Ele levantou e alongou os braços. Tinha os movimentos elegantes como os de um animal. 'Mas é lindo', pensava Mar. Thiago se inclinou e a beijou, sendo correspondido e notando satisfação no ato, então correu para o banheiro.

Esse beijo... Não tinha nada a ver com ficar grávida.

A não ser que fossem como crianças que acreditavam que os bebês eram feitos assim.

***

Mar se pôs de pé, abriu o guarda roupa e se observou através do espelho da porta. Seu corpo nu parecia resplandescente. Era o corpo de uma mulher que acabara de fazer amor satisfatoriamente com um homem que não só a havia desejado, mas que também a havia cuidado e mimado, havia feito ela feliz.

Realmente. Nada disso tinha a ver com ficar grávida.

Inclusive, não se importava se estava grávida ou não, porque o que Thiago tinha dado para ela era mais valioso. Ele tinha lhe devolvido uma parte de si mesma.

'Não posso dizer isso para ele... Não está no trato que fizemos.'

Sentiu certa pena, mas simplesmente deu meia volta e começou a arrumar a cama. Depois disso, voltou ao armário e pegou uma bata com a qual se cobriu e foi fazer café. Ao subir novamente, Thiago a chamou.

— O chuveiro é todo seu, Mar. — Ela abriu a porta receosamente.

Ele estava no meio do box, envolto por vapor. A água pingava de seu cabelo e ele aparentava mais jovem e atrevido. 'E feliz', pensou ela. Ele parecia tão relaxado e feliz, muito mais que na noite anterior.

— Tem alguma máquina que eu possa usar? — Perguntou.

— Está desenhada para as minhas pernas, não para a tua barba. — Ela tirou sua pequena máquina de um armário. Ele riu e plantou um beijo no nariz da pequena mulher, na bochecha, e logo nos lábios, passando a abrir sua bata para ver o corpo dela.

— Thiago...

— Você é tão linda. — Afirmava ele se aproximando.

Ela sentiu a umidade de seu cabelo na pele de seus seios e se estremeceu. Logo ele a olhou.

— Que horas você termina de trabalhar hoje?

— Por volta das seis, mais ou menos.

— Vou te levar pra jantar. — Disse ele, e logo adicionou. — Mar, como você se sentiria se eu ficasse aqui na sua casa ao invés de ficar no hotel? — Se mostrou inseguro com seu olhar, e isso a comoveu.

— Eu gostaria muito. — Respondeu com um pequeno sorriso.

— Já tinha pensado nisso?

— Sim. Mas não tive coragem de te pedir. — O sorriso de Thiago se desmanchou.

— Mar, não quero que você se arrependa ou se cale quando queira fazer algo. Não sei o que você esconde detrás de seu medo, só sei que tem a ver com Ricardo. Sei que você foi muito valente na noite passada, e que finalmente venceu seus temores.

— Vai me fazer chorar outra vez. — Murmurou ela. Thiago apenas a envolveu com seus braços e a beijou sem dizer nada.

Ela sentia todo o corpo dele junto ao seu, e soube que voltariam para a cama.

— Podemos nos encontrar aqui antes de jantar? — Sussurrou Mar.

— Para um aperitivo?

— Eu adoraria...

— Então está feito. — Disse ele, rindo após dar uma palmada no traseiro da mulher e empurrá-la para o chuveiro. — É melhor você se afastar de mim, ou já sabe como isso vai terminar...

— Em um banho frio? — Brincou ela.

— Sabe perfeitamente que não é isso que tenho em mente.

— Amo quando você ri. — Soltou Mar com sinceridade. — Me engano ao pensar que não tem muita risada na sua vida ultimamente?

— Não se engana, não. Agora vai tomar banho. — Sorriu.

Algo no gesto de Thiago fez com que ela não perguntasse mais. Colocou uma touca de banho e se enfiou na água. Quando saiu do chuveiro, ele já tinha se barbeado, se vestido, e agora tentava pentear seu cabelo.

Ela tirou a touca de banho e estendeu uma mão para pegar uma toalha. 'É tudo tão cotidiano... Como se estivéssemos casados', pensou ela. 'Não é como eu pensava...'

— Aconteceu algo? – Perguntou curioso.

— Nada. Eu... Bom, Não parece que há algumas semanas eu nem te conhecia.

— Isso aconteceu por conta de Einstein e a relatividade do tempo. — Disse ele secamente.

Mar pareceu se assustar novamente. Ele foi até ela, segurou seu cabelo e a beijou apaixonadamente. Logo se separou.

— O que o beijo tem a ver com me deixar grávida? — Thiago deu um passo para trás. Sentiu como se ela tivesse lhe dado um tapa na cara. Não conseguia pensar mais nada. Ela, ao dar-se conta de que tinha feito errado ao dizer isso, se arrependeu. — Sinto muito... Não era pra eu dizer isso.

— Está ficando tarde, Mar. É melhor a gente ir. — O olhar daquele homem parecia ter algo no fundo que ela não era capaz de decifrar.

— Tem café na cozinha. — Murmurou ela. — Thiago, eu sinto muito.

— Te vejo lá em baixo.

Sem mais beijos, isso era o que ele queria dizer.

Ela se vestiu rapidamente. Temia que ele se fosse sem dizer adeus.

Ao entrar na cozinha, o viu levando a xícara até a pia.

— O café estava muito bom... — Disse ele, sorrindo de forma impessoal. — Vou reservar uma mesa para as sete e quarenta e cinco, pode ser?

Ou seja, ele não a visitaria antes do jantar.

— Não gosto das decisões unilaterais quando afetam duas pessoas. — Respondeu ela com frialdade.

— Mas você já tomou uma decisão muito mais importante unilateralmente, Mar. Você quer que eu desapareça da sua vida depois desse fim de semana. Ou você esqueceu disso? — Então, balançando as chaves de seu carro, passou adiante dela, recolheu seu blazer e foi até a porta da entrada.

— Estou tão brava com você que poderia cuspir no seu rosto... — Disse ela de maneira mau educada enquanto ele abria a porta.

— Não acho que seus pais, se são realmente como você diz, aprovariam esse modo de se despedir do seu amante.

— Já morreram há muitos anos, e se escandalizariam muito se soubessem que eu tenho um amante, tanto que o fato de cuspir se tornaria irrelevante comparado a isto.

— Você solta fogo pelos olhos. – Disse ele, se divertindo.

— E ao mesmo tempo estou tão agradecida pela noite de ontem. — Agregou ela, deliberadamente. — Muito obrigada, de verdade.

Vestida com uma calça social bege e seu cabelo trançado parecia outra mulher, como se ele tivesse passado a noite com outro alguém. Seu comentário sobre o beijo e a gravidez tinha feito ele ficar com tanta raiva, mas era porque ela tinha razão. Porque duvidava muito de tudo que havia feito nas últimas doze horas, duvidava que tudo aquilo tivesse algo a ver com deixá-la grávida. O assunto tinha ido muito mais longe. Era muito mais profundo.

Não era parte do plano.

— Te vejo esta noite. — Disso ele, e logo depois fechou a porta.

Mar ficou no meio da sala. As cinzas da lareira estavam frias e escuras. O fogo havia se apagado sem deixar lugar às dúvidas.

Mas como ela faria para apagar o fogo que havia surgido entre ela e Thiago?

Continua…