Roleta Russa

1 Capítulo 1


A vida quando quer corre tão rápido que chega um dia que você para e se pergunta: Como cheguei a esse ponto? Como fui parar aqui? E nesse momento, era o que eu me perguntava. A menina sempre casta virou o oposto. E agora era a vez das consequências agirem conforme meu destino. Os desejos de poder voltar no tempo e concertar os erros estão totalmente fora de alcance. É nessas horas eu lembro que minha mãe sempre me dizia que o melhor jeito de seguir a vida, é pensar duas vezes antes de agir ou falar. E agora, eu castigava a mim própria por não dar ouvidos a este conselho.

E não era só o meu destino que estava envolvido nessa besteira, outra pessoa também estava lá, comigo, tentando controlar a respiração para enfrentar o que tinha pela frente. E foi esse alguém que tomou meu coração e me encheu com o sentimento que as pessoas chamam de amor. Nós dois, naquele momento, só tínhamos uma pergunta em mente, resumida por duas palavras.

Por quê?

Por que tudo isso aconteceu? Por que chegamos a esse ponto? Por que fomos tão estúpidos e iludidos? O que seria de nós agora? Ainda existirá uma luz no fim? Essas e outras perguntas enchiam as nossas cabeças de medo e ansiedade. Por mais que quiséssemos, era uma coisa que não podíamos evitar; por mais que por fora parecêssemos calmos e controlados, por dentro gritávamos em desespero. Até que fomos surpreendidos por uma voz grossa, que quebrou o nosso silencio.

- Riley? O juiz vai dar sua sentença agora. Separe-se de sua namorada e vá com os policiais.

Direcionei meu olhar em direção à voz. Reconheci imediatamente de onde vinha o som, junto com os passos pesados e barulhentos no assoalho de madeira por causa da bota de couro. Era um agente de polícia. Olhei para Riley desesperada, agarrando nas mangas de sua camisa, quase que perfurando com meus dedos trêmulos. Tudo o que eu menos queria era separar-me do toque de suas mãos sobre minha pele. E então, ele me olhou com o objetivo de acalmar-me, o que não funcionaria, pois claramente era possível ver o próprio desespero refletindo em seus olhos. Por mais que seu sorriso estivesse calmo, a visão o entregava para a verdade.

— Calma, vai ficar tudo bem, eu prometo, meu amor – disse pouco antes de depositar um singelo beijo entre minhas sobrancelhas.

Fechei meus olhos. Quem dera suas palavras fosse a verdade certeira. Ele não sabia o que iria acontecer, muito menos eu. E isso era o que mais atormentava e me apavorava. O destino que tantas vezes me alegrou, me fez chorar. Era algo que muitas vezes você não podia prever. Mas nesse momento eu podia ter uma vaga ideia do que viria pela frente e rezava para estar errada. Quando abri meus olhos não senti mais seu toque em minha pele. Ele já havia ido com os policiais. E eu tive o que mais temia: a solidão gelada daquela sala de isolamento.

Respire, profundamente

Acalme-se, ele disse pra mim

Se você jogar, você joga para ficar

Pegue na arma, e conte até três

Eu estou suando agora, movendo-me lentamente

Sem tempo para pensar, é minha vez de ir

Uma dor avassaladora tomava meu peito direito bem em cima do meu coração, como se não conseguisse respirar. Andando para trás, tudo no que eu pensava era fugir, esconder-me em algum lugar e nunca mais lembrar-me do que eu fiz. Mas expulsei essa possibilidade da minha mente, pois meu motivo para permanecer neste lugar estava aqui. Em uma sala, sendo interrogado e julgado pelo juiz, policiais e testemunhas perante a lei. Tudo o que eu precisava e queria era poder estar com ele, mas isso poderia atrapalhar tudo, e eu pioraria as possíveis consequências.

Sentei em um canto onde pudesse pensar. Contornei meus braços em volta dos meus joelhos, respirei fundo, já sentindo as lágrimas quentes de medo sob meu rosto frio. Meu coração batia forte contra o peito. O medo de perdê-lo me invadia, dominando minha mente. Muitas imagens horrorosas sobre o possível destino de Riley vieram à minha cabeça, e em todas elas havia mortes.

Soluços já escapavam pela minha boca, ao máximo eu tentava controlar para que ficassem baixos e ninguém ouvisse. Mas pelo tamanho do meu desespero e medo não tinha controle sobre nada mais. Todos que passavam perto da sala seriam capazes de ouvir meu lamento. Como eles se importassem com uma fora da lei chorando por misericórdia.

Naquele momento me lembrei de uma aula de filosofia que tive na escola. O professor havia passado um vídeo sobre a fome na África. No vídeo vimos um inferno rigoroso que aquelas pessoas passavam; a fome, o calor, a miséria e as guerras. Era tudo horroroso e todos na classe sentiram pena. Até que a aula seguinte chegou e ninguém mais comentou do assunto. E eu me sentia assim agora. Como se eu tivesse na miséria e passando fome, as pessoas me veriam nos jornais e diriam: “Que judiação. Coitada.” E depois, voltariam a apreciar seu jantar jogando o resto de comida, que não queriam mais comer, no lixo.

Olhei para o teto com a ideia estúpida de algum sinal me aparecer. Tudo o que vi era o mofo se espalhando pelas paredes lentamente. Parecia um lugar sujo e abandonado, agradeci por não ter ratos ou baratas. Olhar para o teto não mudava nada, a não serem as lágrimas, que mudavam de rumo e escorriam para os meus ouvidos.

Em um ato já desesperado, me ajoelhei e juntei as mãos, entrelaçando os dedos como se eu segurasse desesperadamente alto. E simplesmente fechei meus olhos e rezei. Rezei pedindo perdão por tudo o que fiz; perguntei como fui capaz de chegar a esse ponto; implorei para não fazerem nada de mal ao meu Riley. Tudo isso ao mesmo tempo em que pensamentos horríveis me invadiam.

Respirei e abri os olhos sem nada enxergar pelas lágrimas. Meus óculos estavam tão molhados e embaçados que quando tentei limpá-los, colocando no rosto novamente enxerguei menos ainda. Olhei para cima e sussurrei.

- Ajuda-me. Ouça-me.

E então a porta se abriu.

- Garota! É a sua vez! Sem gracinhas!

E você pode ver meu coração batendo

Você pode ver através do meu peito

Estou apavorada, mas eu não vou desistir

Eu sei que tenho que passar por este teste

Então, basta puxar o gatilho

O policial agarrou-me pelo braço esquerdo com força exagerada caso eu fosse resistir, me debater e fugir como um cruel criminoso com crimes a minha altura faria. Puxou-me para outro lugar mais gelado ainda. Era a sala do júri. No segundo seguinte que abri meus olhos tudo o que eu mais quis foi fugir e enfiar minha cabeça dentro da terra, só para não ver aquela centena de olhos direcionados a mim. Só para julgar e mim e ao ausente Riley.

Vaguei meu olhar pela sala aberta e ampla procurando o Riley, mas infelizmente não o achei em nenhum lugar e automaticamente arregalei os olhos e mais lágrimas desceram me agitando. Queria dizer o nome dele, gritar para falar a verdade, mas minha voz não saia, estava embriagada de mais pelo choro compulsivo. Eu tremia levemente quando o policial me colocou sentada numa cadeira do lado do juiz. Sentia um frio na barriga, um enjoo de ansiedade e preocupação. Eu só queria que tudo aquele problema acabasse logo e finalmente pudesse aconchegar nos braços do meu Riley e esquecer o mundo a nossa volta. Entregar-me novamente ao nosso amor, mesmo que seja apenas só por um instante, não ligar pra nada nem ninguém, só para nos dois.

Mantendo minha cabeça baixa um homem de terno preto risca a giz, com sapato social também preto e uma gravata azul se aproximou de mim. Na mão um pequeno controle remoto típico de apresentações de slides no computador para trabalho ou faculdade. Eu tinha certeza que com aquele controle, ele poderia controlar e até manipular meus atos passados e apresentar as provas com a intenção de me acusar do crime.

O martelo provocou um som abafado, mas ainda sim alto que fez com que todos no recinto ficassem em total silencio. Eu podia ouvir meus próprios batimentos cardíacos ritmados. Levantei um pouco minha cabeça e olhei para o juiz a minha esquerda. Era um homem velho, parecia ter por volta de 55 anos, gordo, careca e barbudo. Usava um tipo de bata preta e uma gravata vermelha. Em sua mão tinha alguns papeis e um martelo.

- Que se inicie esta sessão. Caso 583 apresenta um assalto seguido de morte. Vitima sendo um rapaz branco de cabelos castanhos de nome Victor Rey. A acusada é a senhorita Aline a minha direita. O advogado de ataque vai apresentar tomar o caso agora.

O homem a minha frente balançou a cabeça concordando e engoliu um pigarro. Foi até sua mesa e pegou alguns papeis apertando um botão do seu controle. No minuto seguinte uma tela desceu do teto e o projetor foi ligado. O homem deu dois passos a frente, aquele barulho atravessou meus ouvidos e ecoou na minha mente. Respirei fundo me preparando para o que vinha em seguida e eu tinha certeza que não seria coisa boa.

Faça uma oração para si mesmo

Ele diz feche os olhos

Às vezes ajuda

E então eu tenho um pensamento assustador

Que se ele está aqui, significa que ele nunca perdeu

(Rihanna – Russian Rolete 1ª parte)

Notas finais
Espero que tenham gostado