Romance Submerso
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Professor Aronnax não se achava mais digno de dizer um cidadão em sua plena consciência. Tamanha vergonha que sentia lhe impedia de conversar francamente com seu criado Conselho e evitava olhares do canadense Ned — que desconfiava de algo porém nada dizia.
Mas Ned nem em seus mais inúmeros pensamentos poderia chegar a real conclusão do caso. O caçador de baleias suspeitava que o professor estava se adaptando até demais a vida submarina a bordo do Náutilus e que — que horror! — nunca mais gostaria de voltar a liberdade, vivendo dentro daquela sucata estranha com os outros estranhos marinheiros, com seu adorável capitão!
O único erro de Ned foi não pensar que “seu capitão” era literalmente “seu capitão” para Professor Aronnax.
Exatamente.
Professor Aronnax adoraria um dia chamar Nemo de seu capitão.
Mas é claro que nada daquilo era dito em luz clara ou apagadas. É claro. Como um indivíduo seria capaz de passar por tantas reviravoltas na vida e adaptar-se a elas tão rapidamente? E capitão Nemo não o ajudava.
Não o ajudava quando explicava tão apaixonadamente sobre tudo que havia descoberto na maravilha do mar. Não ajudava quando ele se aproximava e olhava no fundo de seus olhos e sorria. Não ajudava quando o convidava e lhe mostrava tantas maravilhas em algo que nunca sua imaginação seria capaz. Quando o chamava para um passeio no fundo do mar e se deitavam na areia fina banhada pela luz do sol e segurava sua mão por cimas das luvas.
E certamente, não ajudava quando o beijava.
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Na primeira vez, Aronnax quase caiu devido tamanho susto. Gostou da sensação de experimentar os lábios seu capitão nos seus, porém quando se deu conta de que aquilo era realidade e não mais um de seus devaneios, seus olhos se esbugalharam e deu um passo em falso para trás. O beijo tomara seu fôlego, e nada ele era capaz de dizer. Mas, para aumento de sua surpresa, o capitão sorriu de canto curto.
“Do que está tão assustado, professor?”
A partir daí, Aronnax era um homem completamente apaixonado. E correspondido.
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Um dia, quando professor Aronnax era incapaz de manter para si mesmo seus pensamentos, confessou á seu fiel criado:
“Conselho, o que acha do Capitão Nemo? O acha confiável?” Perguntou o professor, tentando esconder seu nervosismo fingindo descontração.
“Com todo o respeito, meu amo, não confio completamente, porém, devo dizer que apesar dos meus receios, ele nos vem tratando muito bem e faz o senhor feliz.”
“C-Como?’ Tentou Aronnax fingindo-se desentendido, mas sua face surpresa e gagueira o denunciavam.
“Sem querer invadir sua vida pessoal, senhor, mas creio que os dois ficam muito felizes juntos.”
E sem mais nenhuma palavra, Professor Aronnax admirou-se mais uma vez da lealdade de seu criado. E sorriu aliviado.
Agora ele poderia andar de cabeça erguida.
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Capitão Nemo apertava seu ombro gentilmente quando estavam conversando. Beijava sua bochecha quando Aronnax falava animadamente de possíveis estudos e descobertas. Tocava sua mão quando passavam pelo corredor. Por vezes até subia com Aronnax para a plataforma, mesmo que não com a mesma animosidade e descesse logo depois.
Capitão Nemo adorava abraçar e sentir aquele corpo contra o seu. Adorava sentir o calor aconchegante que sentia quando Aronnax sorria. Adorava ver a alegria que o professor tinha ao ver o mar. Adorava convidá-lo para ver as maravilhas que tinha descoberto.
Adorava a companhia de seu professor.
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“Aconteceu algo bom, Professor?” Perguntou o Capitão enquanto beijava a bochecha de Aronnax e o abraçava, puxando-o para si.
“Só estava dizendo a mim mesmo como um acaso da vida pode ter me dado tantas experiências maravilhosas que nunca poderia descrever.” Respondeu Aronnax respondendo ao afeto de seu companheiro o abraçando de volta e se aconchegando.
Capitão Nemo sorriu seu adorável sorriso de canto curto. Ambos estavam sentados na cama do capitão, do lado da mesa de trabalho onde continha seus instrumentos de observação e inúmeros papéis em diversas línguas.
“Não quer dormir aqui hoje, Aronnax?” Sugeriu o Capitão, descontraído, ao passo que o professor o olhou completamente surpreso.
“Se não for incômodo…” Respondeu o companheiro, levemente tímido e feliz.
“Nenhum.” Sorriu o capitão.
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Capitão Nemo encontrou seu professor em seu quarto, com a porta entreaberta. Estava prestes a abrir um sorriso quando viu o objeto que ele tinha em mãos. Sua expressão se fechou de medo.
Ele chegou por trás do colega, silenciosamente, observando o porta retrato que ele tinha em mãos, a foto de sua amada família morta. Sua face fez um contorno de dor e não conseguiu reprimir um suspiro dolorida, que alertou sua presença ali.
Professor Aronnax o olhou surpreso, porém não parecia arrependido do que estava fazendo.
“Você…Eu tinha guardado… O que está fazendo?!” Perguntou descontrolado o capitão, ansiando para retirar aquela foto tão dolorida, do seu passado, de sua amada esposa, de seus amados filhos...das mãos de seu amante.
“Eu não vejo necessidade de você guardá-la.” Disse o professor, olhando nervosamente para o Capitão, com expectativas de ser ouvido. Para seu deleito, Nemo parou o caminho de sua mão e o olhou, seus olhos o questionando, o instigando a falar mais.”É algo amado seu. Deveria tratá-la bem e manter sempre a seus olhos.”
“É… dolorido.” Confessou Capitão, baixando os olhos. Aquela foi a primeira vez que Professor Aronnax viu seu capitão tão indefeso, tão frágil e aquela visão doía seu coração. Mas sabia que precisava continuar.
“Meu caro, esta é sua amada família, não é? Perdoe-me se estou assumindo errado… Porém, independente do que eles sejam, não duvido de que eles são muito preciosos para ti, e não consigo imaginar a tristeza profunda que lhe tomou… Mas devo lhe dizer, que o senhor deve lembrá-los com um sorriso, das boas memórias e dos sentimentos profundos e alegres que o senhor nutre por eles. “
Capitão Nemo o olhou surpreso, sentindo o peso de cada palavra que entrava em seus ouvidos e coração. Sentiu que ficava mais leve conforme seu cérebro processava cada frase e nenhum auto-controle do mundo o impediria de mostrar sua gratidão e alívio escapando em lágrimas de seus olhos.
Aronnax caiu para trás ao ser abraçado tão fortemente por um capitão que chorava copiosamente em seu colo.
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“Gostaria de saber o que aquele marinheiro fala toda manhã.” Comentou casualmente Aronnax certo dia, olhando a mesma cena com admiração. Nemo o olhou divertido.
“Gostaria de aprender?” E assim que as palavras saíram de sua boca, não podia ter visto mais alegria nos olhos de seu amado que não hesitou em responder afirmamente.
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“Pare! Decerto não sei o quão profundo seu ódio é ou a causa de tamanho sentimento ardente, mas devo lhe dizer que não deixe isso tomar conta de ti!” Bradava Aronnax enquanto tentava em vão fazer algo para impedir a fúria de Nemo enquanto ele comandava o submarino para contra atacar um navio que lhes atacavam naquele mesmo instante.
“Feche a boca! De nada o senhor sabe de minha história!” Gritava ele descontrolado, entorpecido pela dor que tomava conta de si, um desespero profundo revivendo as piores cenas de sua vida, ali na sua frente, então ele tinha que fazer algo, algo, para acabar com aquilo que destruiu sua vida.
O que lhe tirou do torpor foi um soco em seu maxilar.
O soco não foi muito forte, foi a surpresa o levou para trás. Olhando boquiaberto para seu agressor — seu professor.
“Exatamente! Nada sei de sua história! Contudo, posso afirmar com todo meu ser, que nada justificará um ato assassino, e que nada disso irá lhe tirar dessa dor que tanto lhe toma!” Bradava Aronnax, agitado, desesperado para impedir tudo aquilo. “Acha que algo voltará?! Acha que vai mudar algo?! Está destruindo o futuro de outras pessoas por causa de algo do passado!”
“O senhor não sabe de nada!” Respondeu Capitão, confuso e desesperado, se levantando e indo para o leme, tentando voltar a seu objetivo, afundar aquele navio de uma vez por todas — Mas ele sabia. Sabia que nada iria adiantar. Nunca adiantou. Piorava sua dor. Mas ele nada podia fazer, perdido em seus sentimentos gritantes. “Saia daqui se preza por sua boa visão de mim! Saia!”
“Se eu sair dessa sala, receio nunca mais voltar.” Disse Aronnax calmamente, com uma profunda determinação abalando todo seu ser. “Acha que não presenciar mudará algo? Saberei do que se tratou. Saberei do que fez. E nunca poderia continuar com alguém movido a esse tipo de situação. Se eu sair… irei embora. Ou morrerei tentando.”
Os canhões continuavam vindo e tremulavam Náutilus. Nemo sentia que estava em uma estrada com dois caminhos. Mas sua visão estava embaçada. Seu corpo tremia, ele suava, seus olhos estavam encharcados, a garganta estava presa.
Ele só pode acompanhar com o olhar quando viu o brilho de Aronnax sair de seus olhos enquanto este caminhava a saída do gabinete.
Aronnax foi jogado em uma parede.
“Se segure!” Bradou Nemo com uma voz diferente.
O submarino mudou. Submergia. Dava ré e seguia em frente na nova direção. Os sons de tiro e tremores de canhões sumiam gradativamente. Enquanto Professor Aronnax tentava analisar o que estava acontecendo, via o mar ficando cada vez mais escuro a cada segundo, enquanto os móveis balançavam quando o submarino tentava desviar dos ataques a ele dirigidos. Logo, estavam no fundo do mar de novo, indo em algum lugar rapidamente, fugindo do navio agressor.
Quanta a calmaria da estabilidade veio, Nemo o olhou. Aronnax o olhou de volta, não vendo mais alguém descontrolado pelo ódio. Olhava alguém sem reação.
Nemo caminhou em sua direção e agachou diante de si, com os olhos fora de foco, olhando através de tudo, sem realmente enxergar.
“Fiz...certo?” O capitão perguntou, com a voz fraca, quase num sussurro interrompido.
Aronnax se recompôs para dar uma resposta digna e justa naquele momento.
“Sim.” Esta foi sua resposta. Simples e curta, sem mais detalhes. Ele sabia que explicações longa de nada adiantariam, estas viriam quando Nemo descobrisse em sua auto-jornada.
“Eles...eles mataram minha família…” Era dolorido ver as emoções estraçalhadas de seu amado, mas Aronnax ouvia com toda a paciência do mundo.
“Não foram eles. Não se pode julgar todos por um, Nemo.”
“Mas… todos eles foram selvagens...mataram minha esposa...meus filhos… mataram.” E Nemo deixou as lágrimas escorrerem calmamente em seu rosto. Aronnax o puxou para si, o abraçando em toda sua dor, sentindo as lágrimas atingirem seu paletó.
“Eu sei. Não foi justo. Mas você fez certo. Tu foi justo, meu amado. Estou orgulhoso de ti. “
Nemo o abraçou e deixou seus sentimentos escaparem para o amor que estava recebendo.
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“Muito obrigado.” Disse Nemo uma vez quando estavam na mesa de café da manhã, comendo frutos do mar.
Aronnax parou o garfo que iria a boca e levantou a sobrancelha.
“Por que, exatamente, meu caro?”
“Por ter tentado caçar meu Náutilus.” Sorriu Capitão. E o beijou suavamente, sendo correspondido por seu amado professor, no embalar suave das ondas do mar que era sua casa, agora com um novo morador.
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