Notas iniciais
Olá lindos e lindas! Mais um capítulo e finalmente a fanfic parece estar funcionando. Muito, muito obrigada a Sunny Deep pelos reviews fofos! A música do cap é Born to be Wild do Steppenwolf.

– Não, sem chance disso acontecer.

– Por que não? O Canadá é um país muito interessante e vai ser tudo de graça.

– Você realmente precisa de mim? – ela perguntou, cruzando os braços.

Na verdade eu não precisava. Eu apenas queria. Ir lá sozinho, ter que resolver tudo... Não era o maior desafio da minha vida, mas eu queria ter alguém lá para me ouvir e me apoiar se tudo desse errado. Emma não era a pessoa ideal, mas era o que eu tinha.

– Não, não preciso. Mas quero que você vá, não quero atravessar a fronteira sozinho.

– Vai com a sua namorada.

– Tiffany não vai querer ir.

– Ai, que merda – ela resmungou – Como você é chato. Não ganho pra isso.

– Eu sei que não, mas eu estou aqui, pedindo por favor. Vim até aqui, corri risco de vida, gastei tempo e dinheiro e estou implorando.

– As pessoas imploram de joelhos – eu vi um sorriso surgir no canto dos lábios dela.

– Não – eu disse, negando com a cabeça – Além de te oferecer a viagem tenho que ficar implorando? Se não quiser ir, não vá. Fique aqui, nessa sua vida simples.

– Não vai me convencer assim.

– Mas que droga, Emma!

– Você sabe o que temque fazer – ela apontou para o chão, dando uma risada.

Ligue seu motor

Pegue a estrada

Em busca de aventura

Qualquer uma que venha em nossa direção

Eu não me ajoelhei. Ameacei ela de demissão por justa causa e ela simplesmente acabou concordando (como ela disse “não tinha nada melhor para fazer”). Ela jogou algumas roupas em uma mochila e ficamos de nos encontrar no aeroporto, na manhã seguinte. Nosso voo partia às 8h30, mas eu sabia que ia atrasar um pouco.

Emma chegou às 8h em ponto. Fiquei até surpreso, porque ela fazia questão de se atrasar todos os dias para o trabalho. Fizemos o check-in, etiquetamos as malas e ficamos sentados, esperando a chamada de embarque.

– Está ansiosa? – perguntei.

– Não – ela continuou mexendo no celular, sem sequer olhar para mim. Mexi-me desconfortável na cadeira, esperando que ela dissesse alguma coisa a mais.

Mas não disse.

Embarcamos depois de 25 minutos de espera. Ainda demoramos um pouco, porque ela inventou de ir no banheiro antes de embarcar e comprar mais alguns chicletes. Eu fui obrigado a esperar, mesmo que ela me mandasse ir.

– Sabia que esse hábito pode dar gastrite? – eu disse, enquanto embarcávamos.

– O estômago é meu.

– Deus, como você é grossa.

A parte de achar as poltronas foi um dos momentos que, se eu pudesse escolher, apagaria da minha memória e nunca mais repetiria.

O máximo que o centro de pesquisas pagou foi na classe econômica. Por isso Tiffany não iria. Eu sabia que ele ia descer do avião assim que soubesse disso, e Emma era muito mais humilde para esse tipo de coisa.

Pelo menos era o que eu achava.

– Que tipo de gente está viajando conosco? – ele me perguntou, discretamente, enquanto procurava a poltrona.

– Já parou para olhar aonde você mora?

– Não estou com medo delas, estou com medo de sentar do lado daquelas crianças birrentas ou de gordos que ocupam duas poltronas.

– Acho que estamos juntos. Eu não sou muito gordo.

– Qual é sua poltrona?

– B8 – respondi, olhando o papelzinho – E o seu?

– D19 – ela bufou.

– Tá, boa sorte – eu ri.

Nós nos seperamos assim que eu achei meu lugar. Era entre uma mulher alta e magra, o cabelo preso em um coque apertado. Ela me lembrava minha professora do Fundamental. Do outro lado havia um homem de terno e gravata, olhando de cinco em cinco minutos para o relógio. Os dois me olharam irritados quando eu pedi licença.

Emma ficou do lado de uma mulher grávida e um homem calvo, que lia um livro de suspense. Pelo menos ela não teria motivo para reclamar quando chegássemos no Canadá.

Foi uma viagem calma. Eu acabei dormindo depois de algum tempo. Chegamos no meio da tarde, e como era verão, os dias eram mais longos. Vancouver estava apinhada de gente, o dia mais ensolarado do que aqueles que eu tinha visto quando fui ao Canadá.

A última vez que estive em nosso vizinho do norte foi quando tinha 13 anos. Foi uma viagem de férias. Não foi minha viagem favorita.

– Então, o que fazemos agora? – Emma brotou do meu lado, sua mochila nas costas. Ela não reclamou de seu lugar no avião até agora. Na minha opinião ela nem tinha do que reclamar, mas se tratando de Emma Stevensen, sempre há algo para reclamar.

– Temos que ir para o hotel – revirei meus bolsos em busca do endereço – Aqui – mostrei para ela o papelzinho amassado – Não deve ser tão longe.

– Aquele centro de pesquisas fuleiro deve ter nos jogado onde Judas perdeu as botas e mais um pouco – ela bufou – Vem, tem um táxi ali.

Atravessamos a rua e pegamos o primeiro táxi de uma fila deles. Nos sentamos no banco de trás e eu entreguei o endereço para o motorista.

– Isso é muito longe? – perguntei.

– Uns 20 minutos daqui – ele respondeu, ligando o táxi.

Olhei Emma, que me observava com um sorriso de vitória. Eu apenas revirei os olhos e apoiei o cotovelo no apoio de braço da porta. Fitei a janela, distraído.

– Eu sei que vou me arrepender disso, mas no que está pensando? – ela perguntou, depois de algum tempo.

– Preciso ligar para a Tiffany.

– Sabia que eu ia me arrepender.

– Por que não gosta dela?

– Porque ela te faz fazer essas maluquices e, consequentemente, me leva junto! Eu podia estar em casa agora!

– Você fala como se estivesse no Congo! Você está no Canadá, de graça.

Chegmoas ao hotel em meio a mais uma discussão de “como você reclama” e “você é um saco”. Descemos nossas coisas e eu paguei o táxi (que acabou caro, diga-se de passagem).

– Que tipo de pessoa viaja sem dinheiro? – me virei para Emma quando fechei minha carteira vazia – Você podia ter me ajudado.

– Você mesmo disse: estou de graça.

Quando paramos de discutir e olhamos o lugar onde íamos ficar, eu fui obrigado a dar razão para Emma: o lugar onde eu trabalhava era mesmo uma droga.

Nos jogaram em uma pensão mísera, que não devia ter mais do que dois ou três quartos. Eu não reclamei, porque tinha minha adorável assistente para fazer isso por mim.

Fizemos o check-in e pegamos as chaves do quarto. Subimos uma escadinha estreita de madeira (“Se essa merda quebrar e eu me machucar, te mando pro espaço Thomas!”) e saímos em um corredor que tinha quartos dos dois lados. Ficamos com o quarto 2.

Não vou dizer que era ruim. Não era muito grande, mas tinha espaço o suficiente para duas camas de solteiro, um armário pequeno no canto do quarto e uma escrivaninha. Havia uma porta de frente às camas, que devia levar ao banheiro.

– Bem, eu podia continuar reclamando, mas acho que já expressei meu ponto de vista – Emma disse, tirando o tênis e se deitando na cama – Ligue para sua namorada. Diga que mandei um abraço.

– Não, não estou em Nova York querida – eu disse. A ligação estava ruim e Tiffany parecia impaciente.

– Aonde você está então?

– Canadá. Eu precisei vir aqui comprar uns materiais...

– Por que não me levou com você? – ela fez uma voz magoada, mas eu sabia que ela não estava realmente ligando. Não ia gostar nem um pouco de viajar de classe econômica e ficar naquela pensão.

– Eu viajei com o dinheiro do centro. Eles me deram duas passagens, mas eu só posso trazer gente do trabalho. Sinto muito.

– Espero que dê tudo certo. Escuta, eu preciso desligar – eu mordi o lábio inferior. Não estávamos conversando nem a 20 minutos. Eu ia voltar na noite seguinte já, mas mesmo assim queria conversar mais um pouco.

– Tem certeza?

– Absoluta. Tchau.

– Tchau.

Eu desliguei e encarei Emma, que estava mexendo em seu smartphone distraidamente. Fazia um dia bonito lá fora. Eu não ia ao Canadá todo dia, e ficar ali, trancado no quarto, respirando mofo, não era a melhor forma de aproveitar a viagem.

– Quer dar uma volta? – perguntei.

– Não – ela respondeu, sem me olhar.

– Ah, qual é, vamos. Você vai gostar.

– Devíamos ter vindo no inverno, ia dar para patinar no gelo – ela disse, desistindo de ficar no quarto e pondo os sapatos.

– Sou péssimo em patinação no gelo.

– Que pena, eu sou ótima.

Sim querida, vamos fazer isso acontecer

Pegue o mundo num abraço carinhoso

Dispare trodas as armas

E exploda no espaço

Não fomos muito longe, até porque não conhecíamos Vancouver e não queríamos correr o risco de nos perder e ter que pagar o táxi de novo. Ficamos andando pela rua, observando as pessoas, metidos em nossos próprios pensamentos.

– Sabe, eu menti para você – ela disse, quando viramos uma esquina. Eu andava na frente e diminuí o ritmo para emparelhar com ela – Eu trouxe uns trocados.

– Já tinha até esquecido sobre o táxi.

– Não tô pedindo desculpas – ela cruzou os braços – É que eu estava pensando que aquele lugar onde estamos hospedados não deve ter nada para comer e nós podíamos ir até algum lugar legal. Mas você é quem sabe.

– É uma boa ideia – sorri.

– Ah, obrigada.

– De nada – eu puxei o celular do bolso e pesquisei onde podíamos ir – Tem um restaurante legal aqui perto. Comida italiana, gosta?

– Pode ser. Por favor, também não sou milionária – ela riu – Eu estava pensando, como você vai comprar esses trecos que você precisa se gastou tudo que tinha com o táxi?

– Eu não gastei tudo o que tinha. Gastei só o que estava na minha carteira. Eu tenho uma conta no banco e posso sacar o que precisar. Inteligente, não?

– Nossa, que inteligente – e eu senti o sarcasmo dela como um soco no rim.

Tivemos um jantar interessante. Eu tentei não gastar muito, tentando cooperar com ela. A noite passou rápido. Nós discutimos poucas vezes, mas isso acabou quando parei de falar dos meus planos ou de Tiffany. Entendi que não eram bons assuntos.

Voltamos para a pensão cansados. Não se percebe que está cansado até que você decide parar um pouco e tomar um suspiro. Então todo o cansaço vem. Viajamos o dia todo e ficamos andando pela cidade o resto da tarde.

Subimos as escadas assim que chegamos na pensão. Estava escuro e eu tropecei em pelo menos dois degraus, mas consegui chegar lá. Emma abriu a porta com as chaves e entramos. Enquanto eu esperava ela sair do banheiro, eu abri a janela e senti a brisa noturna.

Entretido demais com a visão da cidade, nem percebi Emma atrás de mim, com uma calça de moletom e uma regata.

– Está olhando a cidade ou o céu?

– Sabe que eu nem tinha reparado nele hoje.

– Ah, acredito. É sua obssessão. Você repara até nas nuvens de poluição.

– Que não são poucas, aliás. Mas enfim... As estrelas estão bonitas.

– Já parou pra pensar... – ela suspirou – Que podem ser só vagalumes que Deus botou em um fundo preto e que estão logo ali e que todos esses anos Ele sacaneou com a gente?

– Não, vários cientistas já provaram que... – ela colocou o dedo indicador sob a minha boca, me fazendo parar de falar.

– Shh, só estou tendo uma ideia. Eu sei o que eles provaram. Mas às vezes estão errados e essas estrelas estão mais perto do que pensamos.

– É isso que vamos descobrir em breve – eu sorri, segurando a mão dela e a afastando do meu rosto – Você e eu.

Sim querida, vamos fazer isso acontecer

Notas finais
Obrigada a quem leu até aqui. Tentei escrever sobre uma viagem sem parecer chata e me sinto mal mesmo assim por ter cortado algumas partes que poderiam ter ficado legais (como a do jantar), mas ia ficar muuuuito longo e eu ia ter que dividir em dois e ia foder com meu planejamento. Enfim, espero poder ouvir a opinião de vocês! Beijos!