Rizzoli And Isles - Life As We Know It
2 Capítulo 2 - O Testamento
Notas iniciais
Segundo... Juro que quando imaginei esse capítulo não achei que ele fosse ficar tão grande, mas ficou e eu não sabia como dividi-lo e nem queria porque acho que tudo que está escrito aqui tinha que ser nesse capítulo, prometo não tentar escrever um novo velho testamento da próxima vez =P
Ótima leitura!
Passado...
Algo engraçado sobre o passado é que ele nunca fica no passado. Tantas são as coisas que vivemos, tantas são as coisas que tentamos deixar no passado, mas por algum motivo não conseguimos. Feliz daquele que tem dificuldade em se lembrar de fatos do passado e que no final acaba não se lembrando de muita coisa e ás vezes até esquece os piores momentos, momentos esses que muitas pessoas gostariam de esquecer.
Quantos não são os acontecimentos que você gostaria de deixar no passado? Quantas não são as pessoas que você gostaria de deixar no passado?
Pessoas...
No decorrer de nossa vida o que mais vemos são pessoas. Algumas só aparecem para dizer um “Oi, tudo bem?” e você nunca mais vê na vida, outras aparecem para dizer um “Oi, tudo bem?” e ficam para sempre nas nossas vidas e tem aquelas pessoas que também falam o “Oi, tudo bem?” e que você pensa que vão ficar para sempre em suas vidas, já que esse é seu maior desejo, mas por algum motivo, que você não entende, não concorda ou simplesmente não ficou sabendo, ela deixa sua vida e você consequentemente tem que deixá-la no passado e até tentar esquecê-la tendo em vista que você pode até se lembrar dos momentos bons que passaram juntos, mas você sofre por isso, já que não vão ter mais momentos bons que passaram juntos e você vai sentir falta disso, então a melhor alternativa é deixar no passado.
O grande problema do passado é que quando você finalmente pensou que o deixou realmente no passado, que você não vai ter mais problema nenhum com ele, que você pode viver novos momentos, conhecer novas pessoas, fazer novas lembranças que consequentemente em algum momento também vão ficar no passado, aquele momento ou aquela pessoa volta, fazendo com que seu passado vire seu presente.
Jane pensou que tinha deixado o passado no passado. Pensou que não teria mais que se preocupar com suas feridas, que já deveriam até estar mais do que cicatrizadas no momento, mas ao ver Maura em sua frente ela começou a duvidar disso.
- O que ela está fazendo aqui?
Jane estava completamente indignada e irritada. Se perguntassem para ela quem seria a pessoa mais inusitada que ela poderia encontrar nessa semana, com toda certeza Maura não estaria nem no final da sua lista, já que pensou que nunca mais a veria novamente, ou melhor, já que ela não queria vê-la nunca mais.
- Maura?
Angela levantou da cadeira, não deixou de esconder a surpresa, mas também não deixou de abrir um sorriso e dar um abraço na loira, coisa que fez com que Jane revirasse os olhos e ficasse mais indignada ainda. Era inaceitável depois do que Maura tinha lhe feito sua mãe a tratá-la com simpatia como se nada tivesse acontecido.
- Oi Angela. – Disse com um sorriso depois que se separou do abraço. Tinha que admitir que estava feliz de ver a mãe de Jane novamente e mais feliz ainda pela recepção. – Oi Jane. – Disse mais por educação do que vontade de cumprimentar a detetive, já tinha visto a expressão de Jane e sabia que ela não estava feliz com sua presença, e na realidade ela também não estava confortável em dividir o mesmo ambiente com a morena, não depois de tantos anos sem vê-la.
- Bom... Agora que vocês três já estão presentes, eu acho que posso começar.
- Não, eu acho que não podemos começar. – Disse Jane ainda irritada. Parecia até que era impossível respirar o mesmo ar que Maura naquele escritório. – Pensei que isso seria um assunto de família e pelo que eu saiba... – Apontou para Maura. — Ela não é da família!
- Acredito que tudo será explicado no testamento.
Jane bufou.
O que o advogado mais queria naquele momento, depois que notou toda a tensão e o clima pesar – pelo menos por parte de Jane – desde que Maura tinha entrado no escritório, era não ser um advogado e não dizer o que estava escrito naquele testamento, porque se o clima já estava ruim só com a loira dividindo o mesmo espaço que Jane, definitivamente, quando ele terminasse de dizer tudo que tinha a dizer as coisas piorariam.
- Tommy e Lydia me procuraram duas semanas atrás e me pediram para que eu redigisse o testamento deles com alguns desejos. – O advogado ajeitou os óculos em seu rosto e pegou o papel já fora do envelope. Passou os olhos pelo papel por mania, já que sabia exatamente o que estava escrito ali e o que tinha que dizer. – Um deles é que o fundo de 100 mil dólares que Lydia possuía continue aplicado e que só seja mexido quando TJ fizer 18 anos e que seja utilizado para pagar os estudos dele.
- 100 mil dólares? – Jane perguntou perplexa. – Lydia tinha um fundo de 100 mil dólares? Isso não é algum tipo de engano doutor Harris?
- Com toda certeza não. Estava especificado aqui que esse dinheiro seria utilizado para ela e Tommy comprarem uma casa já que eles estavam morando com a senhora Rizzoli. – Nenhuma palavra. Harris só ganhou um positivo com a cabeça. Pareciam surpresas o que na realidade estavam, não faziam ideia que Lydia guardava essa quantia de dinheiro. – Bom... O segundo desejo é sobre a guarda do TJ. Quem está cuidando dele no momento é a senhora, certo senhora Rizzoli? – Angela fez um afirmativo com a cabeça. – Eles imaginavam que isso aconteceria, mas como Tommy tinha em mente que a senhora já tinha cuidado dele e dos irmãos, quis poupar a senhora do trabalho.
- Trabalho? – Angela soltou um riso de nervoso. Estava começando a ter medo do que aquilo ia dar. – Não é trabalho nenhum cuidar do TJ, eu amo meu neto.
- Eles sabiam disso senhora Rizzoli, pode ter certeza.
Angela e Jane estavam começando a ficar apreensivas. Tommy e Lydia nunca foram exemplos de um casal normal, exemplo disso é que nunca souberam que eles possuíam uma quantia de 100 mil dólares e que estavam juntando mais para comprar uma casa, então se não era Angela que era a pessoa mais adequada para tomar conta do filho deles, quem seria?
- Tudo bem... – Jane finalmente tomou coragem para dizer, queria saber logo o que os dois tramaram, porque se foi algo parecido com TJ não permanecer na família Rizzoli ela já faria um escarcéu agora. – Se eles não querem que a guarda do TJ fique com a minha mãe vai ficar com quem?
- Como foi especificado aqui eles queriam que a guarda do menino ficasse com você senhorita Rizzoli.
Respiraram aliviadas. Mesmo que Jane ainda pensasse que ia fazer o papel da tia legal e que ia deixar o papel de “mãe chata” para a sua mãe, ficou feliz em saber que os dois confiavam nela para cuidar do sobrinho, mesmo que só tivesse passado um dia inteiro com ele começou a imaginar que poderia se sair bem.
- Por mim tudo bem. – Ela deu de ombros. Era seu sobrinho, jamais ia renegá-lo e muito menos ir contra ao último desejo do irmão e da cunhada.
- Só que tem uma condição... – Encaram o advogado com atenção. Vindo de Tommy e Lydia a condição seria pelo menos estranha. – Você vai ter que dividir a guarda do TJ com a senhorita Isles.
Tanto Jane quanto Maura quase caíram para trás ao ouvir aquilo. Aquela condição cruzava a linha de ser estranha, era uma condição absurda. Pelo menos era o que Jane pensava. Nunca na vida ela iria dividir a guarda de seu sobrinho com alguém que fazia cinco minutos que tinha voltado para sua vida. Já Maura não conseguia pensar em nada.
- Eles estavam doidos? – Jane falou alterada. – Sabe quanto tempo a gente não tem notícia dessa pessoa? Dezessete anos! Não são dezessete dias e muito menos dezessete meses, são dezessete anos, eu não vou dividir a guarda do meu sobrinho com ela. O que o Tommy tinha na cabeça? Lydia nem a conhecia!
- Na realidade conhecia. – Respondeu a loira fazendo com que Jane a encarasse com a boca milímetros aberta com tamanha surpresa. – Nós nos conhecemos em Londres na faculdade e desde então somos amigas.
- Amigas? – Jane soltou um riso. – Ela nunca, nunca citou você. Como vocês eram amigas?
- Quando eu descobri que o rapaz que ela disse que iria casar e que estava grávida era o Tommy eu disse para ela não dizer nada, não queria criar problemas.
- Mas adivinha só? Acabou de criar um. Eu não vou dividir a guarda do meu sobrinho com ela. – Fez um negativo com a cabeça. Estava possessa. – Não vou.
- Qual o problema Jane? – Angela perguntou. Tinha acabado de digerir toda aquela informação e até que não achou má ideia, não via problema nas duas cuidando de TJ. Sempre gostou muito de Maura e pelo que pode ver, mesmo que ainda não tivesse trocado muitas palavras com ela, parecia que continuava a mesma pessoa de dezessete anos atrás. – Não é como se vocês tivessem que viver debaixo do mesmo teto.
- Na verdade...
Essa era a parte que Harris temia. Se Jane já estava ameaçando matá-lo só com o olhar por ele dizer que ela teria que compartilhar a guarda de TJ com Maura imagine quando falasse o resto. Sabia que ele não tinha nada a ver com isso, que ele só era um portador de voz, que só estava dizendo o que Tommy e Lydia especificaram, mas mesmo assim tinha medo de sair com algum hematoma. Estava realmente com medo do olhar que Jane lhe lançava.
- Na verdade...? – Jane frisou. Já não estava gostando nada daquilo e pelo visto gostaria menos ainda. – Fala doutor Harris!
- Foi deixado especificado que vocês têm que cuidar do TJ juntas. Terão que dividir a mesma casa.
Jane soltou um riso de indignação e se levantou da cadeira. Não estava acreditando naquilo. Os dois só podiam estar bêbados ou terem usado algo quando resolveram fazer aquele testamento.
- Deixa eu ver se entendi bem... – Jane andava de um lado para o outro do escritório. Estava possessa. – Tommy e Lydia querem que eu more com essa ai? – Fez um negativo com a cabeça. – Eu não vou morar com ela. Eles só podiam estar loucos na hora que escreverem esse testamento. Se eles querem uma guarda compartilha tudo bem, mas eu vou cuidar do meu sobrinho, no meu apartamento e eu não vou dividir com ela, não vou.
- Sinto muito, mas isso está fora de cogitação senhorita Rizzoli. Tommy e Lydia deixaram bem claro caso vocês não aceitassem um de seus desejos que o menino deveria ir para adoção.
- Espera... – Angela disse ainda descrente do que tinha acabado de ouvir. Não tão descrente quanto Jane que ainda andava de um lado para o outro da sala balançando a cabeça e dizendo em voz baixa inúmeros palavrões para ver se assim conseguia extravasar toda sua raiva, mas não estava funcionando. Maura também não acreditava no que tinha ouvido, mas não tinha feito menção de dizer nenhuma palavra, ainda estava processando tudo, era muita informação para uma única manhã. – Ele não pode ir para adoção. Se elas não tiverem de acordo com isso eu posso cuidar do meu neto, eu não vejo problema nenhum.
- Me desculpe senhorita Rizzoli, mas está bem claro aqui que as duas tem que viver juntas, cuidando do TJ durante um ano e depois disso elas podem decidir se permanecem com a guarda ou se uma das duas quer ter a guarda integral, antes disso, se elas não concordarem a criança vai para pais adotivos.
- Isso... Isso é inacreditável! I-NA-CRE-DI-TÁ-VEL!
E uma Jane completamente furiosa deixou o escritório do Harris. Angela fez menção de levantar e ir atrás da filha, precisava acalmá-la, precisavam resolver isso, ela não ia deixar seu neto ir morar com pessoas desconhecidas, mas Maura fez sinal para que ela continuasse sentada. As duas estavam nesse problema, então se alguém teria que procurar uma resolução, algo que ficaria bom para as duas, – mesmo que nessas condições que Tommy e Lydia haviam deixado fosse impossível agradar os dois lados – teria que ser ela. Deixou o escritório também e encontrou Jane fazendo o mesmo gesto que fazia dentro do escritório, andando de um lado para o outro.
- Jane...
A detetive que estava de costas caminhando pelo vasto corredor, murmurando coisas que Maura não entendia, ao ouvir a voz da loira se virou abruptamente e a encarou. Seu olhar emanava toda a fúria que estava sentindo no momento.
- Qual o seu problema? Por que eu tenho certeza... Tenho certeza absoluta que você sabia disso tudo!
- O que? – Perguntou ofendida com a acusação. Se Jane não tinha percebido ela estava tão surpresa com tudo isso quando ela, só não achava necessidade de ficar com essa raiva toda, não ajudaria. – Eu não sabia de nada. Lydia nunca me disse nada e se tivesse me dito com toda certeza eu não concordaria com essa loucura.
- Loucura! Isso! Algo que estamos de acordo. Isso é uma loucura! – Jane deu as costas para Maura e voltou a andar pelo corredor, mas antes que a legista pudesse dizer alguma coisa, ela virou e voltou a encará-la. – Você não é nada. Você não faz parte dessa família. Você só era uma amiga da Lydia, só isso. Eu não vou dividir a guarda do meu sobrinho com você, aliás, eu não vou viver com você, eu não vou criá-lo junto com você.
- Então você vai deixar o TJ ir para a adoção? – Maura tentou falar com o seu tom de voz mais suave e pacifico do mundo. Jane já estava exaltada, não queria exaltá-la mais ainda e não queria se exaltar, não seria nada bom para um momento como aquele. — É isso que você quer? Por que testamentos são realmente levados em consideração quando se trata de guarda de crianças.
- Não, mas esse testamento não vai ser levado em consideração. Não se eu arrumar um modo de provar que esses dois não estavam batendo bem quando resolveram escrever essa porcaria!
- Jane...
- Por que parece que só eu estou achando toda essa história um absurdo. Por que você disse que é uma loucura, mas eu não estou vendo você preocupada com isso. – Maura encarou o chão por alguns segundos, tentando montar tudo que tinha para dizer sem deixar Jane mais possessa e indignada, mas a morena entendeu tudo antes. – Oh meu Deus! Você não está cogitando entrar na loucura deles, está?
- Lydia era minha amiga, mesmo depois que ela veio para Boston a distância não mudou nada em nossa amizade, se ela quer que eu cuide do TJ eu vou cuidar é o mínimo que eu posso fazer depois de tudo que ela fez por mim.
- Então é isso? Você vai largar a vidinha perfeito que você vivia sabe-se lá em que inferno e vai voltar para Boston para cuidar de uma criança que não é nada sua?
- Se esse é o desejo da Lydia... – Encarou Jane para que a morena visse que tudo que ela falasse agora era com firmeza e que não voltaria em uma palavra. – Sim, eu vou cuidar do TJ. E você também vai, porque esse era o desejo do seu irmão e acredito que ele não ficaria nada feliz em saber que você ao invés de cumprir o desejo dele resolveu deixar o filho ir para adoção só por não querer dividir a casa comigo.
Não podia ser mais absurdo e surreal tudo isso, e só piorava cada vez que Jane repetia em sua mente tudo que tinha ouvido no escritório, e passou a ser mais absurdo ainda quando Maura terminou de dizer tudo aquilo.
Passou a andar de um lado para o outro pelo corredor novamente. Estava difícil de concordar com tudo aquilo, mas era seu sobrinho que estava em jogo, não podia simplesmente voltar para o escritório e dizer que não concordava com uma linha que estava escrito naquele testamento e mandar o menino para adoção. Não se achava a pessoa mais indicada do mundo para cuidar de uma criança, só tinha aprendido a trocar fralda e esquentar uma mamadeira porque Lydia uma vez lhe ensinou quando ela se ofereceu para ficar de babá de TJ e Jane pôde colocar em prática tudo que tinha aprendido no dia anterior, tinha sido maravilhoso passar um dia inteiro com o sobrinho, mas agora seria a vida inteira, não seria só pegar a criança quando tivesse vontade, não seria ser a tia legal que mimaria a criança fazendo com que Angela ficava muito brava, os papéis seriam invertidos, ela que teria que criar TJ. Mesmo não se achando a mais indicada era uma ideia que lhe agradava, não ia deixar o menino ir morar com qualquer um, porque um Rizzoli nunca abandona outro Rizzoli, – mesmo que esse lema não tivesse feito parte da vida de seu pai – ela não ia abandonar TJ. O que deixava tudo inacreditável é que ela teria ajuda, mas era a ajuda de alguém que ela não queria nem cruzar na rua, quanto mais dividir uma casa.
Parou em frente a grande janela que tinha no final do correr e ficou olhando o nada por alguns segundos, precisava organizar suas ideias, precisava passar mais uma vez tudo aquilo em sua cabeça, precisava entender o que estava acontecendo e ver se conseguia procurar um motivo, por menor que fosse, para concordar com tudo aquilo.
Maura parada no meio do corredor observava Jane. Era impressionante que mesmo depois de ter passado dezessete anos a morena ainda agia da mesma forma quando se sentia contrariada. Tinha que admitir, ficou sim chocada com todo o testamento e em como Tommy e Lydia tinham sido ousados em colocar um desejo como aquele, ambas tinham vidas, mesmo que a dela não tivesse lá aquelas coisas e ela já tivesse mesmo a intenção de voltar para Boston, mas não sabia nada de Jane, não sabia se isso traria problemas para ela, – profissionalmente e romanticamente falando – mas ela estava decidida, realizaria o último desejo dos dois, só ficava a duvida se Jane também realizaria.
Os dois minutos que Jane ficou olhando para aquela janela foram os dois minutos mais intermináveis da vida de Maura. Sempre soube tudo que Jane pensava, mas agora tinham se passado dezessete anos, não fazia ideia do que se passava na cabeça da morena e mesmo que seu temperamento continuasse o mesmo, tinha medo de que algumas atitudes e pensamentos de Jane também continuassem. Viu a morena passando por ela depois de parar de olhar para a grande janela. Jane não a olhou e não disse uma palavra sequer, só voltou para o escritório. Maura foi praticamente correndo atrás dela, sabia que ela tinha tomado uma decisão e tinha muito medo da que podia ser.
- Um ano?
Foi a pergunta que Jane fez assim que entrou no escritório novamente. Harris ajeitou seus óculos. Tanto ele quanto Angela estavam aflitos, queriam saber a decisão que as duas tinham tomado, se é que teve uma decisão. Só conseguiu fazer um positivo com a cabeça respondendo a pergunta da detetive, ainda estava com um pouco de medo dela.
- Vamos morar no meu apartamento então.
Angela e Maura se entreolham surpresas pela decisão de Jane. As duas realmente pensaram, devido a indignação e irritação da morena, que ela poderia sim recusar o desejo do testamento só por ter que dividir uma casa com Maura. Mas se parassem para pensar na Jane Rizzoli, aquela que poucos conheciam, mas que tinha o maior coração do mundo, a decisão dela não tinha como ser mais óbvia.
- Você não vai levar o TJ para morar na imundice que é aquele seu apartamento. Vocês podem morar comigo.
- Na verdade... Podemos morar na minha casa. – Maura propôs com receio. Jane não estava calma e para ela ter uma segunda explosão talvez não precisasse de muita coisa. Angela encarou a legista surpresa, não sabia que ela tinha casa em Boston, já Jane a encarou com indignação, não podia ser verdade ela sugerir algo assim, aliás, também tinha um pouco da surpresa da sua mãe, não fazia a mínima ideia do motivo de Maura ter uma causa em Boston, já que há anos ela não morava mais na cidade. – Eu comprei a casa há alguns meses. Então...
- Por mim está perfeito! Vocês podem morar na casa da senhorita Isles. – Harris estava completamente aliviado com aquilo, mesmo ainda parecendo que Jane o mataria a qualquer segundo, as coisas finalmente estavam começando a se resolver e aquela reunião terminaria. Nunca teve uma manhã tão difícil. – Só precisamos acertar algumas coisas, porque tenho que passar para a assistente social. Vocês sabem, mesmo tento a guarda da criança ela precisa se certificar de que vocês vão cuidar direito do TJ.
Mesmo que entendesse um pouco disso devido ao seu trabalho, Jane ainda assim não sabia a necessidade disso, ia cuidar muito bem do TJ e esperava que Maura fizesse o mesmo. Depois da decisão tomada ela só queria que tudo aquilo acabasse, não só a reunião com o advogado, mas sim também esse um ano que teria que conviver com Maura.
Com o fim da reunião elas deixaram o escritório. Jane foi andando na frente de Maura e Angela para fora do prédio, não tinha paciência e não aceitava o fato de Angela tratar a loira como se nada tivesse acontecido.
- Jane será que podemos tomar um café e conversar? Acredito que temos muitas coisas para conversar.
- Vamos ter um ano para conversar. – Andou até seu carro. – Por que você e minha mãe não saem para tomar um café e conversar? Tenho certeza que vocês têm fofocas de dezessete anos para colocar em dia. – Abriu a porta do carro. – Eu só vou dirigir por ai em alta velocidade e fazer com que meu carro perca o controle e caia de algum lugar. – Entrou no carro e antes de dar partida colocou a cabeça do lado de fora da janela e não deixou de usar seu sarcasmo. – Divirtam-se. – E saiu com o carro sumindo da visão das duas.
- Esse foi sarcasmo ou Jane com o passar dos anos desenvolveu tendências suicidas? – Maura perguntou realmente preocupada. Nunca se sabe.
- Não Maura. – Angela soltou um pequeno riso, algumas coisas nunca mudavam. – Ela só está sendo a Jane de sempre.
Maura fez um positivo com a cabeça aliviada com o que Angela tinha acabado de dizer.
- Bom... Se você quiser podemos mesmo tomar um café.
- Eu adoraria.
***
- Me desculpa Angela. – Disse Maura já se acomodando em uma das mesas da cafeteria. – Com toda essa confusão nem consegui dizer, mas... Eu sinto muito pela morte do Tommy.
- Obrigada querida. – Agradeceu com um pequeno sorriso triste. – E eu sinto muito pela morte da Lydia, ela nunca me disse nada, mas sei que vocês devem ter sido grandes amigas.
- Éramos. – Maura encarou seu copo de café por alguns segundos e voltou encarar Angela. – Me desculpa por toda essa confusão, eu não fazia ideia que Lydia ia fazer uma coisa dessas, se ela tivesse me contado eu jamais teria permitido.
- Está tudo bem, Maura. Sabe... Foi até bom isso acontecer, assim Jane aprende a ter um pouco de responsabilidade na vida.
- Pouco de responsabilidade na vida? – Maura arqueou uma sobrancelha e em seguida soltou um riso. – Não é possível que ela continue a mesma de sempre.
- Não, ela não continua a mesma de sempre, está pior. – Maura encarou Angela curiosa. Tudo bem que Jane continuava a mesma estourada de sempre, mas a mesma irresponsável? Era difícil de acreditar. – Mas como vocês vão viver um ano juntas você pode conferir isso com seus próprios olhos. Vamos falar de você.
- Não tem muita coisa para falar de mim.
- Nós não nos vemos há dezessete anos Maura, tenho certeza que tem muita coisa para você me contar.
Era incrível que mesmo com o passar dos anos Maura e Angela ainda tinham um ótimo relacionamento. Não era segredo para ninguém que a mãe de Jane sempre amou a loira como se ela fosse sua própria filha e que também achava que ela seria a pessoa que Jane precisava para tomar um rumo na vida, não deixou de ficar chateada quando as coisas terminaram, mas nunca em momento algum culpou Maura. Para Maura não sabia como era importante aquilo, ainda ter aquela relação com Angela, de conversarem como se fizesse só alguns dias que não se viam, porque também sempre teve Angela como uma segunda mãe e por um tempo achou que fosse mesmo fazer parte da família Rizzoli, mas as coisas fugiram de todas as promessas e de tudo que ela havia planejado. Depois de toda aquela tensão que foi na reunião as duas tiveram um fim de manhã agradável, com uma conversa descontraída, algo que ambas estavam precisando.
***
Todos sabiam da tal reunião com o advogado que Jane teria naquela manhã e quando digo todos são Korsak e Frost, já que TJ estava com Frankie no departamento e ele teve que explicar o motivo do sobrinho estar lá com ele, mas não deixou de ser uma surpresa quando viram Jane passando pela porta com a cara mais emburrada do mundo. Pensaram que a reunião seria só para decidirem com quem TJ ficaria, algo que já era 100% certeza que seria a Angela e que Jane e Frankie ajudariam no necessário porque não deixariam a mãe se sobrecarregando, mas ao verem a expressão de Jane começaram a se preocupar.
- Como foi a reunião com o advogado? – Frankie perguntou. Queria saber logo das péssimas notícias.
- Péssima. – Jane sentou em uma cadeira. Sabia que teria que contar todo o acontecido, então sentada era uma ótima opção.
- Por que péssima? – Korsak perguntou. – Com quem vai ficar a guarda do TJ?
- Comigo.
Os três encararam Jane sem entender. Ficaram surpresos sim em ouvir que a guarda da criança iria para ela, mas isso não era motivo dela estar com a cara fechada, pelo que eles sabiam ela era uma das que mais amava o sobrinho.
- Por que essa cara então? – Perguntou Frost. – Sabemos que você tem toda aquela coisa de não querer ser mãe, mas ele é seu sobrinho.
- Eu sei que ele é meu sobrinho e eu até que fico feliz de Tommy e Lydia terem confiado a guarda dele a mim, mas eles também confiaram a guarda dele a outra pessoa.
- Quem? A ma?
- Sim... A ma, de Maura.
Foi feito um silêncio. Frost e Korsak se entreolharam como se perguntassem quem era Maura, não conseguiam lembrar ninguém conhecido com esse nome e nem ninguém que Jane possa ter citado algum vez. Já Frankie pensou um pouco, mas só conseguia se lembrar de uma única pessoa com esse nome. Olhou para a irmã ainda desacreditando de ser quem ele estava pensando, mas ele teve que perguntar.
- Maura... A Maura? – Ganhou a cabeça de Jane balançando em positivo. – Como...?
- Quem é Maura? – Frost perguntou.
- A ex-namorada da Jane.
- Ex-namorada? – Korsak soltou um riso. – Desde quando Jane tem ex-namoradas?
- Foi a única que ela teve na vida. Foi na época da escola, só que levou um pé na bunda e nunca se recuperou.
- Está feliz em finalmente poder compartilhar essa história? – Perguntou mais emburrada do que na hora que tinha entrado na sala. Frankie não ousou responder, do jeito que a irmã estava era capaz dela jogar nele o que estivesse mais perto. – Eu ainda não estou acreditando nisso.
- Mas por que deram a guarda para a Maura também? – Frankie realmente não entendia. – Tem o que? Quinze anos que ninguém tem notícia da Maura?
- Dezessete anos e ela era a Best friend forever da Lydia, então...
- Não precisa ficar com essa cara também Jane. – Disse Korsak. – Não é como se vocês tivessem que morar juntas e cuidar do TJ. Deixa ela ver a criança uma vez por mês e está tudo bem.
- Na verdade nós vamos ter que morar juntas, e pelo que ficou decido, na casa que ela tem aqui em Boston, durante um ano, caso contrário TJ vai para adoção e nós corremos o risco de não vê-lo nunca mais.
Foi com toda calma do mundo que Jane tinha dito isso, mas os três sabiam que por dentro ela estava explodindo e o sorriso cínico de canto de boca demonstrava isso muito bem. E a realidade era essa mesma. Jane estava louca de raiva com toda aquela situação, tinha decidido pelo certo, mas contrariada. Sua vontade era de ir ao presídio em que o assassino de Tommy e Lydia estava e terminar o serviço, mesmo que não fosse trazer os dois de volta para arrumar toda essa bagunça, mas sem duvida alguma ela se sentiria muito melhor, pelo menos teria extravasado sua raiva e em alguém que realmente merecia. Só que ela jamais iria compartilhar esse pensamento e essa sua vontade de espancar o cara, porque iam continuar achando que ela deveria se consultar com um psicólogo.
- Rizzoli!
- Tenente eu juro que não vim pedir para que o senhor me libere, vim só buscar o meu sobrinho.
- Mas eu gostaria de dar uma palavrinha com você. – Cavanaugh fez sinal para que ela o acompanhasse até sua sala. Mesmo não querendo ela fez o que o chefe pediu, afinal de contas ele era seu chefe. – Você já marcou a consulta com o psicólogo?
- Eu disse...
- Eu sei o que você disse Jane. – Ele a interrompeu. – Você é a melhor detetive que eu tenho, a única detetive mulher do Estado e eu não quero te perder.
- Mas não vai me perder senhor.
- Vou se você se recusar a se consultar com o psicólogo. Você está suspensa Jane, mas não suspendemos seu salário porque você precisava falar com esse psicólogo para ele te liberar, mas se você se recusa a falar com ele eu vou ter que procurar um detetive que queria trabalhar, já que se você não quer ver o psicólogo para ele te liberar para o trabalho é porque você não quer voltar a trabalhar.
Jane soltou um longo suspiro, mas essa. Não podia perder seu emprego, era a única coisa certa que tinha na vida ainda, estava bagunçado também por causa de atitudes que ela não se arrependia, mas quando tudo se resolvesse voltaria a ser algo da sua vida como Jane Rizzoli. Antes de Tommy e Lydia morrerem, antes dela ter que dividir a guarda do TJ com Maura.
- Eu vou marcar a consulta, tudo bem? Mas me dê uns dias, por favor senhor, tenho que resolver algumas coisas sobre a guarda do meu sobrinho.
Cavanaugh assentiu. Era só isso que ele precisava ouvir. Assim que ela marcasse a consulta e recebesse os relatórios de que ela estava realmente se consultado com o psicólogo ele poderia respirar aliviado.
Trocaram mais algumas palavras e a detetive deixou a sala dele, ainda estava irritada, tinha tanta coisa para lhe dar. Não falou nenhuma palavra ao voltar para a sala, só pegou TJ que estava na cadeirinha e foi embora.
***
- Você tem sorte sabia? – Disse Jane colocando a cadeirinha que carregava TJ em cima de sua mesa de centro e aproveitou e já sentou no sofá encarando o bebê. – Por que agora você vai ter a sua avó só como sua avó e ela vai te mimar e te estragar o que é algo bom, e ainda vai ter essa tia aqui como sua guardiã. Prometo não ser chata, tudo bem? – Soltou um longo suspiro. – Só que tem um grande problema, você vai ter outra guardiã também e espero que você não goste dela e que vomite nas roupas de grife dela, porque ela machucou muito o meu coração. – Se encostou no sofá encostando sua cabeça também em posição para cima e fechou os olhos, mas continuou falando. – Olha o que estou pedindo para você... Óbvio que você vai gostar dela, porque ela é uma das pessoas mais adoráveis que já conheci na vida e tenho certeza que vai ser a que você já conheceu também, mas você pode vomitar sim nas roupas de grife dela se quiser, não vou brigar com você. – Jane abriu os olhos e voltou a olhar para o sobrinho, mas percebeu que ele tinha adormecido. – Começando muito bem nossa relação TJ... Você dormir enquanto eu estou desabafando. – Abriu um pequeno sorriso. Ainda ficava admirava em como era a coisa mais linda do mundo o seu sobrinho. – Mas está tudo bem. – Encostou a cabeça de volta no sofá e fechou os olhos. – Na realidade não está tudo bem, mas o que eu posso fazer? – Deu de ombros.
Mesmo não querendo e fugindo dessas lembranças durante muitos anos foi inevitável naquele dia não se lembrar de como tudo começou.
As aulas já haviam começado fazia alguns dias, mas Jane ainda não tinha aparecido na escola, não porque fosse uma dessas garotas que não gostam de estudar e que vivem inventando desculpas para não ir para a escola. Tudo bem, ela era dessas garotas, mas Angela não caia em nada do que ela dizia e todo dia obrigava com que ela fosse para a escola, mas dessa vez era diferente, não tinha ido para a escola desde o primeiro dia de aula porque não estava matriculada ainda na escola nova, para falar a verdade não sabia nem como a mãe tinha conseguido matriculá-la naquela escola, mas seja lá como ela tivesse conseguido, Jane estava odiando tudo.
A escola era a famosa “escola de riquinhos” que ela tanto odiava. Se em escolas publicas já tinham as patricinhas, nas escolas particulares parecia que só tinham patricinhas, porque desde que ela tinha passado pelo portão da escola era só o que ela via em sua frente. Pensou que só encontraria playboys também, mas os garotos pareciam menos insuportáveis que as meninas, coisa que não era de se estranhar já que Jane sempre se dava bem com os meninos seja lá em qual fosse a escola. Odiava o uniforme da escola, não entendia porque não podiam usar suas roupas normais ao invés de uma saia que batia só um pouco a cima de seu joelho, listrada com as cores azul e branca, uma blusa branca que ela não sabia por que diabos todas as meninas usavam para dentro da saia e um casaco azul. Deu graças a Deus que pelo menos o sapato ela podia usar qualquer um, fazia com que ela odiasse tudo aquilo um pouco menos.
Assim que terminou de passar pelo portão e tendo que aguentar os olhares curiosos e enjoados das meninas que a via passando, Jane olhou para o papel que sua mãe tinha marcado algumas informações e foi procurar pela sala do diretor. O velho – como Jane o chamava, mesmo não o conhecendo – queria vê-la antes que ela pudesse conhecer sua turma.
- Senhorita Rizzoli. – O diretor que atendia pelo nome de Paul Taylor se levantou da poltrona em que estava sentado assim que viu Jane cruzando a porta de sua sala e lhe estendeu a mão. Jane queria revirar os olhos, odiava quando a chamavam de senhorita Rizzoli, mas tinha prometido para sua mãe que causaria uma ótima aparência para o diretor, então se conteve e apertou a mão do homem. E como pensava ele era velho, usava óculos e tinha vários quilos acima do peso. – Sente-se, por favor.
Jane jogou sua bolsa no chão perto da cadeira e sentou na cadeira em frente a mesa do diretor. Percebeu que a bolsa jogada no chão tinha incomodado o homem, mas ele não disse nada a respeito e ela fingiu que não percebeu.
- Você tem um histórico e tanto. – Disse folheando o histórico de Jane. – Só durante esses últimos dois anos você passou por cinco escolas diferentes e nessa última escola você foi expulsa por colocar fogo no ginásio enquanto acontecia o baile de primavera.
- Aquilo foi um acidente, não foi minha intenção. Mesmo achando esses bailes ridículos. – O diretor só a olhou por cima do histórico que folheava, mas não a repreendeu.
- Histórico de brigas, discussões... Você sabe que não é o perfil de aluna que eu aceitaria nessa escola, não sabe? – Jane nada disse, só ficou o encarando como se perguntasse “e daí?”. Nos últimos dois anos ela não era o perfil de aluna que nenhuma escola aceitaria. – Mas sua mãe é uma pessoa muito gentil e se preocupa com você e com seu futuro e por tudo que ela me disse eu resolvi te dar uma chance que as outras escolas não quiseram te dar, espero que você saiba aproveitá-la senhorita Rizzoli.
Também não respondeu nada. Estava odiando ter que estudar em uma nova escola, – de novo – só que dessa vez era diferente, sua mãe estava tirando dinheiro de só deus sabia da onde para pagar aquela escola para que ela pudesse estudar tendo em vista que nenhuma escola pública devido ao seu histórico queria aceitá-la, essa foi a saída que Angela achou, caso contrário teria que mandá-la para estudar em outro estado e isso era algo que ela sabia que a mãe não faria, mesmo que ela estivesse merecendo depois de tudo que andava fazendo. Sabia que teria que aproveitar mesmo a oportunidade ou pelo menos ter um pouco de consideração por ela, já que estava tudo vindo do suor de sua mãe.
- O que me surpreende são suas notas senhorita Rizzoli. Você não era exemplar em comportamento, mas suas notas são ótimas.
- Já ouvi a frase: “Quem não cola não sai da escola”? Então...
Taylor estava começando a se preocupar com sua decisão de ter aceitado Jane em sua escola que era a primeira de nível de educação de Boston. Não só educação de aprendizagem, mas também pela postura de seus alunos, sabia que sempre tinha alguns que fugiam um pouco fora do padrão da escola, mas nada com que tivesse que se preocupar, mas sobre Jane ele estava receoso.
- Bom senhorita Rizzoli eu espero realmente que você seja uma pessoa diferente na minha escola. – Ele se levantou da poltrona. – Agora vamos que vou te mostrar sua turma.
Jane não imaginou que por “mostrar sua turma” seria apresentá-la na frente da classe inteira. Cada segundo que passava odiava mais a nova escola. Enquanto o diretor lhe apresentava, ela só conseguia passar os olhos pela sala procurando por um lugar no fundo onde ela podia se sentar e se esconder da vista de todos até que a aula acabasse, mas como tinha chegado atrasada, todos os lugares do fundo estavam ocupados e o único lugar que estava livre era um na segunda carteira, que ficava do outro lado da sala, atrás de uma loira que ela tinha certeza que fazia parte do grupo das patricinhas, mesmo que ela tivesse usando o mesmo uniforme, mas ela tinha cara. Assim que o diretor terminou a apresentação ela sentou no único lugar que restava na sala.
- Bom... Agora voltando ao assunto...
Literatura. Shakespeare. Tudo que ela mais odiava na vida. Estavam no último ano, não sabia por que tinham que ficar sabendo tudo de Shakespeare, não tinha outra coisa para aprenderem? O pior era que ninguém ali parecia entediado, todos interagiam, em especial a loira que estava sentada em sua frente que não conseguia deixar a mão abaixada nenhum segundo, toda hora que a professora fazia uma pergunta ela levantava a mão e respondia com excelência, começou a ter suas duvidas se ela fazia mesmo parte do grupo das patricinhas, já que todas que ela conhecia não partilhavam de tamanha inteligência.
- Então Jane... O que ele quis dizer com isso?
Jane pensou estar ouvindo coisas. A professora não estava realmente perguntando algo para ela, estava? O pior é que ela estava, os olhos ansiosas pela resposta a encaravam.
- Por que você não pergunta pra loira aqui na minha frente? Acredito que ela está ansiosa para dar uma resposta, porque ela levantou a mão às duzentas vezes que você fez a pergunta. Aliás, eu não sei o que ela está fazendo nessa sala de aula se só ela responde as perguntas, deveriam mandá-la para casa e contratar uns professores particulares, acho que ela ficaria mais á vontade para mostrar toda sua inteligência.
Foi ouvido risos discretos da maioria dos alunos. Já estavam acostumados com a loira levantando a mão pra responder todas as perguntas, mas alguém dizer isso e ainda por cima mandar a professora perguntar para ela era algo inédito na sala.
- Se eu quisesse saber a resposta da Maura eu perguntaria para ela, mas eu quero saber de você Jane.
- Qual é professora! Não faça isso com a loira da frente, ela vai ficar chateada por não responder.
Pensou que faria com que a loira se virasse e mandasse ela ir se ferrar, mas pelo contrário, a garota continuou virada para frente, e a única diferença é que ela batia sua caneta com força na mesa, parecia nervosa, mas não nervosa de um modo de estar brava com Jane zombando dela, mas sim nervosa de tímida por Jane estar zombando dela.
- Acredito que ela não vai.
- Okay.
Conhecia esse tipo de professores e sabia que se não respondesse era capaz de ser expulsa da sala e isso era a última coisa que queria na vida, porque mesmo odiando tudo, tinha prometido para sua mãe que se comportaria.
Leu a frase na lousa e respondeu a pergunta da professora. Óbvio que deixou a professora boquiaberta. Quando ela tinha feito a pergunta para Jane e ela ao invés de responder de imediato ficou zombando de Maura ela pensou que aquilo era um modo da morena desviar a atenção e responder que não sabia, mas sem responder realmente que não sabia, mas ficou completamente surpresa quando Jane respondeu, deu todos os seus pontos de vista e ainda entrou em uma discussão com alguns alunos sobre o que pensava fazendo com que todos entrassem em um consenso. Parece que alguém tinha mentindo sobre o diretor quando justificou suas notas boas.
- Não se esqueçam do trabalho que tem que ser entregue na próxima semana. – A professora avisou antes que todos deixassem a sala.
- Professora... – Maura a chamou. – Bom... Eu... Eu não tenho uma dupla para o trabalho, será que eu posso fazer sozinha?
- De jeito nenhum. Jane vai fazer com você.
- Eu vou o que? – Perguntou quase deixando sua bolsa cair ao ouvir aquilo.
- Isso que você ouviu. Você e a Maura vão fazer o trabalho de Literatura juntas.
- Ótimo. – Respondeu com um sorriso amarelo.
Maura pensou em dizer alguma coisa, não para a professora, mas sim para Jane, — por que ela não via problema em fazer o trabalho com alguém que ficou zombando dela a aula inteira, já estava acostumada com isso e olha que as pessoas só falavam pelas suas costas, só que normalmente essas pessoas nunca a chamavam para se juntar a algum grupo, mesmo ela sendo mais inteligente que metade da sala junta – mas a morena já tinha deixado a sala. Saiu praticamente correndo atrás dela e assim que a alcançou tocou em seu ombro fazendo com que assim Jane parasse de andar, virasse e a encarasse.
- Pois não?
- Acredito que não fomos apresentadas adequadamente. – Estendeu a mão. – Eu sou a Maura.
- Eu sei quem você é loira nerd! – Respondeu sem nem ao menos se preocupar em apertar a mão de Maura, fazendo com que assim a loira ficasse com a mão estendida por alguns segundos e quando percebeu que tinha sido deixada no vácuo abaixou a mão envergonhada. – Não fiquei te zuando a aula inteira? Eu hem...
- Aquilo foi realmente desagradável, mas eu queria conversar com você sobre o trabalho...
- Não tem o que conversar não... Pode fazer sozinha, só assina meu nome nele e está tudo certo, não vou ficar magoada com você não.
- Desculpe, mas eu não vou fazer isso. – Jane e encarou curiosa. Pensou que a loira fosse do tipo tão nerd que não ligava de fazer os trabalhos e colocar o nome de outras pessoas nele. – Se quiser a nota do trabalho vamos ter que fazer juntas, caso contrário vou ter que procurar outra pessoa para fazer dupla comigo.
- Outra pessoa? – Jane soltou um riso de deboche. – Admita que ninguém quer fazer o trabalho com você e por isso que você estava sozinha até agora.
- Eu não vou admitir nada... – Sabia que não podia dizer que não porque estaria mentindo e teria crise de urticárias, então... – Podemos nos encontrar na minha casa na sexta-feira para fazermos o trabalho.
- Não... Podemos nos encontrar na minha casa no sábado para fazermos o trabalho já que você faz tanta questão da minha presença.
- Eu não faço questão da sua presença, eu só acho que como o trabalho é em dupla...
- Já terminou loira nerd? Tenho mais aulas para ir.
Maura só fez um afirmativo com a cabeça meio sem jeito. Nunca tinha conhecido ninguém como Jane na vida.
Jane se lembrava daquele dia rindo. Não imaginava como Maura ainda teve coragem de falar com ela depois daquilo, tinha sido completamente desagradável, mas olhando para como tudo tinha terminado ela bem que merecia.
Foi despertada de seus pensamentos com seu celular tocando.
- Rizzoli!
- Oi Jane, sou eu, Maura. – Só podia estar sofrendo de estupidez. Tinha passado praticamente a manhã inteira com Maura no escritório e a única coisa que sentiu foi raiva, mas agora, ao ouvir sua suave voz ao celular teve seu coração disparado. – Sua mãe me passou seu número, espero que não tenha problema, mas acredito que precisamos conversar. Podemos jantar?
- Tanto faz. – Respondeu indiferente. Não ia entregar o coração disparado, mesmo porque estava com raiva ainda. – Escolha o lugar, horário e me mande por mensagem.
- Tudo bem.
E foi o que Maura fez assim que desligou o celular. Marcou o jantar para ás 20 horas, em um restaurante pequeno, mas que Jane nunca tinha ido na vida e nem sabia da existência dele me Boston. Ah e ela ainda fez questão de chegar atrasada só para continuar sua linha desagradável.
- Pensei que você fosse trazer o TJ. – Maura disse assim que viu Jane chegando sem o bebê. Sabia do seu plano de ser desagradável, por que certas coisas nunca mudavam, então não ia nem se estressar.
- Achei melhor deixar ele com a ma, sabe... Precaução para saber se você não é uma sequestradora de bebês. – Mandou um sorriso cínico para Maura e se sentou. – Então? O que você quer conversar? Pensei que já estava tudo certo, que eu teria um ano insuportável morando debaixo do mesmo teto que você.
- Jane...
- O que tem de bom para comer nesse lugar? – Disse folheando o cardápio. – Estou morrendo de fome.
Maura respirou fundo. Jane não iria conseguir tirá-la do sério. Seria muito tempo de Ioga jogado fora se ela explodisse com a morena. Deixou com que fizessem o pedido e assim que chegasse conversariam, só que se iludiu em pensar que seria uma conversa fácil e que Jane baixaria a guarda pelo menos por alguns minutos. Foi insuportável o jantar inteiro fazendo parecer que morar com ela fosse o pior pesadelo do mundo, como se fosse um sonho se realizando ter que dividir uma casa durante um ano com a morena que não tentava nem fingir que era gentil. Tudo que Maura dizia Jane respondia com um “faça o que você achar melhor, a casa é sua”. Pelo visto não teria Ioga que daria jeito.
Com o fim do pior jantar que Maura já teve na vida, elas deixaram o restaurante.
- Tem certeza que já não quer ir arrumando as coisas em casa? – Maura perguntou enquanto as duas esperavam pelo carro na calçada. – Posso deixar uma cópia da chave com você. Só vou voltar para Boston na segunda-feira porque tenho que resolver alguns assuntos ainda em Londres.
- Eu já disse que não. Quero aproveitar a tranquilidade do meu apartamento enquanto eu posso.
- Quando ficou tão insuportável assim conviver comigo? Eu não fiz nada para você Jane, nada!
- Você não fez nada? – Soltou um riso debochado. – Você foi embora. Não se importou com os meus sentimentos e simplesmente me trocou pra virar mais uma doutora esnobe.
- Eu não me importei com os seus sentimentos? – Maura perguntou incrédula. – Você tem certeza que fui eu Jane?
- Não fui eu quem terminou com você e fui embora para Londres.
Maura balançou a cabeça em negativo ainda incrédula por tudo que ouviu. Sério que depois de todos esses anos ela continuava achando que era a vítima?
- Você continua sendo a mesma ridícula de sempre. – Dane-se a Ioga. Já tinha aguentado coisas demais de Jane e estava na sua fez de explodir. – Continua sendo a mesma ridícula, egoísta, mimada e irresponsável!
Os carros foram estacionados.
- Vai para o inferno!
Foi a única coisa que Jane conseguiu dizer antes de entrar em seu carro e ir embora. Maura ficou observando o carro sumir de sua vista completamente sem reação.
Talvez tivesse sido uma péssima ideia ter aceitado tudo aquilo. Nada estava as mil maravilhas em sua vida, mas o passado estava bem no passado, – não tão bem assim, mas dava para suportar – só que agora teria que conviver com esse passado e até agora tudo tinha sido tão ruim que ela não fazia ideia do que lhe esperava nos próximos dias, ou melhor, no próximo ano.
Notas finais
#RIPLeeThompsonYoung
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