Rixa

2 ORGULHE-SE DE SER QUEM VOCÊ É


O

- Leonardo? – meu pai chamou pela terceira vez.

Continuei deitado imóvel no sofá de couro da sala. Eles haviam conseguido me salvar. Mas agora eu já estava em meu estado normal, então pouco me importava com isso.

- Quanto você usou? – Eric perguntou novamente.

Não respondi.

- Leonardo – papai chamou de novo. – Responda.

Olhei seriamente para Eric e falei devagar.

- Eu odeio repetir.

- Mas você precisa saber, precisa lembrar. Quer enlouquecer? Dar o gostinho de que eles nos chamem de invejosos novamente? Eles já têm um viciado lá. Agora teremos um aqui também? Ainda mais você, Leo – Eric ignorou meu olhar de ódio e indiferença.

- Droga, eu não me lembro de quantos daqueles troços eu tomei antes. Mas que saco!

- Ralyse disse que foram mais de uma dúzia – Gino se intrometeu.

- Caramba... – papai me olhou – Quem te deu isso?

- Isso foi depois. Depois. Eu já havia tomado vários quando acordei e depois do café – voltei a explicar. Meus nervos estavam quase explodindo. Eu odeio repetir, mas a minha família dá uma de lerda às vezes e temos que aguentar.

- Desde quando você anda se drogando, Leonardo? – Luce perguntou.

- Sei lá – dei de ombros. – O que importa? Quem aqui nunca fez isso?

- É. Mas não como você fez – Lucca me repreendeu. – Não com essa quantidade toda.

- Ah, é mesmo? – olhei pra ele. – Jura?

Ele desviou o olhar para a cozinha. Teria que me oferecer um bom preço para que eu não contasse ao pai aonde eu havia encontrado as drogas.

Luce olhou pra ele. Eles estavam casados havia dois anos e ele nunca havia escondido nada dela. Eu ainda me perguntava como uma garota tão bonita, culta e inteligente como Luce havia se apaixonado por um criminoso sem linha e seis anos mais velho como meu irmão. Luce tinha apenas 17 anos quando conheceu Lucca, e dezoito quando se casou com ele e começou a manejar as armas.

- Já acabou o interrogatório? – perguntei.

- Não. – o pai respondeu. – Você está se comportando muito mal agora. Você precisa dizer onde arranjou, há quanto tempo está usando e quanto usou só hoje. Leo, você é importante pra mim e você sabe por quê.

- Eu sei, eu sei – me levantei e comecei a imitar o jeito de falar do meu pai. – Sua mãe o considerava o filho preferido porque era o mais novo. Quando você nasceu, todos os seus irmãos já eram garotos e sua mãe sempre teve mais cuidado com você. Mas infelizmente o filho da mãe do Hothman a matou quando você ainda era um bebê, e é o meu dever lhe educar como ela queria e blá, blá, blá! – voltei-me para ele. – E o que a droga de uma informação vai mudar? Nada! Porque eu só vou parar de usar aquelas porcarias todas quando eu quiser. E eu não quero.

- Não é bem assim, Leo – Eric se levantou. – Você sabe que...

- Que droga vicia? É, eu sei. Conheço de perto uma pessoa – olhei pra Lucca novamente. – que está chegando perto disso. Mas esse não é o meu caso. Se vocês me deixarem em paz, está aí o que querem: faz só três dias. E eu realmente não lembro a quantidade.

Comecei a subir as escadas.

- Agora se me dão a licença, eu preciso ir para o meu quarto. Porque essa não é a minha família. Os Oliviero são pessoas brutais que tem um som irado e carros personalizados, que fazem barulho o dia inteiro e vivem armados. Mas nesse instante estão parecendo um bando de fracos tentando fazer um integrante da família não usar drogas mesmo que os próprios usem umas dez vezes por mês.

Não parei pra ouvir resposta. Mas que merda era essa agora? Será que eles beberam tanto que tão ficando malucos? Gino, o mais babaca de todos da família, estava calado, papai estava falando normalmente e Lucca calou a boca com um olhar meu! Quanto a Ralyse, a mais metida e mandona dali, nem sequer havia aparecido. O que é que tá pegando?

Mas eu não iria mudar de jeito nenhum. Nunca! Não importa por qual motivo fosse. Eu sou Leonardo di Giovani Oliviero.

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H

Eles largaram um pouco do meu pé quando viram o pirralho Oliviero pela janela do quarto. Ele estava se drogando de novo. Eram duas da manhã e o garoto no telhado da casa, sem medo algum de ser morto. Só podia estar mesmo drogado. Mas nem mesmo meu pai teria coragem de mata-lo ali, estávamos correndo muitos riscos. A aniquilação do garoto ficaria para outra hora. Haviam me dito para me desviar dos Oliviero. Eu nunca havia visto Lucca ou Leonardo. Eles passavam a maior parte do tempo em casa, mas eu saberia reconhece-los se os visse na rua ou em qualquer outro lugar.

Eles se vestiam como pessoas normais, mas de roupas caras e de marca. Para indicar que tinham poder. Hugh Oliviero era um grande empresário, mas também pertencia à Máfia e era procurado pelo governo, que infelizmente não poderia prendê-lo por falta de provas. Traduzindo: ele tinha informações valiosas que poderiam encrencar inclusive pessoas dentro das investigações contra ele.

Seus filhos eram bem parecidos um com o outro, porém não tinham muito o porte italiano do pai. Tinham os cabelos claros, porém os olhos e a aparência em geral eram como a de Agustina, a mãe. Havia apenas um de olhos claros na família, Gino, o filho do meio. Ralyse havia tingido o cabelo de vermelho vivo, mas seus olhos eram castanhos e não combinavam muito, a considerar que ela é baixinha e se veste com roupas muito escuras. Então sua imagem está mais para metida à gótica do que filha mais velha de Hugh Oliviero.

Eric Belchior aparenta ser bem mais jovem do que sua verdadeira idade crônica. Ele é o mais simples e mais calmo da família, é irmão de Agustina e sempre está na companhia de alguém, nunca o vi sozinho. Luce, a esposa de Lucca, tem os cabelos negros e cacheados, e lindos olhos azuis, parece uma mocinha normal passeando pela rua. Mas na verdade está guardando território e por trás das suas roupas humildes e charmosas estão armas e até mesmo drogas para comércio.

Quanto a Lucca e Leonardo, eu não sei. Meus irmãos disseram que eu já briguei feio com o filho mais novo dos Oliviero no meio na rua quando era menor. Cheguei a feri-lo com um estilete. Mas eu era pequena, devia ter menos de oito anos, portanto não me lembro. Lucca chegou a casa faz apenas três anos, ele estava viajando pela Europa. De acordo com as informações que tenho os dois irmãos se parecem muito, mesmo que um seja o mais velho e o outro seja caçula. Ambos se vestem com muito estilo, tem cabelos e olhos castanhos, como caramelo, e são grandes conquistadores. Não duvido que Lucca ainda mantenha essa fama mesmo estando casado.

Cony me disse para tomar cuidado com os dois. Ele disse que Gino podia ser um lerdo, e Ralyse mantinha apenas a pose de durona, mas Lucca era extremamente perigoso e mantinha a maior ficha criminal que todos os outros habitantes da casa. Ele havia matado meu primo Jack e minha irmã Jackie quando eu ainda era pequena e eles brincavam na calçada. Lucca pegou os corpos das duas crianças e pendurou na árvore que existe em frente a minha casa, para que minha mãe cruzasse com essa cena horrenda logo pela tarde, quando voltava do mercado comigo. Infelizmente, disso eu lembro.

Cony também havia me falado para tomar cuidado com Leonardo. Ele era o mais novo e também o mais astuto. Não tinha forças contra ninguém da minha família, isso já havia sido provado, ele é extremamente fraco em força física, comparado a Louis, e covarde também. Cony me disse que ele já havia fugido de muitas brigas por medo de perder ou se ferir. Talvez seja por isso que Hugh tenha tanto cuidado com ele, porque ele pode aparentar ser bem seguro de si, mas como diz meu irmão, é um verdadeiro “franguinho”. Mas porque eu deveria tomar cuidado com ele? Porque o que Leonardo tinha de fraco e medroso tinha de esperto e chantagista. Ele sabe como conquistar qualquer garota ou até mesmo mulher, e não tem muito medo do perigo real. É como se ele tivesse medo de morrer assassinado, mas não tivesse medo de matar a si próprio, como se amasse o perigo, e às vezes até se envolvia demais com este apenas por achar que era poderoso demais para se ferrar no final.

Ele havia provocado à morte da minha prima Lisa levando-a para um terreno deserto onde Gino a esperava, havia enganado ela dizendo estar do nosso lado. Isso foi o ano passado, Lisa havia se desgraçado quando se apaixonou pelo pirralho dois anos mais novo.

Este ano seria de alerta, as famílias haviam feito um acordo. Na verdade, ao longo dos anos eram feito acordos, mas sempre se dava um jeito de quebra-lo. E o furo sempre partia de algum dos Oliviero. Principalmente Gino ou Leonardo. O pirralho nunca dava as caras, agia sempre na espreita, provocando acidentes e colocando a culpa nos outros. Era um moleque desordeiro.

O acordo desta vez devia ser mais do que bem cuidado. Não haverá mais brigas. Será como se os Oliviero não existissem para nós, e nós não existíssemos para eles. Vou voltar a frequentar a escola junto com Everyn, Matthew e Cony. Apesar de Cony já ter terminado os estudos ele quer voltar para montar minha guarda. Pois tudo indica que Leonardo também vai voltar para a escola. E como nossa escola será a mesma – faz parte do acordo – eu vou cruzar com ele todos os dias.

O acordo seria que viveríamos em paz, as famílias poderiam se ver todos os dias sem problema algum, mas caso alguma confusão se sucedesse, o acusado de inicia-la poderia ser aniquilado. Só não garantíamos se os outros iriam querer vingança ou não. Ou seja, faríamos de tudo para não provocar os Oliviero e não sermos provocados. Mas como o pirralho vai estar solto este ano, coisa que nunca aconteceu, é melhor ficarmos prevenidos.

Eu já conversei com meus pais sobre isso. Tenho certeza de que me garanto. Ou não me chamo July Sophia Hothman.

Notas finais
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