'Robbers'

1 Capítulo Único


Notas iniciais
"Nos desonestos pode-se sempre confiar na desonestidade. Porém, os honestos é que devem ser vigiados... Pois nunca se pode prever quando farão uma coisa incrivelmente estúpida"

- Capitão Jack Sparrow.

“Robbers”

Natalie tinha uma tatuagem de dragão, que ia do seio esquerdo e descia pela lateral do corpo; até o quadril. Era verde escuro, e soltava labaredas de fogo vermelho e dourado, que pareciam vivas, incendiando sua pele macia.

Observando-a, ele suspirou. O braço repousou sobre a tatuagem quando ela se moveu, remexendo-se nos lençóis brancos do sofá-cama dele. Os cabelos eram azuis, tão azuis quanto o céu aberto do Rio de Janeiro, que entrou rapidamente em contraste com os olhos verde-mar da menina; que se abriram. As sobrancelhas castanhas e delicadas revelavam levemente a antiga e original coloração dos fios cacheados e longos dela.

Nat se espreguiçou, fazendo o lençol recuar e revelando os seios nus, assim como o dragão reluzente em seu corpo.

— Bom dia, Matthew – ela disse a ele, a voz rouca de quem acordava, o olhar de quem pedia por mais daquelas pílulas que eles tomaram na noite anterior.

Olhou-a, do cabelo azul até o brinco de prata na orelha direita. Então desceu o olhar para o corpo dela, subiu para os hematomas no pescoço e depois para as unhas pintadas de preto.

— Hey, Nat Blue – ele a saudou, sentindo-se tonto com aquele sorriso estrelado. Será que ele conseguiria mais daquelas pílulas?

— Será que você consegue mais daquela coisa?

Ele sabia que ela ia perguntar.

Os olhos dela estavam quase fechados, então ele tocou de leve em sua bochecha rosada. Os lábios dela, vermelhos e carnudos, perfeitamente desenhados, sorriram de novo. Abrindo mais o olho, ele viu seu reflexo naquela imensidão da íris cor de mar.

Matt não tinha nada demais. Não impressionava tanto quanto ela. Tinha o cabelo mais preto que o corvo tatuado na lateral de seu pescoço e metade de sua cabeça era raspada. Seus olhos não estavam mais vermelhos como na noite anterior; agora só eram castanhos.

— Podemos ligar pro Josh... – ele sugeriu a ela.

Os olhos verdes focaram nele.

— Você está devendo ao Josh.

— Ele não liga, minha linda!

Lábios como uma linha reta, sobrancelha franzida. Ela ligeiramente irritou-se.

— Você tem que parar de dever dinheiro aos seus amigos.

— De que outra forma você quer conseguir droga, amor? – ele apoiou a cabeça nas mãos, enterrando o cotovelo no travesseiro – é preciso ter dinheiro pra comprar daquelas pílulas...

— Talvez se você não tivesse sido despedido...

— Fui despedido porque fomos vistos transando no almoxarifado da lojinha do sr. Peterson – ele retrucou – e você não estava preocupada com meu emprego naquele dia.

— Talvez porque não estávamos sem dinheiro – ela espirrou – eu poderia continuar trabalhando, mas você não aceita.

— Não quero que você ganhe dinheiro transando com caras nojentos que só conseguem mulheres nas ruas...

— O que você sugere? – Natalie sentou-se, chutando as almofadas para o chão da sala, que já estava repleto de garrafas de uísque, pó e isqueiros – nenhum de nós dois tem o mínimo de decência para conseguir um emprego. E você não vai ficar devendo mais dinheiro pro Joshua, Matthew!

Matt se jogou para trás, afundando nos próprios lençóis.

Teve uma ideia.

— Vamos roubar a lojinha do sr. Peterson!

Ela o olhou como se fosse o maior dos idiotas. Talvez fosse.

— Você cheirou demais ontem – Natalie chegou a essa conclusão.

— O velho deixa muito dinheiro guardado, Nat – ele insistiu – com mais a grana do cofre e contando com o caixa a gente sai dos Estados Unidos mais ricos que o presidente!

— É loucura, Matt! – ela decidiu se levantar, enquanto pegava o sutiã vermelho encima da velha e pequena TV – como vamos roubar uma lojinha? Nem sequer temos armas!

— Josh conhece um cara...

Ela riu enquanto vestia a calcinha.

— “Josh conhece um cara” – repetiu – Você tá de brincadeira...!

— Escuta. Vamos ficar devendo, mas quando conseguirmos a grana, nós pagamos. Vai nem fazer diferença, pois estaremos podres de ricos. O Josh e o Travis vão com a gente, claro...

— E se der errado?

Matthew foi até ela. Olhando aqueles olhos de mar, aquela boca que mais parecia uma pintura clássica, e tocou os lábios nos dela. Natalie ainda tinha gosto de álcool. Pressionando os dedos na cintura nua dela, e sentindo-a sorrir com o corpo, ele sabia que havia ganhado a discussão.

— Eu vou com você, seu filho da puta – ela disse, rindo dentro da boca dele.

— Vamos ver o Josh – ele respondeu, também sorrindo.

- -

Joshua estava afinando a guitarra, deitado no sofá da garagem onde morava. Havia um baseado preso entre seus dentes e um meio sorriso nos lábios. Os cabelos cor de areia estavam emaranhados, os olhos verdes eram um brilho ao verem Nat e Matt chegarem.

— Finalmente, meu “casal 20” favorito – ele riu e cuspiu o cigarro – TRAVIS! VEM LOGO!

— ESPERA AÍ, PORRA! – Travis gritou de volta, em algum lugar da casa minúscula, cuja garagem era maior que a própria.

Natalie se jogou na poltrona de coro ao lado da máquina de Karaokê que Josh amava e que Matt era viciado. Riu, e tirou um Marlboro do bolso.

— Tem isqueiro, Josh?

— Sempre tenho, anjo – ele respondeu e lhe jogou o objeto de prata.

— Josh – Matthew cruzou os braços sobre o peito – viemos falar de negócios.

— Estou te ouvindo, Matt-Boy.

Travis entrou pela portinhola no canto da garagem. O cabelo castanho cacheado crescia, quase caindo pelos olhos pretos, o sorriso era largo e exibia covinhas nas bochechas. O rostinho de anjo não combinava em nada com a camiseta preta, repleta de pentagramas vermelhos.

— Eu ouvi alguém dizendo “negócios”? – sorriu mais – qual é o bordel?

— Não tem bordel nenhum, seu viciado em sexo do caramba – Josh retrucou – o Matt-Boy vai fazer uma proposta.

— Então eu estou dentro de qualquer forma – ele encostou-se na parede – manda o papo, Matt.

Matthew explicou tudo com cuidado.

Não poupou um detalhe do plano.

Ao terminar de falar, puxou um banquinho de madeira, e esperou que os amigos comentassem.

Travis deu de ombros, ainda sorria.

— Como eu disse; estou dentro.

Josh havia largado a guitarra.

— Onde eu vou conseguir um forgão?

— Sua tia Maggie não tinha um? – Natalie perguntou, finalmente emitindo algum som além do sopro da fumaça saindo de seus lábios e narinas.

— Não vejo minha tia faz dois anos...

— Foda-se – Matt interferiu – você vai conseguir esse forgão. Se não estamos ferrados.

— Okay – Josh inclinou o corpo para frente – Digamos que eu consiga o forgão; onde diabos eu consigo um revólver?

— Me dá o contato do cara que consegue as armas e eu resolvo o resto.

Travis olhou para os dois amigos.

— O cara é barra pesada, Matthew.

— A gente tá no final de um jogo da vida, Travis... Giramos a roleta; depois é tudo ou nada.

— Matt está certo – disse Natalie – vai demorar só um pouco para sermos expulsos daquele lixo de apartamento. Não teremos dinheiro para nada. Nem comida, nem bebida, nem erva, nem pó...

— Isso é assim tão difícil pra você? – Josh perguntou para a garota – por que não vai ao “Narcóticos Anônimos”?

Ela encarou o baseado que havia retornado para os lábios dele durante a explicação de Matthew.

— Vamos juntos, então.

Josh pensou um pouco. Então tornou os olhos verdes para Matt.

— Estou dentro também.

— Perfeito. Nenhuma palavra para ninguém! Amanhã eu consigo a arma.

. . .

Natalie segurava uma garrafa de cerveja e estava sentada em um tijolo, no casarão abandonado onde os dois marcaram. Os cabelos estavam soltos, pretos na raiz e azuis como o céu do meio para as pontas. Ela havia parado de pintar... Talvez para ficar mais discreta.

Matthew aproximou-se com um cigarro na boca e uma bolsa de pano na mão direita. Os jeans eram os mais velhos que possuía. Seu meio sorriso era o mais cínico que conseguia.

— Quanto você tá devendo pro cara? – foi a primeira coisa que ela perguntou depois que ele sentou-se ao lado dela, em uma pedra cinzenta.

— Não importa – ele olhou para ela e sorriu, inclinando-se para beijar seu pescoço. Ela riu, pois ela adorava aquilo. Matt alcançou os lábios dela, sempre com gosto de álcool, e a beijou como se pudessem fazer amor ali mesmo.

— Você está com ela? – ela perguntou, tornando a beijar os lábios dele logo depois.

Matthew mordeu o lábio inferior dela, puxou e depois sorriu. Afastando-se ele tirou uma arma do bolso; prateada e reluzente, pequena que a mão de Matt poderia envolvê-la e escondê-la. Era um Revólver Taurus, modelo 605.

Matt riu ao vê-la. Pela aparência meio abatida, Natalie até podia apostar que ele havia conseguido pó com o cara que lhe vendeu a arma.

— Linda, né? – ele perguntou, rindo mais.

Então fez uma pausa; um brilho divertido passando pelos olhos castanhos e escuros.

Apontou o revólver para ela.

— Que porra é essa, Matthew? – ela o empurrou bruscamente e se levantou.

Seu namorado rolava pelo chão com as próprias gargalhadas.

— Vai se foder! – ela rosnou para ele.

Natalie saiu andando, batendo as botas de couro no chão, cheia de raiva.

Enquanto andava, segurando a garrafa com tanta força que seus dedos estavam mais brancos que mármore, deixando a ardência do ódio queimar seus olhos, ela sentiu um puxão pelo seu braço. Matthew fez o corpo dela girar e se pressionar contra o dele.

— Me solta, seu merda – ela rosnou, olhando nos olhos castanhos, parecendo café.

Matt beijou a bochecha dela.

— Desculpa, meu amor – sussurrou.

As mãos dele estavam vazias. Uma delas traçava todo o desenho da tatuagem dela por dentro da blusa e a outra estava afogada na raiz dos cabelos dela. Ela podia se afastar se quisesse. Se quisesse.

— Vai pra puta que te pariu – ela sussurrou de volta, sentindo os olhos pesarem quando os lábios dele passearam para sua orelha e depois seu pescoço.

— Desculpa, Natalie – ele sussurrou de novo, mais baixo.

A mão, que agora redesenhava o fogo do dragão em seus seios, tornou-se mais firme contra a pele dela. Nat sabia que ele sabia o quanto ela gostava daquilo, até que ele seguiu com os beijos até sua clavícula e ela sorriu.

— Okay – ela tentou dizer, mas saiu como um suspiro engasgado.

A mão dele deslizou até a garrafa que ela segurava e a jogou longe logo depois.

— Vem cá, Nat Blue – ele sussurrou o apelido dela com tanto carinho e necessidade que Natalie jogou-se nos braços dele como alguém se joga em um rio, com o mais bobo dos sorrisos. Ela respondeu por seus beijos, suspirou no pé do ouvido dele quando foi jogada na parede, gemeu baixinho quando ele foi arrancando as roupas com cuidado e fechou os olhos por um tempo indeterminado. Pois queria senti-lo.

Ninguém os atrapalhou. Aliás, eles escolheram um ótimo fim de mundo para fazer amor.

. . .

A mão de Josh tremia sobre o volante, assim como o cigarro preso nos lábios dele enquanto ele falava.

— Não acredito que estamos mesmo fazendo essa maluquice.

Ele girou o volante, fazendo o furgão branco e velho jogar todos os demais para a direita. Travis, usando seus óculos escuros que entortaram, caiu numa gargalhada engasgada. Nat Blue e Matthew olharam para ele quando se estabilizaram, o casal estava a todo tempo com os dedos entrelaçados.

— De todas as maluquices que a gente já fez... – Travis tornou a rir. Antes da curva extrema, ele estava tentando enrolar um baseado, que se perdeu no meio das tralhas velhas e que cheiravam a sabonete, da tia Maggie.

— Nem precisa terminar de falar – Josh falou, e agora sua pálpebra direita também tremia – você vai ter juros quando me pagar o que deve, Matt-Boy!

— Relaxa, Josh... – Matt tentou dizer.

— Relaxa... Relaxa o caralho – ele tragou o cigarro profundamente.

— Se vocês ficarem histéricos ou nervosos, tudo vai pro ralo – Natalie disse – então, por favor, parem de se comportar como noivas!

— Merda! – Travis exclamou.

— O que é agora? – ela virou os olhos verdes para o amigo desesperado.

— Esqueci minha câmera.

— Você quer filmar o nosso assalto? – as sobrancelhas de Matt estavam erguidas em perplexidade.

— Qual o problema? É contra a lei?

— É, Travis, é contra a lei!

— Bosta...

Matthew inclinou-se para olhar pela janela do banco vazio do carona. Trocou um rápido e significativo olhar com Josh, seu grande amigo da faculdade e o cara para quem mais devia dinheiro no mundo. O forgão foi parando, lentamente, e os segundos transformaram-se em séculos à medida que a lojinha do sr. Peterson entrava na reta deles.

O revólver estava nas mãos de Matt novamente.

Ele olhou para Natalie, os dois com badanas, escondendo o rosto, embaixo dos olhos que se comunicavam.

— Boa sorte – a voz de Travis soou a quilômetros de distância.

O céu era uma massa de nuvens novamente, branca como algodão molhado ou neve. O vento era frio como gelo e penetrava na jaqueta de couro de Natalie. Os dois saíram do forgão. Olharam-se mais uma vez, como quem via um anjo decair do Céu, e beijaram-se. Beijaram-se como se fossem morrer.

Então seus passos os levaram cada vez mais longe. E desapareceram dentro da porta da abençoada – ou amaldiçoada – lojinha.

Josh não conseguia ver as íris castanhas do irmão adotivo por aqueles óculos escuros, mas sabia que ele o encarava. Os lábios miúdos estavam em linha reta, franzidos e preocupados. Com um suspiro cansado, Joshua estendeu o cigarro para Travis e olhou para frente. Para algum ponto invisível nas nuvens.

— E se formos presos, Josh?

— Pare de pensar nessas coisas, Travis, é hora de sermos otimistas.

— Otimistas deveriam no mínimo conhecer um bom advogado...

— Se der errado nós corremos com esse furgão até onde Judas perdeu as botas e mudamos nossos nomes para Carl e Max. De acordo com o plano.

Fumaça saiu dos lábios de Travis. Seu meio sorriso costumeiro retornava devagar, junto com as ruguinhas no canto dos olhos e as covinhas nas bochechas.

— O plano envolve virarmos comunistas? – indagou.

Joshua riu, um pouco nervoso, e pegou o cigarro de volta.

— Ah, vai se foder! – então olhou para o rolinho de papel nas mãos – droga, era meu último Marlboro...

Então o barulho, estrondoso e de arder os ouvidos.

Um tiro.

Dois tiros.

— Puta merda – o sussurro dos dois irmãos ao mesmo tempo.

Natalie e Matthew saíram correndo da lojinha. Nat Blue tinha perdido sua badana, seu cabelo azul voava solto pela brisa fria e nas suas costas vinha a gorda e belíssima mochila lilás. Provavelmente cheia de notinhas verdes. Apoiado e sendo meio arrastado por ela estava Matt. Cada passo dele parecia ter um chute nas costelas, e seu corpo pendia pra frente... À medida que se aproximavam, Josh viu sangue. Pingando escarlate no asfalto cinza.

Travis abriu a porta do furgão bem rápido, como fora instruído. Deixou que Matt se apoia-se nele para subir e depois, Natalie. Fechando a porta num baque estrondoso, o carro deu partida e seguiu antes que alguém lembrasse que os quatro já existiram.

— O que aconteceu? – Josh perguntou, dirigindo sem parar.

— O sr. Peterson tinha a porra de uma arma... Não importa; está morto – Natalie respondeu, estocando o sangue que saía da barriga de Matthew como uma torneira. Travis ajudava. Tinha experiência em hospitais e a dupla fazia um árduo trabalho trocando toalhas.

— O sr. Peterson está morto? – Josh engoliu em seco – morto mesmo?

— Não sei, Josh, por que não voltamos lá e checamos pra ter certeza?

— Porra! – Matthew gritou.

Travis sorriu.

— Isso! – exclamou, triunfante – retirei a bala dele!

— Travis, cale a boca, por favor – Matt pediu, meio engasgando.

Natalie continuou o trabalho com a toalha branca, toda suja de vermelho.

— Temos que cuidar desse ferimento...

— Há uma boa chance do Matt-Boy aqui sobreviver – Travis explicou – mas não podemos fazer isso num carro em movimento. Paramos num hotel barato na beira da estrada, tratamos disso e depois continuamos nosso caminho para o México.

— Joshua vota: sim! – o motorista gritou – preciso de cigarros.

Natalie revirou os olhos.

Então encarou Matthew.

— Se acalma, amor. – inclinou-se para beijá-lo nos lábios – você vai ficar bem.

Travis abriu a mochila roxa e seu sorriso nunca fora tão radiante e repleto de covinhas. Com um brilho nos óculos de sol, ele olhou para seus companheiros.

— Nós vamos ficar bem, meus amigos – e caiu na gargalhada.

E o som de risadas que o acompanharam foram, finalmente, sinceras, contagiantes e felizes. Ecoando o som pelo vento gélido e pelo céu cinza, espalhando uma alegria que, pela primeira vez, não envolvia pó nem pílulas.

- fim -

Notas finais
Obrigada por ler ♥ :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!