Road to the Stars
2 Capítulo Um
Notas iniciais
Emma não concordou nem um pouco com a ideia.
Ela era minha assistente. Eu não pagava ela. O centro de pesquisas pagava, porque ela era estagiária a pelo menos três anos, pingando de cientista em cientista, sempre terminando com alguém dizendo que ela era completamente inútil e que não queria mais ver ela.
Quando Emma começou a trabalhar para mim, eu também me senti tentado a demiti-la. Ela não era a pessoa mais agradável do mundo, sempre estando de mau humor ao meu redor. Ela reclamava da minha desorganização e de todo o resto. Mas eu sabia que eu era o último da fila: se eu não a quisesse, seu próximo lugar era na rua.
Então nos convivíamos. Quando eu cheguei, na manhã seguinte à minha promessa, comecei a criar esboços de, algo ainda não muito bem definido, que poderia me levar ao infinito e além, me dando algum tipo de chance.Graças a seus questionamentos insistentes, tive que explicar toda a história.
– Sabe, eu estou surpresa – ela se sentou na cadeira, coçando a cabeça distraidamente – Um cara com sua inteligência cair nessa de “ir buscar uma estrela”.
– Eu não caí em nada. Eu que sugeri, já disse. E justamente por ter um QI aceitável, eu sou plenamente capaz de fazer isso.
– Ah, claro, você vale uma NASA inteira. E mais um pouco – ela revirou os olhos.
– Não seja estraga-prazeres – sentei na cadeira em frente ao computador, pesquisando alguns arquivos antigos. A primeira parte do processo era achar um material resistente o suficiente e em abundância. E que estivesse acessível ao meu poder aquisitivo.
Seria uma longa pesquisa...
Eu tenho corrido de verdade
Estou correndo desde a minha juventude
Estou cansado de correr
– Não estou estragando nada, estou salvando sua vida!
– Está me impedindo de ser alguém na vida.
– Alguém morto? Sim, eu estou impedindo! – ela atravessou a sala toda, gesticulando freneticamente – Você vai queimar a milhares de graus celsius assim que por os pés fora da atmosfera! Senão, vai asfixiar até que seus olhos saiam das órbitas e explodam, sua pele infle e você vire apenas uma mancha disforme no espaço!
Eu a fitei, impressionado demais com a imagem que veio na minha cabeça daquela morte trágica que ela tinha descrito.
– Isso não vai acontecer – sorri – Eu vou construir algo que me proteja lá fora.
– Algo o quê?
– Não sei ao certo.
– Você é muito burro – ela bufou e tirou um chiclete do bolso. Ela o desembrulhou lentamente – Você deve tá achando que estrelas são mulheres bonitas, como naquele filme “Stardust”, mas não são. Elas são bolas de fogo mortíferas e destruidoras.
– Eu sei disso.
– Então quando você trouxer a estrela, embrulhadinha em papel celofane e ela desembrulhar o presente... BUM! – eu dei um salto involuntário na cadeira quando ela gritou do meu lado e bateu uma palma alta – Cegueira, cancêr, queimaduras de milésimo grau e uma morte dolorosa! Se isso é amor – ela suspirou – não quero senti-lo.
– Não me subestime – girei a cadeira, ficando de frente para ela – Não vou trazer a estrela.
– Vai fazer o que então? Tirar um selfie com ela?
– Não.
– Então por que cargas d’água você quer ir para o espaço?
– Vou trazer algo definitivamente alienígena para ela. Uma foto, quem sabe.
– Ah, claro, uma foto com Ets é a prova de amor que toda mulher espera do príncipe encantado.
Revirei os olhos. Girei a cadeira novamente, cansado de ouvir previsões de mortes trágicas que eu nunca deixaria acontecer. Continuei pesquisando o material perfeito.
Em um clique achei o que precisava.
– Se chama elastano de politialeno – eu expliquei para uma Emma desinteressada, que lixava as unhas com os pés em cima de uma pilha de papéis alta – É resistente o suficiente. E barato. Não tão barato como alumínio, mas eu posso pagar se disser que é um projeto para o centro.
– Mas não é.
– Bem, eu podia trazer alguma coisa para eles. Umas pedrinhas, sei lá – dei de ombros.
– Aonde você vai conseguir essa porcaria?
– Estou vendo o melhor lugar. Ainda estou pesquisando. Achei algumas fábricas que produzem esse material no Tennessee, mas é em quantidade muito pequena.
– Você quer o quê? Uma Enterprise, Capitão? – ela debochou – Se você revestir um fusquinha já tá de bom tamanho.
– Só se esse fusca chegar a velocidade da luz.
– Como é? – ela demonstrou algum interesse e eu aproveitei.
– São... Muitos anos-luz até uma estrela razoavelmente grande que pode ter planetas em sua órbita que tem vida alienígena. Eu não posso só ir até o Sol.
– Que frescura, além de ganhar a estrela, ela tem que escolher qual ela quer? – ela bufou.
– Fui eu que quis assim.
Não há nenhuma diferença quando você olha debaixo da pele
Um dia sei que vou além desse mundo que estamos vivendo
Agora quando me deito para dormir vou estar dançando em meus sonhos
Emma deu de ombros e olhou o relógio. Eu nem precisei perguntar que horas eram quando vi o sorriso em seu rosto: seu turno tinha acabado. Ela ficava só no período da manhã, porque na tarde ia para a faculdade. Pelo menos era o que ela dizia para os diretores do centro, porque eu sabia muito bem que ela tinha trancado a matrícula há mais de um ano.
– Acabou minha hora – ela deu um pulo da cadeira e, com um sorriso no rosto, se afastou em direção à saída.
– Sou tão insuportável assim?
– Insuportável é ouvir você fazendo planos para dar estrelas a pessoas que não merecem nem bijuteria.
– Anh?
– Tchau Thomas – ela saiu.
E eu fiquei sozinho na grande sala branca.
– Oi, boa tarde, aí é a fábrica de elastano de politialeno? – eu perguntei. Era péssimo em falar pelo telefone.
– É sim – uma voz irritada e grossa respondeu do outro lado.
– Vocês aceitam encomendas?
– Sim.
– Então quanto ficaria mais ou menos umas 4 toneladas do seu material?
Houve um silêncio desagradável e depois eu só ouvi o “tu, tu, tu...” da linha. Disquei de novo.
– Oi, sou eu de novo, acho que a linha caiu. E sobre aquelas 4 toneladas?
Novamente houve um silêncio e novamente o “tu, tu, tu...”. Comecei a achar que a linha não tinha caído...
Tiffany não ligou e eu estava ocupado demais pensando em como iria até o espaço. Risquei do meu caderno “nave estelar”. Além de ser ridículo, era muito caro. Então eu anotei embaixo “traje espacial”.
Liguei para um monte daquelas fábricas. Todas riram da minha cara ou desligaram sem nem dar satisfações. Menos uma no Canadá. Então eu conversei com meu chefe pedindo duas passagens para nosso irmão do norte. Depois de muito insistir, eu consegui.
Era hora de chamar minha acompanhante.
Emma... Por que morar num lugar péssimo desses?
Seu apartamento era nos subúrbios da cidade, em um prédio antigo e cheio de pessoas estranhas. Não teria coragem sequer de andar na mesma calçada que aqueles sujeitos... E ela era vizinha de porta deles!
Bati em sua porta, olhando para os lados. Não podia ser assaltado ali, levar uma facada nem nada do tipo... Eu tinha que sobreviver. Bati de novo, dessa vez mais vezes e com mais força. Já estava começando a sentir um arrepio desagradável nas costas, subindo pela nuca.
Bati pela terceira vez, com a mão aberta, quase botando a porta abaixo. Ouvi passos subindo a escada do corredor. Deus do céu, eu ia morrer. Senti o suor frio descendo pela testa. Emma, abra essa porta!
Então senti um toque leve no meu ombro e me virei, assustado, encostando as costas na porta, as mãos sob o rosto, me encolhendo aos poucos.
– Você tá bem? – Emma perguntou, arqueando uma sobrancelha. Ela carregava uma sacola do mercado.
– Sim, claro – eu pigarrei, me levantando e tentando parar com a tremedeira das minhas mãos.
– Agora além de me obrigar a passar as manhãs com você, também vai vir bater na minha porta?
– Eu não te obrigo a nada – respondi – E vim falar sobre o elastano de politialeno.
– Ah não, chega – ela me empurrou para o lado e abriu a porta. Mesmo sem ter me convidado para entrar, segui ela – Sai da minha casa.
– Não, espera. Preciso te atualizar – fechei a porta – Eu liguei para um monte de fábricas aqui nos Estados Unidos. Nenhuma quis sequer me ouvir. Então tentei uma no Canadá. Essa sim disse que podemos negociar.
– Ótimo. Você dá o fora por umas duas semanas e eu entro de férias – ela sorriu – Quando você vai?
– Nós vamos amanhã – eu sorri vitorioso, mostrando as duas passagens.
A verdade nos libertará
Está ficando mais alto
Em você eu vejo o desejo de toda raça humana
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