Roleta Russa
28 Capítulo 28
Notas iniciais
Ela não podia pensar nele. Não deveria. Cercada de policiais, ouvindo um superintendente falar sobre o aumento de casos, lendo o gráfico obscuro de assassinatos que parecia infiltrar-se na cidade, bem, ela deveria se mostrar demasiadamente concentrada. Podia sentir o olhar de Graham que vez ou outra a cercava, como se ele pudesse perceber que ela não estava ali de verdade.
Robin estava em sua cabeça.
Ele a perseguia em todos os momentos. Em alguns momentos, cantando. O timbre inesquecível de sua voz preenchia seus pensamentos, fazendo suas entranhas se contorcem de saudade e inquietação. Lembrava-se da maneira com que ele a tocara da primeira vez, os dois sozinhos, inertes ao que sentiam naquele banheiro escuro, banhados pela penumbra. Do olhar dele, que desde aquele momento, já denunciava muito mais do que mero tesão.
Em outros momentos, as memórias que a abraçavam eram de carícias. Regina no colo dele, sentada ao lado dele, na frente dele – as mãos grandes que lhe tocavam suavemente, dizendo palavras doces e carinhosas que encontravam caminho direto e ininterrupto para seu coração. Ela não podia culpar-se por ter se apaixonado. Que tipo de homem era aquele? Que tipo de homem consegue conciliar tanto romantismo, e desejo, e talento?
“Há algo que gostaria de acrescentar, Delegada Mills?”
A voz de Christopher ecoou pela sala, enrubescendo-a momentaneamente ao perceber as dezenas de cabeças que se voltaram contra ela, de modo sincronizado. Os olhos dela encontraram os olhos verdes do superintendente, e ela ergueu as sobrancelhas, perguntando-o de maneira sutil o que diabos ele estava fazendo. “Não. Creio que há informação suficiente neste monte de slides.”
Risadas abafadas atravessaram o silêncio, mas acabaram quando perceberam que o palestrante não achara engraçado. Mas ele deixou o assunto, ignorando-a e voltando ao monólogo pessoal. “Esse cara sempre pegou no seu pé.“ O sussurro chamou sua atenção. Graham encarou-a e ela pode sentir seu rosto enrubescendo. “O que?”
Graham não repetiu. Encarando-o, ela percebeu que as vozes ao redor dela ficavam mais altas, e então, ao erguer os olhos, percebeu que a sala estava esvaziando. Merda. Pelo jeito a reunião acabara, e ela passara grande parte do tempo pensando em alguém que não estava lá. Christopher a encarava, ciente de que ela não prestara atenção em nada. Puxou sua jaqueta de couro, e sinalizou para Graham na direção da saída.
“Mills. Poderia falar com você?” Graham parou no mesmo momento, atrás dela. “A sós.”
Merda.
“É importante, Superintendente? Pois tenho um caso importante em andamento. Eu odiaria perder mais tempo.”
“Eu não perguntaria se não fosse.”
Regina virou-se para Graham, e estava nítido em seus olhos que ele odiava aquilo. Na certa, Graham desconfiava de algo sobre ela e Chris. “Me espere no carro, por favor? Não vou demorar.” Resignado, ele grunhiu e saiu, sem olhar para trás. Demorou pouco tempo para que eles estivessem finalmente sozinhos na sala de reunião. Christopher caminhou até ela, encarando-a com seus olhos verdes inquisidores. “Faz muito tempo, Regina.”
“Sim... Muito tempo.” Ela engoliu em seco. Torcia para que ele não forçasse nenhum tipo de conversa da qual ela teria que encerrar abruptamente.
“Está tudo bem?”
Regina endireitou a postura, encarando-o com o olhar gélido. “Tudo ótimo, Sr. Superintendente. Qual o motivo dessa pergunta?”
Ele sorriu, encarando-a como se soubesse o que ela estava fazendo. Como se pudesse ver através dela. “Corte o falso profissionalismo, Regina. Você não prestou atenção em nada do que foi dito nessa reunião. Onde está sua cabeça?”
“No trabalho real, nos casos que requerem a minha atenção plena e a minha presença, nas operações arriscadas que tenho que liderar. Aquele que gera esses seus gráficos. Eu sou mais útil produzindo do que ouvindo essa baboseira.”
“Essa baboseira que você diz são parâmetros comportamentais para diminuir a taxa de mortalidade e criminalidade da cidade, estado e distrito.”
“Certo, Christopher.” Suspirou ela. “O que você quer?”
“Você nunca me ligou.”
Ela sentiu um frio na espinha. Então era tudo sobre isso. Olhou em volta, respirando fundo, pensando em como as consequências de atos impensados sempre voltavam a ela, sem nunca falhar. “Porque aquilo foi um erro.”
“Todo mundo já transou com o chefe alguma vez na vida, Regina. Isso não é um pecado.”
“Christopher.” Alertou ela.
“O que? Tem medo que alguém possa ouvir isso? Ninguém vai falar nada. Isso acontece com tanta frequência que é praticamente normal. Não era um relacionamento, foi apenas uma noite, e q...”
“Christopher. Você sabe exatamente o que isso significa. Para você não é nada, você é homem, você pode fazer o que quiser e ninguém jamais questionará. Mas não é assim para mim. Como mulher, se souberem que transei com alguém acima de mim, isso vai me marcar como bordar uma letra A em vermelho escarlate. Tudo que vão dizer é que transei com as pessoas para chegar onde cheguei, que nada disso é mérito meu, que eu usei o corpo para chegar onde cheguei. Não aja como se não fosse grande coisa. Sabemos que é.”
Ele consentiu, os olhos verdes atentos aos seus. Por algum tempo, permaneceu em silêncio; eles mantiveram contato visual por mais tempo que ela poderia manter. “Eu nunca faria nada para prejudicar você, Regina. Aquela noite...”
“Eu tinha acabado de descobrir que ia me divorciar. Não estou querendo justificar, apenas que eu estava vulnerável e você estava lá.”
“Tudo bem.” Suspirou ele, afastando-se dela e pegando sua maleta. Regina observou-o caminhando na direção da porta.
“É só isso?”
“Eu estou hospedado no The Grace. Caso você mude de ideia.”
“Até mais, Christopher.”
Ele saiu da sala, deixando-a para trás. Abraçadas pelas lembranças antigas que ele trouxera, Regina também saiu da sala.
***
Quando Roxanne entrou no consultório, Robin sentiu que algo estava diferente. Não era algo nela, não era algo em sua postura, não era algo que ele sequer pudesse explicar. Foi como se uma energia completamente diferente estivesse pairando ao redor dela. Ficou em silêncio observando-a sentar no sofá macio, os olhos baixos. Ela parecia na defensiva. Perguntou-se se Regina poderia ter lhe contado a verdade, mas imaginou que Roxy nunca mais teria retornado se desconfiasse daquilo.
“Roxy.” Cumprimentou ele, forçando uma apresentação relaxada e informal que nunca fora respondida. Sentiu quando ela pousou os olhos sobre ele, encarando-o em profundo estudo e indagação, e percebeu o quanto ela o lembrava de sua mãe. “Como se sente hoje?”
“Você mentiu para mim.”
Talvez Regina tivesse contado a eles, afinal das contas.
“Em que momento?”
Ela cruzou as pernas, o tênis branco com listras pretas balançando no ar e anunciando ao mundo a ansiedade incubada. “Disse que eu deveria me abrir para o amor. Para conhecer o cara certo. Que sentimentos são uma coisa tão bonita.” Desdenhou ela.
“E onde essas coisas se tornaram mentiras?” Questionou ele, ajeitando-se na poltrona, anotando com letras os códigos para os indicativos comportamentais que ela estava apresentando naquele momento.
“No momento em que seu protegée Leo ficou dias e dias se declarando. Tentando me fazer acreditar nessa bobagem de estar apaixonado para na semana seguinte aparecer namorando com a idiota da Melanie.”
“Eu não sabia disso.”
“É claro que não.” Zombou ela, revirando os olhos.
“Como descobrir isso a fez sentir?”
Segundos se passaram para que Robin descobrisse que havia atingido um nervo. “Como você acha que eu me senti, Locksley?”
“Triste?”
Ela riu, amargura ecoando por trás da risada vazia. “Decepcionada seria a melhor palavra. Afinal, eu disse a você com todas as letras que sentimentos são uma perda de tempo. Relacionamentos machucam pessoas. E você, oras, sua tentativa de tentar me convencer do contrário não deu muito certo. Só comprovou o que eu achava.”
Droga, Leo.
“Tudo bem. Eu errei. Você está certa. Relacionamentos são feridas.” Ele suspirou, decidindo mudar a abordagem. “Eu estava revisando o seu teste de reflexos emocionais. Podemos falar sobre isso?”
“Sim.” Foi a resposta que saiu de seus lábios, mas Robin percebeu que não era o que ela realmente queria dizer. Seus dedos começaram a brincar nervosamente com o zíper da jaqueta que usava; umedeceu os lábios, fitando o chão à sua frente, puxou a chave para seu colo, fazendo o som comum do tilintar do molho de chaves se fizesse presente.
“Como está seu relacionamento com a sua mãe atualmente?”
“Bom, eu não diria que está ruim. Ela tem se esforçado para que as coisas melhorem entre nós. Não é tudo, mas é um bom começo.”
“E seu pai?”
“Está um pouco ausente desde que Emma terminou com ele.” Ela encarou o loiro. “Sei que eu nunca fui fã desse relacionamento, mas talvez ela esteja sendo dura demais com ele. Meu pai não é uma pessoa ruim. As vezes ele toma decisões ruins, mas isso acontece. Não era motivo para romper um noivado.”
“Achei que fosse contra o noivado, e consequentemente, o casamento.”
“E sou.” Ela sorriu. “Mas não quer dizer que eu quisesse que acabasse. Meu pai estava muito feliz. Até minha mãe já tinha superado, e estava ajudando Emma. Quer dizer, dentro do que poderia ser considerado aceitável pra essa bagunça, estávamos todos bem.”
“Ele lhe disse porque Emma fez isso?”
Ela deslizou a mão pelo braço do sofá, pensativa. “Não. Apenas disse que ela estava certa. Que estava pensando em toda a família.” Roxy descruzou as pernas e as cruzou novamente, na posição contrária. “O que em outras palavras quis dizer que ela estava pensando em Henry. Minha mãe não é maior fã dela, perdendo apenas para mim em questão de intensidade.”
“Algum motivo em especial para seu ódio gratuito por essa moça?”
“Não é gratuito, Sr. Locksley. Qualquer um em meu lugar sentiria a mesma coisa. Um dia seus pais estão casados, você tem uma família estável, tudo corre bem. No outro dia a sua mãe surta e se afunda em trabalho enquanto seu pai anuncia o namoro com uma modelo superficial poucos anos mais velha do que você. Eu já lhe disse isso umas quinze vezes.”
“Você me disse que não foi exatamente assim.”
“Tudo bem, eu estou exagerando um pouquinho.” Grunhiu a garota. “Mas foi assim que eu senti. E você mesmo disse que sentimentos tendem a tomar proporções exageradas.”
“Sim.” Concordou ele. O assunto estava elevando os picos emocionais dela, e isso causaria uma autodefesa da qual Robin não precisava. Com um meio sorriso no canto dos lábios, ele continuou. “Me conte sobre o trabalho.”
A mudança na postura dela fora imediata. Poucas coisas a estimulavam tão vividamente quanto o trabalho na revista, e isso era excepcionalmente proveitoso para ele. Gostaria de poder comentar isso com Regina – mas lembrou-se do quanto isso possivelmente agravaria ainda mais a situação entre eles. Roxy ainda estava falando animadamente sobre o desfile que estava organizando. “Bem, eu pretendia colocar o Leo de modelo. Mas acho que agora vou chamar outra pessoa.”
“Você está se defendendo do novo relacionamento dele.”
Ela sorriu, encarando-o incisivamente nos olhos. “E você faria diferente, Locksley? Se a mulher misteriosa por quem você tem tantos sentimentos estivesse namorando com outra pessoa, você faria questão de vê-los juntos?”
“Não.”
“Pois bem, eu também não.”
“Mas talvez tentar entender o gatilho desses comportamentos ajude a amenizar o que eles causam, ou talvez diminuir a frequência de episódios.”
“Robin, eu é que cometi o erro. Leo sempre foi claro sobre o que ele queria comigo, sobre seus sentimentos, sobre como ele me via. Ele nunca foi sequer ambíguo a respeito. E eu sempre, todas as vezes, cortei as investidas dele. Sempre fui direta com ele sobre o meu desinteresse ou sobre como eu não queria.” Ela suspirou. “Eu entendo ficar chateada por ele estar com outra pessoa, mas não tenho direito de ficar.”
Robin encarou-a em silêncio, um tanto afetado pelas palavras sábias vinda de sua paciente. “É uma perspectiva muito madura, Roxanne.”
“É a atitude adulta a ser tomada.” Riu ela, balançando as pernas nervosamente.
“Você se sente pressionada a ter atitudes adultas? A provar uma determinada postura?”
“Hummm, talvez.” Pensou ela, encarando a janela e o barulho momentâneo de pessoas passando pelo lado de fora do consultório. “Mas não acho que venha dos meus pais. Meu pai, Deus sabe que meu pai me deixaria agir até como uma criança de 5 anos. E minha mãe, bem, ela só espera que eu seja responsável. Ela não é exigente demais. Mas por exemplo, minha avó... Bem, ela é mais complicada. Ela é absurdamente exigente conosco. Impõe coisas, e as vezes nem minha mãe é capaz de interrompê-la na sua travada contra nossa família. Me surpreende minha mãe não ser uma completa tirana, pois a arvore de onde veio é podre.”
Parte de Robin sentiu-se imediatamente mal por estar invadindo mais da vida pessoal de Regina. Por descobrir coisas da intimidade dela sem seu consentimento, como se a estivesse espionando ou algo assim. Mas ele não podia ajudar Roxanne ou Henry sem dar este passo. “Conte-me mais sobre a dinâmica com seus avós. Vocês têm muito contato?”
“Não mais...” Ela esticou as pernas, e depois as cruzou. “Antes do divórcio, íamos para a casa deles com mais frequência. Eu não diria que a relação entre a minha mãe e minha avó fosse melhor, mas acho que a presença do meu pai tirava o peso das costas da minha mãe. Cora só tinha olhos para o meu pai.”
“E o seu avô?”
Um sorriso lindo cruzou o rosto dela. “Vovô Henry só tem olhos para a minha mãe. Sempre foi assim, e continua sendo.”
“Você acredita que o divórcio causou o distanciamento entre eles e vocês.”
“Não. Minha vó fez isso.” Roxy suspirou, antes de olhar nos olhos dele novamente. “Mesmo com todo o caos que nossa vida estava, minha mãe tentou de toda maneira manter a rotina para nós. Acho que ela estava procurando apoio, e ela precisava de suporte. Era um momento difícil para todos. Mas apesar das tentativas do meu avô, a cada vez que voltávamos lá, Cora a fazia sentir-se ainda pior. A culpava pelo fim do casamento, pela traição, culpava o trabalho, nos alienava contra ela. Então acredito que foi natural, aos poucos a frequência com que os visitávamos era cada vez menor, até que hoje é meramente ocasional. Não dá para julgá-la. Ninguém aguenta ser sobrecarregado com culpa de algo que não aconteceu assim do nada. Todos têm sua parcela de responsabilidade.”
“Vamos falar sobre o seu diário emocional.”
Roxy não pareceu animada. “Pra ser honesta, não escrevi muitas coisas.”
“Pode me dizer por que?”
“Porque não é tão fácil. As emoções não vêm assim, singulares e contínuas para que dê tempo de achar o caderninho e escrever um texto sobre elas.”
Robin sorriu. “Talvez você possa andar com um bloquinho de post-it no bolso. Anote poucas palavras, duas ou três sobre o que sentiu, o que vinculou isso, e guarde. Depois com tempo, você pode pensar melhor e escrever alguma coisa.”
“Você sempre tem resposta para tudo?”
“Bom, pode não parecer, mas eu estudei muito para estar aqui.”
Roxy encarou-o por alguns segundos, e entreabriu os lábios, mas nada saiu. Robin podia ver seu conflito facilmente. “O que é, Roxy?”
“O que foi o quê?”
“Parece que você tem perguntas para mim.”
“Como é que você consegue ler essas coisas?”
Ele sorriu. Robin ajeitou-se na poltrona, endireitando as costas na poltrona macia. Deixou o caderninho na mesa ao lado, e olhou para ela, demonstrando sua total atenção. “Se tem algo que quer saber, pode perguntar.”
“Qualquer coisa?”
“Qualquer coisa.” Garantiu ele, desejando que o universo não lhe pregasse uma peça amarga e a fizesse perguntar sobre o relacionamento secreto que ele tivera com a mãe dela.
“O que você esconde?”
Merda, merda, merda.
“Como assim?”
“Quais são seus dilemas, seus problemas, traumas. Eu me sentiria mais segura sabendo que não sou a única quebrada aqui.”
“Você não está quebrada, Roxy.”
Ela sorriu, os olhos não condizendo com o sorriso. Poderia não estar, mas aparentemente, era assim que ela se sentia. E se mostrar vulnerabilidade a faria sentir mais segura, bem, ele poderia fazer isso.
“Eu não sou perfeito, Roxanne. Se é isso o que tem medo, não precisa mais se preocupar. Como você sabe, eu perdi minha mãe. E meu pai, bem...” Robin sorriu, o semblante entristecendo por segundos antes de recobrar sua naturalidade. “Meu pai não apoia quem eu sou. Nada do que faço. Nem a música, que é o meu maior sonho, nem meu trabalho como terapeuta. Eu sou um completo fracasso aos olhos dele. Tudo o que ele não queria.”
“Sr. Locksley...”
“Isso faz com que nem sempre eu seja tão confiante. É claro que conheço ferramentas para quebrar esse ciclo vicioso; com certeza eu tento sempre podar essa necessidade de validação da parte dele. Mas ele e meu irmão são a única família que me resta. Às vezes, é mais forte do que eu.”
Robin suspirou. “Às vezes estou aqui, mas minha mente não está. Quero ajudar as pessoas, e ao mesmo tempo, quero tocá-las através da música. Minha mente nunca está concentrada realmente, é como se eu conciliasse vidas que não se encaixam.” Ele se perdeu em seus pensamentos, esquecendo que estava desabafando com sua paciente adolescente. “E ela, Deus, ela tinha que terminar comigo... Logo quando estava tão claro que eu...”
“A mulher misteriosa já terminou com você?”
Robin arregalou os olhos. O que ele estava fazendo? Roxanne não deveria saber disso. “É complicado.”
“É uma pena. Essa mulher deve ser louca. Ninguém em sã consciência dispensa um homem como o senhor.”
Rindo, ele ajeitou-se na cadeira novamente e focou sua atenção. Percebendo que ela estava mais aberta, ele decidiu arriscar. “Por que disse que se sente culpada com frequência no questionário?”
E foi quando ele a perdeu. O que quer que aquela pergunta tocava, era algo intrínseco e extremamente sensível. Levou segundos para que ele percebesse que ela havia se desligado totalmente, e erguido muralhas gigantescas que ele não podia ver, mas decididamente conseguia sentir. Os braços cruzaram-se, o corpo enrijeceu, o olhar apagou. Viu a linha do maxilar ranger de maneira nítida. “Eu não vou falar sobre isso.” Respondeu ela, na melhor tentativa de parecer impessoal e fria, mas sua voz a traiu. Havia algo ali, algo muito doloroso.
“Roxy, eu não...”
“Que horas essa sessão vai acabar?” Questionou ela, abandonando o olhar e encarando um ponto aleatório na parte baixa do sofá. Robin sabia que a sessão estava terminada. Não conseguiria mais nada dela após tocar o que quer que fosse aquilo. Era perda de tempo mantê-la ali.
“Encerramos por aqui, Roxy. Pode ir.”
Ela ergueu o olhar surpresa. “É sério?”
“Eu não quis invadir sua privacidade. Desculpe. Você está dispensada por hoje.”
Ela assentiu, mas não respondeu nada. Levantou-se em silêncio, pensativa e saiu sem olhar para trás. Robin tinha teorias formadas em sua mente a essa altura, e todas levavam a problemas que ele não seria capaz de levar adiante. Suspirou, pensando o quanto isso deveria deixa-lo feliz por abrir caminho para ficar com Regina, mas ele não se sentia assim. Estava preocupado com ela. Deixa-la ir talvez se tornasse ainda mais perturbador para ele do que fora deixar Regina escapar por entre seus dedos.
***
Passar pelo portão principal da delegacia lhe dava um novo impulso de energia, como se a recarregasse. Era assim que Regina sentia-se toda vez que voltava para lá. Renovada – mesmo sabendo que havia pilhas e pilhas de coisas a fazer. Algo na atmosfera rustica e barulhenta, algo nas vozes as quais ela estava ambientada, o tocar incessante do telefone. Por essas e outras características, considerava aquele lugar como uma extensão da sua casa.
Porém sentiu que essa extensão se prolongara demais ao ver Jefferson esperando por ela em sua sala.
“Deus...” Resmungou ela, passando por ele e pendurando a bolsa. Sentou-se em sua cadeira, esticando as costas, movimentando os ombros como que se preparando para a tensão esmagadora que aquela reunião traria a ela.
“Olá, Regina.”
“Jefferson.” Sorriu. “A que devo a honra da sua ilustre presença? Veio soltar algum dos meus presos hoje?”
“Gostaria de conversar com você.” Disse ele, encarando-a sem titubear. Regina encarou-o, perguntando-se o que ele estava esperando para começar a falar. “A sós.”
Ele ergueu a cabeça discretamente, mas ela entendeu o que ele queria dizer. A mesa atrás dele era a de Graham, e mesmo ele não tendo virado para checar, possivelmente ouvira os passos do mesmo e sabia que o policial estava com os olhos cravados nas suas costas. “Presunção sua vir até a delegacia e pedir uma reunião particular, Jefferson.” Sibilou ela sarcasticamente, mas revirou os olhos e encarou Graham por cima de seu ombro. “Graham, você se importa?”
O olhar no rosto dele dizia que ele se importava – bastante. “Tudo bem.” Respondeu ele, levantando-se e saindo, mas não sem antes dar um leve empurrão na cadeira do advogado. A porta estava fechada, e o silêncio tomou conta do cômodo, lentamente, preenchendo os espaços entre eles. Regina recostou-se na cadeira, curiosa sobre o que poderia levar seu ex-marido até ali, o que faria com que ele baixasse a guarda de tal maneira a encontrá-la em seu habitat. “Você quer conversar, então, converse. Estou ouvindo.”
“Eu gostaria de voltar para casa.”
Ela não pôde conter a risada estrondosa que escapou de seus lábios e explodiu por toda a delegacia. Ele só podia estar brincando, não é? Que grande besteira. Seus olhos estavam lacrimejando, pela força da sua risada, mas então ela notou que ele continuava encarando-a com os grandes olhos azuis cintilantes, sérios e compenetrados. “Uau, você está falando sério?”
“Isso é tão improvável assim?”
“Emma lhe deu um pé na bunda e sua primeira ação é achar que eu o quero de volta?”
“Ela não me deu um pé na bunda!”
“Não foi o que eu ouvi.” Sorriu ela.
“Regina.”
“Certo. Assunto sério. A resposta é não, obvio que não. Não estamos mais casados. É a minha casa, e eu não me divorciei para passar mais tempo com você, que dirá morar na mesma casa.”
“Eu poderia ajudar...”
Os olhos cor de chocolate afunilaram-se como olhos de águia sobre ele, encarando-a de uma maneira que o fez se arrepender das próprias palavras quase que repentinamente. “Como é que você poderia me ajudar, Jefferson?”
“Com as crianças. É bom para eles terem os dois pais sobre o mesmo teto. Posso ficar mais presente, posso ajudar com as coisas da escola, e...”
Ela podia sentir o pulsar específico de uma dor de cabeça no fundo da sua mente, avisando-a de sua chegada futura. Não era possível que eles estivessem mesmo tendo aquela conversa; torceu para que fosse uma alucinação. Para que todo aquele dia não passasse de um maldito pesadelo. Olhou para os dedos de sua mão e contou. Cinco dedos. Era real; aquela conversinha ridícula era real.
“Você está me ouvindo, Regina?”
“Não.”
Ele parou de falar e encarou-a. “Não?”
“A sensação que eu tenho é que você parou de prestar atenção nos seus filhos há algum tempo. Sua filha está prestes a ir para a faculdade e seu filho já está no colegial, nenhum deles precisa de ajuda com o dever de casa. Você quer ser presente? Seja presente. Não precisa estar deitado sob o mesmo teto que eles para isso. Eles são adolescentes, pelo amor de Deus. Converse com eles. Escute o que eles têm a dizer. Só isso. Eles não precisam de mais dinheiro, mais coisas, mais presentes. Precisam do pai. Só isso.”
“Eu só quero consertar as coisas, Regina.”
Por ela. Ela sabia disso. Ele estava genuinamente preocupado pois Emma havia lhe dito para se preocupar. Ninguém mudaria Jefferson. Nem mesmo Emma.
“O que foi que ela lhe disse?”
Jefferson não precisou analisar o rosto de Regina para saber que ela havia lido toda a situação. Ela sempre fora incrivelmente esperta, e podia desvendá-lo com os olhos fechados, de longe. Talvez ela sempre soubera o quanto ele fora desleal a ela. Talvez ela tivesse escolhido não acreditar nisso. “Ela quer que eu seja um pai melhor. Um ex-marido melhor.”
“Talvez ela queira que você queira isso, Jefferson. Não por ela. Pelos seus filhos.”
“Meus filhos estão ótimos.”
Regina riu, os olhos entristecendo. “É o que você pensa, e isso só prova o quão distante você está deles. Eles não estão bem. Henry começou a demonstrar sinais de algo que não sei bem ainda, se são problemas na escola, se são problemas com alguma desilusão amorosa, ele só... não está normal. E Roxy... Ela passou de uma fase em que me odeia para uma fase em que me evita, e não sei como, mas é ainda mais preocupante. É como se houvesse algo entre todos nós, paredes ou sei lá o quê.”
“Como é que você sabe disso?”
“Eu falei com o terapeuta deles.”
“Que terapeuta?”
“O indicado pela escola. Faz parte do corpo docente.”
“Deveríamos transferi-los para algum terapeuta pago, algum com credenciais altas, podemos ver as indicações de...”
“Eu acho que deveríamos deixar o atual terapeuta cuidar disso. Ele tem feito um bom trabalho até o momento. Seria besteira uma transferência agora.”
“Mas não podemos deixar nossos filhos abrirem nossa intimidade para qualquer um.”
Qualquer um.
“Bom, o que te faz pensar que esse profissional é qualquer um?”
“Regina, por favor, é um terapeuta de escola. Imagina que fracassado...”
“Não fale assim dele.” Cortou ela friamente, as palavras cortando o ar antes que ela pudesse repensar o que ia dizer.
Jefferson ajeitou-se na cadeira, encarando-a. “Parece que você está bem familiarizada com esse tal terapeuta.”
“Se você não quer começar uma briga, abandone esse assunto. Eles continuam a terapia que já estão fazendo. Conversaremos quando acabarem as aulas.”
“Sua palavra não é a única que importa aqui, Delegada.” Ironizou ele.
“Mas é a palavra de quem tomou a iniciativa para resolver as coisas. Então, agradeço você não atravessar minhas decisões.”
Notou que ele se preparava para continuar o debate, os olhos firmes, os lábios entreabriram-se e ela esperou ansiosa pela ofensa mascarada de advogado que ele arremessaria contra ela, mas... nada aconteceu. Jefferson manteve-se calado, encarando-a como se ela fosse algo novo e incógnito para ele. “Façamos como você diz, Regina.” Concluiu ele, deixando-a ligeiramente desconfiada. Quem era esse homem?
Dois toques na porta a despertaram de seu transe. Seus olhos cruzaram-se rapidamente com o de Christopher, e ela percebeu que ele estava carregando sua jaqueta. “Estou interrompendo algo?” Brincou ele, os olhos ávidos vasculhando a mesa de Regina, medindo Jefferson de cima a baixo e escancarando seu sorriso para ela. “Você deixou sua jaqueta, Regina.”
Ela não tinha pegado a bendita jaqueta? Repassou rapidamente seus passos. Havia pego. Mas então Chris a fizera parar para ter aquela conversa, e ela colocara a jaqueta sobre outra cadeira. Não explicava como ele estava com ela, afinal, ele deixara a sala primeiro. “Que gentileza da sua parte a trazer pessoalmente.” Respondeu Regina ao levantar-se para pegar a mesma, percebendo que Jefferson acompanhava a interação dos dois com muito interesse. Chris virou-se para ele, sorridente. “Doutor Hatter, há quanto tempo não tenho o desprazer de cruzar com você em um caso! Como tem passado?”
“Muito bem e você, Superintendente Holtz?”
“Maravilhosamente. Feliz de voltar à cidade. Há muito beleza por aqui.” Insinuou ele, olhando de soslaio para Regina. “Bom, vou deixar vocês à vontade. Até mais.”
E tão abruptamente ele entrara, assim ele saíra. Regina observou-o através da janela de acesso ao saguão. Qual era a dele? Parecia descontraído, conversando com diversos policiais, cumprimentando as pessoas com toda a naturalidade, sentindo-se em casa na delegacia dela. Levou algum tempo para perceber que Jefferson estava encarando-a em silêncio, e talvez tivesse acompanhado todo o seu momento voyeur.
“Posso lhe fazer uma pergunta, Regina?”
“Claro.” Respondeu ela, esforçando-se para parecer descontraída; não queria que ele percebesse a tensão que a pergunta dele lhe causara.
“Você me traiu com ele alguma vez?”
“É claro que não.”
Jefferson pareceu pensar no assunto. “Não deve ter sido por falta de tentativa da parte dele.”
“Já terminamos aqui?”
Jefferson sorriu. “Já terminamos aqui, Regina. Obrigada por me ouvir.”
Regina observou-o sair, confusa sobre tudo o que estava acontecendo.
***
Sentado em um dos vãos laterais da biblioteca, Henry rabiscava o desenho de um rosto feminino. Eram linhas simples que formavam o esboço de um rosto visto de perfil, e não poderia ser chamado de nada a não ser um mero teste, mas ele se sentia bem. Uma voz chamou sua atenção, e ele parou o movimento por segundos, acompanhando de longe Melanie e Leo atravessando o pátio, rindo e felizes, os dedos entrelaçados, e a maneira que olhavam um para o outro.
Que droga. Qual era o problema dele? Leo tinha acabado de sair de um lance ou relacionamento ou sei lá o que era aquilo que ele tinha com sua irmã e de repente estava com a menina mais bonita de todo o colégio.
Quer dizer...
“Oi estranho.”
Seu coração parou quando ele encarou Violet debruçada sobre ele, os olhos curiosos em seu desenho. Ele percebera que ela fizera duas mechas em um tom violeta, que não estavam muito fortes, mas brilhavam à luz solar. “Oi Violet.”
“Gostei do desenho. Quem é?”
“Não sei... Um rosto que veio da minha mente.”
“Henry Hatter e suas musas misteriosas.” Brincou ela.
“Eu não diria que tenho musas. Nem sequer uma musa.”
“Eu posso ser sua musa.”
“Não acho que Cole gostaria disso.”
“Ele é um babaca.”
Henry sorriu, mas seus olhos não acompanharam. Era o que ela dizia, mas ele sabia que não era o que ela sentia. Independentemente das coisas idiotas que Cole fazia, ou como ele a tratava, Violet sempre voltava para ele. Ela pegou o lápis de sua mão, e começou a desenhar sobre o seu desenho, e tudo que Henry pode fazer foi encará-la, admirando cada pequeno detalhe, a maneira como os olhos dela brilhavam quando ela fazia algo que gostava, o sorriso quase infantil de uma criança que é pega aprontando, a respiração entrecortada – tudo a respeito dela fazia seu coração doer.
“Ficou melhor assim.” Disse ela, e ele percebeu que ela fizera uma leve curva nos lábios da modelo, insinuando um sorriso discreto e genuíno.
“Desisto. Passo a você a tocha de artista contemporânea em sofrimento existencial.”
Ela sentou-se ao lado dele.
“Posso ver seus esboços?”
Henry fez que sim com a cabeça. Ficou em silêncio enquanto Violet folheava seu caderno moleskine, o coração batendo acelerado sob a expectativa dela associar todas as artes que ele fizera ali justamente pensando nela. E não poderia ficar pior quando ele parou em uma das paginas onde ele desenhara uma sereia, com um rosto tão parecido com o dela que poderia ter sido um desenho feito e palavras que naquele momento ele se arrependera de ter escrito ali. “Sua voz é um feitiço que me encanta e me prende, me faz tão refém que não consigo negar...” Começou ela, lendo aquilo com um sorriso presunçoso. “Em sua rede eu mergulho para nunca mais voltar. Percebo então que não sou seu navio e que de longe espio sua jornada para outro mar.”
Merda.
“Essa sou eu?”
“Não.”
“Por favor, é claro que sou eu. Parece até uma foto minha de sereia.”
“Tudo bem, é você.” Resmungou ele. “Posso pegar de volta?”
“Esse poema, é sobre mim?”
“Que?”
Ela estava ainda mais perto. Era intoxicante. “Responda à pergunta, Henry.”
“Não, não é sobre você.”
“Eu acho que é.”
“Você acha errado.” Suspirou ele, pegando o caderno e fechando-o. “Eu estava apenas esvaziando a mente e saiu esse poema. Não é sobre ninguém específico. Nem tudo de um artista é uma indireta.”
Violet sorriu, encarando-o. “Bom, de qualquer forma, eu gostei dele. Vou pensar nele como escrito para mim. Como se eu fosse tão mágica e encantadora quanto uma sereia cantando ao relento.”
“Você é.”
“Violet!” Gritou uma voz masculina, e ele nem se deu ao trabalho de virar-se para ver que era Cole.
“Vejo você por aí, Henry.”
Ela beijou sua bochecha, e afastou-se, e Henry sentiu-se de repente muito mais triste do que estava antes. Fechou seus cadernos, e colocou-os na mochila, e saiu cabisbaixo no sentido contrário, submerso no som das conversas e risadas juvenis que preenchia os corredores do colégio.
De longe, Melanie observava toda a cena.
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