Notas iniciais
Eu falei na minha Bio que não planejo postar coisas muito longas. Eu sei que tem bastante coisa escrita nesse capítulo, mas é porque eu não quis dividir em outras partes. É só isso a história, não vai ter mais atualizações nem nada do tipo.

Um jovem garoto tateou a parede áspera de um corredor escuro em quanto o atravessava, em direção a uma sala branca e iluminada. O corredor era vazio, sem nenhuma lâmpada ou retratos presos a parede. Ele servia apenas para interligar as duas grandes salas da pequena casa, sem fundi-las em uma só. O menino tinha cabelo castanho, liso mas repicado em seu topo, espetando para os lados. Ele era incrivelmente pálido, provavelmente devido ao tanto de tempo que passava dentro daquela casa. Usava uma jaqueta azul, feita de lã, com suas mangas dobradas. Em suas pernas ele vestia uma calça jeans um tanto rasgada em seus joelhos, abrindo vista para dobras um tanto estranhas. Era como se ele fosse um boneco de sua cintura para baixo. Seus olhos brancos brilhavam no escuro, levemente iluminando aquele corredor. Ao adentrar o outro cômodo, a luz iluminou seu rosto, e o branco de seus olhos transformou-se em cinza, ao mesmo tempo que parava de brilhar. A sala em que estava tambem estava vazia, exceto por uma porta feita de madeira no centro de seu lado esquerdo, e encostado a parede do lado direito havia uma cadeira, também feita de madeira. Ele caminhou calmamente em direção a cadeira, e puxando-a para trás, sentou-se, encarando a parede.

– Eu não sou humano. Eu sei que posso parecer caso você me olhe com seus olhos comuns e superficiais, mas eu não sou nem um pouco humano. Eu fui criado genéticamente, e de certo modo posso ser considerado um robô.

Ele virou sua cabeça em direção ao chão, soltando uma pequena risada.

– Ou androide, acho que combina melhor.

Disse, voltando seu olhar em direção a parede

– Eu me chamo crônica, e o homem para lá…

Falou, apontando em direção a sala ao outro lado do corredor

– Eu nunca me interessei em perguntar seu nome, então o chamo de guaxinim, porque ele veste uma máscara de guaxinim. Nós vivemos em um planeta inabitado, até onde eu saiba, e ele é um pouco estranho. Eu poderia sair ali fora e te mostrar, mas eu não quero fazer isso. Esse planeta é estranho, eu já falei. Não é como se fossemos nós dois e o planeta, é mais como se fosse o planeta e nós dois. É como se esse planeta não tivesse vida porque ele não quer que vivam nele, e eu não vou me arriscar a ir ali fora só pra te mostrar como ele é.

Crônica então ergueu suas mãos, e formou o que parecia ser um círculo com elas.

– Imagine o seu planeta. Agora tire tudo que os seres vivos fizeram nele, prédios ou qualquer coisa desse tipo. Deixe apenas água e terra. E agora, faça por todo esse planeta existir um labirinto sem fim, feito com aquelas paredes de planta, cheia de folhas.

Suas mãos se abaixaram, e ele soltou um sorrriso.

– Aqui estamos. Vamos agora ver o guaxinim.

Ele se levantou, empurrando a cadeira para trás. O som de algo enferrujado sendo arrastado ecoou pela sala, passando pelo corredor. O robô deu uma pequena corrida em direção ao outro lado da casa. Fechando suas pálpebras pouco antes de passar pelo corredor, ele apressou seu movimento.

– Essa luz que eu solto arde meus olhos

Explicou, finalmente pisando para fora do corredor, já no cômodo direito da residência. Ao abrir seus olhos, ele se deu de encontro com o outro homem que morava lá.

Ele estava sentado em um banco grudado ao chão, que como o solo, era feito de cimento, sem nenhum tipo de cobertura. O homem usava uma roupa de alumínio, lembrando um astronauta. Ela parecia ser completamente fechada, sem nenhuma espécie de zíper, ou algo para a abrir. Também era completa, cobrindo seu corpo inteiro. Botas, luvas, tudo ligado diretamente a roupa, sem ser em partes separadas. O que chamava atenção era que parecia que um de seus braços estava faltando. A manga do lado direito balançava contra seu corpo, sem nada para segura-la, de um pouco acima do cotovelo para baixo.

Em sua cabeça, estava uma grande e redonda máscara, que parecia a cabeça de um guaxinim. Como o animal, ela era cinza e preta. Estava desgastada, com pequenos cortes por todo seu tecído, e poeira espalhada por toda sua base. Um de seus olhos, feitos de botão, estava cinza, diferente do outro que reluzia em preto. O robô caminhou rapidamente em sua direção, parando agitado em sua frente, dando um leve chute contra o joelho do homem vestido de guaxinim. Ele ignorou o chute, apenas olhando para o vazio da sala.

– É, você já deve ter percebido que não temos muita coisa por aqui. Aquela cadeira deve ser o único móvel que temos.

Falou Crônica, em quanto dava um pequeno tapa na bocheca de Guaxinim.

– Ele não é um robô igual eu. Mas também não significa seja um humano igual você.

O andróide então apoiou sua mão ao ombro do possível homem, e se movimentou para seu lado, sentando-se ao banco. Guaxinim moveu-se um pouco para o lado oposto, parecendo incomodado.

Encostando sua cabeça contra o ombro dele, Crônica acalmou-se, e após um tempo começou a dormir.

Chovia forte quando ele acordou. O teto, mesmo feito de concreto, parecia que iria despencar a qualquer momento.

– As chuvas aqui são bem pesadas, todas elas.

Explicou o robô, soltando um suspiro logo em seguida.

Ele observou Guaxinim, que batia sua cabeça contra a parede ao outro lado da sala. O barulho das pancadas era abafado por colidir contra algo macio, sua máscara.

Crônica riu, em quanto se levantava do branco de concreto, se espreguiçando.

– É, eu não preciso me espreguiçar. Eu só sinto vontade de me mexer quando acordo.

O menino robô então juntou fôlego em seus pulmões, e soltando tudo, deu um grito agoniante, que ecoou por toda a residência.

Guaxinim parou de se bater contra a parede, e colocando sua mão contra a parte que sobrara do outro braço, pressinou-a, e abaixou-se, agaixando-se apoiado a parede.

Crônica não parava, o barulho durou por minutos. Ele parecia não se cansar, e seus olhos arregalados encaravam o homem encolhido ao outro lado da sala.

Pareciam ter se passado horas na cabeça de Guaxinim, quando finalmente ele parou. O silêncio penetrou por suas orelhas. O andróide soltou uma gargalhada, ainda sem piscar. Finalmente fechando seus olhos, passou seus dedos contra as pálpebras, pressionando-as.

A chuva havia parado. Parecia ser de manhã. O robô caminhou em direção ao corredor, atravessando-o, e logo caminhou em direção a porta. Ele esticou a mão em direção a maçaneta, parando apenas alguns centímetros longe. Seu punho se cerrou, e virando sua cabeça, ele caminhou novamente em direção ao corredor, apressado. Em poucos segundos ele já estava na outra sala, e caminhava com fúria em direção a Guaxinim. Parando em sua frente, e erguendo sua perna, o robô deu um chute contra o ombro do homem, que ainda estava encolhido ao chão. Ele gritou em dor. Crônica estava vermelho, seus olhos fitavam Guaxinim.

– Viu o que você me faz fazer?!

Gritou, furiosamente, para o ser caído ao chão. Sua perna levantou-se de novo, e então deu outro chute contra o braço dele. Crônica repetiu essa mesma ação repetidas vezes. Guaxinim caiu ao chão, e tentando sair de perto do robô, esticou seu braço em direção ao chão, tentando se arrastar. Porém, Crônica chutou-lhe contra suas costelas, e um som doloroso espalhou-se por seus ouvidos. Ele olhou para Guaxinim, caído ao chão, de bruços, imóvel. O examinou por alguns momentos, se acalmando. Então, virando-se em direção ao corredor, voltou a caminhar. Já na outra sala, ele sentou-se a sua cadeira, observando o teto, em silêncio. O branco do teto refletia sobre seus olhos de vidros, quando, derepente, ele foi desligado. Os olhos pareciam sem vida.

O robô acordou horas após aquilo. Ele escorregou de sua cadeira, fazendo-a cair ao chão, juntamente a ele. Sua gargânta estava cheia d'água. Ele tossia violentamente, ajoelhado ao chão, tentando cospir aquilo para fora. A água então jorrou pela boca do robô, escorrendo de sua garganta. O líquido espalhava-se pelo chão, batendo contra as mãos apoiadas ao solo do robô.

Ele levantou-se com dificuldade, ainda tossindo, e cambaleou em direção a outra sala da residência.

Em quanto cruzava o corredor, pôde avistar Guaxinim sentado ao chão, com um balde de gelo a sua frente. Crônica correu em direção a ele, e, empurrando-o para o lado, chutou o balde para longe. A água voou a parede e ao chão. O gelo colidiu ao solo, escorregando para longe. A manga direita de Guaxinim estava enxarcada, era o lado em que faltava o braço. Ele arrastou-se para trás, em direção a parede. Crônica o olhou com fúria, de pé, com água ainda escorrendo por sua boca, com seu moletom molhado. Deixando-se desabar ao chão, o robô, cansado, olhou para o solo, sem saber o que fazer.

O dia havia passado rápido depois daquilo. Nada havia acontecido, e Guaxinim dormia sobre seu banco de concreto. Crônica estava sentado, encostado a parede, fitando a parede, sériamente, quando ouviu Guaxinim gemer. Ele dizia palavras sem sentido, e parecia implorar por algo, choramingando. O robô então se levantou, e caminhou até o corredor. A cadeira ainda estava caída ao chão, observou o andróide. Caminhando até ela, agarrou uma de suas pernas, e apoiando o seu pé contra outra, começou a puxar a cadeira para cima. Seus braços doiam, quando finalmente, soltando um grito, a perna em que segurava quebrou-se do resto da cadeira, e Crônica caiu ao chão, com a barrra de ferro em mãos. Ele então levantou-se, e caminhou novamente até Guaxinim. Ele ainda estava gemendo, completamente desacordado, quando, erguendo a barra de metal para cima, Crônica goolpeou sua cabeça. Guaxinim soltou um grito de dor, virando-se, e pressionando sua mão onde o robô havia o golpeado. Batendo-o novamente, acertou dessa vez suas costas. E novamente, e novamente, e novamente. Ele não parava de o acertar, quando, ao guaxinim soltar um grito. Crônica começou a pegar fogo. Seu corpo todo entrou em combustão, sua pele parecia estar derretendo, e com um grito agoniante, o robô cambaleou para trás, caindo ao chão. Ele gritava aterrorizado, e arrastando-se, conseguiu se levantar, ao mesmo momento que Guaxinim rolava para fora de seu banco, colidindo ao chão. O robô corria descontroladamente em direção a saída do lugar. O alaranjado das chamas iluminava o escuro corredor em quanto Crônica passava, correndo. Em poucos instantes ele estava em frente a porta, e pulando sobre ela, a pequena porta de madeira se quebrou, com Crônica caído ao lado de fora. Ele ainda gritava, quando levantando-se, começou a correr em direção a entrada de um longo labirinto. Paredes feitas de folhas verdes erguiam-se pelo horizonte. O chão todo era coberto de grama, que por algum motivo estava aparada. Ele corria, batendo-se contra as grandes paredes do labirinto, que logo, de seu corpo, a chama pulava para as folhas, começando a queimar tudo. Chegando ao final do primeiro corredor, sua única opção era virar a direita. O próximo caminho dividia-se em várias opções. Ele poderia seguir reto, ir a diagonal esquerda, virar a direita, seguir para esquerda. O robô seguiu qualquer caminho, sem ao menos perceber, em quanto tudo ao seu redor gritava em chamas, juntamente a ele. Ele pôde ver um mar de água ao final do corredor em que estava, quando metade de sua visão foi tomada por um vermelho vivo. Sua pálpebra balançava em frente a um de seus olhos, grudando-se a seu globo ocular feito de vidro, o tampando. Ele continuou correndo, e batendo repetidas vezes contra a parede, quando finalmente, sentindo algo frio relar em seu pé, tacou-se para frente, caíndo sobre a água. Seus olhos estavam fechados, ele não podia ver nada, e em meio ao preto, ele nadou. Fumaça subia pela água, pedaços de sua pele soltavam-se do seu corpo, boiando sobre o mar. Alguns minutos haviam passado quando ele abriu seus olhos. Ele estava em meio ao mar, o lugar de onde tinha vindo havia sumido. Ele estava completamente perdido, tomado por um frio agoniante. E então, não por dias, mas meses, ele nadou. O robô não se cansava, seus braços, suas pernas, pareciam congelados, mas ele continuava a nadar.

– Eu já falei porque ele usa uma cabeça de um guaxinim?

Perguntou Crônica, entre tomadas de fôlego, em quanto nadava. Porém, ele nunca continuou aquela pergunta. Sua jornada apartir dali foi completamente silenciosa, com exceção das ondas que batiam forte sobre o Oceano. Até que, finalmente, após perder a conta do tempo, ele finalmente avistou algo verde ao fim do horizonte. O tempo parecia não passar em quanto ele nadava para lá. Quando finalmente chegou, ele arrastou-se para fora dali, completamente encharcado. A sua frente, milhares de folhas queimadas caidas ao chão. Era apenas grama coberta por folhas, as paredes gigantes haviam sumido. Ele levantou-se, com esforço, e cambaleou pelo resto do caminho. Mais dias haviam passado até ele finalmente encontrar a residência. A porta continuava caída ao chão, quebrada. Ele então atravessou-a, e, exausto, caminhou em direção a outra sala. Guaxinim estava sentado contra a parede, dormindo. A sua frente, havia uma barra de metal caída ao chão, encharcada de sangue. Era a mesma barra que havia retirado da cadeira. E, ao seu lado, algo de alúminio estava tacado. Parecia o braço da roupa de Guaxinim, completamente tomada por sangue. Crônica olhou para baixo. Ele via sangue escorrendo por seu torço. Colocando a mão sobre a barriga, ele sentiu seu corpo fraquejar, e caiu ao chão. Agoniando, sangue escorria para fora de sua boca. Sua mão deslizou para longe do peito, caindo ao chão, sem vida. Guaxinim, já acordado, o olhava, do outro lado da sala.

Notas finais
Espero que tenham gostado e tentado entender :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!