Notas iniciais
Eu voltei, agora pra ficar, por que aqui, aqui é meu lugar (8
Como podem perceber, eu voltei! E de novo, mais uma vez, novamente essa fic veio de um sonho que eu tive, então vim compartilhar. Na realidade eu nem ia postar agora, mas só ta rolando notícia ruim pro mundo Rizzles que eu preciso escrever pra me sentir menos frustrada com esse mundo de séries, por que não ta fácil!

Ótima leitura!

PS: O nome da fic é o inglês "Juntos Pelo acaso", que também serviu pra dar uma ajudada na inspiração pra essa fic =)

Cada dia que passava ao invés de melhorar parecia que só piorava. Sempre foi a pessoa que deu a péssima notícia para os familiares que algum parente havia sido assassinado, mas nunca pensou que dias atrás ela seria um desses familiares. Ainda era difícil de acreditar, parecia que tudo não passava de um grande pesadelo e que daqui a pouco ela acordaria, mas não era pesadelo nenhum, era a realidade em que estava vivendo e isso lhe deixava ainda mais com raiva do mundo.

Sentada no sofá de seu apartamento, com os pés em cima da mesa de centro e tomando sua terceira cerveja, Jane passava aquele terrível dia em sua cabeça novamente. No decorrer de sua carreira como policial e detetive ela já havia estado em várias cenas de crime, mas nenhuma foi como aquela, nunca se sentiu tão desequilibrada emocionalmente como se sentiu naquele dia e ao invés de melhorar só piorou com o decorrer dos dias. Pensou que espancando o cara até deixá-lo hospitalizado acabaria com toda a raiva que ela estava sentindo, mas não acabou. Tommy e Lydia continuavam mortos.

Nunca foi tão apegada assim ao irmão mais novo, sempre foi mais ligada a Frankie, mas isso não significava que ela não amava o irmão e que queria o melhor para ele. Jane sempre se importou com o Tommy, mesmo reclamando e dizendo que nunca mais faria, vivia limpando sua barra e não deixou de ser uma surpresa quando o irmão resolveu tomar jeito porque tinha se apaixonado e que seria pai. Demorou para Jane ir com a cara de Lydia, mas no final das contas se rendeu a cunhada e não teve como não admitir que gostava dela e depois ela fazia Tommy feliz e tinha dado um jeito de colocar um pouco de juízo na cabeça do irmão, então ela era boa pessoa e por fim Lydia ainda lhe presenteou com TJ, o sobrinho que ela tanto amava e ao pensar em seu sobrinho a sua raiva aumentava, porque o pequeno não teria a chance de conhecer seus maravilhosos pais.

Jane sentia como se uma parte de sua vida tivesse sido levada e a única vez que ela tinha sentido isso a pessoa nem tinha morrido, só tinha a trocado para estudar em outro país. Pensou que jamais sentiria a dor que sentiu naquela época, pensou que era forte o suficiente para aguentar tudo, pensou que mais nada na vida abalaria seu emocional, mas se enganou completamente, a morte de Tommy bagunçou tudo novamente. Ela sabia que precisava se reerguer, sabia que a família precisava dela, sabia também que tinha um emprego a qual ela tinha que voltar, contavam com ela, mas naquela noite, já em sua oitava garrafa de cerveja, ela só queria ficar ali mais pouco e tentar esquecer a semana horrível que teve, porque definitivamente encarar o mundo depois de terem tirado a vida do seu irmão e de sua cunhada estava difícil, mas era hora, era necessário.

Com o amanhecer uma Jane completamente de mau humor acordou. Mal tinha percebido que tinha adormecido ali mesmo no sofá, — algo comum desde que Tommy havia morrido – tomou um banho rápido, cuidou de Jo Friday e se encaminhou ao departamento. Precisava voltar a trabalhar, precisava de algo para ocupar a mente, caso contrário acabaria enlouquecendo.

Óbvio que assim que Jane entrou pela sala do escritório, Korsak, Frost e Frankie não deixaram de mostrar uma expressão surpresa ao vê-la. Pensaram que ela deveria demorar muito mais tempo para voltar, — e devia – mas ao ver a detetive ali, não sabiam o que dizer.


– Rizzoli o que você está fazendo aqui?


Não precisaram dizer nada, porque Cavanaugh fez a pergunta que estava martelando na cabeça de todos, mas que não conseguiam formular para fazê-la.


– Eu vim trabalhar. – Respondeu tranquilamente. – Ainda tenho um emprego, certo?

– Claro que você tem um emprego, mas... – Cavanaugh fez sinal para que ela o acompanhasse e se encaminharam até a sala do chefe. – Você está suspensa Rizzoli!

– Tem uma semana que eu estou suspensa, pensei que o senhor poderia reconsiderar.

– Você foi falar com o psicólogo?

– Eu não preciso de um psicólogo!

– Você bateu em um cara, o deixou hospitalizado, se Frost e Korsak não tivessem chegado a tempo só Deus sabe o que você teria feito com ele!

– ELE MATOU MEU IRMÃO E MINHA CUNHADA! – Disse completamente exaltada. Sabia que era errado tentar fazer justiça com as próprias mãos, que isso ia contra tudo que ela havia aprendido quando resolveu ser policial, mas não se arrependia de nenhum soco que tinha dado na cara do desgraçado que tinha matado Tommy e Lydia e achava um absurdo Cavanaugh ficar contra ela, lhe deixar suspensa e ainda a obrigar a se consultar com um psicólogo. – Tommy ia entregar o carro para ele. Nenhum dos dois reagiu, mas mesmo assim ele matou meu irmão, minha cunhada e deixou meu sobrinho no meio dos dois como se nada tivesse acontecido e fugiu. Se Korsak e Frost não tivessem aparecido eu teria acabado com a vida desse desgraçado mesmo.

– É por isso que eu só posso deixar você voltar quando o psicólogo disser que você está apta para fazer seu trabalho. Eu te entendo, de verdade Jane, mas eu não posso arriscar que qualquer caso de homicídio que venha ocorrer você leve para o lado pessoal.

– Pelo amor de Deus Tenente! Eu posso fazer relatórios, qualquer coisa, mas me deixa voltar a trabalhar.

– Sinto muito Jane, mas eu não posso.


Viviam dizendo que ela precisava levantar do sofá de sua casa e voltar com sua vida. Finalmente ela tinha decidido fazer isso e não iriam a deixar voltar. Porque quando diziam por “voltar com a vida” ela entendia voltar para o trabalho, era a única vida que ela tinha, a única coisa que fazia sentido para ela era trabalhar, não conseguia ver sua vida sem seu emprego e tudo indicava que ela estava prestes a perdê-lo. Odiava psicólogos, porque ela tinha que se abrir com eles e ela odiava se abrir, odiava expor seus sentimentos, mostrar seus sentimentos, achava que se fizesse isso, para qualquer pessoa, ficaria vulnerável e ela odiava se sentir assim. Só existiu uma pessoa na vida de Jane que tinha conseguido fazer com que ela se abrisse, que fizesse com que ela dissesse tudo que pensava, tudo que sentia, mas essa pessoa foi a mesma que a trocou para estudar fora. Não iria se abrir para psicólogo nenhum.


– Quer saber? Dane-se!


Saiu da sala inconformada e indignada. Cavanaugh a conhecia fazia tantos anos e não conseguia confiar nela. Confiar que ela seria profissional e faria seu trabalho exatamente como ela sempre fez. Tudo bem que não podia tirar a razão do chefe, porque nem ela sabia se conseguiria ser profissional e fazer seu trabalho sem ter vontade de agredir o assassino ou se aparecesse um familiar da vítima dizendo que quer fazer justiça com as próprias mãos se ela iria permitir por já ter passado por tudo que a pessoa passou, não sabia como iria reagir, mas nunca admitiria isso, assim como nunca iria para um psicólogo. Passou pelos rapazes sem dizer uma palavra, não queria ouvir mais ninguém dizendo que ela deveria ir conversar com um psicólogo. Sempre lhe deu muito bem com tudo que sente, não precisava de um agora.

Foi até a cantina do departamento, sabia que encontraria sua mãe lá e que provavelmente ouviria algum sermão, mas precisava de um pouco de cafeína para ver se assim o dia não parecia tão monstruoso como estava. Não deixou de ficar mais indignada assim que passou pela entrada da cantina e avistou TJ na cadeirinha em cima do balcão.


– Eu não acredito que você trouxe o TJ para o trabalho Ma!

– Você queria que eu fizesse o que? – Irritação era o tom que demonstrava a voz de Angela. – Queria que eu deixasse o menino sozinho em casa?

– Poderia ter me ligado. – Jane tirou o sobrinho da cadeirinha. – Eu cuidaria dele.

– Você não está nem cuidando de você Jane! Tem dias que eu estou te ligando e você não me atende. Fui ao seu apartamento várias vezes e você não estava lá.

– Mas agora eu estou aqui, não estou? Posso cuidar dele por tempo indeterminado já que não querem dar meu emprego de volta.

– Ninguém está te impedindo de voltar para o seu emprego. Só querem que você converse com um psicólogo para ver se está tudo bem, se você pode voltar a trabalhar.

– Eu estou bem. – Disse em tom de tédio. – Eu posso voltar a trabalhar, mas ninguém entende isso.

– Você quase tirou a vida de um homem Jane! Mais um pouco além de ter um filho morto eu teria uma filha presidiária.

– Também não é para tanto.


Angela só lhe mandou um olhar de desaprovação e foi até a cozinha. A morena sabia que estava sendo uma péssima filha na última semana, mesmo nunca tendo se considerado a melhor filha do mundo, mas na última semana ela estava se superando. Angela também sofria com a morte do Tommy e ela sabia disso. Quando receberam a notícia da morte dele e de Lydia pensou que a mãe fosse desabar, mas a todo o momento ela se mostrou forte, claro que ela não deixou de se abalar, não deixou de chorar, mas Angela e Frankie conversavam. Jane também sabia que a mãe gostaria que ela também conversasse, dissesse o que estava sentindo, mas ao invés disso ela resolveu se isolar e lhe dar com seu sofrimento de sua maneira. Tinha se dado conta que tinha ajudado com o sofrimento da mãe, coisa que não era necessária e mesmo assim ela estava aguentando e também estava se virando em duas para cuidar da cantina e de TJ. Se sentiu culpada por ter se isolado, porque sabia que o isolamento não havia feito efeito, que o coração ainda doía como se tivesse se formado um imenso buraco, sua raiva só havia aumentado e enquanto ela se acabava em cerveja sua mãe tinha que cuidar de tudo. Definitivamente estava se saindo a pior filha do mundo na última semana.


– Ma, me desculpa. – Disse sinceramente assim que a mãe voltou para o balcão. – Eu tentei lhe dar com as coisas do meu jeito, mas não deu certo e agora querem que eu veja um psicólogo. Eu estou suspensa, eu posso cuidar do TJ enquanto você cuida da cantina.

– Eu só quero ter certeza que você não vai fazer nenhuma besteira Jane, só isso.

– Eu não vou mãe, eu juro. E eu e esse meninão vamos dar uma volta. – Deu um beijo na cabeça do sobrinho. — E se você quiser pode deixar ele passar a noite comigo, vai ser uma ótima companhia.

– Eu não vou deixar meu neto passar a noite naquele lixo que você chama de apartamento. É capaz do menino ficar até doente.

– Olha lá como você fala do meu apartamento. – Disse Jane realmente ofendida. – Falando assim até parece que eu vivo em um terreno baldio.

– Tenho certeza que está parecido. – Jane mandou um sorriso amarelo para a mãe. – Pode passear com o TJ, mas o leve para minha casa depois.

– Qual é Ma! Meu apartamento não está esse horror todo que você está pensando. TJ vai sobreviver a um dia comigo, sério.


Angela soltou um suspiro vencida.


– Tudo bem, eu busco ele no seu apartamento assim que acabar o expediente.

– Você que sabe. – Pegou a bolsa do menino que estava em cima do balcão e colocou no ombro. – Da tchau pra vovó, da. – Jane aproximou TJ de Angela para que ela pudesse lhe dar um beijo. Com o beijo dado no neto Angela sorriu para a filha e não deixou de lhe dar um beijo também, mesmo sabendo que a filha odiava esse tipo de coisa, mas Jane nem reclamou, tinha passado tanto tempo longe de tudo e de todos que provavelmente se sentia carente de carinho e afeto. Mandou um meio sorriso para a mãe e pegou a cadeirinha de TJ também em cima do balcão. – Até a noite.

– Cuide direito dele.


Jane já de costas para a mãe só fez um positivo com a cabeça e deixou o departamento. Talvez o trabalho não fosse necessariamente a distração que ela precisava. Talvez ela só precisasse se distrair e não tinha distração melhor na vida do que passar um dia inteiro com seu sobrinho.

Resolveu levar o pequeno até o parque. Lembrava que desde que ele nasceu esse era o hobby preferido de Tommy e Lydia: Levar TJ ao parquinho. Mesmo que ele ainda não tivesse idade para brincar com as outras crianças era contagiosa a alegria de Tommy quando dizia que tinha acabado de voltar do parque com o filho.

Ao chegar ao parque sentou-se em um banco e colocou TJ que estava na cadeirinha ao seu lado virado para a caixa de areia onde inúmeras crianças brincavam. Não deixou de abrir um pequeno sorriso quando se deparou com aquele monte de criança brincando. Nunca se imaginou sendo mãe, sabia que não levava jeito para isso e não queria colocar um filho nesse mundo que ela julgava louco, mas ver todas aquelas crianças brincando se lembrou da sua infância, de quando Angela levava ela e Frankie no parque e ficava horas com eles lá. Lembrou que gostava de ficar de ponta cabeça no trepa-trepa com a intenção de causar um mini ataque cardíaco em sua mãe que ficava em pânico quando via a filha de cabeça para baixo porque tinha medo de que ela caísse e batesse com a cabeça no chão, mas nunca aconteceu. Jane também lembrava das suas brigas no parquinho e em como os pais pediam para que Angela deixasse sua filha longe dos filhos dele, mas apesar dos pesares as crianças gostavam de Jane e dois minutos depois já estavam todos brincando novamente como se nada tivesse acontecido. Ao ir lembrando das coisas o pequeno sorriso que tinha foi desaparecendo, porque ela percebeu que TJ não teria uma mãe ou um pai para fazer com que tivesse um mini ataque cardíaco devido as suas peraltices, percebeu que ele não teria uma mãe ou um pai lhe defendendo dos outros pais mesmo se ele tivesse errado, percebeu que ele não teria uma mãe ou um pai que sequer o levasse ao parque.

Soltou um longo suspiro.


– Sinto muito por você não ter mais seus pais meninão. – Colocou seu dedo indicador no meio das mãos de TJ para que ele segurasse. – Mas eu estou aqui, sei que não sou lá grande coisa, mas você sempre vai ter a tia Jane, prometo.


Como se entendesse tudo que a tia falava TJ abriu um sorriso. Jane não deixou de achar aquela a melhor imagem de toda sua vida e abrir um sorriso para o sobrinho também, mesmo que fosse um sorriso triste, pois estava pensando o quão injusto era para uma criança daquela idade não ter nenhum dos pais, para falar a verdade era injusto para criança de qualquer idade, mas ele era só um bebê, não teve tempo nem de conhecer direito os pais, isso era uma das coisas que mais irritava Jane ao lembrar que o irmão e a cunhada estavam mortos.


– Olá! – Disse um rapaz aparentemente um pouco mais velho que Jane, moreno, com barba e com um encantador sorriso. Sentou ao lado de TJ, pois Jane estava sentada na ponta do banco. Em resposta Jane lhe abriu um sorriso amarelo. Tinha esquecido que idas ao parque também significam flerte com pais solteiros. – Nunca te vi por aqui.

– É minha primeira vez.

– Ótimo! Sou James. – Estendeu a mão e Jane o cumprimentou.

– Jane.

– Está vendo aquelas duas ali. – Apontou com a cabeça para duas meninas de cabelos claros que brincavam logo na ponta da caixa de areia. – São as minhas.

– Gêmeas? – James fez um afirmativo com a cabeça. – Não sei como vocês conseguem, se um já da trabalho.

– Para falar a verdade elas não dão tanto trabalho assim não. Elas tem 4 anos, já se acham mocinhas. – Soltou um riso. – E esse garotão, tem quanto tempo?

– Hoje está completando 42 dias.

– Ele se parece com você.


Jane soltou um riso incrédulo devido aquela cantada. Sério que aquilo funcionava?


– Tudo bem... Em quantas mães você já usou essa cantada?

– O que? – James soltou um riso. – Não é uma cantada, estou dizendo a verdade, seu filho se parece muito com você.

– Bom... Poderia até acreditar em você, caso ele fosse meu filho.

– Ele não é seu filho? – Jane fez um negativo com a cabeça. Segurava o riso para não rir da cara de espanto que o homem fez. – Meu Deus! Mas ele realmente se parece com você.

– Ele é meu sobrinho.

– Tenho que dizer que ele tem sorte de ter uma tia como você.


Mais um riso incrédulo. Será que ele não ia desistir nunca?


– E essa cantada? Já funcionou alguma vez?

– Normalmente não veem muitas tias aqui, então... – Jane fez um positivo com a cabeça como se dissesse um “Hum da pra perceber”. – Me desculpa, sei que sou péssimo nisso, mas é que fui casado com a mesma mulher durante 10 anos, então acho que perdi a prática.

– Há quanto tempo você está divorciado?

– Não sou divorciado, sou viúvo. Minha esposa morreu no parto das meninas.

– Oh... Sinto muito.

– Tudo bem. – Mandou um meio sorriso. – Meu psicólogo disse que eu deveria começar a sair novame... E eu não deveria estar te dizendo isso na primeira conversa porque você vai achar que eu tenho sérios problemas.

– Não, está tudo bem, acredito que todos temos os nossos problemas.

– Isso seria uma forma de me dizer que eu posso pedir seu número de telefone para marcarmos de jantar?

– O que? – Jane fez um negativo com a cabeça. – Não! – James parecia desapontado. – O negócio não é você é que eu realmente não namoro homens.


Dessa vez foi a vez de James soltar um riso.


– Quantas vezes esse fora já funcionou para os homens?

– Todas às vezes, porque não é um fora proposital é que eu realmente não namoro homens. Pode perguntar para as minhas ex-namoradas.


Jane não se cansava de ver a expressão dos homens quando eles se davam conta de que ela não estava mentindo e que realmente ela só namorava mulheres. O que ela definitivamente não entendia era o que os homens viam nela para se sentirem interessados, porque ela sempre ouviu que nem se ela quisesse enganar que era hetero ela conseguiria, então como eles nunca percebiam? Sem graça, James pediu desculpas, mandou um sorrisinho e deixou o banco, não seria dessa vez que ele iria arrumar uma segunda mãe para suas filhas.

O parque estava fazendo realmente bem para Jane. Passar um tempo ali com TJ observando as crianças e uma hora ou outra rindo da cara de James quando ela percebia que ele estava lhe encarando e sempre que ela olhava de volta ele ficava vermelho. Talvez fosse exatamente isso que ela estava precisando, um dia ao ar livre, para espairecer e esquecer um pouco da horrível semana que teve.

Estava quase pegando TJ para ir embora quando seu celular tocou.


– Rizzoli. -... — Pois não? -... – Eu não sabia que ele tinha deixado um testamento. -... – Tudo bem então, eu vou comparecer. -... – Obrigada, você também.


Jane estranhou completamente o telefonema que tinha recebido. Realmente não sabia que Tommy tinha feito um testamento, porque ele não tinha o que deixar, mas não custava nada comparecer ao escritório do advogado como foi pedido para ver do que se tratava.


***


Chegou em casa já estava na metade da tarde. Do parque tinha resolvido sair para almoçar, algo inédito nesses últimos dias, porque tirando cereal e pizza Jane não lembrava quando tinha comido alguma comida de verdade, não tinha apetite, mas surpreendentemente naquele dia seu apetite deu as caras. Era incrível como a presença de TJ pôde mudar completamente seu dia. Ainda tinha raiva, mas essa agora parecia não ter importância, passar o dia com seu sobrinho encheu seu coração de alegria. Vivia ouvindo Lydia dizendo que os bebês tem uma energia tão boa que é possível fazer com que o dia da pessoa melhore com um único sorriso. Que os bebês são seres tão puros que só dele soltar uma risada é algo para contagiar o ambiente de alegria. Sempre achou esse papo um pouco louco já que sua cunhada não parecia alguém normal, parecia até que não tinha vindo desse mundo, mas depois de ter passado o dia com TJ passou a achar que ela deveria ter um pouco de razão, sabia que o sobrinho ainda era muito novo para gargalhar, mas só os sorrisos que ele havia aberto para ela no decorrer do dia foi um presente, realmente fez diferença em seu dia.

Ao entrar no apartamento percebeu que sua mãe tinha razão, seu apartamento estava parecendo um terreno baldio. Garrafas de cervejas espalhadas por todo canto, caixas de pizzas pela mesa de centro e balcão da cozinha. Sempre foi desleixada, mas dessa vez tinha se superado. Jogou as caixas de pizza que tinha em cima da mesa de centro no chão e colocou TJ que estava na cadeirinha em cima da mesa. Tentou dar uma arrumada no lugar para parecer menos com um lixão, até que deu uma melhorada, mas estava longe de ser o lugar impecável que sua mãe não reclamaria ao ver, sendo que ela não lembrava quando de verdade aquele apartamento foi impecável.

Preparou uma mamadeira para TJ e pegou o sobrinho no colo e se sentou no sofá para alimentar o menino. Não deixava de admirar TJ tomando seu leite, era inevitável não abrir um sorriso ao ver aquela cena. Sempre achou que bebês eram escandalosos, que por tudo choravam e que uma hora a mãe deveria desejar nunca ter ficado grávida, mas com o sobrinho era diferente, ele era extremamente comportado, nem parecia ser filho de Tommy.

Com o pequeno quase dormindo e Jane ainda o admirando não deixou de lembrar de Tommy...


– Jane! – Tommy entrou no apartamento da irmã fazendo maior alarde, coisa que fez com que Jane quase caísse do sofá pelo susto que levou com o irmão entrando em seu apartamento assim.

– Meu Deus Tommy! Você quer me matar do coração? – Tommy só ergueu os ombros como se dissesse que não tinha entendido o porquê do susto. — E como você conseguiu entrar aqui?

– Peguei a chave que você deu pra Ma. Pensei que podia usar em caso de emergência.

– E qual é a emergência que fez com que você invadisse meu apartamento ao invés de bater na porta e esperar com que eu te atendesse como toda pessoa normal faz?

– Eu vou ser pai! – Disse sem medir palavras e sem nem ao menos se preocupar que podia causar um ataque cardíaco na irmã.


Jane que ainda estava sentada no sofá abriu a boca alguns milímetros e piscou os olhos por algumas vezes tentando assimilar o que o irmão mais novo tinha acabado de lhe dizer. Levantou do sofá, ainda em choque com a informação e se encaminhou até a cozinha para tomar um pouco de água.


– Quem foi a doida que você engravidou? – Jane perguntou após entender o que Tommy tinha dito, mas ainda assim estava pasma.

– Ela não é doida!

– Ah é claro que ela é doida Tommy. Para ter dormido com você ela só pode ter algum problema. Quem é a doida?

– Você a conhece... É a Lydia.

– Lydia...? – Jane ficou alguns segundos pensativa e quando se deu conta de quem era... – Lydia a sua advogada? – Tommy fez um afirmativo com a cabeça. – Não falei que ela é doida. Sabia que aquela mulher tinha um parafuso a menos. – Deu um soco no braço de Tommy que fez uma careta de dor.

– Isso dói! – Disse passando a mão no braço.

– É pra doer mesmo! Tommy você não tem nem emprego, como pretende sustentar uma criança?

– Eu já comecei a procurar emprego. E eu e a Lydia vamos nos casar.


Jane não soube como não caiu dura ali no chão da cozinha do apartamento mesmo. Teve que se escorar no balcão, porque caso contrário cair pelo menos ela iria.


– Vocês vão o que?

– Vamos nos casar. – Respondeu com um imenso sorriso. Parecia que não tinha entendido o choque que tinha dado na irmã. – Sabe... Eu estou feliz, porque eu amo a Lydia. Vamos formar uma ótima família.

– Uhum... – Não ia perder a oportunidade de ser sarcástica depois de duas bombas em menos de cinco minutos. — Um desempregado sem noção e uma advogada mais sem noção ainda. Linda família! A Ma já sabe de uma coisa dessas?

– Não. – Respondeu desviando o olhar de Jane.

– Tommy...

– Eu te contei porque eu pensei que você poderia contar pra ela, sabe... Talvez ela não grite tanto com você.

– O filho foi você quem fez e quem vai casar é você. – Com um sorriso cínico. – Então quem vai contar pra ela é você!


Jane ficou lembrando desse dia dos dois, não soube quanto tempo Tommy ficou em seu apartamento implorando para que ela contasse a Angela sobre a mais nova “arte” do irmão, mesmo dizendo que não diria uma palavra no final das contas ela acabou contando. E com essa lembrança e TJ deitado de bruços em seu peito ela adormeceu.


***


– Jane Clementine Rizzoli o que eu falei sobre você trazer o TJ para esse seu apartamento imundo?


Por um minuto Jane pensou que estava sonhando, que sua mãe não estava em seu apartamento e muito menos estava lhe chamando pelo seu nome inteiro, mas ao abrir o olho e vê-la já com um monte de suas roupas que estavam espalhadas pelo apartamento nas mãos dela, teve certeza que não era um sonho e muito menos um pesadelo.


– Como você entrou aqui? – Jane sentou-se no sofá com cuidado, TJ ainda dormia em seu peito.

– Eu tenho a chave para emergências, esqueceu?

– E desde quando isso é uma emergência?

– Você trazer meu neto para esse lixão é uma emergência. E eu disse que viria buscá-lo.


Jane já estava ficando tonta com sua mãe andando de um lado para outro pegando as coisas que estavam no chão. Pensou que só se desfazendo das garrafas de cerveja e as caixas de pizza já estaria de bom tamanho, mas para sua mãe parecia que não era o suficiente.


– Ma para! – Colocou TJ de volta na cadeirinha e foi até sua mãe fazendo com que ela parece de recolher as coisas do chão. – Não está tão sujo assim. – Tomou suas roupas da mão de Angela. – Sempre exagerando.

– Não estou exagerando. Sabe do que você precisa Jane? – A detetive lhe encarou achando que ela diria uma empregada, mas... – Você precisa de uma namorada Jane! – A morena quase caiu para trás ao ouvir aquilo. – Precisa de alguém que de um jeito na sua vida, porque assim você não pode ficar.

– Eu não preciso de uma namorada! – Respondeu em um tom que dizia que ela estava achando aquilo um absurdo. – Não estou a fim de ninguém me enchendo o saco, cobrando atenção e com ciúmes só do fato de eu olhar para o lado, não preciso disso.

– Eu quero netos Jane!

– Você tem neto. – Apontou com a cabeça para TJ na cadeirinha que ainda dormia como se ninguém estivesse fazendo barulho naquele apartamento. Abriu um pequeno sorriso, ainda estava encantada com ele. – Ele é a coisa mais linda, não é Ma?


Angela passou a olhar para o neto também e abriu um sorriso. Realmente ele era a coisa mais linda. Mas conhecendo a Jane como conhecia sabia que ela não tinha dito aquilo á toa.


– Não mude de assunto Jane!

– Não estou mudando de assunto, porque não tem assunto. Eu não vou namorar e não vou ter filhos.

– Se você não vai namorar então também deveria parar de sair com essas periguetes que você sai.

– Eu não saio com periguetes e só porque eu não quero namorar significa que eu não devo me divertir e eu não vou discutir isso com você é minha vida.

– Se você não tivesse...

– Não começa! – Jane a cortou já irritada. Ela não ia começar com aquele assunto, não mesmo. – O advogado do Tommy e da Lydia ligou, quer nos ver amanhã.

– Ele já tinha me ligado, mas eu não consegui falar com você.

– Eu só não entendi ainda porque eles têm um advogado, aliás, por que eles têm um testamento. O que eles tinham para deixar? Nem casa própria eles tinham já que moravam com você.

– Deve ter alguma coisa a ver com o TJ. Sobre quem deve ficar com a guarda dele.

– Pensei que íamos decidir isso eu, você e o Frankie. Não precisamos de ninguém dizendo quem deve ter a guarda do TJ, podemos cuidar dele.

– Podemos? – Angela frisou a pergunta para ver se tinha entendido bem. – Você acabou de me dizer que não quer ter filhos e agora me diz que pode cuidar do TJ?

– Eu estou suspensa Ma...

– Por pouco tempo! – Angela a cortou. – Você vai ver aquele psicólogo pra que ele possa te liberar para o trabalho.

– Acho que o assunto nesse momento é o TJ, não sou eu. – Angela fez um positivo com a cabeça. Teria outros momentos para conversar sobre o psicólogo com Jane. – Enquanto eu estou suspensa eu posso ajudar a cuidar dele, não vou deixar você se desgastar. Já tem que cuidar da cantina do departamento. E eu não preciso ser mãe dele, posso ser a tia legal que eu sei que sou.

– Amanhã depois de vermos o que o advogado quer nós conversamos sobre isso. Agora eu vou para casa e vou levar meu neto comigo porque não vou deixar ele dormir nessa imundice.


Jane soltou um suspiro e se encaminhou até a mesa de centro para pegar a cadeirinha com TJ.


– Eu vou limpar, tudo bem? – Entregou a cadeirinha para Angela que mandou um pequeno sorriso para a filha. – E eu vou cuidar do TJ enquanto você trabalha, não se preocupe.

– Você é uma ótima filha Jane.

– Não, não sou, mas...


E novamente, mesmo sabendo que a filha odiava esse tipo de gesto, Angela deu um beijo no rosto de Jane, que novamente não fez careta e nem menção de recusar. A mãe sabia que a morena sofria, provavelmente se culpava, porque pensava que por ela ser uma detetive tinha que deixar a cidade segura, ás vezes achava que Jane pensava ser um tipo de Super-herói, um Superman da vida que podia ouvir algum problema de longe e resolvê-lo, mas se ela pensasse que era um Superman ela tinha que entender que nem o maior dos Super-heróis consegue deter o perigo 100% das vezes.

Deu um beijo na cabeça de TJ, se despediu da mãe e resolveu dar um jeito realmente em seu apartamento, sua mãe tinha razão sobre toda bagunça, se ia ficar boa parte do tempo com TJ que pelo menos ele ficasse em um lugar limpo.

Surpreendentemente Jane estava se sentindo melhor do que nos dias anteriores. Estava começando a achar que as coisas passariam a melhorar dentro de si, pelo menos quando o assunto era a morte de Tommy e Lydia.


***


Assim como tinham sido requisitadas pelo advogado de Tommy e Lydia, Jane e Angela chegaram no horário marcado ao escritório, estavam realmente curiosas para saber o que tinha escrito no tal testamento. As duas pensavam que podia ser mesmo algo a ver com TJ, mas se tratando dos dois era bom esperarem qualquer coisa.


– Obrigado por virem senhora e senhorita Rizzoli. – O advogado fez sinal apontando para as cadeiras na frente de sua mesa. — Por favor, sentem-se.

– Esse testamento é para falar sobre o TJ? – Jane perguntou. Não se aguentava mais de curiosidade. – Por que eles nunca mencionaram nada para a gente.

– Eu já vou esclarecer tudo senhorita Rizzoli. – Consultou a hora em seu relógio. – Só esperar chegar uma terceira pessoa.

– Terceira pessoa? – Angela perguntou sem entender. – Era para meu filho Frankie ter vindo também? Por que o senhor disse...

– Não senhora Rizzoli, não é o filho da senhora que eu estou esperando é...

– Com licença.


Aquela voz... Jane só poderia estar ficando louca, porque ao ouvir aquela voz pedindo licença para entrar na sala que estava com a porta aberta o seu passado veio todo em sua mente. Óbvio que só podia ser um erro do seu cérebro, que a voz poderia ser parecida, por isso que ela fez questão de olhar para a porta para ter certeza que não passava de uma grande coincidência, mas assim que seu olhar cruzou com aquele par de olhos marrons esverdeados ela teve certeza de que não estava louca e que não era coincidência. A dona daquela voz era também alguém que costumava ser a dona de seu coração, aquela mesma pessoa que a trocou para estudar fora. A garota, agora mulher, dos cabelos loiros feito ouro, impecavelmente vestida e mesmo que ela não estivesse sorrindo no momento poderia dizer que era a dona do sorriso mais encantador que já tinha visto na vida. Para falar a verdade ela era a pessoa mais linda que ela já tinha visto na vida e com o passar dos anos pode perceber que ela só tinha ficado mais linda ainda.


– Por favor, entre senhorita Isles.


Jane podia ter começado a achar que as coisas dentro de si em relação a morte de Tommy e Lydia poderiam melhorar, que ela ficaria melhor com o passar dos dias, mas nunca pensou que as coisas, seus sentimentos pelo passado, viriam a tona, algo que ela pensou que já tivesse superado, há muito tempo atrás.

Notas finais
Obrigada por lerem e seria lindo e maravilhoso se comentassem também. Até o próximo capítulo =)