Rizzoli And Isles - Life As We Know It

5 Capítulo 5 - Primeira noite não dormida


Notas iniciais
Bom... Me desculpem pela demora, mas é que eu engatei em uma maratona de Orphan Black (que a propósito todos deveriam assistir por que a série é maravilhosa) e só tomei vergonha na cara de terminar o capítulo agora, então aqui está.

Ótima leitura!

Dizem que a noite foi feita para pensar o que na realidade não deixa de ser mentira. Não existe momento para pensar em tudo ou até mesmo em nada do que a noite. O silêncio do lar, das ruas, da cidade por que todos estão dormindo é algo que te leva até a calmaria, você foge da barulheira do dia onde ás vezes você não consegue ouvir nem sua própria voz quanto mais seus pensamentos, por isso a noite.

Maura costumava usar muito a noite para pensar, ainda mais nos primeiros anos que estava em Londres, pensava muito nas escolhas que tinha tomado e se deveria ter feito algo diferente, e a cada dia que pensava no assunto uma opinião diferente era formada e no final das contas não acabava chegando a lugar nenhum, mas gostava de usar o silêncio da noite para pensar, era algo que lhe fazia bem até. Na realidade, mesmo com o passar dos anos ela ainda costumava usar a noite para pensar, não nos mesmos problemas, mas usava, só que nessa noite em especial, depois de ter passado um final de tarde maravilhoso ao lado de Jane e até a noite também onde jantaram e tiveram uma ótima conversa ela estava relaxada, sem o estresse da noite passada, poderia dizer até que estava feliz, tanto que quando deitou a cabeça no travesseiro um sorriso bobo a acompanhava. Estava tão feliz que não quis pensar o que aquele sorriso significava, ela só queria dormir e torcer para que no dia seguinte as coisas permanecessem como estavam ou que ficassem até melhores. Fechou os olhos e se deixou pegar no sono, sem pensar em absolutamente nada, mas infelizmente, Maura não sabia que três horas depois ela não dormiria mais naquela noite.

A babá eletrônica parecia que ia acabar pifando a qualquer momento de tão estrondoso que estava o choro do TJ. Choro pelo qual fez Maura acordar no pulo e um pouco assustada, na noite anterior o menino não tinha dado nenhum trabalho, não chorou a madrugada inteira, havia feito alguns barulhos mostrando que estava acordado e que era hora de sua mamadeira, mas nada alarmante. Mesmo sabendo que bebês se esgoelam de chorar de madrugada quando são mais novos – sim, ela tinha lido sobre isso – Maura não deixou de se preocupar. Levantou da cama e foi direto para o quarto de TJ e pegou o menino no colo. Ficou bem uns 10 minutos balançando o bebê de um lado para o outro, dando voltas pelo quarto, mas nada dele parar de chorar.

O que tinha aprendido também com os livros eram os motivos dos bebês chorarem, tinha decorado um por um, mas não conseguia distinguir pelo choro o que era que TJ queria. No livro também dizia que uma mãe conseguia saber o que o bebê queria só pelo choro, mas ela não era mãe dele, então... Estranhou Jane não ter dado nem as caras na porta para ver o motivo do sobrinho tanto chorar e já desnorteada com todo aquele choro ela se viu obrigada a bater na porta de Jane e acordá-la. Perdeu as contas de quantas vezes bateu na porta até finalmente Jane abrir a porta.


– O que foi? – Perguntou um pouco mal humorada e os olhos pouco abertos. Segundos depois percebeu Maura com TJ nos braços e também que o menino não parava de chorar. – Está tudo bem?

– Eu não sei... Cadê sua babá eletrônica?

– Está ali...

– E você não o ouviu chorando?

– Não... Eu desliguei a babá eletrônica.

– Por quê?

– Por que eu fui dormir.

– Jane! – O tom era de repreensão e incredulidade. – Com qual propósito você teria uma babá eletrônica se você vai desligá-la? Ainda mais a noite que é para ela ficar ligada?

– Desculpa... Eu só pensei que como a sua deve ficar ligada 24 horas por dia... – Maura cerrou os olhos já para que Jane entendesse que aquilo que ela estava ouvindo era idiota e caso ela respondesse acabariam brigando, já que as duas estavam encarregadas de cuidar de TJ, então o certo era as duas ficarem com suas babás eletrônicas ligadas. Entendendo o recado e se surpreendendo por entender o recado mesmo depois de dezessete anos, Jane pegou TJ dos braços de Maura. – Já trocou a fralda dele? Ás vezes pode ser por isso que ele está chorando.

– Eu troquei a fralda dele antes de colocá-lo para dormir, mas... – Maura caminhou atrás de Jane que já tinha partido para o quarto do menino e o deitando no trocador de fraldas. – Não quer que eu troque?

– Pensei que você tivesse me acordado para eu te ajudar. – Jane disse em tom calmo, o pouco de mau humor por ter sido acordada parecia que tinha sumido. Maura só assentiu com a cabeça, estava cada vez mais surpresa com a mudança de comportamento que Jane vinha mostrando desde o fim da tarde. – Pode pegar uma fralda pra mim, por favor?


Maura ainda não tinha visto Jane trocando uma fralda sequer de TJ. Sabia que ela fazia, que provavelmente deveria ter mais experiência que ela, mas tinha acabado de começar o terceiro dia que estavam dividindo a casa e ela ainda não tinha visto e particularmente ela gostou do que viu. Jane tinha jeito com crianças e não fez careta em nenhum momento enquanto trocava a fralda de TJ, algo que seria bem típico dela. Tentou conter o sorriso, mas estava gostando tanto daquela cena de Jane trocando o bebê, conversando com ele e em consequência fazendo com que ele parasse de chorar, que não tinha como abrir um imenso sorriso, mas claro que assim que a morena terminou e pegou TJ e se virou para ela o sorriso foi escondido, sabia que Jane iria reconhecer aquele sorriso bobo, então não daria motivos para a detetive falar seja o que é que fosse.


– Prontinho! – Jane esboçava um pequeno sorriso, talvez nunca fosse admitir, mas estava gostando de ter dado a trégua. – Acho que agora você pode voltar a dormir, certo garotão?


Errado.


Só foi Jane terminar a frase que o menino voltou a chorar. Jane ficou uns cinco minutos andando com TJ de um lado para o outro pelo quarto, mas não fazia efeito nenhum, quanto mais ela andava e o balançava com o intuito de acalmá-lo e ele dormir, mais a criança chorava.


– Já tem três horas que ela comeu? – Jane perguntou. Já estava ficando completamente desnorteada com aquele choro. – Pode ser fome, não pode?

– Eu não sei. – Maura era outra que não estava conseguindo nem pensar direito com toda a choradeira. – Pode ser que sim. Vou preparar uma mamadeira para ele.


As duas foram até o andar debaixo, mas parecia que quanto mais andavam, mais TJ chorava. Jane acompanhando os passos de Maura que tinha ido para trás do balcão da cozinha por um lado, ela foi ir pelo outro e quase tropeçou em Bass.


– Oh meu Deus! O que essa tartaruga está fazendo no meio do caminho?

– Ela sempre fica ai Jane e não é uma tartaruga, já que te disse que é um cágado.

– Tanto faz. – Revirou os olhos. – Ele chorou assim ontem a noite?

– Se ele tivesse chorado desse jeito você não teria ouvido?

– Oh... – Fez um negativo com a cabeça e abriu um sorriso malicioso de canto de rosto. – Eu acredito que não.

– Por que eu ainda pergunto?


Jane não entendeu o tom de irritação de Maura, quer dizer, se ela tinha perguntado era porque queria uma resposta, tudo bem que como a trégua era recente era inevitável não deixar de soltar certos comentários e ainda fazer algumas provocações, mas as provocações ela se conteve, queria perguntar o motivo da irritação, mas não iria porque tinha certeza que acabaria em discussão e discutir com um bebê chorando não deve dar em boa coisa. Deixou Maura terminando a mamadeira e foi andar com TJ pela sala para ver se assim o acalmava, mas assim como não fez resultado quando ela fez isso no quarto, também não estava dando resultado na sala.


– Pronto TJ, sua mamadeira está pronta, vamos acabar com essa fome.


Maura estendeu a mamadeira para Jane. A morena fez sinal para que ela sentasse no sofá e entregou o TJ a ela, talvez estivesse precisando de uma mudança de tutora, podia ser que ele gostasse mais da Maura do que dela, o que não seria de se espantar, todos amavam a Maura, até ela... Enfim... Jane ficou por alguns segundos em pé observando Maura dando a mamadeira para seu sobrinho, mas estava tão boba com aquela cena maravilhosa que tinha em sua frente que ela foi obrigada a se sentar ao lado de Maura e admirar a cena o mais perto que podia.


– Lydia me disse que você era uma grande tia.

– Quer dizer que você e Lydia conversavam sobre mim?


A pergunta foi feita em tom brincalhão, mas o suficiente para Maura corar e abrir um sorriso sem graça.


– Não! Quero dizer, só coisas relacionadas ao TJ, não só de você.

– Fico impressionada como Lydia linguaruda do jeito que era nunca me contou que era sua melhor amiga. – Maura só mandou um meio sorriso, também não sabia como aquele tempo todo a amiga não tinha deixado escapar nada. – Lydia ia ficar feliz em saber como você também é ótima com o TJ.

– Não podia ser diferente... Ele é um ótimo bebê.

– É, não é?


Ficaram em silêncio. Não um silêncio desconfortável por ser estranho ficarem juntas em um mesmo lugar por muito tempo, mas um silêncio por ter tanta coisa a dizer, mas não saber se podem ser ditas, se é o momento correto.

Nenhuma das duas haviam tido esse problema antes, há dezessete anos falavam o que bem entendessem uma para outra sem pensar no que viria depois, sendo em momentos românticos ou em brigas, o importante era alguma coisa a ser dita, mas agora não sabiam se tinham essa liberdade toda, pelo grande motivo de já ter se passado dezessete anos. Podiam usar a desculpa de que era porque elas não eram as mesmas pessoas e não se conheciam mais, mas no fundo sabiam que era mentira, há meia hora tinham se entendido com uma simples troca de olhares, como podiam não se conhecer mais? A verdade é que era mais simples pensar assim, caso contrário teriam que lidar com outras coisas que não tinham certeza se estavam preparadas.

Enquanto Maura terminava de dar mamadeira para TJ, Jane segurava uma das mãos do sobrinho e em um momento, como Jane e Maura estava sentadas tão próximas, seus olhares se encontraram. Se perguntasse nenhuma das duas admitiria, mas estavam com saudade daqueles olhares, conseguiam ver o mesmo olhar apaixonado que uma via na outra há dezessete anos atrás, pelo menos no fundo as duas procuravam pensar que era o mesmo olhar. Chegava a ser confuso, por que há algumas horas pareciam que elas iam acabar se matando a qualquer momento e agora isso?

O problema do silêncio é que ele ás vezes fala demais e esse sem duvidas estava falando mais do que devia. E ele dizia a mesma coisa para ambas e tanto que quase que instantaneamente os olhares foram trocados e uma passou a olhar para a boca da outra. Sem duvidas aquilo estava indo longe demais. Elas tinham terminado e fazia muito tempo e supostamente era para se odiarem, pelo menos era o que Jane imaginava e o que ela queria sentir, mas não estava dando muito certo e ainda bem – pelo menos Jane procurava pensar assim – antes que fosse longe demais a morena recobrou a consciência que parecia que tinha perdido naqueles minutos de silêncio e se levantou do sofá quebrando qualquer olhar que fosse.


– Eu...


Jane não sabia muito bem o que dizer, sentia que precisa quebrar o silêncio e tinha conseguido, mas não de uma ótima maneira.


– Ele terminou. – Maura disse estendendo a mamadeira, ainda não tinha certeza do que tinha acabado de acontecer ali, estava confusa.

– Coloca ele para arrotar. – Pegou a mamadeira da mão de Maura. – Eu lavo a mamadeira enquanto isso.


E o silêncio voltou, dessa vez um pouco incomodo porque elas tentavam entender o que tinha acabado de acontecer ali e queriam fazer diversas perguntas sobre o que tinha acabado de acontecer ali, mas elas não iriam fazer, não mesmo. Por sorte TJ dormiu nos braços de Maura e elas não precisariam ficar mais juntas muito tempo, poderiam dormir e ao acordar fingir que aquelas minutos de troca de olhares não haviam existido e assim poderiam voltar para suas vidas normais onde o foco era conviver juntas durante um ano para garantir que TJ não fosse dado para adoção, só isso.

Com o bebê colocado no berço elas trocaram um “boa noite” e cada uma seguiu para seu respectivo quarto e se jogaram na cama como se lá fosse o lugar onde seriam salvas do mundo ou pelo menos dos últimos minutos. E como essa noite tinha sido selecionada para que não se pensasse em nada, elas fecharam os olhos, prontas para dormir, mas minutos depois, quando estavam quase pegando no sono TJ volta a chorar.


– O que esse menino quer pelo amor de Deus? – Jane já estava começando a se desesperar. O sobrinho nunca tinha se mostrado escandaloso daquele jeito e sua mãe nunca havia reclamado de nada, então alguma coisa deveria estar errada. – Já trocamos a fralda, já demos mamadeira...

– Não seria melhor levá-lo ao hospital Jane? – Maura era outra que também estava desesperada. No seu livro não explicava esse tipo de coisa.

– E dizer o que ao médico? Que ele não para de chorar? Qual é Maura! O que mais diz no livro que você leu?

– O que mais diz no livro? – A loira balançando TJ de um lado para o outro fez silêncio por alguns segundos tentando se lembrar sobre mais o que tinha lido. – Cólica! – Disse com um sorriso como se tivesse acabado de fazer a descoberta do século.

– Cólica? – Jane arqueou uma sobrancelha e encarou Maura como se dissesse que não estava acreditando muito no que ela tinha acabado de dizer. – Ele não é uma menina Maura e mesmo se fosse ele só tem 50 dias...

– O que? – Maura soltou um riso. – Não é desse tipo de cólica que estou dizendo Jane. É a cólica do bebê recém-nascido. Alguns estudos dizem que o bebê tem essas cólicas até os 3 meses de idade devido ao excesso de informação.

– Excesso de informação? – Mais uma arqueada de sobrancelha. Se isso fosse realmente verdade Lydia deixou de te dizer muita coisa. – Eu já te disse que ele só tem 50 dias, não é verdade? O que seria excesso de informações?

– Tudo que ele está vivendo Jane. TJ costumava ficar dentro o útero da mãe, não via todo esse movimento, pessoas realmente falando com ele, não via lugares, era quente e escuro onde ele estava e agora é tudo novo, ele não está acostumado, então faz com que seu sistema nervoso... Na linguagem de vocês acredito eu que se diz “entrar em curto circuito” e por isso as cólicas.

– Okay... Qual o nome do remédio que tem que comprar para parar?

– Nenhum. – Jane a encarou sem entender. – Não tem remédio que faça a cólica do bebê passar. Mas...


Jane ficou esperando pela continuação do “mas”, sem sucesso, porque Maura deixou o quarto de TJ e foi para o seu quarto, deitou na cama, deitou o bebê de bruços em seu peito e começou a dar leves batidas nas costas dele. Jane ficou observando aquela cena por um tempo, o sobrinho continuava chorando, mas aparentemente o choro era menos escandaloso do que há minutos atrás. Definitivamente Maura ficava maravilhosa quando estava com um bebê e isso só fazia com que Jane ficasse olhando para ela sorrindo feito idiota e sem nem ao menos perceber que estava fazendo isso.


– Se quiser pode ir dormir, eu fico com ele. – Maura tinha percebido o sorriso bobo de Jane, mas resolveu não dizer nada. – Ele está mais calmo já.

– Não mesmo... – Jane deu a volta na cama e se sentou ao lado de Maura. – Não vou dar motivo para você sair espalhando que eu não te ajudo a cuidar do TJ. – Disse em tom brincalhão arrancando risos de Maura. Mas o riso que ela soltou implicou em TJ chorando novamente. – O que você quer TJ? Quer que a gente cante para você? Nós cantamos.

– Cantamos o que? Eu não sei nenhuma música de criança.

– Bom... – Jane fez uma pausa. – É... E eu não me lembro de nenhuma. – Maura não se segurou e soltou outro riso. – Espera! – Jane se ajeitou na cama, praticamente deitando nela, passou sua mão nas costas de TJ e começou a cantar. – Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega esse menino que tem medo de careta.

– Sério Jane? – Maura perguntou em tom de repressão. Jane a encarou confusa. – Desse jeito que ele não vai se acalmar mesmo.

– O que? Como se ele entendesse o que eu estou cantando.


Maura só balançou a cabeça em negativo e passou a bater de leve a mão na fralda de TJ enquanto Jane passava a mão nas costas dele e murmurava alguma coisa como se estivesse cantarolando alguma música qualquer. Ficaram por um bom tempo assim, até que finalmente TJ parou de chorar.


– Eu me lembro de você dizendo que não seria uma boa mãe. – Jane comentou fazendo com que Maura que olhava para TJ deitado em seu peito a encarasse.

– Ainda não acredito que vou ser uma boa mãe.

– Você tem certeza? – Jane perguntou apontando para TJ como se mostrasse que aquilo que ela estava dizendo era um absurdo e que ela tinha a prova do contrário deitada em seu peito.

– Ele não é meu filho Jane e não é como se eu fosse criá-lo.

– Não é como se você fosse criá-lo? – Jane perguntou confusa. – Você parecia bem decidida em criá-lo no dia da leitura do testamento.

– Não... Eu estava e estou decidida a cuidar dele durante esse um ano.

– E depois você vai fazer o que? Sumir da vida dele?


Não era para parecer, mais o tom de irritação de Jane ao terminar aquela frase estava visível, coisa que estava deixando Maura completamente confusa, há quase uma semana Jane mal queria ela perto do sobrinho e agora todas aquelas perguntas? Ela se ajeitou na cama com cuidado para não acordar TJ para que assim pudesse ter uma visão melhor da Jane.


– Eu não te entendendo Jane. Você ficou extremamente irritada quando leram as condições do testamento e agora você está me perguntando sobre criar o TJ e fazer parte da vida dele? Pensei que quando estivesse para acabar esse um ano você ia contratar um advogado para fazer com que eu não tivesse direito nenhum sobre ele, coisa que eu sei muito bem que eu não tenho.


As palavras de Maura eram calmas, mas mesmo assim traziam tristeza. Não era possível que com três dias de convivência com TJ ela já fosse tão apegada assim ao menino, mas a verdade era que era possível e Jane sabia muito bem disso, porque quando o sobrinho nasceu ao segurá-lo pôde perceber nos primeiros segundos que ele seria importante em sua vida e não tinha como não se apegar a criança.

Podia ter se passado só três dias desde que estavam morando juntas e mesmo que Jane não tivesse sido a pessoa mais agradável do mundo e elas terem passado pouco tempo juntas realmente cuidando do TJ, mas ela já tinha se acostumado com a imagem da Maura cuidando do sobrinho, não por interesse de ser trabalho a menos para ela, mas sim porque era bonito de se ver a dedicação e o carinho que a legista tinha com seu sobrinho mesmo tendo convivido com ele tão pouco tempo, não queria perder essa imagem, mesmo que fosse tê-la ainda durante um ano, mas pensar em um depois disso... Era confuso, realmente Jane tinha se irritado com o testamento e o último desejo de Tommy e Lydia, mas parecia que não existia tal motivo para a irritação e isso com toda certeza era culpa do psicólogo que fez com que ela desse uma trégua e com isso começasse a ter esse tipo de pensamento.


– Olha... Tinha dezessete anos que não nos víamos, eu estava irritada não só por isso, mas porque tinha acabado de ser suspensa no trabalho, mas você era amiga da Lydia, tenho certeza que ela ia querer você na vida do TJ, mesmo que não seja dividindo o mesmo teto. – Pode ver o olhar de Maura que era de tristeza se transformar em alivio e um meio sorriso abrir em seus lábios. – Qual é Maura! Se decidirmos em não compartilhar mais a guarda isso não vai significar que você vai ter que sumir da vida dele e sim que vai ficar de babá dele quando eu tiver um encontro.

– Toda noite você quer dizer então?


Foi impossível as duas não rirem, mesmo que no fundo ambas soubessem que podia ser verdade o que Jane tinha acabado de dizer, mas era melhor deixar o momento do jeito que estava sem querer causar nenhum desconforto. Estavam felizes do jeito que estavam, dava até para se lembrar de quando eram adolescentes e passavam horas conversando e rindo e mesmo que agora tivessem um bebê no meio das duas e elas tinham que maneirar no tom da conversa não deixou de ser menos divertido e descontraído, era como se estivessem repetindo a tarde.


– Mas é sério Maura, você nunca mais pensou em ter filhos?

– Ás vezes dava vontade, mas não era a mesma coisa.

– Mesma coisa do que?

– De quando eu imaginava ter filhos com você.


Não era para aquela frase ter saído em voz alta e Maura só percebeu que tinha dito em voz alta quando viu o olhar arregalado de Jane. Pensou que uma discussão ia começar, que Jane ia voltar a jogar na cara que ela tinha ido embora, que não tinha o direito de dizer todas aquelas coisas e o clima ia voltar a ser insuportável, mas para sua surpresa pôde ver foi um pequeno sorriso aparecendo nos lábios de Jane e um olhar de carinho sendo mandando para ela, porque a verdade era que Jane nunca se imaginou sendo mãe, e isso Maura sabia muito bem, mas ela se imaginava sendo mãe junto com a Maura e só teria filhos se fosse com a Maura e isso permanecia, mesmo depois de anos, só que diferente da loira ela nunca ia admitir isso em voz alta.


– Acho que já podemos levá-lo para o berço, né?


Foi a única coisa que a morena conseguiu dizer para quebrar o gelo e não deixar Maura completamente desconfortável. A loira só assentiu com a cabeça e se levantou com cuidado e as duas foram até o quarto do bebê e Maura o acomodou no berço. As duas suspiraram aliviadas quando se afastaram um pouco do berço e o menino continuou dormindo tranquilamente, parecia que dessa vez elas iam poder voltar a dormir, mas só parecia, por que assim que Maura colocou o pé para fora do quarto TJ voltou a chorar.


– Não! – Jane barrou a entrada de Maura de volta ao quarto. – Eu não sei se li em algum lugar ou se vi em alguma série, provavelmente deve ter visto em alguma série, mas se deixarmos o bebê chorar ele se acalma sozinho e volta a dormir.

– Essa série era ficção ou documentário Jane?

– Você não julgue as séries que eu assisto, porque não são personagens fictícios, é minha vida lá. – Maura revirou os olhos, certas coisas realmente nunca mudavam e ao ver Jane tinha duvida se ela tinha realmente tinha mudado em alguma coisa. Tentou entrar no quarto novamente, mas a morena a impediu e ainda fechou a porta do quarto. – Espera que ele daqui a pouco vai parar de chorar.


Ficaram por exatos 30 segundos, paradas do lado de fora do quarto, uma encarando a outra com vontade de entrar no quarto e pegar logo TJ no colo, porque mais agonizante do que o bebê chorando era ele estar chorando sozinho no quarto, isso trouxe até sentimentos de que elas eram extremamente péssimas em cuidar de criança e que era melhor ter deixado o menino ir para adoção que com toda certeza ele seria melhor cuidado, mas esse pensamento sumiu assim que Jane não aguentou e abriu a porta do quarto e correu para pegar o sobrinho no colo.

Nunca ninguém andou tanto em uma casa como Jane e Maura andaram naquela madrugada. Passaram muito tempo andando com TJ de um lado para o outro no andar de cima e depois vendo que não teve resultado foram para o andar debaixo da casa, sempre revezando o menino de um colo para o outro, mas não dava resultado nenhum, quanto mais caminhavam com ele, mais TJ chorava e caso paravam de andar ou sentavam ele chorava o triplo, estavam desesperadas, não sabiam mais o que fazer. Pegaram até uns CDs que veio escrito que era música para bebê que tinham achado no meio das coisas de TJ, mas de música para bebê aquilo não tinha nada, era só barulho de chuva, trovões, o que deixava o menino mais agitado.


– Bebês deveriam falar assim que nascem. – Jane se jogou no sofá. Já estava exausta. – Assim saberíamos o que ele quer.

– Ele pode estar com saudade dos pais.

– Quantas vezes eu vou ter que dizer que ele só tem 50 dias, Maura? Ele não entende e mesmo se for isso mesmo já era pra ele ter feito esse escândalo há duas semanas.

– Não exatamente, os bebês tem uma forma diferente de lidar com as coisas.

– Sério? Por que ele está lidando como qualquer outra pessoa: Chorando! – Pegou o telefone. – Eu vou ligar para minha mãe.

– Não! Você não vai acordar a sua mãe Jane.

– Ah, mas vou sim. – Maura pensou em impedir que Jane ligasse para Angela, mas não tinha um modo de fazer isso já que ela estava com TJ nos braços. – Ma espero não ter te acordado.

– Jane... – Angela ainda sonolenta olhou para o relógio e viu que já se passava das 4 da manhã e ainda por cima ouviu TJ chorado de fundo. – Está tudo bem?

– Não Ma, não está nada bem. – Jane falou com a voz manhosa, quase fingindo um choro. – TJ não dorme, só sabe chorar. Nós já trocamos a fralda, já demais o que comer, cantamos, colocamos ele deitado no peito por causa dessa história ai da cólica, mas nada funciona. Não sabemos mais o que fazer.

– Não tem o que fazer Jane, ele vai parar de chorar quando quiser parar de chorar.

– Não me venha com essa Ma, ele passou a semana todinha com você, tem alguma coisa que você fez pra ele parar de chorar.

– Não Jane, não tem. Eu passei uns três dias com ele chorando a madrugada inteira e foi assim com você e seus irmãos também, você vai ter que se acostumar e ter paciência, mesmo porque ele precisa entender que são vocês duas que vão fazer com que ele pare de chorar agora, não a Lydia que ele com toda certeza deve sentir falta.

– Mas ele é um bebê! – Disse em tom choroso.

– Um bebê que acabou de perder a mãe e o pai. Paciência Jane, TJ precisa de muito amor e carinho agora.

– Venha dar amor e carinho para ele então, assim você aproveita e faz ele parar de chorar também.

– Boa noite, Jane.

– Boa noite não... Seu neto está aqui chorando e você... Ma? Ma? – Revirou os olhos e jogou o telefone no sofá ao perceber que sua mãe tinha desligado em sua cara. – Por que ela me odeia? – Perguntou com voz de choro. – Depois ela reclama que eu não quero dar netos a ela. Não vou dar mesmo!

– Ela só quer que você seja responsável.

– Está me chamando de irresponsável?

– Não Jane, eu só...


Maura não conseguiu concluir a frase porque a campainha tocou. Ambas se assustaram, já estava tarde, aliás, era quase de manhã, mas mesmo assim, não tinha motivo para ninguém tocar a campainha aquela hora. Jane fez sinal para que Maura ficasse na sala e que ela ia atender a porta, mexeu na cintura procurando por sua arma e soltou um xingo mentalmente, tinha duas semanas que tinha sido suspensa e mesmo assim ainda não tinha perdido a mania de procurar sua arma quando pensava que estava em perigo. A campainha tocou novamente, a morena respirou fundo e abriu a porta torcendo para que não fosse nenhum problema, e por sorte não era, quer dizer...


– Detetive Rizzoli? – Os dois policiais que estavam parados do lado de fora da casa perguntaram surpresos ao ver que Jane havia aberto a porta.

– O que vocês querem? – Perguntou sem paciência. Só faltava essa agora.

– Está tudo bem detetive Rizzoli? – Um dos policiais perguntou.

– Por que não estaria tudo bem?

– É que recebemos uma ligação dizendo que tinha um bebê chorando nesse endereço e...

– E o que? Pensaram que poderíamos estar espancando o bebê? – Os dois se entreolharam. Se soubessem que Jane estaria naquela casa jamais teriam atendido ao chamado. – Bebês choram e choram demais. Da próxima vez que essa pessoa ligar reclamando do choro do TJ fala para ela vir aqui fazer ele parar de chorar, certo? – Mandou um sorriso cínico para os dois.


Os policiais só assentiram e desejaram um “boa noite” em um fio de voz e foram embora. Entendiam o mau humor de Jane, se dois minutos que ficaram ali já estavam loucos com a criança chorando, imagine ela que deveria estar horas.


– Quem era?

– Dois policiais. Parece que algum dos seus queridos vizinhos pensou que estamos espancando o TJ, por isso que ele não para de chorar.


Mesmo sabendo que no mundo em que vivia infelizmente existia mesmo pais que batiam em bebês recém-nascidos, Maura não deixou de olhar Jane com um olhar incrédulo. Ela tinha acabado de se mudar e já pensavam que ela era uma agressora de bebês? Logo ela que recentemente tinha descoberto que era até boa com eles? Absurdo.


– Tudo bem... Cadê suas chaves do carro?

– Para que você quer a chave do meu carro?

– Já andamos essa casa inteira umas vinte vezes e ele não parou de chorar, acho que dar uma volta de carro com ele deve resolver.

– Jane olha a hora, está tarde.

– Melhor ainda por que não vai ter trânsito.

– Estamos de pijama.

– Não tem ninguém na rua e vamos estar dentro do carro, ninguém vai nos ver.


Maura olhou para Jane com a expressão séria como se perguntasse se ela estava falando realmente sério e o pior que ela estava, porque quando menos esperou Jane já estava com as chaves do seu carro em mãos e com a porta da casa aberta só esperando com que Maura se mexesse e deixasse a casa. Sabendo que não tinha como relutar e também já estava cansada de todo aquele choro em sua cabeça, Maura saiu de casa torcendo para que pelo menos aquilo desse certo.


– Fique você sabendo que eu não costumo deixar ninguém dirigir meu carro.


Já tinham deixado a garagem da casa de Maura e ainda não tinha feito nenhum efeito no choro de TJ o carro em movimento. Jane tirou sua atenção da rua, olhou para Maura, mandou um sorrisinho e voltou a olhar para frente.


– Levando em consideração que esse seu carro deve ter só uma semana...

– Estou dizendo qualquer carro meu, seja aqui ou em Londres.

– Falando em Londres... – Jane só estava esperando uma oportunidade para que o assunto aparecesse e para sua felicidade apareceu mais cedo do que ela imaginava e também tinha certeza que seria mais interessante do que discutir sobre quem Maura deixa ou não dirigir seu carro. – Eu ainda não entendi como você trocou toda sua vida lá para vir cuidar do filho da sua amiga.

– E eu tinha outra escolha?

– E se tivesse?

– Eu já disse que tinha planos de voltar para Boston, exemplo disso era que eu já tinha comprado até uma casa.

– Isso que eu também não entendo, você deveria ter a vida perfeita lá e mesmo assim quis voltar para cá.

– Quem disse para você que eu tinha a vida perfeita? – Jane tirou a atenção da rua por alguns segundos e olhou para Maura, sem duvidas ela tinha ficado irritada com aquela colocação. – E eu nunca quis passar tanto tempo assim em Londres, meus planos era me formar, mostrar que eu era realmente boa no que fazia, não só por ter o sobrenome Isles, mas sim por que eu sou boa, queria construir minha carreira sem a ajuda do meu pai e eu consegui, então não via mais motivos de viver longe da onde eu cresci.

– Demorou dezessete anos para você mostrar que é realmente boa?

– Claro que não. – Soltou um suspiro. Pensou que fugiria daquele assunto por algum tempo, mas pelo visto estava enganada. — Algumas coisas surgiram e eu não estava preparada para voltar.

– Por que não estava preparada? O que aconteceu?

– Você aconteceu Jane! Eu não conseguia voltar porque não tinha superado você.


E novamente ela tinha dito o que não devia em voz alta. Os olhos que encaravam Jane que mesmo ouvindo tudo aquilo continuava olhando para frente automaticamente trocaram o foco de atenção e passaram a olhar para frente, não queria e nem estava preparada para aguentar qualquer olhar que fosse de Jane depois do que ela tinha acabado de dizer.


– E agora você me superou?


Maura sabia que não podia mentir e estava com a mente tão cansada que não conseguia formular uma resposta para aquela perguntar sem realmente se entregar. Não podia dizer que tinha sim superado Jane e por isso voltou, porque era mentira, ter superado Jane não era nem de perto o motivo dela ter finalmente resolvido voltar para Boston, se a superação de seu grande amor da adolescência fosse o critério usado para ela voltar e se não tivesse toda essa confusão da morte de Lydia e testamento provavelmente continuaria morando em Boston, então não podia dizer que tinha superado, ia ter crise de urticárias que não tinha há tempos, mas também ela não podia dizer que não tinha superado, não queria dar motivos para Jane jogar em sua cara que ela jamais deveria ter a trocado pra ir para Londres.


– Ele dormiu.


Não foi a saída mais inteligente, mas pelo menos conseguiu com que Jane olhasse pelo espelho e visse que o sobrinho tinha mesmo dormido e esquecesse pelo menos por alguns segundos a pergunta, mas se depois disso ela ainda insistisse, Maura teria duas opções: Dizer a verdade ou pular do carro em movimento. Sempre foi muito racional, mas a segunda opção estava tão chamativa.

Jane tinha entendido. Mesmo que Maura não tivesse dado uma resposta, e se conhecesse a loira como imaginava que ainda conhecia, a resposta era óbvia, mas não ia se apegar a aquilo, não queria respostas óbvias, não queria saber que durante todos esses anos que elas podiam estar juntas e felizes Maura resolveu ir para Londres e ficar lá sofrendo por uma separação que ela mesmo provocou, então decidiu por não insistir na pergunta.


– Vamos andar mais um pouco para garantir que ele não acorde.


Ainda olhando para frente Maura só assentiu com a cabeça e elas andaram mais uns vinte minutos com o carro em um total silêncio que nem uma das duas ousou quebrar em nenhum momento.

Já estava quase amanhecendo quando finalmente as duas colocaram o pé dentro de casa e ao que aparentava TJ dormia profundamente e se tivessem sorte seria assim a manhã inteira.


– Eu vou colocar ele no berço. – Maura avisou.

– Tudo bem. Eu vou ficar por aqui mesmo a não ser que você...

– Não, pode ficar. Bom dia.

– Bom dia.


Jane caminhou até a sala e se jogou no sofá maior. Nunca imaginou que uma madrugada poderia ser mais longa que um dia e tão cheia de acontecimentos. Por toda informação que ela já tinha consigo só naquela madrugada dava para ela parar de agir feito uma idiota – mesmo que ela tivesse dado uma trégua – e tomasse uma atitude, mas ela procurava pensar que não tinha necessidade de tomar nenhuma atitude, não queria Maura de volta. Se a loira ainda não tinha a superado ela não podia fazer nada, ela já tinha superado a ex-namorada e estava feliz com isso. Mesmo porque ela não tinha ouvido nada concreto saindo da boca de Maura, então aquilo podia ser só seu ego falando mais alto como se dissesse que ela estava certa esse tempo todo quando disse que Maura não seria feliz sem ela. Resolveu parar de pensar nisso, já estava era ficando com dor de cabeça depois da madrugada mais escandalosa que ela teve em sua vida e olha que ela costumava ter várias madrugadas escandalosa.

Subiu para se encaminhar até seu quarto, mas percebeu que a porta do quarto de TJ ainda estava aberta e viu que Maura ainda estava ali dentro, ia dizer alguma coisa, mas percebeu que a ex-namorada conversava com seu sobrinho.


– Se sua mãe não estivesse morta, definitivamente eu a mataria, mas não literalmente, não tenho vocação para ser presa, acredito que não ia me dar muito bem na cadeia. Eu pensei que só a parte idiota da sua tia continuasse com ela, mas não, ela continua a mesma Jane por quem eu me apaixonei no passado. – Soltou um suspiro. – E pelo visto ainda estou apaixonada.


E se Jane precisava ouvir da própria Maura que ela ainda não tinha a superada e que ainda era apaixonada por ela... Pois bem, ai estava.

Notas finais
Eu acho que... Não, não acho nada, até o próximo capítulo ;)