Roleta Russa
17 Capítulo 17
Regina estava encostada no batente da porta observando Valerie dormir. Era difícil lidar com todos os sentimentos conflitantes dentro dela; preocupação era seu carro chefe, seguido por raiva. Uma raiva na qual ela sabia, terminantemente, que não podia alimentar. Era uma policial, treinada, e precisava encarar as coisas sob a luz da justiça. Designou dois oficiais para ficarem na porta, garantindo a segurança da sua amiga e iria fazer com que o bastardo pagasse por suas atitudes, mas não podia perder a cabeça. Tinha uma operação gigantesca e igualmente perigosa em mãos e odiaria ter que passá-la ao comando de outra pessoa. Apesar dos médicos terem sido veementes sobre os ferimentos de Valerie – poucos hematomas demonstravam traumas mais profundos, e a aparência era de fato muito pior do que a real situação, Regina ainda estava preocupada.
Rosie voltou da cafeteria, seu rosto parecesse igualmente cansado e estressado. Estava pálida, os cabelos ligeiramente bagunçados, enfiada em uma calça jeans e um moletom grande demais para ela. Ela sequer se lembrava da última vez que vira Rosie Bell vestindo um moletom. Trouxera consigo dois cafés, e entregou um à Regina. “Como ela está?”
O café era razoável, mas havia uma pitada de canela e creme e a morena agradeceu aos céus por ter amigas que a conheciam tão bem. “Com todos os medicamentos que deram a ela, vai dormir até amanhã.”
Elas queriam saber o que havia acontecido, mas respeitavam muito mais a integridade da mulher ferida à sua frente. Ao mesmo tempo, Rosie podia ler as emoções no rosto de Regina. Podia sentir a raiva transpirando pelos poros da mesma e não podia evitar sua própria preocupação. “Regina...”
“Rosie, agora não. Ela pode estar ouvindo, não sabemos como essas medicações agem.”
A loira olhou para a amiga e balançou a cabeça. Segundos depois, dois toques na porta anunciaram a ela que Graham havia retornado. Regina deu uma última olhada em Valerie e estava prestes a sair quando sentiu o toque de Rosie em seu braço. As mãos delicadas tocavam sua pele com cuidado.
“Regina... Eu sei o que você está pensando, mas por favor, use de discernimento. Eu sei que é difícil, porque se trata da Valerie. Mas não faça nenhuma besteira. Nós precisamos de você. Valerie precisa de você. Você tem dois filhos que precisam de você.”
Regina sorriu, acariciando o rosto da sua amiga. “Eu não vou mata-lo, mesmo sendo a minha vontade. Confie em mim.”
Fechando a porta atrás de si ela olhou para Graham. “Temos uma localização?”
“Sim.”
“Ótimo. Nós vamos primeiro. Depois chamamos o reforço.”
Ele consentiu, seguindo-a na direção da saída.
***
Jefferson dobrou as mangas de sua camisa azul marinho, o telefone preso entre seu ombro e a orelha. “Como assim nada no radar da polícia? Eu tenho lhe mimado com vários ingressos para quê, Josh? Encontre esse maldito.” Assim que desligou a chamada, ele retornou para Rosie.
“Rosie, alguma notícia dela?”
“Valerie está dormindo. Regina saiu faz algum tempo. Com Graham. Eles não estavam acompanhados.”
“Não há nada correndo na rede da polícia.”
“O que quer dizer que ela o encontrou, mas não reportou. Jefferson, isso é pior ainda. Ela ama Valerie e vai...”
“Eu sei exatamente o tipo de coisa que Regina é capaz de fazer.”
Rosie permaneceu em silêncio por algum tempo. “Se não podemos pará-la... Faça o que você sabe fazer de melhor, Hatter.”
Ele fitou a entrada, observando os faróis que apontavam na entrada de sua propriedade. Possivelmente as crianças haviam chegado em casa. “O que?”
“Seja um advogado. Se Regina fizer algo de errado, vai precisar de um. Se não puder ser você, orquestre algo. Precisamos protegê-la.”
Jefferson suspirou. “Considere feito.”
Segundos depois, Emma afastou a porta com cuidado. “Jeff.”
“Sim?”
“Eles chegaram. Quer que eu peça para servir o jantar? Quer falar com eles primeiro?”
“Emms eu...” Mas a continuidade nunca veio. Emma percebeu imediatamente que ele não estava bem. Ela entrou no escritório, fechando a porta atrás de si.
“Levante.”
“Emma, você não...”
“Eu disse levante, Jefferson.”
Ele levantou-se, se afastando da cadeira. Segundos depois, ele sentiu quando ela o abraçou. As mãos dela rapidamente encontraram caminho para as costas dele, acariciando-o, apertando-o. Aos poucos, ele cedeu, abraçando-a. Eles permaneceram abraçados por algum tempo, e Emma afastou apenas para beijá-lo com carinho, voltando a tocar seu rosto e acariciar seus cabelos em seguida.
“Vai ficar tudo bem com Valerie, Jeff.” Sussurrou ela, e ele estreitou os braços ao redor de sua cintura.
“Eu não estou preocupado com ela, Emms.”
Ela olhou-o nos olhos e finalmente entendeu o que estava acontecendo. “Regina.” Comentou ela.
“Eu não quero que você ache inapropriado, mas...”
“Jeff.” Chamou ela, a voz calma e delicada, uma manta serena que parecia ter um efeito anestésico sobre ele. Ela deslizou a mão para a sua nuca, puxando-o para si. Entreabriu os lábios imediatamente, e permitiu que sua língua deslizasse para a boca dele, incitando-o a beijá-la com vontade e ele aceitou, dando acesso a ela e devolvendo a intensidade daquele gesto. Quando o ar se fez escasso, ela afastou-se apenas o suficiente para olhar em seus olhos. “Não importa o que você tenha que fazer. Não importa se for ilegal, indecoroso, inapropriado. Faça o que tem que fazer para proteger nossa família. Ela sempre será família, seja você casado com ela ou não. Eu espero isso de você. Cuide dos nossos.”
Ele manteve os olhos nela, surpreso com aquelas palavras. Emma apenas se desvencilhou, afastando-se dele. “Vou pedir que sirvam o jantar. Está tarde e as crianças precisam comer.”
“Eu estou a caminho.” Respondeu ele, recuperando-se. “Só preciso fazer mais uma ligação.”
***
Ao estacionarem na frente da casa de Giles, Regina respirou fundo. Repetiu mentalmente todos os motivos pelos quais não podia perder a cabeça. As pessoas que dependiam dela. Sua reflexão foi interrompida quando sentiu dedos firmes e fortes circulando seu pulso. Imediatamente ela se virou, encarando Graham como se ele tivesse lhe acertado um soco.
“Regina, você tem certeza disso?”
“Você está ultrapassando limites aqui, Graham. Não me toque a menos que eu lhe dê permissão.”
John a soltou imediatamente. Ela sabia que ele estava apenas preocupado, como todos os outros. Mas precisava que ele fosse profissional. Que fosse seu braço direito. “Eu vou entrar com ou sem você.”
No minuto seguinte, ela já estava fora do carro. Apenas uma viatura os acompanhava, estacionada a alguns metros, mas aguardando confirmação dela para entrarem. Regina subiu as escadas de acesso, e chegou à porta lateral de acesso à cozinha. Percebeu que Graham estava logo atrás dela, mas não comentou. A porta estava destrancada, como sempre. Era uma das coisas que Valerie sempre comentava – o homem parece não ter medo de nada, a casa toda vive aberta, Regina— e a mera lembrança de Valerie fez com que sua respiração acelerasse imediatamente.
Entrou na casa em silêncio, mas pode ouvir a televisão ligada na sala. Era alguma espécie de esporte, podia ouvir o som da torcida, buzinas intermitentes, alguns apitos, homens comentando avidamente algo que ela não conseguia distinguir. Até que ela entrou na sala, e então todos os sons ao seu redor foram bloqueados pela visão de Giles, deitado na poltrona, com um balde de pipoca em seu colo. Como se nada tivesse acontecido. Como se ele não tivesse espancado sua melhor amiga. Ela podia ver os nós de seus dedos, avermelhados, possivelmente doloridos e acima de tudo, agora ela podia ver seus olhos.
Olhos de um pânico quase surreal. “Re... Regina?” Balbuciou ele, e ela sorriu, todos os seus mantras imediatamente desaparecendo. “Eu posso exp....”
Regina não lhe permitiu terminar a frase. Puxou a cabeça dele para dentro do balde de pipoca, acertando-o com um soco que o lançou para fora da poltrona. “Você não tem explicação para dar, maldito.” Sibilou ela, mergulhada em sua raiva. Um chute fez com que Giles recuasse contra a mesa, e Regina aproveitou o movimento para pegá-lo pelo cabelo e bater sua cabeça no móvel, fazendo com que sangue esguichasse pelo chão. “Eu deveria matar você por ter tocado nela, Giles.”
“Regina...” Alertou Graham, tentando fazer com que ela voltasse a si.
Mas ela não estava escutando. Acertou mais dois socos no homem que sequer estava reagindo, e chutando-lhe entre as pernas com toda a força que pode. Ele cuspiu sangue, berrando de dor e Graham a pegou pela cintura, afastando-o dele. “Regina, você vai se encrencar. Pare.”
Ela virou-se para o corredor para respirar fundo, e uma das policiais que supostamente estavam esperando do lado de fora da residência acertou-a desprevenida, um soco de direita tão firme que Regina sentiu todo o seu crânio ranger. Ao cair no chão, ela ainda estava ligeiramente tonta e a última coisa que ouviu foi o grito de Graham, antes de levar outro soco tão firme que a fez apagar.
***
“O que aconteceu com a tia Valerie?”
Jefferson ergueu a cabeça, fitando Roxanne; não se moveu, parecia paralisado pelo efeito anestésico do uísque que agora navegava por suas veias e pelo calor convidativo da lareira. “Venha até aqui, Roxy.” Pediu ele e ela entrou, passos lentos e um olhar distante. Apesar de sua mão estendida sobre o estofado do sofá macio, pedindo que ela se sentasse ao seu lado, Roxanne escolheu a poltrona, mais próxima da lareira.
“O que aconteceu com ela, pai?”
Jefferson respirou fundo, tirando os olhos do fogo e fixando nos olhos dela. Ela era um reflexo de Regina. Os cabelos escuros e lisos, os olhos amendoados, escuros, que pareciam ler a sua alma como um folheto de mercado. “Às vezes, os adultos...”
“Pelo amor de Deus, pai. Você acha que tenho quantos anos? Corte o discurso barato e me fale porque estamos aqui, porque minha tia está no hospital e porque minha mãe não atende o celular. Ou você prefere que eu procure na internet? Garanto que consigo as respostas.”
“Sua tia foi agredida, Roxanne. Por um covarde. Então sua mãe está exercendo o papel dela como policial e era melhor trazer vocês para cá. Não sei se ela vai dobrar o plantão e ela não queria deixar vocês sem ninguém por perto.”
Talvez ela não estivesse tão pronta para a verdade como imaginava. Lágrimas brotaram em seus olhos, e ela tentou descarta-las de maneira imediata. Sua voz estremeceu um pouco e ela teve que recomeçar a pergunta. “Quem fez isso com ela?”
“Que diferença isso faz, Roxanne?”
“Eu quero saber, essa é a diferença.” Rebateu ela, visivelmente irritada.
“Giles.”
Ela entreabriu os lábios, chocada. “Mas o tio Giles sempre foi tão gentil. Eu...”
“As pessoas nem sempre são o que aparentam, Roxanne. Nós nunca as conheceremos de verdade. A natureza humana é tão traiçoeira e sombria...”
“Quão sério são os ferimentos?”
“Roxy...”
Ela estava prestes a seguir quando Gepetto, o jardineiro, deu dois toques na porta. “Gepetto?”
“O seu amigo chegou, dona Roxanne.”
Roxanne levantou-se rapidamente. Jefferson arqueou as sobrancelhas, curioso. Não era uma reação típica de sua filha. Ela atravessou a sala, saindo sem dizer nenhuma palavra, o que o deixou ainda mais inquieto. Gepetto sorriu, e afastou-se em seguida. Jefferson levantou-se e seguiu seu caminho até a entrada. Roxy estava retornando, a mão entrelaçada à do garoto, guiando-o na direção das escadas quando ergueu seus olhos e percebeu a presença dele.
“Não vai me apresentar seu... amigo, Roxanne?” Questionou ele, ainda incerto se aquele rapaz era mesmo apenas um amigo. Quer dizer, ela nunca trouxera ninguém para a casa dele. Ao menos não para dentro. Muitos deles a buscavam ali, carros e carros, mas ela jamais permitira que eles entrassem do portão para dentro.
“Eu que peço desculpas, Senhor Hatter.” Adiantou-se o rapaz, soltando-a e caminhando até ele. Estendeu a mão, apresentando um aperto de mão firme e forte, digno de respeito. Vestia roupas escuras; um jeans batido, um suéter preto e liso, sapatos bem lustrados. Bem diferente do que ele estava acostumado a ver entre os colegas de seus filhos. “Meu nome é Leo Scarlett. Eu estudo na mesma turma que a sua filha.”
“Você trabalha, Scarlett?”
“Sim, senhor. Eu faço diversos bicos, ainda não tenho um emprego fixo porque também faço diversos trabalhos para a universidade.”
“Você costuma frequentar os mesmos lugares que a minha filha? Foi assim que se conheceram?”
Leo riu, mas rapidamente endireitou-se. “Senhor, eu não sou rico. E também não tenho muito tempo. Tenho outras obrigações. Eu e Roxy pegamos muitas salas juntos. Foi assim que eu a conheci.”
Jefferson balançou a cabeça, como que digerindo a informação. O garoto era agradável. Ao menos ele não se sentira imediatamente defensivo, apesar de que o semblante de Roxanne parecesse aborrecido. “E vocês são...”
“Amigos, pai. Pelo amor de Deus. Acabou o interrogatório? Ou vai colocá-lo no polígrafo antes?”
Jefferson sorriu com o canto dos lábios para o jovem à sua frente. “Foi um prazer, Sr. Scarlett.”
“O prazer foi meu, Sr. Hatter.”
“Vamos logo, Leo.” Resmungou a garota, adiantando-se e pegando-o pela mão, puxando-o na direção das escadas. Jefferson os seguiu com os olhos, percebendo que eles não trocaram nenhuma palavra até desaparecerem de sua vista. Era claro que eles estavam se enganando, e ele riu. Leo poderia ser apenas um amigo naquele momento, mas ele não era apenas um amigo para ela.
Afinal, ela nunca apresentara nenhum amigo para ele.
***
Ao entrarem no quarto dela, Leo assoviou. Era gigantesco. Um pouco bagunçado, mas ele achou aquilo de certa forma muito típico dela. “Me desculpe pelo meu pai. Não sei o que deu nele.”
“Você não deveria ser tão impaciente com ele. Ele estava apenas sendo pai.”
“Não comece, esquisito.” Brincou ela, sorrindo. “Pode se sentar, e não olhe muito para a minha bagunça.”
“É difícil não olhar, mas vou tentar.”
Leo se sentou, finalmente tendo tempo para olhar para ela. Não que ele não tivesse olhando antes, mas de uma maneira mais plena. Os cabelos escuros caiam pelos ombros bagunçados. Usava uma camiseta longa e lisa de malha, jeans justos, tênis escuros. Quando ela se virou para ele, percebeu que ele estava encarando-a. “O que foi?”
“Senta.” Pediu ele, sorrindo timidamente e ela aceitou, cruzando a distância entre eles e sentando-se ao lado dele. Demorou apenas dois segundos para que ela deitasse, respirando fundo e fitando o teto. Leo não se deitou, apenas virou-se para ele, atento ao rosto delicado e feminino. Ela era linda. “Como você está?”
“Um pouco triste.” Confessou ela, os olhos castanho encontrando os olhos azuis em segundos. Ele encostou os lábios, apreensivo e deixou que ela continuasse. “Com raiva.” Ela voltou a fitar o teto, e lágrimas tentaram surgir, mas ela as afastou. “Um misto gigantesco de emoções. Eu me sinto um pouco desamparada.”
Sentiu quando ele colocou a mão sobre a dela, apertando levemente. “Hey, eu estou aqui com você.”
“Eu sei, Leo.”
“O que vai acontecer com o seu trabalho?”
Ela voltou a encarar os olhos dele. “Como assim?”
“Sua tia está hospitalizada...”
Ela riu. “Isso só quer dizer que ela não irá trabalhar. O meu trabalho continua o mesmo, ou até mesmo pior. A revista não pode parar. Ela me mataria.”
“E como tem sido?”
Ela deitou na cama, e ele finalmente deu-se por vencido. Deitou-se ao lado dela. Eles ficaram algum tempo em silêncio, apenas fitando o teto como se isso fosse lhes trazer quaisquer respostas. As pernas suspensas tocavam o chão, e Roxanne quebrou o silêncio. “Eu... Eu ainda me sinto perdida. Quer dizer, não sinto que tenho autonomia. Não sei exatamente o que estou fazendo. Às vezes eu me sinto apenas a substituta da Nicole.”
“Eu não entendi.”
“Nicole não é a melhor instrutora do mundo, Leo. Ela é toda bagunçada, as coisas ficam por todo lado, você não faz ideia.”
Ele balançou a cabeça, pensando no que ela acabara de dizer. Roxy estava frustrada. “Sabe, talvez seja a hora de você decidir o seu ritmo de trabalho. Você sabe o que tem que fazer, não sabe?”
“Teoricamente, sei.”
“Então faça do seu jeito, Roxy. Se acha que está mal organizado, arrume. Se acha que as coisas podem ser feitas de outro jeito, faça. Afinal, Nicole está indo embora e depois você terá que lidar com tudo sozinha. É melhor que seja do seu jeito.”
Ela revirou os olhos. Por que ele sempre tinha razão? “Você é muito inteligente. Odeio isso.”
“Ah, você preferiria que eu fosse burro?”
“Sim.” Riu ela.
Leo balançou a cabeça, levantando-se da cama e aproveitando para dar uma volta pelo quarto. Encontrou um painel de fotos, mergulhando num universo muito familiar. Diversas fotos de eventos da escola, Roxanne na companhia de muitos dos colegas que eles tinham em comum, com seus pais, com Henry. No canto do painel, uma daquelas fotos tiradas em cabine, Roxanne e um homem, aparentemente velho demais para ainda estar no colégio. Possível ex-namorado, a menos que ela estivesse acostumada a beijar os amigos daquela forma.
“O que você achou de interessante aí?” Questionou ela, aparecendo à sua esquerda, apoiando uma das mãos no ombro dele.
“Vida ocupada.” Brincou ele, apontando para as muitas fotos.
“Considerando que a maioria dessas pessoas não são minhas amigas de verdade, não é grande coisa.”
“Eu nunca entendi isso. Se você sabe que não é real, por que continuar?”
Ela fitou as fotos por algum tempo. “Comodidade, acho. Quer dizer, as pessoas fazem questão da sua companhia, as pessoas te tratam com privilégios, as pessoas te tratam com prioridade. É algo que amacia o ego, não acha? É a esfera social em que eu vivo, as coisas são assim. Meus pais também tinham diversos ‘amigos’ desse tipo. É uma fachada que acaba acontecendo involuntariamente, uma máscara que você apresenta à sociedade. E eles aplaudem, e tudo fica bem.”
“Que doidera.” Resmungou ele.
“Você já jantou?”
“Ainda não.”
“Então vamos comer alguma coisa.”
“Roxy, não precisa...”
“Claro que precisa. Você não comeu ainda. Anda.”
Ela atravessou o quarto e esperou por ele. Ele não queria mesmo dar trabalho a ela, ou qualquer outro empregado que seria encarregado dessa função, mas sabia que ela não descansaria até convencê-lo disso.
“Tudo bem, desde que você coma alguma coisa também.”
“Posso fazer esse sacrifício.” Brincou ela.
***
Sua cabeça latejava. Como um tambor distante, ressoando vez por outra, uma melodia quase poética. Abriu os olhos, constatando que estava em algum consultório médico. Um soro descia para um acesso em seu braço, hidratando-a. Um pouco zonza, alcançou o frasco e virou-o, certificando-se do que é que estava sendo inserido em sua veia.
“Olá, estranha.”
Regina virou-se e encarou-o.
“Robin?”
Ele levantou-se e caminhou até ela, sorrindo. O que havia acontecido com ela? O que ela estava fazendo ali? Tentou ajeitar, puxando as pernas para sair daquela maca. Que horas eram? Onde estavam seus filhos?
“Regina, é melhor você esperar o médico ou a enfermeira antes de sair daí.”
“Robin... Por que eu estou aqui? Por que você está aqui? O que aconteceu?”
Ele acariciou seus cabelos, com um sorriso doce nos lábios e ela relaxou sobre o seu toque. Os olhos azuis pareciam tão límpidos, e ele parecia incrivelmente feliz de vê-la, mesmo que fosse ali e mesmo que ela estivesse absurdamente perdida. “Eu não sei muito. Eu trouxe o meu pai ao hospital porque ele estava se sentindo mal, e encontrei com Rosie. Ela me disse que você estava aqui e conseguiu que os policiais lá fora me deixassem ficar um pouquinho.”
“Não faz tempo que você está aqui?”
“Não. Deve fazer uns vinte minutos, no máximo.”
“Então você não sabe por que eu estou aqui.” Concluiu ela, suspirando resignada e voltando a deitar.
“Não exatamente. Rosie disse que você levou uma pancada muito forte.” Ele acariciou a lateral de seu rosto, e ela percebeu uma sutil mudança no semblante dele. Algo que se parecia com preocupação, mas também com.... dor. “Eu não vou perguntar nada, não se preocupe. É o seu trabalho.”
“Você sempre me encontra nos lugares mais inusitados, não é?” Brincou ela, tentando afastar a nuvem densa que se aproximava deles. Não queria transformar aquela situação em algo intenso e dramático. Não havia necessidade.
“E você consegue me encantar em qualquer situação, não é?”
“Oh, que flerte barato.”
“Eu tentei.” Brincou ele, rindo e ela sorriu.
“O que seu pai tem?”
Robin voltou a ficar sério quase imediatamente. “Ah, meu pai. A saúde dele já não é a mesma, e nem melhora, pois em vez de diminuir o ritmo de trabalho ele só pensa em trabalhar mais e mais e mais.” Suspirou. “Os pulmões dele estão fracos. Às vezes ele tem essas crises de falta de ar e precisamos trazer ele para o hospital.”
“Mas ele já está melhor?”
“Sim. Ele prefere ficar aqui do que comigo ou com Killian em casa. As pessoas daqui ainda tem paciência para os papos dele.”
Regina sorriu, tocando a mão dele. Robin acompanhou o gesto com os olhos, mas não se moveu. “Eu quase liguei para você hoje.”
“Deveria ter ligado.” Respondeu ele, observando-a deslizar a mão sobre a dele, os dedos brincando ao redor um dos outros, o calor do toque dele lembrando-o o quanto era bom estar ao lado dela.
“Eu não quis apressar as coisas. Nós nos vimos ontem.”
“Regina...” Ele abaixou, segurando o rosto dela num encaixe gentil. Seus olhos azuis mergulhados no chocolate dos olhos castanhos, o polegar deslizando sobre a pele dela, sobre a maça de seu rosto, sobre os lábios. “Se fosse por mim, eu nem teria deixado você ir embora. Eu veria você todos os dias, se não achasse que isso faria você se cansar de mim.”
“Eu não consigo imaginar um mundo onde eu me canse de você, Robin.”
“Você fala isso agora que já beijou esses lábios, porque antes só sabia fugir de mim.”
“Qual seria a graça se eu tivesse ficado?” Sussurrou ela, sorrindo, antes de roçar os lábios nos lábios dele. “Eu gosto de provocar você, Robin. Você é calmo demais para o meu gosto.”
“Mulherzinha insuportável.” Resmungou ele, fazendo-a sorrir antes de tomar seus lábios em um beijo doce. Doce, mas não casto. Regina entreabriu os lábios quase que imediatamente e ele não se demorou a adentrar a boca macia com sua língua, beijando-a com afinco e desejo. As mãos dela acariciavam seus braços delicadamente, e algum tempo depois ele soltou-a, deixando que o beijo delicadamente se encerrasse, beijando-a no rosto e depois depositando um beijo delicado em sua testa.
Dois toques na porta fizeram com que ele se afastasse dela, e Regina ainda estava com as mãos entrelaçadas às dele quando a porta se abriu, revelando Jefferson e Rosie. Os olhos do advogado viajaram imediatamente para as mãos entrelaçadas. “Regina?”
“Olá, Jefferson. Rosie.”
Robin percebeu a súbita mudança no temperamento dela e resolveu que era a deixa para sair. Olhou para ela, e recebeu um olhar de carinho. “Eu ligo para você.” Ela apenas balançou a cabeça, agradecendo-o mentalmente por não a ter colocado em nenhuma situação difícil na frente de seu ex-marido, ainda mais quando ele sequer havia sido introduzido. Assim que Robin saiu, sem dizer nenhuma palavra, os dois entraram e fecharam a porta atrás de si.
“Quem era aquele?”
Regina fechou os olhos por alguns segundos. Ao abri-los, havia um Jefferson curioso e ansioso por uma resposta. “Aquele era o Robin.”
“Robin de quê? Da onde? Eu conheço?”
“Robin de onde não lhe interessa, Jefferson.” Resmungou ela, encarando-o como se fosse enfiar um tridente nas entranhas do mesmo. Sua atenção rapidamente se transferiu para Rosie, que havia sentado ao seu lado e mantinha uma expressão ilegível no rosto. “Eu quero saber por quê eu estou aqui.”
“Regina...” Começou ele e ela não precisou de mais nada. Ele tinha feito alguma. Conhecia Jefferson como a palma de sua mão. Conhecia cada uma das tonalidades de sua voz, e os diferentes modos de chama-la, dependendo do que tinha acontecido. E aquele, hm, aquele era o som de quem tinha feito algo que ele sabia que faria com que ela gritasse com ele de modo que todos os médicos daquela instituição ouviriam. Não importa quão longe estivessem.
“O que você fez?” Rebateu ela, a voz já baixa e rouca, transparecendo a raiva pelo o que viria a seguir.
Jefferson desviou o olhar para Rosie e Regina fez o mesmo. Rosie abriu a pequena bolsa e tirou um espelho, entregando-o a Regina. Ah se eles soubessem o quanto ela detestava aqueles enigmas. Abriu o espelho portátil, certa de que deveria estar horrível. Robin a tinha visto daquele jeito. O pensamento a deixou ainda mais desanimada. Mas não foi isso que lhe chamou a atenção no reflexo. Havia uma marca em seu rosto. Uma faixa esverdeada, com nuances roxas, um claro hematoma das pancadas que ela havia levado no rosto. A memória lhe atingiu com força; Giles caído no chão, sangrando, Graham afastando-a, a policial que a nocauteou.
“Quem é responsável por isso?” A voz firme e fria da delegada ressoou pelo quarto e Rosie engoliu em seco, encarando Jefferson. Regina acompanhou o olhar da amiga e riu, sarcasticamente ao entender o que ela queria dizer. “Tinha que ser, Jefferson. O que é isso? Uma vingança? Retaliação?”
“Para a imprensa, Giles Andrews resistiu à ordem de prisão e atacou você. Por isso precisou ser contido à força.”
Ela entreabriu os lábios, mas não disse nada. Jefferson continuou. “Ele havia postado uma foto com o rosto limpo e sem ferimentos horas antes de vocês chegarem na casa. A imprensa faria a festa com você, acusando-a de ferir um suspeito; os representantes dos Direitos Humanos entrariam com um processo; poderiam achar policiais corruptos que diriam que você ultrapassou limites por motivos pessoais. Sua carreira estava ameaçada, então fizemos o que achamos melhor para garantir que nada disso acontecesse. Eu liguei para a oficial Watson e disse a ela que você não podia sair da casa sem hematomas. Precisávamos comprovar nossa versão. Ela pediu inúmeras desculpas.”
Aquilo era mais do que inesperado. Era quase absurdo. Regina engoliu o nó que se formou em sua garganta e voltou sua atenção para Rosie. “Só estávamos protegendo você. Desculpe pelos efeitos colaterais.”
Regina balançou a cabeça, afirmativamente. Eles tinham lhe dado cobertura. Ela tinha ultrapassado os limites e eles fizeram o que tinham que fazer para protege-la. Ela esperaria isso de Rosie, mas honestamente, Jefferson a tinha chocado. Pensou no semblante de Robin e entendeu o olhar de preocupação e dor. Ela estava com um hematoma absurdo. “Rosie, você nos daria um minuto?” Pediu ela, e a loira aceitou. Levantou-se, mas antes foi até ela, beijando-a exatamente onde Robin havia lhe beijado, um toque delicado e carinhoso em sua têmpora. “Nós amamos você.”
Jefferson observou-as em silêncio. Rosie saiu do quarto pouco tempo depois, e ele respirou fundo. Era agora. Ela ia xingá-lo de todos os nomes que existiam na face da terra, em cinco línguas diferentes. Ia culpá-lo por tudo, ia odiá-lo, dizer o quanto ele havia sido corruptível e desonesto, ia dizer o quanto ele era um péssimo exemplo para os filhos.
“Obrigada.”
Sua garganta secou quando ele ergueu os olhos azuis e percebeu que Regina o encarava de volta. “Eu sei que não é algo que você está acostumado a ouvir de mim, mas tente não parecer tão chocado. Obrigada. Eu sei que você não tinha obrigação nenhuma de limpar minha bagunça por mim, e mesmo assim você o fez, então obrigada. Eu... não esperava.”
“Nós ainda somos uma família. Independente de quem com estejamos.” Concluiu ele, e ela sorriu.
“As crianças?”
“Estão em casa. Emma está com eles.”
Ela consentiu. “Quando vão me liberar?”
“A enfermeira deve estar a caminho. Eles disseram que assim que você acordasse poderia ir embora.”
“Como está Valerie?”
“Dormindo como um bebê.”
Ela balançou a cabeça. Se tudo estava bem, então ela não tinha com o que se preocupar. Ela poderia descansar um pouquinho. “Nesse caso acho que vou cochilar mais um pouquinho.”
“Você quer que lhe espere?” Perguntou ele.
“Não precisa. Eles me levam para casa.”
“Tudo bem. Fique bem, Regina.” Concluiu ele, e ela manteve o contato visual. “Ligue se precisar de alguma coisa.”
Ela balançou a cabeça, mesmo sabendo que ela jamais ligaria. Mas ele também sabia disso. Apesar da obviedade da situação, eles sempre se viam dançando ao redor das convenções sociais, as falas ensaiadas, a etiqueta social muito bem preservada. A luz se apagou e ele fechou a porta, e Regina decidiu que ela merecia uma pequena folga. Voltou a dormir.
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