Road

4 Desaparecida - 1972


Ana entra nervosa no banheiro e empurra a porta com uma mão, que a faz bater com força.

– Bando de esquisitos! — Ana diz irada.

Ela se encara no espelho.

– E aquele moleque no quarto, bizarro... Câmera estúpida, Jesus Cristo.

Ela afasta-se e entra no lavabo, fecha a porta e senta no vaso sanitário, seu olhar analisa a porta e as frases escritas, até notar uma parte da tinta solta. Estranhando, Ana descasca mais um pouco da tinta com a unha e a puxa, outra frase vai se revelando.

– "Ele me seguiu e eu não sei o porquê — Setembro de 1992"– Ana lê em voz alta, ela olha para cima e puxa mais a tinta, revelando outras frases.

"DBO 606, ele me persegue — 1986"

Ana não podia acreditar, ela olha um pouco pro canto da porta e avista mais uma falha da tinta, removendo-a com a unha.

"Ele está tentando me matar — 1972"

– 1972? — Ana fica abismada, ela sai rapidamente do lavabo.

– Ei! — Murmuram.

Ana para de andar e vira-se devagar para trás, não havia ninguém atrás de si.

– Olá?

Sua atenção segue o som até a porta da dispensa, ela se aproxima com cautela.

– Tem alguém ai?

Ana corre até a porta e acha até a grade de ar no pé da porta.

– Você está bem? — Pergunta Ana.

Ela levanta-se e tenta desesperadamente abrir a porta, puxar a maçaneta e pela brecha que tinha, no entanto o cadeado não a deixava abrir. Ana agacha em frente a brecha da porta, uma mulher loira com franja, cabelo até os seios e olhos castanhos, se aproxima para a luz, revelando alguns cortes no rosto e sangue respingado na roupa.

– Ai meu Deus... — Murmura Ana ao vê-la.

A mulher está com os olhos inchados como se tivesse chorado por muito tempo, seus lábios já perderam a cor natural, a sua pele está muito pálida.

– Qual o seu nome? — Pergunta Ana.

– Jennifer... — Ela responde depois de um tempo respirando fundo — Jennifer McCurdy...

– Eu sou Ana... Não se preocupe, vou tirá-la daqui, ta bem?

Jennifer ergue a cabeça respirando fundo, olha para Ana, ela engole a saliva, o pouco que ainda produzia.

– Há quanto tempo estou aqui? — Pergunta Jennifer.

– Eu não sei... — Ana responde — Deve ter acontecido quando eu sai com aqueles idiotas...

– Quem?

Ana volta sua atenção à Jennifer, que continua sentada no chão com os braços cruzados sob os joelhos.

– Tem um cara me perseguindo — Diz Ana — Ele dirige uma caminhonete branca com amarelo.

– OH NÃO, NÃO, POR FAVOR, TIRE-O DAQUI, MEU DEUS — Grita Jennifer desesperadamente — MEU DEUS, MEU DEUS...

Ana fica horrorizada com o desespero de Jennifer.

– Tu-tudo bem, ele não está aqui agora! — Diz Ana — Ele... Ele está com meu namorado em algum lugar!

Jennifer olha para ela séria.

– No ônibus... Ele o colocou no ônibus... — Diz Jennifer.

– Do que está falando?

– O cara... Ele tem um lugar... Onde ele me levou, onde eu acordei... Ele me manteve lá... Nã-não por, não sei, horas, dias...?... Anos?

– O que ele fez?

– Meu Deus... Meu Deus... — Jennifer baixa a cabeça com a mão na boca e chorando.

Ana encosta a cabeça na porta e fica um momento em silêncio.

– O que ele quer? — Ela pergunta.

– Eu não sei... — Responde Jennifer — Eu não sei... Ele disse que eu tive o que merecia...

– E o que isso significa? — Ana fica com os olhos arregalados, muita tensa e já suando frio.

– Eu não sei... Só sei que minha mãe falava a mesma coisa quando fazia coisa errada... E-eu não devia ter feito coisa errada... Desculpe mãe! — Jennifer volta a chorar.

– Jennifer, o que você fez?

– Eu roubei dinheiro da bolsa da minha mãe... Não muito, só uns cinquenta reais... Eu só queria ver os Stones... Os Rolling Stones...

Ana rapidamente estranha, ela recua a cabeça alguns centímetros.

– Eles iam tocar em Tucson... E eu não consegui chegar... — Jennifer abaixa a cabeça novamente.

– Ele...

Jennifer leva sua mão para Ana e lhe mostra os dedos dos meios cortados, com a mão coberta de sangue. Ana fica surpresa ao ver.

– OH NÃO, ELE VOLTOU, ELE VOLTOOOOU... — Jennifer começa a surtar ao ouvir o barulho do motor.

Ana olha para a janela no alto da parede e volta sua atenção para Jennifer.

– Jennifer, quieta... — Ana corre até a janela, sobe na lata de lixo no chão e avista a caminhonete estacionando em frente às árvores.

– NÃO DEIXE-O ENTRAR, POR FAVOR... — Jennifer chora angustiada.

Ana desce e olha para os lados, tentando pensar em alguma coisa enquanto Jennifer grita desesperada. Ana avista a porta caída do lavabo, corre até ela e a puxa, a parte de cima ainda está presa, Ana continua a puxar com força. A porta da caminhonete é batida com força, Jennifer levanta o olhar arregalado.

– AI MEU DEUS... NÃO DEIXE ELE ENTRAR, NÃO DEIXE ELE ENTRAR...

Ana puxa a porta novamente e a quebra, então vai arrastando-a até a porta do banheiro, a porta é realmente pesada, ela quase a deixa cair. Ana se ergue e continua a puxar a porta, logo a põe entre a porta e a pilastra, posicionando-a embaixo da fechadura.

– Meu Deus... Meu Deus... — Diz Jennifer, em um tom mais baixo.

Ana fica parada encarando a porta, Jennifer está quieta, olhando para frente. De repente aquele homem começa a chutar a porta com força, Jennifer grita desesperadamente. Ana corre até a porta do lavabo e fica segurando-a para não vir a cair, ela fecha os olhos só querendo que ele pare. Depois de alguns chutes, tudo fica calmo novamente, Ana levanta o rosto, ela olha para os cantos assustada, seus olhos estão arregalados e não ficam quietos.

– Ele foi embora... — Diz Jennifer.

– Vou me certificar, está bem?

Ana se aproxima do pequeno espaço da porta e a parede, então o olho do assassino aparece de surpresa, Ana afasta-se abruptamente com um grito.

– EI... — Grita Ana — QUE DIABOS É VOCÊ?... O QUE FEZ COM O FELIPE?

O silêncio prevalece por alguns instantes, Ana encara a porta, ela ouve algumas fungadas, estranhando, se aproxima novamente da porta e consegue vê-lo cheirar a porta.

– Seu pervertido! SUMA DAQUI!

Ele retorna a chuta a porta com a mais força.

– NÃO DEIXE ELE ENTRAR — Grita Jennifer.

Ana segura a porta, ela fecha os olhos e abaixa a cabeça chorando. Ela afasta-se devagar, encosta na pilastra e agacha até o chão, ela chora sem parar. Ana ergue a cabeça chorando muito, a lágrima escorre por seu rosto, ela desce o olhar e começa a soluçar de tanto chorar.

A caminhonete sai dali e segue pelo caminho da parada.

–------------------------

– Ele voltará — Diz Jennifer.

Ana está sentada encostada na pilastra, com seu olhar vazio, fixo no ar, ela abre um pouco a boca para suspirar.

– O cara da caminhonete sempre vai voltar — Diz Jennifer.

– Estaremos longe antes disso! — Responde Ana, com seu tom seco e abalado.

– Ele irá nos encontrar... Vai nos levar para o ônibus.

– Jennifer... Como saiu de lá? — Ana olha para o lado, observando uma parte do rosto de Jennifer pela brecha da porta.

– Eu não sei... — Ela da uma tossida.

Ana revira os olhos, seu olhar volta para frente.

– Deve ter escapado de algum jeito, ele não é o Superman — Diz Ana.

– Ele... Ele não é humano...

Ana fica séria, ela olha para o lado.

– Eu pensei muito sobre isso... Quando ele tava comigo... O único modo de continuar vivendo era imaginar como uma pessoa... Como uma pessoa real poderia fazer isso? — Jennifer já contem o choro, no entanto sua voz ainda está fraquejando de vez em quando, ela da outra tossida — Então, eu percebi...

Ana fica séria, ela engole e saliva enquanto ouvia, sua tensão retorna.

– Ele não era real... Ele não é como você ou eu... Ele tinha de ser algum tipo de monstro.

Ana demonstra irritação fechando os olhos e dando de ombros, ela suspira e levanta em seguida.

– Ta bem, Jennifer, eu vou tirá-la dai... — Ana fica em frente à porta — Tenho roupas no carro que vai poder usar, e então vamos começar a andar!

Jennifer nega a cabeça lentamente.

– Ele vai nos encontrar!

– Não, não vai! — Ana se aproxima da porta e a observa pela brecha.

Jennifer está com o olhar vidrado nela.

– Ele irá nos levar para o ônibus...

– Eu vou tirá-la daqui... — Ana se agacha — Eu prometo!

– Meu Deus... — Jennifer volta a chorar com a mão na boca.

– Eu vou tirá-la daqui — Diz Ana.

Jennifer cospe sangue na porta, ela apoia-se com uma mão na porta e baixa a cabeça, logo começa a vomitar muito sangue, que rapidamente vai se espalhando e saindo por debaixo da porta, Ana levanta-se naquele momento.

– Jesus... — Ana observa o quanto de sangue saia dali.

Jennifer levanta a cabeça com muito sangue saindo de sua boca.

– Eu vou tirá-la daqui, está bem?... Eu vou levá-la para um hospital — Diz Ana.

Jennifer não conseguia conter o sangue, ela chorava loucamente. Ana vira-se para ir pra porta e escorrega no sangue no chão. Ela levanta-se e corre para porta.

–---------------------

Ana abre a porta do porta-malas, vasculha por entre as malas e pega algo, rapidamente fecha o porta-malas e vira-se correndo.

–---------------------

– Jennifer! — Ana entra correndo no banheiro — Jennifer, estou indo... — Ana para de repente, ela fica abismada, seu olhar fica tenso e fixo para frente.

Não havia sangue no chão, nem se quer uma gota.

– Jennifer? — Ana se aproxima e agacha-se depressa — Jennifer?

Ela a procura pela brecha, logo se levanta e fecha a porta por completo, põe a chave de roda no cadeado e o quebra com duas tentativas, Ana puxa a porta e para sua surpresa, não havia ninguém ali dentro.

– Jennifer... Não, não, não — Ana fica pasma, deixa a chave de roda cair e vira-se devagar.

–--------------------

Ana corre se aproximando do mural de madeira com os papeis de desaparecidos. Ela folheia os papeis com muita rapidez, até encontrar um com a folha amarelada, ela segue com o dedo uma linha que leva ao nome da jovem desaparecida. "Jennifer McCurdy — Desaparecida — 1972".

Jennifer está sorrindo na foto do anuncio. Ana afasta-se com a mão na boca e com os olhos cheios de lágrimas, ela nega com a cabeça.

– Não...

Notas finais
O próximo capítulo deve ser postado nesta Quinta-Feira. Obrigado por todos estarem comentando o/