Roleta Russa
12 Capítulo 12
Regina estava do lado de fora de uma cena de homicídio quando seu celular tocou. Pediu licença, recebendo o aval do oficial superintendente daquele distrito e se afastou, posicionando o aparelho sobre a orelha. “Hum”
Questionou, pensativa, olhando ao redor em busca de Graham.
“Hum? É assim que você atende as pessoas, Regina Mills?” Regina identificou a voz de Valerie e sorriu, os ombros relaxando de maneira branda.
“Olá, Valerie.”
“Está melhorando.” Resmungou a loira. “Estou ligando para me oferecer para pegar seus filhos no colégio. Vamos para o restaurante do Cece, depois eu os deixo em casa. Tudo bem?”
“Tudo…” Respondeu ela, confusa. “Eles aprontaram alguma coisa?”
A risada de Valerie ecoou pela linha. “Eu sei que eles fizeram por merecer essa desconfiança, mas não, eu só quero bater um papo com os meus sobrinhos preferidos.”
“Você não tem outros sobrinhos para eles serem os favoritos.”
“Isto é questão de perspectiva, darling.”
Regina sorriu. “Se eu conseguir sair daqui a tempo eu encontro vocês no restaurante. Pode demorar, já que a Forense está demorando uma eternidade para chegar. Caso contrário, mais tarde passo na Revista. Ou você estará em casa?”
“Eu provavelmente estarei na Revista.”
“Eu me pergunto para que você comprou uma casa se nunca está nela.”
“Eu me pergunto para que você compra camisinhas se nunca usa, Regina. Falando nisso…”
“Valerie, eu preciso desligar.”
Regina desligou o celular, respirando fundo. Fechou os olhos, odiando-se pela reação infantil. Não queria falar sobre a noite passada. Não queria falar sobre ele. Digitou uma mensagem rápida para Roxanne, avisando que Valerie os pegaria no lugar da mãe; a resposta veio através de um seco e insosso okay.
Infelizmente algumas coisas não mudavam.
***
“O que você fez no cabelo?” Perguntou Roxy, os olhos atentos à Henry. Ele havia passado a manhã de boné, e só agora ela tivera uma boa perspectiva. O rosto dele parecia mais marcado, o cabelo repicado. Ele deu espaço para o garçom colocar o prato com a macarronada à sua frente antes de virar-se para ela e responder.
“Cortei.”
“Não parece seu corte. Mamãe levou você ao salão e não me avisou?”
“Eu cortei o cabelo em outro lugar.” Respondeu ele, olhando ao redor com afinco, tentando evitar aquela conversa que ele sabia que não daria certo.
“Que lugar?”
“Em um amigo da Emma. Ela me levou.” Respondeu ele, irritado.
“Hum. Vocês já estão fazendo programas de mamãe e filhinho então? Esperava mais de você, brother.”
“Nem todo mundo sente necessidade de odiar as pessoas gratuitamente, Roxy. Um dia você vai aprender isso.”
“Eu não odeio ela gratuitamente. Você sabe muito bem que ela”
“Ficou maravilhoso, Henry. Deixou você com um rostinho mais maduro. Eu amei.” Cortou Valerie, desesperada em dissipar aquela discussão por território com pauta em Emma Swan.
Se fosse outra pessoa, ela teria continuado aquela discussão, mas Roxy adorava sua tia. Se algum dia tivesse que indicar uma pessoa cuja vida a deslumbrava, Valerie viria em primeiro lugar — então ela preferiu encerrar o assunto por ora; poderia questionar o irmão em outro momento. Adorava a sofisticação que parecia tão nata, tão natural, que parecia mesmo que a mulher já havia nascido com saltos altos e revestida de diamantes. Ela estava conversando algo com o garçom; e Roxy aproveitou para relembrar os detalhes do restaurante.
Costumava vir muito ao restaurante do Cece, mas as circunstâncias eram muito diferentes. Seus pais ainda estavam juntos. Sentavam um do lado do outro, os olhares distantes, seu pai com os olhos fixos no celular e sua mãe lendo o jornal. Vez ou outra sua mãe comentava algo ou mesmo chamava a atenção deles e seu pai vez ou outra levantava o olhar e acompanhava tudo em silêncio. Não era exatamente o relacionamento perfeito, mesmo naquela época. A princípio, ela achava que esse era o desgaste de um casamento de mais de uma década, mas hoje… Talvez não fosse o que ela considera normal. Talvez a rachadura já existisse, e o tempo só agravou a avaria.
“Ouvi dizer que você tem dado trabalho à sua mãe.” A voz da loira trouxe sua atenção à mesa. Henry estava muito ocupado, comendo sua macarronada enterrada entre gigantescas almôndegas e só ergueu o olhar quando Valerie entonou a voz. “Vocês dois, no caso.”
“Foi um acidente. Não era para ter sido daquela maneira. Eu não acredito que minha mãe mandou você falar com a gente sobre isso.” Rebateu Roxy, as pontas dos dedos brincando com o relevo de sua taça preenchida com suco de laranja.
“Você realmente acha que sua mãe precisa de mim para educar vocês?” Os olhos azuis ficaram nos olhos cor de avelã da garota, que se encolheu contra a cadeira escura de madeira. “Ela faz um magnífico trabalho, sozinha. E um dia vocês vão finalmente entender que ninguém jamais vai amar vocês como ela ama.”
Roxy suspirou, olhando em volta. “Se você diz.”
“Ela atearia fogo na delegacia com as próprias mãos se isso significasse proteger vocês, Roxanne.”
Roxy não respondeu, e o garçom aproximou-se, interrompendo a conversa momentaneamente com a salada que a loira havia pedido.
“Obrigada, Lou.” Ela ajeitou o guardanapo e alçou o garfo em uma das mãos. “Aliás, quem você está acobertando? Sua mãe pode até achar que as drogas são suas, mas você não me engana mocinha. Basta olhar para sua pele, seus dentes e seus cabelos para ter certeza do quanto você se policia com alimentação e estética. Até parece que usaria drogas.”
Roxy a encarou, sentindo-se exposta. Não era à toa que sua tia era tão bem-sucedida.
“Tyler Ohill.” Respondeu Henry, ignorando o olhar tenebroso de sua irmã. Ele limpou os lábios no guardanapo, os olhos fixos na loira à sua frente. “Ela assumiu a culpa por ele e honestamente, não sei porquê. Ele jamais faria isso por ela.”
“Talvez eu não aja somente por interesse como certas pessoas.” Sibilou ela, ressentida.
“Ohill? Da família Ohill? Os donos daquela casa gigantesca na Yale Road?”
“Sim.”
Valerie parecia pensar em algo, o semblante distante por alguns segundos. “Você não deveria se aproximar dessa família.”
Roxy a fitou com curiosidade. “Minha mãe me disse a mesma coisa. Mas por que? O que há de errado com os Ohills?”
“Se sua mãe preferiu não contar, eu não vou ultrapassar os limites dela, Roxy.” Valerie bebeu um gole de sua água com gás antes de continuar. “De qualquer forma, eu não chamei você para isso. Eu tenho uma proposta para você.” Roxy ajeitou-se na cadeira, atenta ao que viria. “Nicole está de saída da editora, ela vai se casar (eu sei, quem se casa com vinte anos pelo amor de Deus)... Mas enfim, eu preciso de uma assistente. E gostaria de oferecer a vaga a você.”
“Você quer que eu trabalhe para você?” O brilho cintilante nos olhos dela já dizia tudo que Valerie precisava ouvir.
“Por que não? Eu gosto do seu estilo, você tem bom gosto, inteligente, aprende fácil e eu posso chamar sua atenção, afinal, somos família.”
“Tia…”
“Você acha que não dá conta? Quer dizer, há inúmeras garotas que responderão a um anúncio na sessão de recursos humanos, mas você é minha sobrinha e bem, eu preciso mimar os meus bebês.”
Henry revirou os olhos e Roxy deu um gritinho entusiasmado, denunciando sua súbita euforia. “Eu aceito, sim, aceito! Isso vai ser demais! Eu mal posso esperar pelos eventos!”
“Opa, opa, opa, dah-ling. Você aceitou mas existem condições.” Roxy murchou na cadeira. Era óbvio que não seria tão fácil assim. Por que ela era tão ingênua?
“Que condições?”
“Um.” Começou Valerie, erguendo um dos dedos. “Você, única e exclusivamente você, vai pedir para a sua mãe. Vai perguntar para ela se ela concorda, porque Deus sabe que eu não quero problemas com ela.”
“Tia, ah não.” Ela resmungou, fechando os olhos. “Por que você não pede para ela? Ela não vai te negar nada, mas eu… Ela vai arrumar um monte de desculpas e”
“Seu problema, sua solução. Você e sua mãe precisam conversar, dialogar, resolver seus problemas.”
“Por que você não faz isso com ela?”
“Ela é mais difícil de manipular.” Riu a loira. Ergueu outro dedo no ar, continuando a contagem. “Dois. Você precisa pedir ao seu pai se é possível adaptar o horário em que você cumpre sua pena alternativa, e o horário da terapia.”
“Infinitamente mais fácil.” Suspirou ela, recostando-se na cadeira. “Mais alguma?”
“Lá eu não sou sua tia e definitivamente não vou tolerar atrasos injustificados, bagunças e vacilos.” A voz da loira soou fria e profissional, os olhos azuis firmes nos olhos castanhos da garota, intimidando-a. “Combinado?”
“Combinado.”
“E você Henry, o que faremos com você?” Comentou Valerie, encarando-o. Ele já havia terminado, e digitava algo furiosamente no celular. Ergueu os olhos de maneira assustada ao se dar conta de que o foco se concentrara nele.
“Eu o que?”
“Precisamos de algo para você se ocupar. Está claro que vocês quando ficam desocupados coisas ruins acontecem e sua mãe tem ficado muito estressada. Então eu ajudo vocês e vocês ajudam ela. Há algo que você queira fazer, meu amor? Teatro, música, poesia dinamarquesa…”
“Desenho.” Rebateu ele imediatamente. “Eu quero fazer um curso de desenho avançado e escrever minha própria história em quadrinhos.”
“Olha só ele querendo ser o autor da própria história…” Provocou sua irmã, fazendo-o sentir imediatamente estúpido por ter dito aquilo em voz alta.
“Roxanne.” Sibilou Valerie, calando-a. Virou-se para o garoto e continuou. “Se é isso que você quer, não há motivos que o impeça. Escolha a escola ou o professor e eu prometo fazer umas ligações.”
Ele concordou, pedindo licença para ir sentar nos sofás do loft e saiu. Valerie concordou, finalmente concentrando sua atenção na refeição que a aguardava. Estava magnífica como sempre; uma mistura improvável de sabores que funcionava como mágica no paladar dela. Olhou para o relógio de ouro da Bvlgari que adornava seu fino pulso e concluiu que Regina não chegaria para o almoço.
***
“Às vezes acho que você está levando isso muito a sério.” Brincou Killian, correndo na esteira ao lado da sua.
“Você está falando isso porque se deu bem.”
“Não aconteceu nada do que você está pensando.” Respondeu o moreno, abaixando a cabeça e concentrando sua força para correr mais rápido.
“Killian, ela me deixou lá. Plantado. Feito um vaso de samambaia na varanda. E se eu tivesse ficado preocupado? Se tivesse ficado esperando?”
“Certo. Mas o bar estava cheio de mulheres. Você poderia ter ficado com outra.”
Robin balançou a cabeça, contrariado. “Eu não queria ficar com outra. Eu quero ficar com ela.”
“Aí que está. Você está envolvido, não quer dizer que ela esteja. Às vezes ela só queria uns amassos.”
Robin arremessou a toalha no rosto do irmão, acertando-o desprevenido. “Hey” reclamou o moreno.
“Cuidado como fala dela.” Sibilou ele, sua atenção voltando para a frente, a marca da quilometragem atingindo o número 18.
“Você é tão confuso quanto ela, se quer saber.”
“Não sou não.” Robin se defendeu, respirando fundo e diminuindo a velocidade para passadas largas. “Se ela queria ir embora, ela poderia ter dito e eu não ia fazer objeções.”
Killian o encarou com uma das sobrancelhas arqueadas e um sorriso insinuativo.
“Tudo bem! Talvez eu fizesse objeções, mas não ia impedi-la de ir. Mas seria melhor do que ser feito de tonto.”
“Se está tão incomodado, porque não deixa essa mulher para lá?”
“Porque eu não consigo.”
Robin bateu o pulso fechado no botão de emergência, causando a diminuição gradativa da velocidade até parar completamente. Saiu do aparelho, esfregando a toalha de rosto ao redor do pescoço e caminhando na direção do vestiário. Não era uma opção. Ele estava interessado nela e simplesmente não conseguia esquecer; e deveria, pois, apesar dela ceder, suas palavras diziam sempre a mesma coisa — não estou interessada. Mentiria se dissesse que não teve vontade de ligar para ela, mas bem, John estava com o cartão dela e ele preferia morder a própria língua a pedir a ele. A melhor coisa era realmente deixar que se tivesse que acontecer, eles se encontrariam novamente; por mais ansioso que ele estivesse para isso.
Caminhou até o chuveiro, jogando a roupa na divisória junto com a toalha. Enfiou o corpo em baixo da água quente, sentindo os ombros relaxando, a musculatura suavizando. Suspirou, tentando não pensar nela, embora fosse a única coisa fixa na mente dele.
Estava com os olhos fechados quando sentiu mãos delicadas em suas costas. O susto fez com que ele pulasse para longe, virando-se para trás e encontrando Marian, completamente nua sob o jato do chuveiro.
“Marian, o que você está fazendo aqui?”
“Eu só queria… matar um pouco de saudade.” Sussurrou ela, a voz carregada.
“Pelo amor de Deus!” Resmungou, puxando a toalha da divisória e cobrindo seu corpo. “Quanto tempo você vai demorar para entender que eu não quero mais nada com você? E como é que você entrou aqui? É um vestiário masculino, Marian, por que você não sai antes que alguém te veja?”
“Por favor, Robin! Você não está saindo com ninguém, seu pai me contou!”
Ele grunhiu, puxando os cabelos em frustração. É óbvio que seu pai tinha tudo a ver com isso — mesmo depois de tantos anos tentando incansavelmente controlar sua vida. “Marian, independentemente de estar com alguém ou não, já falei que nós não vamos voltar. Acabou. Você precisa parar com isso.”
“Robin, com quem você…” A voz de Killian surgiu atrás dele, e antes que Robin conseguisse impedi-lo, Killian a viu. “O que você está fazendo aqui, Marian?” Questionou ele, virando-se de costas para ela, os olhos fechados.
“Marian!” Gritou Robin, irritado. “Vá logo antes que mais alguém venha!”
Eles permaneceram ali até ouvirem a porta batendo. Killian virou-se lentamente, os olhos azuis estabelecendo contato com os azuis de seu irmão. “O que estava acontecendo aqui, Robin?”
“Eu não sei de onde ela saiu, Killy. Eu estava no chuveiro e de repente ela estava lá.”
“Isso não é saudável, Robin. Ela precisa parar.”
“Papai precisa ajudar em vez de ficar atualizando minha vida amorosa para ela.”
Eles voltaram para os armários. Robin achou melhor tomar banho em seu apartamento, ao menos ele tinha certeza de que lá estaria seguro. “Ela disse isso?”
“Ela disse que ele falou que não estou saindo com ninguém.”
Killian consentiu, vestindo a camiseta e colocando a mochila nas costas. “Você… Quer ir ao meu apartamento hoje a noite? É jogo dos Patriots.”
Robin encarou-o, surpreso. Killian nunca convidava ninguém para ir à sua casa, muito menos seu irmão. Não era como se ele próprio passasse tempo em casa para recepcionar convidados. “Claro.” Respondeu o mais velho, sorrindo. “Mas só chego depois das 19. Tenho atendimentos durante a tarde.”
“Perfeito.” Concluiu o moreno, dando um tapa no ombro dele e se despedindo. “Preciso ir antes que eu me atrase, mas qualquer novidade me ligue.”
Robin balançou a cabeça, concordando. Não sabia o que estava acontecendo com seu irmão, mas não havia do que reclamar.
***
Knock knock.
Valerie ergueu o rosto, e encontrou o rosto delicado de Regina Mills em sua porta. “Atrapalho?”
“Nunca, darling. Entre.”
Regina entrou, fechando a porta de vidro atrás de si. “Onde está Nicole?” Perguntou, achando estranho não ter encontrado a assistente em lugar algum.
“Je ne sais pas. Aquela garota está ainda mais confusa que de costume.” Riu a loira e virou-se rapidamente para analisar Regina. “Tudo bem com você?”
“Sim.” Regina suspirou, olhando para uma escultura de madeira com o contorno de um corpo feminino em sua magnífica nudez. “Só cansada. Foi um dia difícil.”
“Quer um vinho?”
“Aceito.”
Valerie sorriu, caminhando até o grande armário branco próximo à vidraça. “Hmm, o que acha do vinho verde da Gazela?”
“Adequado para o horário.”
“Será este, então.” A loira voltou para a mesa, trazendo a garrafa e duas taças. Preencheu-as, e elas brindaram à amizade.
“Agora, pode falar tudo sobre ontem.” Atirou a loira, acertando-a à queima roupa. Entretanto Regina já sabia que aquilo aconteceria, então não demonstrou muita surpresa.
“Você é direta demais.”
“E você é objetiva de menos.” Valerie bebeu outro gole. “Quanto mais rápido você me informar, mais rápido podemos passar para o próximo tópico.”
Regina suspirou. Valerie percebeu que ela não estava tão bem assim. Empurrou o teclado, e sinalizou para o sofá de veludo cinza, o qual Regina consentiu imediatamente. Elas cruzaram o largo escritório, e Regina sentou-se confortavelmente, Valerie ao seu lado. A loira tirou os saltos, trazendo as pernas para o conforto do móvel. “Vamos lá, Regina Mills. Fale.”
“Eu fugi.”
Valerie riu. “Bom, isso é o que eu chamo de resumir a história. Apesar de que não é uma novidade, meu amor. Você tem esse hábito.”
Regina encostou a cabeça no sofá, fechando os olhos por alguns segundos. “Regina, o que está acontecendo de verdade?”
“Acho que gosto desse cara. É por isso que fugi.”
“O que ele fez que afugentou você desse jeito?”
Flashes do corpo dela prensado pelo corpo dele vieram à sua mente; assim como as lembranças vívidas, quentes e recentes dos lábios dele, do toque dele, o calor daquela boca em seu pescoço, e a força com que os dedos dele a invadiram, o orgasmo tão forte e intenso que ele provocara tão rapidamente.
“Oh.” Respondeu Valerie e Regina a encarou como se tivesse sido descoberta. Possivelmente ela havia sido, pois tinha certeza que seu rosto estava pegando fogo. “Foi bom assim?”
“Foi.”
“Me diga que você não fugiu exatamente depois dele ter te dado um orgasmo sem dizer nenhuma palavra, Regina.”
Ela grunhiu, fechando os olhos novamente e encostando a cabeça no sofá. A ausência de resposta apenas confirmou o que Valerie havia pensado. Sim, ela havia feito aquilo.
“Você sabe que foi bem sacana, não sabe? Ele deve estar furioso com você.”
“Eu sei.”
“Eu não entendi ainda por quê você foi embora se estavam se entendendo tão bem.”
Regina respirou fundo e finalmente abriu os olhos novamente. Bebeu todo o líquido da taça de uma vez, finalmente criando a coragem necessária de vocalizar o que estava sentindo. “Por causa da maneira que ele olhou para mim, Val.”
“Que?”
“Eu esperava que ele me olhasse com malícia, tesão ou qualquer outra reação típica desses caras, mas… Ele estava me olhando com carinho. E isso…”
“Assustou você.”
“Sim.” Ela suspirou. “Eu sou idiota, não?”
Valerie sorriu, colocando a palma da mão sobre o joelho da morena e acariciando suavemente. “Você só não estava pronta para lidar com algo mais complexo. Tudo bem. Essas coisas acontecem.”
“Apesar do meu receio, eu não consigo parar de pensar nesse cara. Eu realmente não preciso disso agora, Val. Com a Roxy, e o casamento e a delegacia, eu…”
“Regina, nenhuma dessas pessoas vai sair da sua vida, quer você se envolva com alguém ou não. Se você não se sente pronta para algo mais, então você não se sente pronta para algo mais. Mas assuma sua posição. Pare de procurar desculpas.”
Regina engoliu em seco, entendendo pelo tom de voz da amiga que ela estava falando bastante sério.
“Você conseguiu falar com a Rosie?” Perguntou a loira, mudando de assunto.
“Não. Ela também não me atendeu mais cedo. Acho que está tentando fugir do nosso interrogatório.”
“Você acha?” Valerie riu. “Eu tenho certeza. Mas ela não vai conseguir se esconder para sempre. Nem ela aguenta ficar tanto tempo longe da gente.”
“Sim.” Sorriu Regina, e olhou pela vidraça. “Você já abriu a vaga da Nicole? O casamento é daqui duas semanas, certo?”
Valerie respirou fundo, preparando-se para entrar naquele assunto. “Não vou abrir porque já tenho a candidata ideal.”
“Tem?” Regina franziu as sobrancelhas, tentando entender de onde Valerie iria tirar uma assistente, ela não havia comentando nada nas últimas semanas… E então seu cérebro fez a ligação. Seus olhos se arregalaram e ela entreabriu os lábios, perplexa. Mas Valerie adiantou-se.
“É uma ótima oportunidade para ela, Regina. Ela vai se manter ocupada e longe de problemas, e sob a minha supervisão.”
“Valerie…” Alertou a morena, levemente preocupada.
“Eu disse que não ia contar nada a você, que ela teria que pedir sua permissão. Você poderia ao menos fingir isso por mim?”
Regina assentiu, balançando a cabeça. “Val, e se ela aprontar com você? Eu não quero te dar esse tipo de dor de cabeça. Você sabe que Roxy as vezes não tem nenhum juízo.”
“Então ela precisa aprender, não acha?”
“Só vou aceitar se você prometer que vai me informar se acontecer algo de errado.”
Valerie sorriu. “Eu prometo, mommy.” Zombou a loira. “Isso quer dizer que vou trabalhar com a minha sobrinha?”
“Sim.” Respondeu Regina, permitindo-se sorrir.
Valerie a abraçou, forte. Regina devolveu o abraço, sentindo absurdamente melhor. “Você sujou seu sofá com esse vinho.” Sussurrou Regina.
“Eu não ligo, depois compro outro. Agora quero abraçar você e você vai me abraçar porque estou muito feliz que vou trabalhar com a minha sobrinha preferida.”
Ainda envolta pelo abraço, Regina sussurrou. “Você não tem outra sobrinha.”
“Shhhhh.” A voz da loira chiou. “Ninguém precisa saber disso, darling.”
***
“Oi.”
Ele estava bonito. Usava jeans escuros e um moletom cinza, fechado e sem estampa. Os cabelos pretos pareciam brilhoso, soltos e espalhados no topo da cabeça e ela perguntou-se porque ele os escondia com um boné. “Oi, Roxy.” Sorriu ele, estendendo a mão para ela.
Roxy estava de jeans e botas, uma jaqueta de couro por cima da camiseta simples e branca. Ponderou se devia aceitar ou não. Suspirou, colocando a mão sobre a dele, sentindo o quanto a palma da mão dele era quente sobre a sua. “Tudo bem?” Questionou ele, e ela apenas concordou com a cabeça.
Na verdade, ela não sabia o que fazer. Encontros não eram sua praia há muito tempo. Havia se especializado em universitários, encontros de uma noite no qual ela se vestia depois do orgasmo e voltava para casa e torcia para nunca mais encontrar aquela pessoa. Leo a guiou até uma mesa no canto, e ela aproveitou para observar o lugar. Henry já havia comentado sobre este café, afinal, era o tipo de lugar com que ele estava habituado. Mas ela tinha que admitir que a atmosfera era agradável, carregando um pouco da familiaridade de um negócio local, pequeno, aconchegante. Ele esperou-a sentar e logo depois, sentou-se na frente dela. Estendeu o menu, e ela agradeceu.
“Você sempre vem aqui?”
“Às vezes. Eu não tenho muito tempo de sobra.”
Ela sorriu. “Você é cansativamente ocupado.”
Ele sorriu, os dentes alinhados à mostra. Sim, o esquisito era bonito mesmo. A garçonete apareceu, e ela pediu um chocolate quente com amêndoas e essência de baunilha. Ele pediu um chocolate quente e biscoitos amanteigados, o que fez ela revirar os olhos.
“O que?” Perguntou ele assim que a garçonete se afastou.
“Biscoitos amanteigados.”
“Só porque meu gosto não é sofisticado como o seu, Srita. Essência de Baunilha, não quer dizer que não seja bom.”
“Oh, eu feri seus sentimentos?” Zombou ela e ele lhe mostrou a língua, fazendo-a sorrir.
“Enquanto isso você pode me contar sobre a sua disciplina.”
Ela suspirou, tirando a jaqueta — o interior do café estava quente — e colocando ao seu lado. Uma gargantilha dourada se destacou por cima da camiseta branca, mas ela rapidamente a jogou para dentro da roupa. “A polícia nos pegou lá no parque.”
“Mas você não foi sozinha e só você está cumprindo pena alternativa. O que você fez?”
“Eu…Tyler estava com drogas e eu assumi a culpa no lugar dele. Você mesmo disse, nem todos podem se dar ao luxo de cometer crimes. Mas eu achei que por ser filha da delegada, eu conseguiria sair ilesa, mas…”
“Sua mãe não viu assim.” Concluiu ele e ela concordou.
“Mas na verdade eu acho que eles me deram uma pena até branda. Por causa dela.”
Leo parecia estar pensando. “Mas não entendo. Se você fez isso por ele, porque mentiu para não sair com ele?”
Roxy sentiu as bochechas queimando suavemente. “Eu… Tyler não é uma pessoa ruim. Ele é infeliz. Tem que fazer de tudo para ser sempre o número um, sempre o melhor dos melhores ou a mãe dele nunca fica satisfeita. Se ele tivesse sido indiciado, só Deus sabe o que ela faria com ele.”
“Mas e a sua mãe? Você deixou de desapontar a dele pela sua. Você acha que valeu a pena?”
“A verdade é que eu sabia que independente do que acontecesse, eu teria a minha mãe Leo. Mesmo que ela ficasse furiosa, mesmo que eu a decepcionasse, ela jamais me maltrataria ou faria eu me sentir um lixo, porque é quem a minha mãe é. Apesar de tudo, ela jamais abandonaria seus filhos. Então eu sabia que eu teria respaldo, por pior que fosse e eu simplesmente não via isso acontecendo se fosse a mãe dele.”
“Foi uma atitude generosa da sua parte.”
“Não deu muito certo.” Resmungou ela, mas a garçonete chegou com seus pedidos e os interrompeu. Colocou os copos sobre a mesa, mas Leo adiantou-se, ajudando-a e pegando o prato. Ela agradeceu com um sorriso e a garota se perguntou se algum dia havia feito alguém sorrir daquela maneira. Aliviada por uma gentileza.
“Me conta sobre você. Algo que eu não saiba.”
Ela bebeu um gole do seu chocolate, estava perfeito. “Considerando que você sabe coisas sobre mim que eu nem faço ideia, é um desafio.”
“Você sempre pode me surpreender.”
Ela sorriu. “Leo, eu não sei o que dizer. Começa você.”
“Bom, minha cor preferida é cinza. E a sua?”
“Dourado. Mas só uso em ocasiões especiais.”
“Como assim você não veio de dourado? Esta é uma ocasião especial. Eu estou aqui!”
Ela riu. “Apesar de achar sua autoestima no ponto, vá com calma cowboy.”
“Sua banda favorita. Ou cantor, sei lá.”
“Eu…” Ela suspirou. “Por favor não me ache doida. Meu cantor favorito é Stevie Wonder.”
“O cego?”
“Não, o outro.” Ela gargalhou, e ele sentiu-se hipnotizado. “Claro que é o cego.”
“Que legal! É incomum, eu não te acho doida por isso. Você poderia falar Britney Spears, daí eu ficaria mais preocupado.”
“Eu duvido que você não cante toxic.”
“Em minha defesa há uma escrita passional naquela letra.”
Ela arqueou uma das sobrancelhas. “Certo. Você não me disse o seu cantor favorito.”
“Tyrone Wells.”
“Nunca ouvi falar. É bom?”
“Sim. Se um dia puder, ouça. Talvez você goste.”
“O que você faz da vida, Leo. Quer dizer, você já foi tutor do Henry, você ajuda a senhora da biblioteca. Qual é a sua?”
“Eu… gosto de ajudar. Eu não sei se dá para explicar isso corretamente. Eu me sinto bem sendo útil. Minha mãe sempre me deu esse exemplo, ela sempre demonstrou uma enorme generosidade e bondade e hospitalidade e eu meio que herdei isso dela. Então onde quer que eu possa servir e ajudar, eu vou. Não é problema para mim.”
“É uma qualidade linda.” Comentou ela, e pela primeira vez ele notou uma sutileza em suas palavras como se ao menos por um segundo ela houvesse se permitido ser ela mesma sem tantas defesas ao seu redor.
“E qual é a sua, Roxy?”
Ela suspirou, puxando uma mecha de cabelo para trás da orelha e exibindo um sorriso um tanto triste. “Eu… ainda não sei. Apesar das minhas boas notas, eu não me sinto nenhum gênio. Honestamente eu não me sinto nada. Estamos no último ano e eu não faço ideia de que carreira eu quero seguir. E meus pais não me pressionam, mas os dois são profissionais de sucesso, satisfeitos com suas profissões. Eu me cobro por isso.”
“Você precisa pegar mais leve consigo mesma. Quer dizer, você não tem que decidir toda sua vida aos dezoito anos. Você tem muito tempo para descobrir o que te faz feliz, certo?”
“Eu sei, mas…”
“Sem mas. Quando chegar a hora, você vai encontrar seu caminho. Não apresse.”
“Olhando para a sua rotina, eu me sinto uma patricinha mesquinha e egocêntrica.”
“Por que?”
“Oras, eu… minhas tardes são passear no shopping, jogar tênis, visitar galerias, ir à academia, dormir. Minha vida toda gira ao meu redor, eu sendo o planeta e eu sendo o satélite. E você, bem, você passa seu tempo ajudando pessoas.”
“Não é justo você se comparar. Pessoas são diferentes, Roxy e tudo bem.”
“Você me acha uma patricinha mesquinha? Seja sincero.”
“Não.” Respondeu ele imediatamente. “Se eu achasse, jamais teria chamado você para sair. Eu concordo que algumas atitudes são superficiais, mas eu gosto de quem você é.”
“Que atitudes?”
“As atitudes que você toma quando está cercada por aquelas garotas com cérebro de minhoca, a elite cor-de-rosa. Às vezes eu acho que você não quer fazer aquilo. Não quer tratar mal as pessoas, não quer esbanjar dinheiro com aquelas baboseiras ou fazer todas as idiotices que eles fazem, mas acho que você gosta do prestígio, porque elas fazem você se sentir no topo do mundo. Então você deixa acontecer.”
Ela abriu os olhos com mais força, chocada. Como é que ele podia saber disso? Como é que ele poderia ver tão perfeitamente seu interior, suas dúvidas e dilemas mais íntimos como se ela fosse um livro aberto?
Limpando a garganta, ela bebeu outro gole de seu chocolate e ele pegou a dica, abandonando o assunto. “Qual seu livro favorito?” Perguntou ela, remexendo seu chocolate com uma colherzinha de plástico.
“O Doador de Memórias, e o seu?”
Os olhos dela se encheram de lágrimas. Porque, de repente, ela se deu conta da direção para onde aquilo a estava levando. Não. Ela não queria.
“Roxy?” Chamou ele e ela não precisou olhar para ele para sentir a preocupação que com certeza estava espalhada pelo seu rosto. “Roxy, o que foi?”
Mas ela não respondeu. Sua garganta estava queimando, e ela pegou a jaqueta com pressa, saindo da mesa e caminhando na direção da saída. Leo correu, alcançando-a antes de sair e dando a volta, parando na sua frente. “Roxy, o que quer que eu tenha feito, fica calma, por favor. Eu não vou mais perguntar nada.”
“Leo eu…” As lágrimas tentavam desesperadamente cair, mas ela as segurou como se sua vida dependesse disso. Entretanto não pode impedir que sua voz parecesse frágil, ao ponto de quebrar. “Você é maravilhoso. Mas isso aqui não é para mim. Eu não sei como lidar com isso. Para ser sincera, você merece coisa melhor.”
“Roxy, eu”
“Tchau, Leo.” Rebateu ela, desviando e saindo do café sem olhar para trás. Ele manteve os olhos nela até a mesma desaparecer de seu alcance. Depois disso, caminhou até o caixa e pediu a conta.
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