Roleta Russa

27 Capítulo 27


Notas iniciais
galera, eu sei que faz muito tempo, e o capítulo será relativamente curto mas estou tentando. obrigada pra quem ainda estiver aqui

Leo desceu as escadas de porcelanato aos pulos, procurando-a. Sabia que sua mãe estava certa – ele não podia permitir que Tyler os afastasse, por piores que fossem suas ameaças. Grupos de adolescentes formavam pequenos focos pelos corredores e ele desviava deles como se fosse uma prova olímpica. Apertando a mochila de jérsei contra as costas, ele estava ofegante, ansioso, preocupado. Temia que Roxanne não acreditasse ou então, sequer se importasse com as suas razões. E nem ao menos poderia culpa-la. Fizera questão de acertar suas feridas de maneira brutal, certificando-se de que ela nunca mais olhasse em seu rosto.

Estava chegando ao ginásio quando sentiu o toque macio em seu braço, dedos segurando sua jaqueta verde. “Leo, eu estava procurando você.”

Ele estava prestes a dispensar Melanie, poderia falar com ela outra hora; mas parou por segundos para encará-la e percebeu que algo não estava certo. Os olhos verdes costumeiramente tão doces estavam escuros, bordas avermelhadas que denunciavam lágrimas posteriores. “Mel, o que aconteceu?”

Ela prendeu o lábio inferior entre os dentes, balançando a cabeça negativamente e negando-se a falar, mas seus olhos estavam acumulando lágrimas e ele entendeu que Roxy teria que esperar. Puxou a amiga na direção das escadas de acesso ao porão; um local de pouco movimento onde poderiam conversar sem que alguém esbarrasse neles.

“Mel...” Suspirou ele, abraçando-a. Deslizou a mão pelas madeixas loiras, acariciando-a e esperando que ela chorasse o que precisava. Afastou-a lentamente e ela se endireitou, suspirando e encarando-o com um sorriso tímido.

“Você deve estar me achando doida, Scarlett.”

“Na verdade estou um pouco preocupado.” Sorriu ele. “Você costuma ser a minha fonte de bom humor pela manhã.”

Ela sorriu, balançando a cabeça enquanto fitava os pés dele.

“Quem foi? Devo me meter em uma briga em troca de seu sorriso?” Brincou ele.

“Eu... Você sabe, a mesma coisa de sempre. Henry.”

Henry. Este era o segredo que Leo e Melanie compartilhavam tão secretamente. Sua amiga era apaixonada pelo irmão de Roxanne; uma paixão platônica que a mesma carregava por mais anos que ele era capaz de contar. Talvez desde sempre.

“Ele disse alguma coisa?”

“Não, ele...” Melanie suspirou. “Eu vejo o quanto ele está diferente, Leo. Ele não está bem... E por causa dela.”

“Mel...”

“O quê? Você sabe que é verdade. Violet não é mais aquela menina que nós conhecemos na escolinha. Ela mudou. Ela não é mais quem o Henry espera que ela seja.”

“Mas não cabe a nós julgar, Mel. Roxanne também era parecida com ela, talvez até mesmo pior em questão de comportamento e hoje ela está se esforçando em ser alguém melhor.”

“Violet não está se esforçando.” Sibilou Melanie, irritada. Os olhos verdes ganharam uma nuance mais intensa. “Ela ainda sai com o Cole sabia? E com aquele grupinho deles. Essa semana mesmo, eu desci ao vestiário e ela estava nos fundos do campo de beisebol, com eles, fumando maconha e se divertindo. Mas para o Henry ela faz esse papel de pobre garota corrompida.”

“Eu vou conversar com ele, ok? Mas mesmo que ele acredite em mim, isso não vai fazer com que ele magicamente caia nos seus braços, você sabe disso, não é? Ele esta apaixonado. Independente do que nós achamos da Violet, ele a vê com outros olhos.”

“Eu não me preocupo com ele por interesse, Leo. Nem acho que isso vai nos tornar um casal. Eu só me importo. Torço para que ele seja feliz, e não que se isole por causa de uma relação que o está intoxicando.” Ela suspirou. “E não é isso que queria falar com você. Eu quero te pedir um favor. Um favor grande, mas é importante para mim.”

Leo encarou-a, perguntando-se qual seria o tamanho do golpe que levaria agora. Respirou fundo, ajeitou os ombros e finalmente aceitou a sentença. “Manda ver.”

“Eu quero que você finja que está comigo. Tipo namorando.”

“Que?”

“Antes que você me diga não, por favor, Leo. Me ajuda. Eu preciso saber se isso vai causar o mínimo dos baques nele. Se faz diferença.”

“Melanie, isso é um favor gigantesco...” Grunhiu ele, passando a mão entre os fios de cabelo escuro nervosamente. “Vai me afastar de ambos. Dele, de Roxanne...”

“Só por duas semanas, por favor? Leo, eu estou te implorando. Por favor.”

“Mel...”

“Leo, eu nunca, nunquinha, te pedi alguma coisa assim. Isso é importante para mim. Eu preciso saber se o Henry sente qualquer coisa que seja por mim, mesmo que a mínima das faíscas; eu preciso dessa resposta para decidir se desisto desses sentimentos.”

Leo suspirou. Era a verdade; Melanie Nolan nunca havia lhe pedido nada, e sempre lhe estendera a mão. Sempre esteve ao seu lado durante seus momentos mais difíceis e era um anjo que iluminava os dias de sua mãe quando ele não estava tão bem. Que mal poderia fazer ajuda-la em algo tão simples? Ele poderia tentar resolver as coisas com Roxanne depois. Ela entenderia as razões dele quando ele explicasse.

“Tudo bem. Eu aceito.”

“Leo, você é um anjo!” Grunhiu ela, sorrindo como se o mundo tivesse repentinamente se tornado o melhor lugar do mundo. Abraçou-o com força, enterrando-se contra o seu peito e ele retribuiu, tocando seus cabelos com cuidado. Ergueu o olhar e avistou Roxanne parada no alto da escada, assistindo-os sem nenhuma expressão. No segundo seguinte, ela havia desaparecido.

***

Três dias haviam se passado. Três longos dias. Setenta e duas horas que lhe pareciam setenta e dois anos, para ser honesto. Empurrou a caderneta com as cifras para longe e afastou-se do piano, levantando-se. Ao sair do quarto, sentiu o cheiro de frango frito.

“Olha só quem saiu da caverna.” Zombou John, e só então Robin percebera que Killian e Neal também estavam ali.

“Galera.”

Caminhou até um canto do sofá, pegando uma cerveja e tentando entender o que eles estavam assistindo. Uma partida da NFL, como sempre. Revirou os olhos e esticou as pernas sobre a mesa, percebendo então que eles não estavam mais focados no jogo. Os três o encaravam em silêncio, ansiosos e curiosos.

“O que foi?”

“Você não acha que nos deve algumas respostas?”

“Sobre?”

John sorriu ironicamente, balançando a cabeça.

“Qual é, Robin.” Provocou seu amigo. “Killian namora com a melhor amiga da Regina. Nós sabemos que vocês terminaram. Queremos entender o que aconteceu.”

Robin fitou os próprios pés numa tentativa de amenizar o peso que aquele assunto exercia sobre seu peito. O ar parecia tornar seus pulmões tão pesados quanto aço. “Nós terminamos. É isso. Não tem uma grande e emocionante história por trás disso.”

Ao encarar seu irmão, percebeu que ele sabia o real motivo do que havia acontecido. Porém ele não dissera nada aos seus amigos e Robin agradeceu-o mentalmente por isso. Não queria expor Regina mais uma vez. Era o mínimo a ser feito.

“Com certeza têm alguma coisa bem errada aí sim.” Continuou John, contrariado. “Eu já vi mulheres entrando e saindo da sua vida, Locksley. Mas eu nunca, e vou repetir, nunca, vi você olhando para outra mulher do jeito que olha para Regina Mills. Eu não sei o que vocês dois aprontaram mas não me venha com historinhas. Tinha sentimentos acontecendo, porque eu vi. Tanto você quanto dela.”

“Eu disse que não amo a Regina em algum momento?” Sibilou Robin, a voz gélida os colocando em uma situação embaraçosa e inundando a sala de um súbito constrangimento. “Não fui eu quem escolheu terminar e me perdoe se eu não quero fazer uma roda de orações a respeito, Little John.”

“Cara, calma, eu...”

“Só quer matar sua curiosidade, não é?” Robin levantou-se, irritado. “Pois bem. Não fui eu quem terminou. Por mim, eu teria me ajoelhado na frente daquela mulher e implorado para que ela ficasse comigo. Era isso o que você queria ouvir?”

“Robin, calma.” Pediu Neal. “Ele fez um comentário infeliz, tudo bem.”

Mas o músico não respondeu. Voltou-se para o seu quarto, e vestiu o primeiro par de botas que encontrou. Precisava espairecer. Precisava aliviar o turbilhão que Regina Mills havia provocado em seu coração e em sua mente. Embora seu maior desejo naquele momento fosse quebrar o acordo e ir atrás dela, ele sabia que precisava respeitar os pedidos que ela lhe fizera. Respeito vinha antes de desejos, não importando quão fortes eles fossem.

***

“Emma, posso entrar?”

A voz suave fez com que ela sentisse seu coração apertar. Ergueu o rosto e notou o semblante abatido de Jefferson na entrada de seu escritório. Perguntou-se onde estava sua secretária, que não o anunciara previamente.

“Eu pedi para não ser anunciado. Não queria que você se negasse a me ver.”

“Tudo bem, Jefferson. Entre.”

Ele estava com um dos ternos que ela mais gostava. Ele tinha riscas de giz em um fundo cinza escuro, lhe trazia elegância, sofisticação. Notou que este parecia também mais folgado. Poderia ter perdido peso; os olhos fundos e o pescoço marcado também davam esta impressão. Ajeitou-se na cadeira e fechou suas agendas. Tirou o telefone do gancho e então finalmente encarou os olhos dele e permitiu que ele encarasse o verde intimidante dos seus.

“O que você quer?”

“Como você está?”

“Bem...” Começou ela, encarando o escritório ao redor. “Os negócios vão bem, temos sempre novos investidores tentando acordos. E você?”

“O escritório está em boas mãos, mas não tenho trabalhado muito.” Respondeu ele, a voz cansada e visivelmente enfraquecida. Parecia mais baixa e mais rouca que o normal. “Por que mandou me devolverem sua aliança de noivado?”

Ela suspirou. “Jefferson, não torne isso pior do que já está sendo.”

Ele sorriu, lágrimas nascendo no canto de suas pálpebras. “Oh, você está mesmo terminando comigo.”

“Estou.”

Ele balançou a cabeça, como que finalmente assimilando o que tudo aquilo significava. Respirava pesadamente, incerto sobre o que fazer ali. “Emma, eu... Não sei o que dizer. Meus instintos me dizem para implorar, para me jogar aos seus pés, para tentar todos os argumentos, todas as hipóteses, todas as juras, mas eu conheço você. Se você está decidida a isso, não há absolutamente nada que eu possa fazer. É como se já estivesse feito.”

Ela sorriu, limpando uma das lágrimas que escorreu pelo canto de seu olho esquerdo. “Você realmente me conhece bem, Jeff.”

“Emma... Só me diga o porquê. Eu quero entender onde errei com você. O que lhe fiz de errado, ou imperdoável para que você cancele todo um futuro que nós sonhamos em ter juntos.”

“É exatamente este o problema aqui, Jeff. Não é o que você me fez de errado. É o que fez a eles. Ao seu filho, à sua filha, à Regina, às amigas de Regina. Casar com você neste momento seria compactuar com a maneira que você está deixando as coisas para trás. E se começarmos assim, sabe-se lá o que nós nos tornaremos ou que tipo de casamento teremos.” Emma respirou fundo, encorajando-se. Essa era uma conversa que ela precisava ter. “Todo esse tempo com você me fez perceber que você está estagnado em uma mentalidade dura e rígida, Jefferson. Você está pensando somente na sua felicidade aqui, e eu não acho que isso esteja certo. Seus filhos precisavam de você, e não somente lhes dando presentes caros e fechando os olhos quando fazem coisas erradas. Regina precisa de você ao lado dela, mesmo que ela finja que não. Ela adoraria que você simplesmente ficasse feliz por ela ter encontrado outra pessoa, e que tratasse Robin com respeito – que é o mínimo se comparado a como ela têm me tratado atualmente. Você está errado em culpa-la por tudo quando ela segurou as responsabilidades maiores nos ombros e sozinha. Quando você mesmo tentou alienar Roxy contra ela. Ela nunca fez o mesmo. Nunca pagou na mesma moeda conosco.”

“Emma...” Ele parecia chocado e ela esperava mesmo que ele estivesse.

“Nada de Emma, Jeff.” Continuou ela. “É por isso que estou terminando este noivado. Você não está pronto. Você ainda tem coisas a resolver, feridas a curar, ideias a amadurecer.”

“E se você encontrar alguém? Do que adianta isso tudo?” Questionou ele, as pontas de seus dedos tamborilando contra a madeira da mesa em um gesto imaculado de pura ansiedade e preocupação.

“Você continua vendo a situação com os motivos errados, Jefferson, e isso é o que mais me convence do quanto essa decisão precisa ser tomada. Se você acha que só precisa mudar por minha causa, para voltar aqui e me levar ao altar, então isso nunca vai dar certo. Você tem que fazer o que têm que fazer porque são seus filhos. Eles são o seu legado. Eles enxergam você e veem os seus atos e se tornam adultos através do exemplo, ou da falta dele. Se você quiser e somente se quiser, se tornar uma pessoa melhor deve ser por você mesmo. Para que carregue mais do que um título honrado de Doutor. Seja um ser humano melhor.”

“Está me fazendo parecer que sou uma pessoa horrível, Emma. Isso é injusto.”

“Jefferson.” Ela suspirou, sorrindo enquanto seus olhos enchiam de lágrimas. “Eu amo você. Amo você de uma maneira tão intensa que me deixa sufocada. Chegar a essa conclusão literalmente partiu meu coração.” Limpou algumas lágrimas que continuaram a cair e continuou. “Mas, ao mesmo tempo, sei que nós erramos. Nós atropelamos outras pessoas no ímpeto dos nossos desejos para finalmente ficarmos juntos. E se não voltarmos atrás agora, se não ajudarmos a curar os machucados, se você não refizer seus passos e reparar as relações que danificamos no percurso isso vai nos assombrar para sempre.”

E então ele finalmente entendeu. Isso não era sobre eles, ou sobre ele e Regina. Era essencialmente sobre Roxanne e Henry. Sobre corrigir as coisas e voltar a ser um pai para eles. A retomar as funções que havia delegado.

“Eu entendi, Emma.”

Os olhos dela arregalaram-se e ele levantou-se, demonstrando toda a serenidade do mundo. “Eu entendi. E não te culpo por sua decisão.” Caminhou até ela e acariciou o rosto delicado antes de debruçar-se sobre a mesma, beijando-a sobre o topo dos cabelos loiros. “Me desculpe, loira. Eu às vezes demoro a entender algumas coisas.”

Emma observou enquanto ele saía do seu escritório em silêncio, os ombros baixos e o semblante pensativo. Somente quando ficou sozinha, quando a figura de seu ex-noivo desapareceu, é que ela finalmente se dera conta do que havia feito. Seu coração acelerou e ela finalmente permitiu-se chorar, de uma maneira tão sincera que sua secretária conseguia ouvir os soluços do lado de fora.

***



Regina sentou-se na sala de conferências ao lado de Graham e fitou a mulher à sua frente. Estava acostumada a ser colocada à prova por homens, mas por mulheres era bastante incomum. Mas como estava percebendo, não era impossível.

“Um caso dessa alçada deveria ser passado à inteligência. Não está fora da sua jurisdição como Delegada Federal?”

A morena riu. “Com todo respeito, Agente Torres, a senhora pode até ser uma grande figurona do FBI, mas essa é a minha operação. São meus agentes envolvidos. Minha agente que está lá, infiltrada no meio deles. Foi o meu localizador que nos aproximou desse maldito. Então nem pense que vai me tirar deste caso, pois eu vou até o inferno e volto por ele.”

“Muito bem, Senhorita Mills.” Aceitou ela. “Como desejar.”

“Qual a abordagem que faremos? Estaremos em território internacional, preciso saber até onde posso ir e como proceder.”

Gina ajeitou-se na mesa, encarando a delegada. Admirava-se da valentia da mesma. “Não é recomendável que você vá com o comboio.”

Regina arqueou uma das sobrancelhas, pronta para rebater.

“E não, não estou tentando tirá-la do caso. Percebe-se que o Papai Noel tem uma ligação com você. Se seu rosto for identificado no México, ainda mais na cidade onde eles aparentemente estão locados, eles irão perceber que foram descobertos e desaparecem de novo.”

Fazia sentido, então Regina suspirou e permitiu que a mesma continuasse.

“Podemos formar uma pequena força tarefa. Alguns agentes para perambular pela cidade à paisana. Visitam bordéis, casas noturnas, se misturam. O FBI estará monitorando cada passo deles.”

Graham achou a ideia bastante adequada, mas Regina parecia contrariada. Ambos perceberam a mudança no semblante da delegada, que observava as pastas de seleção com certo desgosto. “A ideia não lhe agrada, Delegada Mills?”

“Estou enviando mais agentes para as mãos dele. Eu prometi a Ariel que a traria para casa e olhe só, cá estamos nós enviando mais pessoas em uma missão perigosa contra alguém cuja identidade nos é simplesmente um enigma.”

“Mas se não fizermos nada ele escapa, Mills.” Gina debruçou-se e encarou-a. “Então o que vai ser?”

Regina encarou-a. Ela estava certa, nada era pior do que perder o único rastro que tinha do Papai Noel. Ela tinha uma vantagem e não usá-la colocaria tudo a perder, inclusive suas chances de resgatar sua agente. “Certo. Vamos montar a força tarefa. Quero monitores interligados às vigílias do FBI na minha delegacia e relatórios diários de todos os agentes em campo. Precisamos também diminuir o numero de oficiais envolvidos. Quero uma pasta com todos os dados de todos com qualquer ligação com essa operação.”

“Esta desconfiada de algo?” Questionou Graham, achando curioso o pedido.

“Eu tenho certeza que o Papai Noel tem olhos e ouvidos aqui dentro e vou descobrir quem é.”

Gina sorriu, encarando-a com interesse. Virou-se para um dos recrutas que a acompanhava. “Anote tudo o que ela pedir. Nossa prioridade agora é trabalhar lado a lado com a Delegada Mills.”

“Preciso de outra coisa, porém isso é entre mim e você.” Pediu Regina.

Graham levantou-se, avisando-a que ia começar a separar o material de seleção. Aos poucos, os recrutas foram saindo. A sala de textura fria e vidraças escuras finalmente fora deixada para elas. A luz forte as iluminava e então as duas mulheres finalmente estavam a sós. “Se me permite dizer, é uma mulher de personalidade forte, Mills. Sua fama realmente lhe precede.”

“Espero que seja uma carregada de sucesso profissional.”

“E como é.” Sorriu a morena, antes de ajeitar o terninho preto. “Mas direto ao ponto, o que quer pedir?”

“Preciso que o FBI faça uma busca sem mandato.”

“Você sabe que isso é...”

“Ilegal.”

“Me surpreende você sugerindo algo assim. A sua ética profissional é recomendadíssima.”

“Exatamente.” Os olhos de Regina escureceram, encarando-a com frieza. “É o que o Papai Noel espera de mim. Jogo limpo, manobras profissionais. Por isso ele sempre está à frente. Ele me considera uma oponente justa; e trair esse conceito seria...”

“Pegá-lo desprevenido.” Torres sorriu. “Oras, se você não é mesmo uma mente brilhante. Tudo bem, Mills. Posso providenciar. Quem é seu suspeito?”

“Madeleine Andrews.”

“A testemunha chave de todo o caso?”

“Sim.”

“Uau.” Respondeu a morena, arqueando as sobrancelhas. “Mas é uma escolha sua. Encontrarei alguém que possa fazer o serviço e o coloco em contato com você, Mills. É só isso?”

“Sim. Obrigada.”

“Me agradeça pegando esse bastardo, garota.”

Regina observou enquanto a agente saia da sala e fitou a silhueta presa no vidro. Era o que ela mais desejava em sua vida.

***


Zelena ajeitou-se dentro de sua SUV e voltou a colocar seus binóculos sobre os olhos verdes. Do alto de uma das ruas paralelas, ela conseguia avistar com perfeição o que acontecia nos arredores externos do colégio. Grunhiu ao ver Tyler fumando outro baseado, com uma garota em seu colo que ela definitivamente não aprovaria nem banhada em ouro puro. Gregory teria que tomar providências; seu filho havia passado tempo demais na companhia de Roxanne Hatter e era claro que aquilo só poderia ser influência daquela garota perdida. Deveria ter feito com que ele mudasse de colégio; ou passasse direto para alguma faculdade renomada. O que era um passe adiantado para ele?

Suspirando, voltou à sua sentinela. Estava marcando rosto por rosto daqueles outros garotos na companhia de Tyler e ia conversar com cada um dos pais. Precisava certificar-se de quem estava cercando seu garoto. O menino havia sido preparado para ser o herdeiro promissor do legado deles e quem dera se um dia a mesma tivesse que desfazer-se de Gregory, precisava garantir a estabilidade de seu futuro com Tyler. Erros e distrações não eram permitidos.

Observou Roxanne sentada no jardim, sozinha, distraída enquanto lia um livro. Talvez a menina não fosse de todo ruim, mas aos filhos os pecados de seus pais. Ela era filha de Regina Mills e por esse motivo, deixava de ser confiável. Deixava de ser uma opção. Filhos de inocentes e filhos da culpa não devem se misturar, tanto na vida, quanto nos negócios.

Seu celular tocou e então ela soltou seu instrumento de pesquisa. Abriu a mensagem que havia chegado e seus olhos percorreram a mesma com uma espécie de ansiedade generalizada. Seus braços se arrepiaram, e ela soltou o mesmo sobre o banco, acelerando logo em seguida. Precisava falar com Gregory. Imediatamente.

No banco do passageiro, o celular balançava de um lado para o outro, com o visor ainda aceso, carregando a seguinte mensagem. O Natal virá adiantado para vocês, Zelena. Estou voltando para a cidade e irei cobrar aquele favor. Papai Noel.