“Precisamos conversar.”

A voz de sua mãe soou como quase sempre aos seus ouvidos: fria, objetiva e sem qualquer possibilidade de negociação. Se Regina Mills Hatter dizia que queria conversar, então você iria conversar e não havia nada a ser feito. Roxy respirou fundo e a seguiu pelo corredor, capturando um olhar compreensivo de Henry pelo caminho. Era claro que nada de bom sairia dessa conversa, até mesmo ele — com seu absurdo otimismo e credulidade — admitira isso. Regina estava vestindo jeans escuros e uma camisa de cetim preto. As botas de couro sintético amarelo criavam uma espécie de contraste usual, gerando elegância com uma pitada de esporte e Roxy confessou a si mesma que adorava o estilo de sua mãe. Mas ela jamais diria isso, porque bem, ela jamais diria nada a sua mãe. Elas não eram melhores amigas nem nada.

“Tranque a porta, por favor.”

“Isso é necessário?” Rebateu a garota, mas recebeu apenas um olhar da mãe que fez sua espinha travar por segundos. Ao que parecia era estritamente necessário, e ela o fez.

Regina respirou fundo e caminhou até o sofá de camurça marrom, macio e acolchoado. Odiava o fato de que aquela casa inteira era repleta de lembranças dela com Jefferson; da maneira com que ela sorria quando ele lia livros para ela, deitados sobre aquele sofá, as pernas dela sobre o colo dele enquanto ela fechava os olhos e se concentrava na voz dele; ou quantas vezes ele não havia tirado as roupas dela e inundado seu corpo com prazer, bem ali naquele carpete, em frente à lareira. Afastou os pensamentos e percebeu que Roxanne havia se sentado no sofá, no ponto mais distante possível, os lábios formando uma linha sem expressão e os olhos fixos nos seus, possivelmente morta de curiosidade sobre a razão de estar ali.

“Preciso saber sobre as drogas. Eram suas?”

Roxy riu, um riso seco e cheio de ironia que fazia o sangue de Regina borbulhar, mas ela precisava manter a calma. “É só isso que importa para você, não é mesmo?”

“Se importa saber se eu tenho um dependente químico na minha casa? É claro que sim. Essas coisas destroem vidas, Roxanne. Uma pessoa na minha posição mais do que ninguém sabe disso.”

“Você está me chamando de drogada?”

Regina esboçou um sorriso. Ela não poderia ser menos sua filha, com todas as paredes erguidas infinitamente, as barricadas armadas e prestes a contra-atacar. “Saia da defensiva. Eu estou aqui como sua mãe. Eu quero ajudar você.”

“Você não acha que já ajudou o suficiente me deixando plantada a noite toda naquele lugar?” Sibilou a garota, encarando-a nos olhos com coragem e uma certa dose de firmeza que Regina perguntava-se de onde vinha.

“Eu pensaria duas vezes antes de usar esse tom comigo, Roxanne. Eu não sou seu pai.”

“Infelizmente.” Rebateu a mesma, sem saber o quanto aquilo a machucava. Ela sempre havia se perguntado se o divórcio causaria uma divisão entre elas e foi exatamente o que aconteceu. Jefferson deixou que Roxanne a odiasse, omitindo a própria culpa, permitindo que aquilo acontecesse e permanecendo à distância. “Eu não quero você envolvida com Tyler Ohill. Eu não quero você próxima daquela família.” Continuou Regina, estabelecendo contato visual. “Estou sendo clara? Nenhum contato além do estritamente necessário no colégio.”

“Posso perguntar por quê ou isso também é além da minha alçada, delegada?”

Regina respirou fundo antes de decidir ignorar a provocação. Roxy fitou a mãe, tentando decifrar no que ela estava pensando. Pensou em dizer que o que aconteceu não era culpa de Tyler, mas era sim. Ele quem insistira para eles irem para o parque. Ele quem pedira a ela para segurar as drogas e ela aceitou, afinal, a mãe dela era a delegada. Seria muito mais fácil sair dessa. Não era isso que seu pai havia lhe ensinado? Todas as leis são corruptíveis, Roxanne. Brechas foram feitas para serem utilizadas, para serem uma ferramenta de invasão até a essência do problema. Por que é que sua mãe não podia mexer uns pauzinhos e livrá-los de meia dúzia de acusações? Roxy sabia o que aconteceria com Tyler se ele fosse preso com posse de substâncias ilícitas. Ele seria indiciado, perderia todas as infinitas inscrições nas milhares de universidades nas quais a mãe abusiva dele o tinha inscrito. A vida dele estaria bastante fodida, enquanto se fosse ela, bem, a mãe dela arrumaria um atalho para fora daquela situação. Ao menos, era o que ela achava, mas Regina provou que ela estava absurdamente errada.

“Nossa família não é nenhum modelo para criticarmos os Ohill’s.” Continuou a garota.

“Zelena Ohill é uma cascavel coberta de ouro e roupas da Chanel e aquele marido dela não fica atrás.” Roxy rapidamente se encontrou interessada. Sua mãe nunca se referia a pessoas com insultos na frente deles. O que ela sabia sobre a Sra. Ohill de tão sério assim? “Eu não vou entrar em detalhes aqui, Roxanne. Eu não quero você envolvida com aquela gente. Entendido?”

“Entendido.”

“Como foi a sessão com o conselheiro?”

“Foi… okay.” Ela não queria conversar sobre o Sr. Locksley com a sua mãe. Era claro que ela estragaria tudo se soubesse que ela tinha um psicólogo bonito e simpático que a fazia sentir bem.

“Só isso?”

“O que você quer que eu diga? Eu sou obrigada a fazer isso.”

Regina sabia que ela estava escondendo algo. Era ligeiramente ofensivo sua filha achar que poderia esconder algo dela, mãe, com habilidades de leitura corporal ensinadas pela polícia federal em treinamentos de alto risco e proficiência. Odiava essa tensão entre elas. Odiava ter perdido a filha e odiava-se por não ter percebido quando isso havia acontecido. Tudo que ela queria era poder abraçar e beijar aquela jovem mulher e lembrá-la que ela era uma fonte imensurável de orgulho. Que Regina acompanhava seus relatórios escolares e que apesar dela passar mais tempo conversando do que estudando, sabia que sua grade curricular era impecável. Que sim, ela era linda, perfeita até, mas seu cérebro possuía uma inteligência que a fazia parecer ainda mais bela. Mas Roxanne a afastava quando percebia qualquer demonstração de afeto vindo na sua direção, como um sistema de autodefesa incorruptível.

“Você soube que o papai vai se casar?”

“Sim, Roxy, eu soube.”

Roxy estudou-a por alguns segundos. “E o que vai fazer a respeito? Só falta me dizer que você pretende ir à festa.”

Regina franziu as sobrancelhas, encarando a jovem. “O que você acha que eu vou fazer? Eu não tenho nada com o seu pai. Se ele encontrou uma pessoa que o faça feliz, eu…”

“Pelo amor de deus!” Reclamou a garota, a voz soando impaciente e em um tom bem mais alto do que ela esperava. “Não me venha com esse discurso de feliz, isso não existe!”

“Você acha mais bonito eu dizer que vou ficar chorando por causa disso escondida no meu quarto? A vida continua, Roxanne!” Rebateu Regina, igualmente irritada. Dentre todas as pessoas com as quais ela não gostaria de discutir o casamento de seu ex-marido, Roxanne poderia encabeçar a lista.

“A vida nunca deixa de continuar para quem não sente nada, não é? Tanto faz para você se ele se casar, ou se continuar solteiro. Não é como se você pudesse sentir alguma coisa, não é como se você já tenha sentido alguma coisa por ele.”

Como uma corda de violão se partindo no meio da música, as palavras de sua filha ricochetearam em seu peito. Aquilo era demais. Como ela ousava duvidar de seus sentimentos? Como podia subjugar a dor excruciante que ela passara desde o maldito divórcio? A verdade é que ela não podia. Ela não fazia ideia do que estava falando.

“Escute aqui, mocinha” Regina ergueu a voz e deveria estar furiosa pois o rosto de Roxy paralisou-se, encarando-a com certo receio. “Se eu quiser ir na merda desse casamento eu vou, e se eu não quiser ir, eu não vou e você não tem absolutamente nada a ver com isso. Não ouse falar sobre assuntos dos quais você não sabe um terço sequer sobre o que realmente aconteceu. Você vai respeitar minhas decisões assim como eu respeito as suas, caso contrário teremos sérios problemas.”

Roxy encarou-a com os olhos marejados. Regina segurou o ar, sentindo-se bastante decepcionada consigo mesma. Como é que ela permitia que sua filha causasse tamanho estremecimento em seu sistema com algumas palavras? Se uma adolescente era capaz de pressionar seus botões e jogá-la para fora do tabuleiro, como é que ela iria se provar perante juízes e outros policiais? Sua filha parecia prestes a desmoronar na sua frente, mas Regina percebeu quando a mesma pareceu ter segurado sua mágoa. Estreitou os ombros e respirou fundo, inalando seus sentimentos como se fossem uma mera neblina. Seus dedos tremiam e de repente isto era a única coisa que revelava seu estado de espirito. Todo o resto havia sido incrivelmente mascarado em poucos segundos – e isso assustou Regina.

“Roxy.” Chamou ela, mas a garota apenas levantou-se, respirando fundo e caminhou até a mãe.

“Honestamente, eu...” Começou ela e Regina tentou alcançar sua mão, mas ela desvencilhou-se do toque. “Você não lutou por ele, assim como não lutou por mim. Você desiste das coisas, mãe. A única coisa que você nunca desistiu foi do seu trabalho. O resto do universo passa por você e você nem nota.”

“Isso não é verdade.” A voz de Regina estava quebrada e frágil, mais do que ela gostaria de aparentar na frente de sua filha. Não era verdade, mas ainda assim doía horrorosamente, como facas cortando sua pele incisivamente.

“Não é? Mesmo?” Roxy riu. “Coloque a mão na consciência, mãe. Eu cometi erros, e estou pagando por eles. Mas você.... Você cometeu erros e espera ser recompensada por ter superado as consequências deles. É patético.”

“Cuidado como você fala comigo, mocinha.”

“Me coloque na cadeia, Delegada. Você já está começando a se acostumar com isso.” Zombou ela, atravessando o resto do cômodo e destrancando a porta. No segundo seguinte, ela desapareceu, deixando Regina sozinha na larga e espaçosa biblioteca.

***

Robin não conseguia deixar de pensar nela. Na maneira que seus lábios carnudos eram macios, suaves, quentes. Em como ela havia suspirado pesadamente contra a pele de seu pescoço, no calor daquele corpo contra o seu, esmagados contra a porta do carro como adolescentes escondidos atrás da escola.

“Vai me contar sobre o encontro com a Leti?” Provocou John e ele arremessou a almofada no amigo, sentado no outro sofá. Desde que descobrira sobre Regina, ele a apelidara assim – fazendo alusão à personagem do filme velozes & furiosos e por algum motivo, Robin achava aquilo engraçado.

“O que você quer saber? Nós conversamos.” Robin tentou ser o mais evasivo possível. Quando queria, Little John acabava sendo a pessoa mais insistente (e porque não irritante) que existia no vasto mundo e ele não queria prolongar aquilo. Já tinha muito no que pensar, contando com o fato de que ele sequer conseguia não pensar nela por horas seguidas.

“Só isso?” John estreitou o olhar, analisando o amigo. “Nenhum beijinho, abraço, amassos, mãos bobas...” Robin ergueu o olhar e o homem riu, batendo na perna. “Merda, Locksley! Eu sabia. Pode ir contando tudo detalhadamente, anda logo.”

“Você parece uma mulherzinha.”

“Você não está me ofendendo, meu querido. Mulheres são tudo de bom.”

Robin revirou os olhos para ele. “Nós conversamos e tomamos café. Sobre a vida, um pouco sobre nossos trabalhos, relacionamentos...”

“Relacionamentos? Oh-oh. Ela é casada?”

“Ela se divorciou há dois anos e parece que o cara vai casar em breve e ela teve momentos difíceis tentando lidar com isso.”

John balançou a cabeça, acompanhando a conversa. Bebericou sua cerveja, enquanto observava as expressões do amigo. “Isso preocupa você?”

“Não.” Robin fitou o tapete laranja por alguns segundos. “Ela parece bastante resoluta com o relacionamento como está. Acho que é mais a dor da perda, sabe?”

“É compreensível. Quantos anos?”

“Dezoito.”

John assobiou alto e longo, as sobrancelhas arqueadas traduzindo sua surpresa. “Um tempinho considerável.”

“Eu ainda não sei como um homem consegue superar uma mulher daquelas. John, ela é..... Eu nem acredito que há algumas semanas eu estava literalmente com raiva dela por quase me atropelar. Regina é deslumbrante, e ao mesmo tempo, delicada, frágil, mas dona de um espírito tão firme e”

“Wow, Robin.” John estava rindo, praticamente gargalhando dele e Robin sentiu-se exposto.

“Eu não deveria ouvir você, seu imbecil. Eu resolvo me abrir e você está passando mal de tanto rir.”

“Você deveria ver a sua cara falando dessa mulher. Parece que está sonhando acordado, e tudo isso depois de um único encontro do qual ela fugiu de você.”

“Ela não fugiu de mim.” Rebateu Robin, respirando fundo. Por que era verdade, não era? Regina estava protelando para ir embora, era quase como se ela sentisse o mesmo que ele, como se ela estivesse seduzida e magnetizada pela eletricidade latente que os cercava. “Ela tinha que ir embora.”

“Você já pensou que ela pode ser uma atendente de tele sexo e deixou você para ir bancar a dominatrix com algum cliente?”

Robin colocou a língua para fora, fazendo uma careta antes de arremessar um sapato no outro homem. “Você é um homem nojento e pervertido, Johnnie. Por que mesmo eu ainda sou seu amigo?”

“Pode ser verdade, meu amado, você...”

“Não fale assim de Regina.” A voz dele era brincalhona, mas o homem à sua frente sentiu as notas de verdade em seu tom.

“Ela beija bem?” Robin franziu as sobrancelhas, fechando a cara e John sorriu. “Juro que é minha última pergunta.”

“Ela beija maravilhosamente bem.” Os olhos de Robin ganharam um brilho diferente e vivo, que iluminou seu rosto. “Eu não me importaria de beijar aqueles lábios todos os dias, e sentir a maciez do”

“Okay, hora de ir tomar seu banho gelado.” Rebateu John, acertando a cabeça dele com o travesseiro que o mesmo havia arremessado algum tempo antes. Observou seu amigo pegar o travesseiro e colocar por baixo do seu dorso. “Vamos sair amanhã? Sem trabalho, como ouvintes.”

“Vamos. Mas você paga os convites.”

“Você é um malandro, Locksley.”

“Talvez.”

***

Valerie adorava a combinação do Bloody Mary. O suco de tomate tinha uma gentileza culinária que era subestimada, mas combinada ao álcool e ao tempero inglês, era como uma carícia no céu de sua boca.

Regina e Rosie estavam sentadas à sua frente. Rosie parecia bastante relaxada, ao contrário da morena. Ambas seguravam suas taças de champanhe alemão, cerejas submersas brincando no fundo do liquido.

“The Rabbit Hole traz, em sua elegante e rústica essência, uma amostra da noite boêmia e jovial. Para almas novas em ascensão e almas antigas que se recusavam a ceder ao envelhecimento e ao esmaecimento de seus gostos musicais, eis a saída que tanto procuravam.” Leu Regina, vidrada na coluna da revista. Ela ergueu os olhos e Valeria apenas sinalizou com os dedos para que ela continuasse. “Uma decoração icônica que mistura passado e presente acompanha um cardápio agradável, bebidas geladas, um ambiente longe do centro caótico. O tratamento dado pelos funcionários é excelente, acomodações gentis com os mais exigentes clientes. E por um preço que deve manter o local lotado pelas próximas semanas. A redação da revista recomenda com vigor!”

“Ainda não vi nada absurdo.”

“Observação.” Continuou Regina, ignorando a amiga à sua frente. “Uma salva de palmas e um adendo para mantermos os olhos abertos na banda que surpreendeu durante a noite. The Merry Men. Harmonia, transição e um repertório muito bem ministrados por um vocalista cuja voz é tão bela e marcante quanto o restante do figurino. Capaz de fazer até mesmo as mais exigentes ouvintes pedirem um bis. Fiquem atentos a esse talento.”

Rosie sorriu, bebendo seu champanhe. Valerie merecia pontos por isso. Provocar Regina era uma atividade que ambas adoravam e intercalavam quase sempre que o trio estava unido.

“É sério, Valerie? Sério mesmo? Mesmo, mesmo?” Cobrou Regina, ligeiramente irritada. Jogou a revista sobre a mesa e fitou a loira do outro lado da mesa.

“Regina, dahling. O rapaz é mesmo talentoso. Eles mereciam uma indicação.”

“Você quer me dizer que isso não teve absolutamente nada a ver com o fato de eu e ele termos alguma história?”

“Então você admite que há uma história.” Rebateu a loira e Regina percebeu o erro que havia cometido. Mordeu o lábio inferior delicadamente percebendo que Valerie a encarava atenciosamente, assim como Rosie que virou a cadeira na sua direção.

“Ah.” Gemeu Regina, revirando os olhos e olhando longe. “Quando vocês vão deixar isso para lá?”

“Não vamos.” Rebateu Rosie, suspirando fundo e sorrindo diabolicamente antes de voltar a beber seu champanhe. “Você quase não demonstrou interesse em ninguém desde o divórcio e de repente, este cara aparece e você me diz que não só concordou em ir tomar café com ele como deixou que ele te beijasse como um adolescente excitado e quer que nós duas simplesmente esqueçamos isso?”

“Sim.” Regina fitou os olhos dela com determinação. “Quero que apaguem dessas cabecinhas cobertas por fios dourados e me deixem em paz.”

“Não vai acontecer, meu amor.” Rebateu Rosie. “Vamos vasculhar a cidade e achar esse cara e vocês vão sair de novo.”

“Eu já saí com ele uma vez, porque você pediu.” Sibilou Regina, irritada com a insistência das amigas sobre aquele assunto. “Eu não vou fazer isso de novo. Tire seu cavalinho da chuva, Bell. Chega. Eu não tenho nenhum interesse em vê-lo de novo. Parem de ficar criando teorias e festas de casamento sobre um encontro e alguns beijos. Isso acabou.”

“Mas Dahling”

“Chega. Vocês entendem o que é chega? Chega.” Resmungou a morena, encerrando o assunto. Valerie desistiu de insistir, mas Rose não estava nem um pouco feliz com aquela conclusão. Não, algo deveria ser feito, alguém deveria impedir Regina de continuar cometendo erros e dispensando os homens legais. Talvez não naquele momento porque ela temia que daqui a pouco Regina empunharia sua arma e daria um tiro em cada uma, mas ela definitivamente se recusava a desistir. Havia algo ali, com aqueles dois. E ela não ia desistir até descobrir o que era.

Valerie terminou seu drinque. Ela respirou fundo e encarou Regina, que rapidamente percebeu que algo estava fora do lugar. “O que há, Deville?”

“Giles me procurou.”

Rosie ergueu os olhos. Giles Hambrey havia sido o último marido do qual Valerie havia se desfeito. Divórcios não eram incomuns para Valerie – elas já haviam perdido a conta de quantas anulações, divórcios, acordos, festas, considerações entre outros eventos aos quais haviam comparecido. Giles e Valerie eram absurdamente felizes, até que um dia, não eram mais.

“E?” Questionou Regina.

“Ele quer me levar para jantar. Quer conversar.”

“Sobre?” Questionou Rosie e Regina revirou os olhos ao mesmo tempo que Valerie. Rosie as vezes acabava sendo mais ingênua do que uma criança.

“Sobre a cotação das ações da Wells Fargo, Rosie.” Zombou a loira. “É claro que é sobre nós. O divórcio.”

“Honestamente, Val....” Regina suspirou, brincando com a borda da taça. “Já se passaram sete meses e nenhuma de nós duas sequer sabemos porque houve um divórcio. Você parecia muito feliz com ele.”

“Eu era muito feliz com ele.” Rebateu ela, e de repente girou a cadeira, virando-se de costas para elas e de frente para a grande vidraça, cuja vista privilegiada e panorâmica exibia uma selva de prédios, conhecida como o centro da cidade. Atrás dela, Regina e Rosie trocavam um olhar significativo. Já haviam conversado sobre isso. Talvez o número acentuado de divórcios a traumatizara porque depois de algum tempo a felicidade passou a assombrar Valerie. Era como se fosse um defeito, uma deformidade no relacionamento que precisasse ser consertada.

“Talvez você devesse ir jantar com ele.” Respondeu Rosie, criando coragem de apontar o óbvio.

“É melhor não revirar o passado.” Sussurrou Valerie, virando-se, mas evitando olhar ambas nos olhos. Fazendo seu melhor para parecer preocupada, ela começou a vasculhar alguns artigos que haviam sido enviados da redação para a próxima edição da FAME.

“Talvez ainda não tenha virado passado e é exatamente por isso que é tão difícil, Valerie.”

Ela encarou Regina, surpresa com a coragem da morena de apontar tão diretamente o centro da dor. Respirou fundo, limpando a base da garganta e eliminando as lágrimas que pensavam em nascer antes mesmo de serem devidamente produzidas. “Eu não quero falar sobre isso agora.” Concluiu, e ambas apenas aceitaram, voltando a bebericar o liquido dourado em suas taças.

Regina suspirou, pensando em todas as coisas que tinha que fazer. Rosie e Valerie estavam conversando animadamente sobre algum lançamento, uma festa que ocorreria naquela semana e a morena permitiu-se distrair com os próprios devaneios. Assim como em todos os momentos de seus dias, ele veio à sua mente. Com seus cabelos loiros, espetados, espalhados sedutoramente e que pareciam suplicar pelo toque dela, ou com os olhos azuis, órbitas brilhantes e límpidas que faziam seu estômago flutuar com sensações suaves e borbulhantes.

Apesar de suas tentativas insistentes de bloquear o assunto, ela não conseguia fugir de seu próprio cérebro. Havia muito tempo em que um homem não a fizera sentir assim. Era claro que ela tivera alguns momentos, precisamente dois; mas nenhum deles fora tão dolorosamente incisivo, nenhum deles ocupara sua mente contra a sua vontade, nenhum deles a tinha inundado com tanto desejo.

Um leve rubor cruzou sua face quando ela lembrou que havia gozado enquanto assistia um vídeo pornográfico, e desejara que fosse ele, ele beijando seu corpo, aqueles lábios que a beijaram enlaçando seu mamilo com desejo e levando-o ao fundo da boca e sugando, enquanto ele a penetrava uma, duas, cinco, dez, vinte, trinta vezes e a levava a um orgasmo tão intenso que todos na vizinhança saberiam que ela havia sido bem fodida. Ela jamais havia desejado um homem que ela mal conhecia daquela maneira; na verdade, quanto a esse desejo ardente e inescrupuloso por um homem que ela conhecera brevemente, ela devia confessar que jamais se sentira assim por ninguém. Nem mesmo por Jefferson, pois todos os seus sentimentos a respeito dele haviam sido gradativos, haviam sido cultivados e amadurecidos, e podados durante o caminho.

Mas Robin, ele despertava nela uma chama intensa de sensações e desejos que até então lhe eram desconhecidos e foi exatamente isso que ela temeu. Ele era uma ponte, uma conexão para um outro patamar, um que ela não tinha certeza que era capaz de alcançar.

“Regina?” Chamou Valerie, e ela parecia estar lendo exatamente tudo o que cruzava a mente da melhor amiga. O sorriso em seu rosto, conotativo e ligeiramente revelador, não deixava dúvidas de que ela havia sido pega em flagrante.

“Sim?” Respondeu, certa de que o rosto dela estava vermelho e torcendo com toda a sua força para que elas não insistissem naquilo.

“Rosie acabou de perguntar se você quer ir ao The Brew. Você sabe, vinho e queijos.”

Regina balançou a cabeça, a garganta de repente seca e árida e arranhando quando ela sequer respirava. Era isso que aquele homem fazia a ela; ele era uma incógnita, um xis no meio de suas equações. Robin representava o epítome de seu descontrole e ela almejava o controle de todos os aspectos de sua vida. Foi exatamente neste momento que ela se deu conta de que deveria se manter o mais longe possível dele.