Rise of Lorien
5 Capítulo Cinco
Notas iniciais
Ela me odeia. E provavelmente não vai voltar a falar comigo pelo resto da vida dela. E nesse momento eu me odeio por ela me odiar.
Já tentei falar com Harley de todas as maneiras possíveis, mesmo quando pergunto se ela precisa de algo apenas me ignora até alguém pergunta-lhe a mesma coisa.
Ela não odeia Malcolm, não tem nada contra Lucy, as duas parecem até amigas, mas comigo é diferente, não diz uma palavra quando percebe que eu estou por perto. É até difícil de imaginar ela como a garota que me protegia com unhas e dentes há alguns meses.
Estou apoiado na parede da casa enquanto ela tenta controlar seu novo legado. É um pouco engraçado vê-la berrar de frustração e chutar a grama como se isso fosse fazer alguma diferença. São muitas tentativas até que ela consiga manter o escudo estável.
Lucy passa pela a porta e o susto faz com que Harley se desconcentre e seu escudo de alguma maneira explode jogando faíscas azuis por todos os lados, as faíscas caem na grama como chuva antes de desaparecerem.
Solto uma risada quando ela se joga na grama nervosa.
Afinal essa é Harley, não? Sempre achando que tem que saber de tudo e como fazer tudo e a verdade é que ela não sabe e isso a frustra.
– Scott! – exclama Lucy, mas posso sentir a risada por trás de sua voz.
Harley levanta a cabeça ao ouvir meu nome, mas se joga novamente na grama resmungando sobre a dificuldade de controlar seu legado ou provavelmente tudo que ocorre a sua volta.
Malcolm surge por trás de Lucy e a abraça. No começo a ruiva parece surpresa mais logo se vira rindo para retribuir o abraço.
E novamente Harley levanta a cabeça, mas dessa vez não demora muito para que ela levante também e caminhe até a porta entrando na casa com um pequeno sorriso no rosto.
O dia se passou mais rápido do que qualquer um poderia prever e, depois do jantar, Malcolm e Lucy se sentaram no sofá para assistir televisão e devo admitir que fiquei espiando os dois da bancada da cozinha, uma caneca de chocolate quente na minha mão.
– Tem alguma coisa rolando. – ouço uma voz calma atrás de mim.
Me viro apenas para encontrar Harley de pé olhando para o casal no sofá com os olhos espremidos e segurando uma caneca do que presumo ser chocolate quente.
– Uh. – tento dizer algo, mas nada me vem a mente.
– Posso me sentar? – pergunta, sua voz calma me assusta.
– Claro...Quero dizer, sim, pode. – coço minha nuca nervoso.
Ela sorri se sentando ao meu lado e apoiando os cotovelos na mesa enquanto bebe um pouco do conteúdo na caneca.
– Nem um pouco curioso para saber o que está rolando?
– Um pouco, quero dizer, eles tem sido assim quase o mês inteiro, mas era um pouco diferente, quase não dava para notar...
Ela balança a cabeça.
– Parece que perdi muito. – seu sorriso se desfaz. – Quanto tempo?
– Um mês. – minto.
– Exatamente. – ela pede, seu tom ficando um pouco mais ríspido.
– Eu não contei! – tento justificar, mas Harley apenas balança a cabeça.
– Pelo amor de Pittacus, você tem um calendário na parede do nosso quarto acha mesmo que nunca vou notar?
Nosso quarto, isso soa um pouco estranho, mas com a casa pequena temos apenas dois quartos então ambos dormimos no mesmo quarto e Lucy dorme com Malcolm.
– Um mês e três semanas.
Voltamos a ficar em silêncio e depois de um tempo ambos levantamos ao mesmo tempo. Ao percebemos que o fizemos, caímos na risada e por dentro eu estou mais alegre do que estive durante essas semanas, vê-la sorrir mudou algo dentro de mim, ou talvez tenha mudado tudo.
Malcolm é Lucy não parecem nos notar. Provavelmente estão dormindo.
Nós paramos de rir, Harley coloca uma mecha de seu cabelo para trás da orelha desviando o olhar.
Por um minuto eu quero que aquele momento dure para sempre e que pudéssemos ficar ali naquela cabana para sempre, digo, esquecer da guerra e viver uma vida normal, mas sei que não podíamos, a humanidade dependia de nós, o planeta dependia de nós. Mas talvez esse momento possa durar mais um pouco.
– Vem. – seguro sua mão puxando-a para fora da cozinha.
– Aonde vamos? – ela pergunta rindo.
– Uma surpresa.
Saímos pela porta silenciosamente, procurando não chamar atenção e eu a puxo pelo campo até a floresta. Da última vez que estivemos ali tivemos uma briga e não pude mostrar algo que descobri quando ficava sozinho, algo que admito, parecia mágica.
– Ok, uma floresta. Esta era a surpresa? – ela pergunta.
A falta de fé típica de Harley.
– Não. – digo me abaixando.
Pego uma pedra no chão e a jogo no arbusto mais próximo. Sei que Harley está segurando o riso, mas no momento em que sinto que ela vai se virar para ir embora, o arbusto explode em dezenas de luzes que voam a nossa volta.
– Vagalumes. – ela sussurra, seus olhos verdes brilhando enquanto observa as dezenas de luzes voarem por entre as árvores.
Sorrio para ela, sabendo que no momento estava mais fascinada com as luzes do que comigo.
– É lindo. – ela sorri para mim. – Obrigada por me mostrar.
– Acho que deveríamos voltar, Malcolm e Lucy...
– Estão muito concentrados com o momento "somos casados" deles. – ela diz. – Por favor, a noite é jovem e nós temos muito o que explorar. Que tal darmos uma olhada nas estrelas? O que acha? – me interrompe.
Afirmo com a cabeça e dessa vez ela me puxa até estarmos fora da escuridão da floresta. Olho a nossa volta, o gramado verde e o rio que corre ao lado da casa são sempre mais bonitos durante a noite ou talvez eu não tenha muito tempo de aprecia-los de manhã.
Nos deitamos na grama, mas invés de observar as estrelas, eu fico observando Harley e percebendo o quão bonita ela pode ser. Seus olhos verdes sempre tão cheios de curiosidade e brilho. Ficamos assim por um bom tempo, Harley observando as estrelas e eu olhando fascinado para ela, de repente a menina se se senta.
– Ouviu isso? – pergunta.
– Isso o que? – me sento ao seu lado.
Ela balança a cabeça.
– Eu achei que tivesse ouvido alguma coisa. Deve ser só a droga do meu legado.
– É um dom impressionante sabia? – me refiro a todos os seus legados, não só ao que ela deve estar mencionando.
– Não, não é. Ver o passado e provavelmente o futuro, não.
Me viro de maneira que posso encará-la nos olhos.
– Harley... – digo. – Como foi a primeira vez que esse legado realmente veio a tona? Digo, sem ser um sonho.
– Foi horrível. – ela murmura, abraçando os joelhos.
– O que você viu?
– Você, Malcolm, Lucy, o resto da Garde e... – quem quer que tenha sido ela resolve não acabar suas sentença.
– E? – tento fazê-la continuar.
– Ele.
– Ele?
– Setrakus Rá. – ela sussurra seu nome, como se tivesse medo de pronúncia-lo.
Não pergunto mais nada, sentindo a dor em suas palavras e seu desconforto.
Alguns torturantes minutos de silêncio antes que ela se levante e vá embora apenas dizendo um simples boa noite.
Suspiro cansado e devo admitir que alguns minutos depois eu a sigo para uma boa noite de sono.
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