Roma XXVI

1 A ladra


Notas iniciais

Eu sabia que protestar só pioraria tudo. Estamos no século XXVI, e os poderosos não costumam libertar os presos. Mesmo que eles se mostrem inocentes.

Eu estava no lugar errado, na hora errada. Eu estaria mentindo se dissesse que eu não matei aquele homem por que não pude. Já fui presa algumas vezes por roubo, mas alguns meses depois eu saí. Furtos são muito comuns para que os ladrões mofem na cadeia por muito tempo, e ocupem o lugar dos realmente perigosos. Eu estava rondando a mercearia, e um cara entrou na minha frente e matou o comerciante. Ele fugiu, eu fui pega. Mas dessa vez seria diferente. Aquilo acabou em morte e eu era a incriminada, embora fosse inocente eu não tinha meios para provar isso. Eu sou uma ladra também.

Minhas pernas não correram o suficiente através das ruas. Braços fortes me seguraram violentamente e me colocaram algemada e presa das mais diferentes formas possíveis no banco de trás de um carro. Eu utilizei do meu direito de ficar calada, e, em silêncio, seguimos para o presídio nos arredores da cidade. Observei atentamente tudo, toda a paisagem que se seguia através da janela. Nosso mundo deveria ser mais moderno e pacífico à esta altura. Houve um retrocesso a partir de 2100, e só agora voltamos a progredir. Detenho os pensamentos ao lembrar que sou um dos culpados pela violência que temos hoje.

O presídio feminino é um conjunto de prédios altos e cinzas, cercados de muros altos e cercas elétricas. É renomado. Ninguém nunca fugiu daqui. Eles me encaminharam aos empurrões até minha cela provisória, onde eu aguardarei o julgamento. Entregaram-me roupas brancas e prendedores de cabelo. Entrei obedientemente.

Por enquanto não terei companheira nenhuma de cela. Mas quando eles me julgarem e me condenarem, o que com certeza irá acontecer, eu serei posta em um compartimento sujo, minúsculo e cheio de assassinos de verdade até que minhas primeiras rugas apareçam. Eu tenho apenas vinte anos. Parece um ótimo futuro para mim.

Deixo-me cair no colchão fino. O impacto me causa uma dor aguda. A cela é agradável em comparação com onde eu dormi nos últimos anos. Paredes brancas, cama, uma pia, uma cortina separando a privada. Através das grades posso ver metade da tela de uma televisão. Em suma, nunca tive nada assim. Fugi de casa acho que há cinco anos, ou talvez seis... Ninguém daria um emprego para alguém como eu. Minhas únicas opções eram: Virar garota de programa ou ladra. A segunda opção me seduziu mais. A adrenalina de um roubo compensa qualquer coisa, e eu sempre consegui alguma coisa para comer. Já para dormir, um colchonete e um beco escuro me satisfaziam. Hoje existem muitas pessoas como eu por aí.

Percebo que no chão estão alguns livros e um jornal. O pego, surpresa por terem deixado alguma fonte de informação do exterior entrar aqui. Aliso a folha cinza com a mão. Está estampada na primeira folha o rosto sorridente do novo imperador, já a hierarquia foi reestabelecida há alguns anos. A manchete é “Gladius: A solução para a superlotação dos presídios”. Confusa com o nome estranho, desdobro a folha. Um pequeno texto está escrito abaixo.

“ O digníssimo imperador da Nova Roma, Constâncio IV, teve a magnífica ideia de resgatar novamente, das raízes da nossa rica cultura, as lutas de gladiadores. Do ponto de vista dos poderosos regentes da nossa amada pátria, a luta, batizada de Gladius Innovatore, servirá como forma de entreter o povo e solucionar o problema da superlotação dos presídios.

Um novo Coliseu está sendo construído especialmente para as batalhas, e logo serão escolhidos os duzentos participantes a partir dos criminosos dignos de morte. Não será feito nenhuma distinção de raça, idade e sexo. O vencedor terá a liberdade como prêmio.

Aguardem a lista dos convocados, que serão escolhidos a dedo pelo presidente na próxima semana... ”

Pasma, larguei o jornal sobre o colo. Ter sido presa não me amedrontou muito até agora. Pontilho de lágrimas a folha suja do jornal, que ainda mantem a marca da sola das botas de uma policial que a pisoteou mais cedo, eu suponho. O governo está abusando do seu poder. Por que não somente matar todos os criminosos com veneno ou tiros? Eles lhes submeterão uma morte dolorosa e vergonhosa. Não suporto a ideia de imaginar que eu poderei ser chamada. Mas não, eu não serei. As chances são ínfimas. Eu matei somente um homem. Tem pessoas muito piores por aqui.

Uma policial desliza um pote de comida para dentro da cela, mas eu não consigo comer. Tudo o que aconteceu... Acabou de cair a ficha. Passo horas recitando para mim mesma os versos: “ Eu não serei chamada, eu não serei...”. Em dado momento, as palavras perdem o sentido. Levemente mais calma, adormeço. Porém, continuo soluçando a noite.

Acordo de madrugada, com o barulho de um sino. A guarda abre a cela e me manda sair. Obedeço.

Caminho pelos corredores atrás das outras presas até o refeitório. Uma sala ampla e repleta de mesas. Não parece que o café vai ser servido, pois todas se agrupam em fila de frente para um auditório. Faço exatamente a mesma coisa que todas. Olho para os lados. A maioria das mulheres daqui são jovens, menos de trinta anos. Claro que a maioria está muito acabada em causa da vida que levam aqui. Olhos tristes, bocas entortadas para baixo. Eu tenho certeza que ninguém que passa por essa vida será feliz novamente. E eu passarei. Imagino-me com quarenta anos, cabisbaixa, mal cuidada, ostentando as marcas de uma vida sofrida. Quase todas são obrigadas a trabalhar em algo aqui.

Ouço passos altos vindo do corredor atrás do auditório. Uma mulher de terno e óculo entra, depois alguns policiais formam uma barreira entre nós e as pessoas de aspecto importante que não param de entrar. Abro a boca, chocada, quando vejo quem entra a seguir. Dou-me conta de que o jornal era de uma semana antes, por que quem acaba de entrar é Constâncio IV.