jornal apenas para não tumultuar antes da hora. Eu mesmo já consegui um quarto para o dia 27.

_ Como você descobriu isso? — Era o soldado que esbarrou em mim antes.

_ Conheço um amigo do dono. — ele estufa o peito orgulhoso, sinto uma raiva enorme tomar conta de mim. — O bom é que quando chegar o dia 25 eles vão poder falar que foi um sucesso, que as reservas se esgotaram super rápido.

_ Eles são espertos mesmo, é por isso que são ricos. — diz um senhor que participava da conversa. — eu nunca teria uma ideia dessas.

Não aguento mais ouvir nada, de tanto ódio que eu sentia. Eu só podia esperar nunca cruzar o caminho com esse tal de Bingley, eu juro que não fazia ideia do que faria caso encontrasse ele por aí.

Antes de entrar no quarto, tento me recompor, minha mãe já é dramática o suficiente sem eu precisar dar mais combustível a ela. Ela toma toda a água em um gole e sai do quarto ainda chorando.

_ Meus pobres nervos. — diz alto no corredor seguindo em direção ao seu quarto.

_ Ela quer que a gente case. — Jane sorri, mas seu sorriso não chega aos olhos. — Com um homem rico.

_ Tudo pra mamãe se resolveria se casando com um homem rico. — reviro os olhos.

_ Ela não está de todo errada Lizzie.

Tento limpar os meus ouvidos, pois isso não podia ter saído da boca da minha irmã, eu devia estar alucinando de ódio.

_ Ficou maluca?

Jane ri.

_ Não estou falando de casamento, minha irmã. — dá de ombros. — quero dizer que está na hora de começarmos a pensar em alternativas.

Fico pensativa por um momento. Me lembro de que, mais cedo, ouvi uma senhora falando sobre estarem precisando de alguém pra trabalhar na biblioteca pública. Pelo que ela disse, estavam oferecendo oito libras por semana, levando em conta que cobramos uma libra diária, já ajudaria bastante.

_ Vou arrumar um emprego. — digo um pouco alto demais surpreendendo minha irmã.

_ Eu estava pensando a mesma coisa.

Jane me abraça.

Combinamos de sair logo pela manhã para procurar algo, não conto a ela sobre a vaga da biblioteca, não quero dar falsas esperanças. Preciso conferir se a vaga ainda está disponível, e, é claro, se me contratariam.


Notas finais
Só aguardem que logo o homem aparece haaha