Roleta Russa
3 Capítulo 3
“Roxy… Isso não é uma boa ideia.”
Henry estava encostado no batente, observando sua irmã se maquiar no grande espelho. Com os cabelos escuros caindo em cascatas, ela aplicou uma base extra de rímel nos cílios. Analisou o batom púrpura espalhado pelos lábios, e conferiu o resultado completo. “Você quer ficar aqui com o casal de pombinhos?” Questionou ela, dando meia volta e fitando o irmão mais novo. Ele estava vestido com um moletom cinza e jeans velhos, não tão velhos quanto os tênis que ele estava calçando.
“Mamãe não vai gostar nada disso. Ela já deve estar furiosa com a gente.” Respondeu ele, estabelecendo contato visual.
“Ela não precisa saber. Além do mais, ela vai sair essa noite. Com a tia Rosie.”
Henry repensou a situação. Apesar de ter certeza de que o resultado não seria bom, a ideia de ficar na casa com Emma e seu pai era muito pior. Se sua mãe estava se divertindo, qual seria o mal de sair com sua irmã? “Tudo bem. Vamos.”
Ela deu um pulo, sorrindo abertamente e o abraçou. “Eu te amo!” Assim que ela se afastou, segurou no braço dele e o puxou pelo corredor. “Bom, você não pode ir assim.”
“Por que não?”
“Henry…” Ela suspirou. “Eu tenho uma reputação a zelar.”
Entraram no quarto dele e ela caminhou até o guarda-roupa, abrindo a porta. “Você tem ao menos um jeans preto?”
“Aqui.” Respondeu ele, pegando um dos jeans dobrados.
“Certo.” Ela vasculhou os cabides, reprovando todas as camisetas encontradas. “Deus me livre. Quem compra as suas camisetas? É a mamãe? Ta, coloca esse jeans e eu vou buscar algo no closet do papai.”
Minutos depois, ela apareceu com uma camiseta preta com uma estampa do David Bowie. Foi até o criado mudo e retirou a tesoura, fazendo alguns cortes e rasgando um pouco a gola da mesma. “Vai servir.”
Estendeu ao irmão que já estava vestindo com o jeans preto. Orgulhou-se de seu trabalho; pegou um pouco de creme de cabelo e entrelaçou seus dedos aos cabelos dele, arrepiando-os. “Põe o allstar e vamos.”
Ela fitou sua roupa, a meia arrastão que se perdia na minissaia jeans e as botas que cobriam um pouco mais do que seus tornozelos. A blusinha leve e rasgada não escondia muito de seu sutiã de renda, mas ela colocou a jaqueta de couro por cima e pegou sua bolsa. Desceram as escadas externas, fugindo da visão de Jefferson e em poucos segundos acessaram a garagem.
“Você acha que Violet estará lá?”
Roxy bufou, revirando os olhos e pensando em quão magoado seu irmão ficaria se ela dissesse o que realmente estava pensando. Talvez muito. Delicadamente, ela tentou não entrar em detalhes. “Pode ser que sim, mas ela estará com Cole. Ela tem namorado agora, Henry. Supere.”
Ele observou-a entrando no carro. A ideia de ver Violet com Cole era torturante, e ele repensou o que estava prestes a fazer. Mas ele não era covarde. Ele não ia ficar em casa chorando como um maricas. Ele iria beber e se divertir, e possivelmente lidar com a fúria de sua mãe mais tarde, mas não se importou. Respirou fundo e abriu a porta do carro, pulando para o banco do passageiro.
***
Valerie a encarava com um sorriso malicioso. A loira, magra e bem-sucedida era um conjunto muito mais atraente do que o pacote mamãe-policial-divorciada, mas a mesma estava insistindo que Regina roubava todas as atenções para ela.
“Não é verdade e você sabe disso.” Murmurou Regina, sorrindo e bebericando o coquetel de tequila, groselha e suco de laranja.
“É verdade sim.” Interrompeu Rosie, voltando do banheiro e passando por elas para se sentar entre as duas, no macio e acolchoado sofá verde. “Duas loiras e uma morena, para quem você acha que eles olham primeiro?”
“Vou cobrar por isso, Regina.” Brincou Valerie, erguendo a taça de martini e brindando no ar, a azeitona rodopiando solitária no líquido viscoso. Ela levou a taça aos lábios e deu um gole generoso.
“Você não estava namorando, Val?”
“Dahling, eu estou sempre namorando. Não quer dizer que não possa encontrar novos namorados.”
A risada de Rosie acompanhou o revirar de olhos de Regina. “Vá fazendo anotações, Mills.”
“O sujo falando do mal lavado, Bell. Eu não estou vendo nenhum acompanhante ao seu lado também.”
“Mas você…”.
“Ao menos eu não tenho ilusões românticas de que vou encontrar um príncipe encantado no balcão do bar.” Provocou ela, recebendo um olhar que poderia incinerar seu belo corpo em segundos.
“Será que não mesmo, Regina?”
Regina mostrou a língua para a amiga; cruzou as pernas, fazendo o vestido azul estampado subir alguns centímetros e liberar um pouco mais da pele de suas pernas para os observadores ao redor do pub. Chamado de The Rabbit Hole, o pub era um dos estabelecimentos recém reformados no olho da mídia. Utilizado antigamente como lanchonete, teve uma súbita modernização e mudança de ambiente. Alguns requintes do antigo estabelecimento permaneceram, como as banquetas americanas na borda do balcão do bar, o jukebox, a decoração vintage com frames de propagandas populares na década de 1950. Mas segundo Valerie, o toque especial veio da neta da proprietária, alguém a quem ela se referiu como Ruby. A garota voltou de um intercâmbio em Londres cheia de ideias e a anciã aceitou depois de várias negociações. Sofás de veludo verde e vermelho ocupavam o local, lanternas de papel e luzes suspensas criando uma atmosfera íntima e aconchegante. Bandas locais tocavam no palco, sendo acompanhadas por meia dúzia de admiradores que permaneciam no meio da pista de dança, mas felizmente o volume era mantido em um nível que possibilitava aos outros clientes conversar tranquilamente sem a necessidade de gritar um com o outro.
Valerie conhecera Ruby em uma outra festa e então prometera à garota que apareceria no pub para conferir. Uma boa crítica publicada na aclamada revista Fame daria àquele local o impulso necessário para se tornar um novo point. Mesmo se divertindo, Regina sabia que Valerie estava observando cada detalhe, o atendimento, os drinques, a equipe, até mesmo a vibe da clientela. “Eu não preciso de príncipes. Estou melhor assim.”
Rosie e Valerie trocaram um olhar rápido. “Quanta amargura. Isso é por causa de Jefferson?” Questionou Valerie.
Regina percebeu que ambas estavam com os olhos fixos nela. “Ah não. Outra intervenção não.”
“Você não pode se fechar por…” Começou Rosie, mas calou-se assim que a morena ergueu o dedo indicador e segurou-o no ar, sugerindo silêncio.
“Primeiro, a última coisa que quero essa noite é falar sobre meu ex marido e sua incrível namorada que por sinal é sua atual sócia, Rosie. Segundo, eu não estou fechada a nada. Eu só quero me divertir com as minhas amigas. Será que vocês me permitem?”
Valerie sacodiu os ombros como se não se importasse. “Oui.”
Regina levantou-se, esvaziando sua taça em um só gole. Rosie manteve os olhos nela por algum tempo e respirou fundo quando a mesma se afastou na direção do bar, sendo surpreendida logo em seguida pela voz suave e melódica de Valerie. “Não a apresse, Rosie. Alguém vai aparecer e tirar o chão dela, mas não cabe a nós decidir quem ou onde ou como. Enquanto isso, deixe-a beber bastante e cometer alguns erros. Ela precisa disso.”
Debruçada no balcão, Regina bebeu algumas doses de conhaque, certa de que se arrependeria disso no futuro. Sabia qual era o medo de Rosie. Sabia que sua melhor amiga tinha medo de uma recaída, de que Regina não tivesse realmente superado o divórcio e que fosse atrás de Hatter novamente. Mas não era isso, era… Seu orgulho a incomodava. Emma. Era dela que se tratava toda a raiva não canalizada. A mágoa. Dia após dia seu cérebro lhe repetia o mesmo mantra de quanto Emma Swan a havia superado em todos os sentidos. A culpa não era de Emma, Jefferson que a traíra, ele que desrespeitara o compromisso matrimonial que os unia. Mas Regina não conseguia lidar com a culpa que a perturbava. Ela não sabia o que havia feito de errado. Ou o que não havia feito. Era um enigma torturante e ela sentia-se magneticamente atraída a ele, embora todas as suas tentativas de resolvê-lo tivessem sido nulas. Perguntar a ele estava completamente fora de questão, então lhe restava somente o fardo de lidar com essas dúvidas presas em sua mente.
Estava pedindo mais um coquetel de frutas com tequila quando ouviu aquela música. Como água quente caindo suavemente do chuveiro sobre a pele nua, aquela voz, aquele tom, e a música, tudo a envolveu.
Few thousand miles they fly
How do they know which way to go
Somehow they always seem to know
Regina virou-se imediatamente, registrando aquele som em sua mente. O garçom liberou sua bebida e ela voltou para perto de suas amigas, mas não entrou no sofá. Dando a volta no móvel, ela sentou-se no braço do mesmo, seus olhos rastreando de onde vinha aquela voz. “Regina, essa música não é daquele cantor que você é obcecada?” Questionou Rosie, mas só recebeu um shhhh em resposta.
Cause it's not right, I'm magnetised
To somebody that don't feel it
Love paralyzed, just never gonna need me
Sure the world keeps the moon in the sky
Aquele rosto não lhe era estranho. Os cabelos lisos, dourados com um brilho escurecido, não lhe eram estranhos. Ela estava cantarolando a música junto com a banda quando de repente ele sorriu, e ela se deu conta de onde conhecia o homem que cantava uma de suas músicas favoritas no palco.
Era o homem que ela havia atropelado.
***
Robin sabia que era seu dia de sorte. Quando Ruby o convidou para tocar no The Rabbit Hole, ele não esperava muito reconhecimento. Apesar de seu trabalho árduo, The Merry Men não era a banda mais ouvida na cidade, nem ocupava uma posição favorável no ranking de popularidade local e ele sabia disso. Mas a garota insistiu que era importante. A editora chefe da aclamada revista Fame estava a caminho e ela precisava da ajuda de todos para causar uma impressão para lá de magnífica.
Sentado nos fundos do pub, sobre a escada de assoalho e de frente para o beco repleto de caixas, ele começou a montar o repertório. Rabiscou círculos na borda da folha de caderno, e pensou em como começar.
Tom Odell era sempre uma boa opção. Boa melodia, letras significativas, e o sotaque britânico casava harmoniosamente.
Tom Odell. Pensou na música. Não poderia ser muito lenta, isso desanimaria o público. Magnetised tinha o timbre perfeito. Em seguida, rabiscou Love Me Again do John Newman. Daqui ele poderia colocar uma ou duas de seu repertório original. Colocou duas estrelas no local, adiando a escolha das canções da banda. Perverso, do Tiziano Ferro. Precisava perguntar à Ruby se ela preferia em espanhol, mas ele definitivamente preferia inglês. A opção em italiano fora imediatamente descartada. Fitou a lista em silêncio, batendo com a ponta da caneta em sua testa, tentando continuar seu raciocínio. Aqui caberia uma música suave e emocional, mas não muito leve. Algo como… Lenny Kravitz. I’ll be waiting era uma ótima cartada.
Talvez um pouco de The Black Keys e Franz Ferdinand. Robin rabiscou mais alguns nomes, e suspirou cansativo quando acabou. A banda concordou imediatamente com a lista, mas não poderia ser diferente. Todos ali confiavam no talento e liderança de Robin, e ele se sentia verdadeiramente honrado por isso.
Quando subiram ao palco, horas depois, toda a ansiedade desapareceu. Eles enfrentaram os degraus logo após a pequena oração que sempre faziam antes de subir, confiantes em seu trabalho. Robin olhou ao redor, colocando o violão em seu colo e sentando na banqueta em frente ao microfone. A casa parecia bastante cheia e a banda anterior parecia ter cativado a atenção do público pois todos observavam atentamente, os olhos refletindo sua ansiedade pelo que seria apresentado.
Robin sorriu. “Todos a postos?”
“Yeah” gritou o resto da banda em um coro de vozes alinhadas. Frei Herr adiantou-se com o piano e Robin tomou a liderança, sua voz preenchendo o salão.
See those birds go across the sky
Few thousand miles they fly
How do they know which way to go
Somehow they always seem to know
Aos poucos, ele foi tomado pela sensação. Aquela sensação, familiar, quente, acolhedora. Como se fogos de artifício estourassem dentro de seu corpo, como se champanhe borbulhante corresse por suas artérias. Cantar era sua maneira de respirar e ali, ali estava ele, abrindo seu coração a uma plateia desconhecida. Sentia-se eletrizado, e as pontas dos seus dedos batucavam a madeira do violão em seu colo, criando um ritmo próprio. Um dos integrantes gritou solta essa voz Locksley e ele sorriu confiante, jogando a cabeça para a frente e depois levantando-a novamente.
Foi quando ele a viu. Sentada em um dos braços de um dos sofás, com um vestido azul e os cabelos presos, ali estava a última pessoa que ele esperava encontrar. Lembrou-se das palavras dela para ele. Você poderia pegar a porcaria do cartão? E fingir ser civilizado? E sorriu. Ela o encarava com um semblante de possível curiosidade, mas ele podia ver que ela estava acompanhando o show, cantarolando as canções junto com ele.
Ela era decididamente linda, e essa era uma característica que ele não podia ignorar, mesmo sabendo o temperamento da própria. Por alguma razão, ele simplesmente não conseguia parar de olhar para ela. Sentia-se hipnotizado.
“Você conhece o rapaz da banda?” Perguntou Rosie, puxando-a delicadamente.
“Se conhece eu não sei, mas ele não tirou os olhos de você desde que a viu.” Provocou Valerie.
Regina virou-se para a amiga e precisou fazer esforço para focar seus olhos novamente. “É ele, Bell.” Respondeu ela, mas a loira revirou os olhos e ergueu a sobrancelha, como quem continua em dúvida. “Foi ele quem eu atropelei.”
“Oh.” Comentou a loira, retomando a atenção no homem que cantava de maneira desinibida no palco. Regina não havia dito que ele era bonito. Não somente bonito, não somente proprietário de um par de covinhas que criavam vida própria toda vez que ele sorria ou que a voz dele causava arrepios em lugares de seu corpo há muito esquecidos.
“Você não disse que ele tinha esse rosto!”
Regina sorriu. “Ele tinha sido um imbecil. Não foi no rosto bonitinho que eu me concentrei.”
“Bonitinho?” Riu Valerie, que em algum momento convidara um homem alto e de traços latinos para sentar ao seu lado. “Mon cherrie, aquele homem ali em cima é gostoso. Lindo. E se você não tem interesse, passe para as amigas.”
“Vocês são um caso perdido.” Respondeu Regina, balançando a cabeça. “Eu vou me sentar lá no bar. Não me sigam.”
Rosie e Valerie trocaram um olhar e riram uma para a outra. “Vamos apostar que eles se beijam hoje?”
“Uma garrafa de Grey Goose.” Rebateu Valerie, e Rosie concordou. O latino ao lado dela deslizou os lábios para o pescoço da editora e a outra loira resolveu que era hora de espairecer.
***
“Na minha opinião, a interpretação de Schrodinger sobre a teoria quântica é equivocada. Bohr e Heisenberg viviam na mesma época e se aproximaram muito mais da concepção que temos hoje do que ele. Mas… os professores insistem em focar no realismo em vez de positivismo.”
Tyler balançou a cabeça, concordando. Roxy estreitou os olhos, revirando-os mentalmente. Era obvio que ele não sabia o que ela estava falando. Tyler Ohill era bonito. Corpo bem estruturado, talentoso jogador do time de futebol americano. Mas o cérebro aparentemente era mais simples e provinciano que o de um roedor.
“Eu já venho.” Disse ele, encontrando uma brecha para se afastar. Ela revirou os olhos e levou a cerveja long beer aos lábios, bebendo um gole longo e silencioso. Não tão silencioso, pois antes de terminar ela ouve uma voz masculina atrás dela.
“Por que você faz isso?”
Ela deu meia volta e encarou o garoto à sua frente. Ele estava vestido com jeans e uma blusa de moletom cinza, o capuz sobre a cabeça e ela sorriu pensando no quanto ele a lembrava Henry. Os olhos verdes a encaravam com curiosidade e finalmente ela lembrou que ele esperava uma resposta.
“Que?”
“Por que insiste nesses caras? Quer dizer, você é infinitamente mais inteligente que eles. É por isso que você investe em atletas bonitos e infantis? Você gosta de se sentir superior?”
“Isso não é da sua conta, esquisito.” Resmungou ela, e estava prestes a se afastar quando ele adiantou seus passos e entrou na frente dela novamente.
“Roxy, me desculpe. Eu não quis te ofender.”
“Como você sabe meu nome?” Questionou ela. Ela não se lembrava dele, mas considerando que ela só se lembrava de seus amigos porque eram seus amigos, não era tão absurdo assim.
“Todo mundo sabe quem você é.”
Ela fitou os olhos verdes e por alguma razão, não viu maldade ou malícia neles. Na verdade, ele a estava assistindo com uma espécie de sorriso, como se estivesse admirando uma pintura depois de ter demorado anos para terminá-la. “E o que você quer?”
“Eu quero conhecer você.” Os olhos dela abriram-se ainda mais e ela sentiu um arrepio percorrendo seus antebraços. Seu desconforto transmitiu-se em seu rosto, e ele percebeu, mordendo a parte interna de sua bochecha, e temendo ter tomado a decisão errada em abordá-la. “Sem segundas intenções, eu só queria… conversar com você. Saber o que você pensa. O que inspira você. Essas coisas.”
“Olha, eu não faço essas coisas.” Ela suspirou, os olhos fixos no chão enquanto ela tentava diluir a tensão que aquelas palavras haviam lhe causado. Uma mecha de cabelo caiu entre seus olhos e ela puxou para trás da orelha antes de voltar a encará-lo.
“Que coisas? Conversar com alguém que realmente esteja interessado em você?”
“Sim. Não. Quer dizer…”. Ela parecia em conflito. Alguém derrubou uma garrafa e o som do vidro se partindo a despertou de seu torpor. “Olha, você parece um cara legal. Mas eu não. Eu não faço isso, não sou romântica, não conheço as pessoas. Eu fico com alguém hoje, e amanhã eu não quero mais lembrar dessa pessoa, e isso funciona muito bem.”
Alguém chamou por ela, e ela virou-se. Henry passou os braços por cima de seu ombro, sorrindo, os olhos vermelhos e desfocados. Ele estava bêbado. “Tyler nos chamou para invadir o parque e entrar no carrossel.”
“Isso é invasão de propriedade e pode acabar dando muito errado.” Advertiu o garoto à frente dele e Henry abriu um largo sorriso.
“Leo, você por aqui buddie.”
“Oi Henry.” Respondeu o garoto, e Roxy registrou o nome, antes de se virar para o mesmo.
“Vocês se conhecem?”
“Eu fui tutor dele no estágio em literatura avançada.”
Tyler gritou o nome dela, fazendo sinal para que ela e o irmão viessem. Tanto ela quanto Leo assistiram o gesto, e embora sua mente lhe dissesse para sair andando e deixar aquele garoto intrometido para trás, algo a impedia de se afastar. “Você quer vir com a gente?”
Ele sorriu brevemente, sem que isso iluminasse seu rosto. “Não. Nem todo mundo pode se dar ao luxo de transigir a lei.” Roxy permaneceu estupefata, olhando para ele. “Tenha uma boa noite, Roxy. Até amanhã, na aula de trigonometria. Não esqueça o caderno de exercícios de novo.”
Antes que ela pudesse perguntar como ele sabia tudo isso, Leo já havia se afastado, cumprimentando um ou outro garoto antes de desaparecer na multidão. Tyler gritou novamente e buzinou, e ela é Henry caminharam na direção do veículo enquanto ela se perguntava qual era o problema daquele idiota. Ela podia ser muitas coisas, mas surda não era uma delas.
***
“Esse é o último lugar da terra em que eu esperava revê-la.”
Um ligeiro sorriso cruzou os lábios dela, mas ela não se virou. Apenas ergueu o rosto e fitou o homem ao seu lado; ele a encarava com um misto de curiosidade e algo mais que ela não soube decifrar. “O mundo não é tão grande quanto imaginamos.” Respondeu ela, os olhos cor de avelã ganhando um brilho escuro enquanto ela o analisava. Os olhos azuis pareciam ainda mais límpidos do que antes, a barba parecia ainda mais sexy e ele estava sorrindo, feito o idiota que era.
“Posso me sentar aqui?” Perguntou ele, apoiando as mãos na banqueta ao lado dela. Regina fixou seu olhar na bebida à sua frente, remexendo-a com o misturador.
“É um local público.”
Robin sabia que ela jamais facilitaria sua abordagem. A primeira impressão que ambos tiveram um do outro fora incrivelmente negativa e isso não desaparecia com um toque de mágica. De perto, aquela mulher parecia ainda mais linda do que ele se lembrava. Talvez a mudança de cenário, roupas, atmosfera ou talvez fosse ela mesma, seu rosto perfeito, o corpo delineado, a voz sensual e firme, mas de certa maneira carregando uma aura de seriedade. Se ela queria dificultar, não seria ele a fugir do desafio. “Achei interessante.” Comentou ele, acenando para Carl e pedindo uma dose. A de sempre.
Ao que lhe parecia, demorou uma eternidade até que ela resolveu morder a isca e deixá-lo desenvolver uma conversa. “O que?”
“Você sabia todas as letras.”
“Até onde entendo de legislação, não há nenhuma que me acuse por conhecer as letras das músicas que eu gosto.”
Ele riu, e ela virou o rosto lentamente, encarando-o como se fosse lhe enganar a qualquer momento. “E não é, mas… Tom Odell não é o que eu chamaria de popular o suficiente para ter as letras das músicas na memória.”
“O que é uma pena, não? As letras das músicas dele me parecem poesia.” Ela fitou seus lábios por alguns segundos, e ele sentiu-se ligeiramente exposto. “Mas é o que dizem. Os melhores perfumes vêm nos menores frascos.”
“Eu não diria que é esse seu tipo de música, ou balada.”
“Considerando que você não sabe nada a meu respeito, isso não me surpreende.”
Ele segurou o lábio inferior entre os dentes. Estava estragando tudo; ela já não estava tão receptiva assim mas continuava interagindo, só que isso não duraria muito tempo se ele não parasse de falar merda. “Isso não é verdade. Eu sei que você fala ao celular enquanto dirige.”
“Oh.” Gesticulou ela, colocando a mão sobre os lábios fingindo estar chocada com aquela afirmação. “Ora ora, se não temos um Sherlock Holmes aqui.”
“Eu tenho o seu telefone também.” Rebateu ele, e o breve silêncio o convenceu de que ele havia ganho essa rodada.
“Se não o usou até agora, não acredito que irá.”
“Seu cartão de visitas é bastante misterioso também.” Relembrou ele. Um cartão de papel com cobertura metálica laminada, fundo preto e letras brancas. Duas iniciais e um número. “Por que?”
“Para impedir que as pessoas fiquem curiosas demais.”
“E se a pessoa esquecer o nome? Como ela vai adivinhar o que significam aquelas letras?”
Ele era bastante insistente, e aquilo causava uma irritação latente em seu organismo. Mas por outro lado, ela se viu gostando de conversar com ele. “Alguém que esquece meu nome não seria digno de ter o número do meu telefone.”
Regina bebeu mais um gole, sentindo em sua pele que ele ainda a observava como uma sentinela de cima de sua torre.
“Você me deu o cartão sem se identificar. Então isso quer dizer que eu tenho passe livre para perguntar o que RM significa.”
A risada dela o abraçou, e ele podia jurar nunca ter ouvido algo tão suave e viciante. Regina virou o corpo na banqueta, ficando de frente para ele, as pernas cruzadas e o vestido azul estampado evidenciando a curvatura de suas pernas. “Isso só quer dizer que eu o atropelei e estava com muita pressa.” Ele continuou encarando-a, os olhos azuis que transmitiam uma serenidade e leveza que há tanto tempo ela mal se recordava. Não queria ser legal com ele, estava indo incrivelmente bem na complementação desse objetivo, mas ele estava fazendo aquela cara, aquele semblante de desapontamento evidente e ela sentiu-se compelida a justificar sua escolha. “Nomes ampliam a intimidade. E eu não quero de forma alguma que isso aqui” ela apontou para ele e depois para si mesma, estabelecendo a ligação “Se torne pessoal demais. Então nada de nomes.”
“Sem problemas, Sra. Impessoalidade.” Brincou ele. “Podemos falar sobre nossas profissões?”
Ao menos isso o afastaria. Ela sorriu, ajeitando-se de modo que metade do seu corpo estava inclinado na direção dele e a outra metade na direção do balcão. “Podemos.”
“Eu sou músico, como você pode ver. Tenho alguns trabalhos paralelos, mas o que eu amo fazer é compor e cantar.”
“Você tem o talento.” Observou ela, e ele sorriu brevemente antes de desviar o olhar, e isso não passou despercebido. “Eu sou policial. Sempre quis ser.” Ela decidiu ocultar a parte da delegada, afinal, não era da conta dele. E com sorte, agora seria o momento em que assim como todos os outros ele inventaria uma desculpa fajuta e fugiria.
“É uma profissão corajosa, não? Deve exigir muito de alguém. Sem contar os riscos de ofício.”
Que?
“Não assusta você?”
Aquilo era novo.
“Por que me assustaria?” Respondeu ele, rindo enquanto bebia seu drinque.
“Muitos homens se sentem intimidados por uma mulher em uma posição dessas, de autoridade. Isso os afugenta.”
“Uma mulher no comando me causa muitas coisas, mas nenhuma dela se parece com medo ou susto. Eu lhe garanto.”
O sorriso malicioso não deixou nenhuma dúvida sobre o que ele queria dizer com aquelas palavras. Pela primeira vez, ela sentiu-se tentada a usar os filhos como um repelente para homens, mas ela decidiu não expor essa faceta de sua vida.
“Você mora por aqui?” Questionou ela, tentando dissipar seus próprios pensamentos.
“Moro no centro da cidade. Divido um apartamento na 5th Avenue com um dos meus melhores amigos e integrantes da banda. E você?”
Ele não estava seguindo a regra, e parando para pensar, ela também não. As tentativas de manter aquela conversa em nível impessoal haviam falhado, uma vez que ele acabara de lhe dar seu endereço.
“Moro por aí.” Respondeu ela, desesperada para fugir de qualquer assunto que a identificasse. Ela só queria beber um pouco e conversar. Nada mais.
“Você é sempre séria assim?” Não era a primeira, segunda ou terceira vez que ela ouvia essa pergunta. Ele olhou em seus olhos com intensidade, e ela sentiu-se nua. Como se ele estivesse olhando dentro de sua alma e desmistificando todas as suas raízes. “Posso fazer uma pergunta?”
“Pode.” A voz dela soou bem menos firme do que ela tentava aparentar, e ela se odiou por isso.
“Você já observou um avião cruzando os céus e desejou estar nele, mesmo sem saber para onde ele poderia estar indo?”
Aquela sim era uma pergunta de um milhão de dólares. O tipo de pergunta reflexiva e profunda e que ela nunca esperaria receber sentada na bancada de um bar. Porque é claro que sim. Com tudo o que estava acontecendo em sua vida, e se ela focasse no estresse que havia passado no último ano, a ideia de desaparecer havia se tornado apelativa, quase agradável. Mas ela podia dizer aquilo em voz alta? Ela tinha muitas responsabilidades; e por conta disso, ela jamais se permitiria levar uma utopia dessas adiante. Âncoras mantinham seu barco preso a aquele momento, aquele lugar, aquela vida.
“Eu vi esse brilho nos seus olhos e logo ele foi diminuindo. A minha teoria é que você vive para trabalhar. E eu gostaria de estar errado, pois veja bem: uma mulher como você, linda, um pouco brava, mas definitivamente inteligente, não deveria parecer tão… encarcerada. Há um mundo gigantesco esperando por você lá fora. Grandes cidades, e arte e música. O mais genuíno tipo de beleza e o mais diverso leque de pessoas, à sua disposição e você pode ter tudo. Basta querer.”
Wow. Aquelas palavras pareciam ter sido injetadas em suas veias, espalhando-se por todo o seu corpo. Seu instinto era dizer a ele que cuidasse da própria vida e a deixasse em paz, mas ela sabia que tudo ali era genuíno e verdadeiro. “E você chegou a essa conclusão depois de dois encontros fuleiros?”
“Quanto tempo você precisa olhar para uma obra de arte para se convencer de sua magnitude?”
Aquela resposta era tudo que ela não esperava. Lidar com a tensão e a eletricidade entre eles fazia parte do que ela considerava comum, até mesmo familiar. Mas aquilo ia muito além. “Você sempre faz isso?”
“Elogiar o que acho bonito?” Brincou ele com um sorriso convencido nos lábios.
“Não, aborrecer mulheres sentadas no balcão dos bares por aí.”
Antes que ele pudesse responder, seu telefone tocou. Ela pediu licença, e ele consentiu.
“Sim?”
“Senhora, aqui é o Oficial Gomes. Nós recebemos um alerta de invasão à propriedade privada na Roaken Road.”
“Você está me ligando por causa disso?”
“Seus filhos estão entre os adolescentes apreendidos e sua filha estava com posse de entorpecentes. O garoto está bêbado. Achamos que a senhora gostaria de estar a par da situação. Doutor Hatter está a caminho também.”
Merda, merda, merda.
“Eu estou a caminho.”
Ela desligou o celular, pulando da banqueta apressadamente. “Preciso ir embora. ”
Ele ia achar que era uma fuga ensaiada, pensou. Ela não deveria se importar, afinal ele já havia sido idiota antes e poderia continuar sendo, mas não queria dar essa impressão. Colocou a mão sobre a dele e olhou em seus olhos azuis, surpresa ao encontrar nada mais do que um reflexo calmo e reconfortante. “Eu… Eu não estou fugindo. Eu realmente preciso ir.”
“Robin, eles querem que você volte ao palco.” Interrompeu Ruby e ele consentiu, balançando a cabeça. A morena distanciou-se tão rápido quanto apareceu, voltando para os fundos do estabelecimento. Quando ele se voltou para Regina, ela estava com um sorriso no rosto. Uma curvatura sexy de seus lábios e um olhar de quem acabara de perceber que estava com a melhor mão da rodada. Por alguns segundos, ele permaneceu em dúvida até que entendeu a charada. Robin. Ruby havia entregado seu nome. Ela estava se afastando quando ele segurou seu antebraço com cuidado, fazendo-a parar.
“Quando vou vê-la novamente?”
“Eu espero que não tão cedo, Robin.” Provocou ela, sorrindo. Ele permaneceu em silêncio e ela lhe deu uma piscadela antes de sair apressada na direção de Rosie e Valerie.
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