Rise of Jedi
15 Sabre de Luz
Notas iniciais
A mulher entrou em sua cabana de pedras e madeira com os alimentos coletados na floresta; poderia ter ido até a vila mais próxima, mas isso implicaria em horas de caminhada, e ela preferia o conforto de seu isolamento. O espaço era circular, coberto por um teto de folhas entrelaçadas; os móveis eram de pedra ou madeira. Seu leito consistia em uma cama de tábuas sobre uma plataforma de pedras e colchão de folhas costuradas. Baús e armários guardavam seus pertences, junto a um conjunto de prateleiras. Utensílios diversos, de panelas a armas, pendiam nas paredes. Um fogareiro de pedras era sua lareira e fogão, e uma bilha de água consistia em seu simples reservatório, enchido todos os dias num córrego próximo. Ela não precisava viver daquele modo, mas optara por abrir mão de toda e qualquer facilidade, levando sua vida como o haviam feito seus ancestrais, sem ajuda da tecnologia. Era o modo como disciplinava seu espírito e mente, como encontrava paz.
Pousou a cesta trançada por ela mesma no chão e escolheu uma faca na parede; contudo, quando se ajoelhou para separar os tubérculos e raízes, sentiu uma presença às suas costas. Uma presença que não percebia há mais anos do que se lembrava, e que fez apertar seu coração! Não... Não podia ser... Ele estava morto!
Estendeu a mão esquerda, a única funcional para combate, e um bastão curto e branco voou para seus dedos; ergueu-se num giro rápido e acionou o sabre de luz, cuja lâmina branca se estendeu e apontou ameaçadoramente para a figura masculina à porta da cabana. Parado ali estava o homem de cabelos castanho-claros e olhos azuis como o céu, exatamente como se lembrava dele. Sem vestes negras, sem membros biônicos... Sem máscara. Apenas ele, emanando uma energia poderosa e luminosa com o sorriso atrevido que costumava reservar para poucas pessoas, sendo ela uma dessas, num passado distante demais...
— Ahsoka – a voz dele... Há quanto tempo a Togruta não ouvira a voz que amara como a de um irmão? Sentiu um nó se formando na garganta, a autopreservação e o coração travando uma batalha feroz dentro dela. Com voz ferina, rosnou:
— Quem você pensa que é para vir aqui, depois de tudo? – aproximou o sabre de luz daquele que fora, um dia, seu mestre, mas ele meneou a cabeça:
— Você sabe que eu estou morto, e isso não me fará nada. Por favor, escute-me. – Ele se adiantou, o sabre de luz cruzando seu peito sem causar qualquer dano, porém as mãos que pousou no rosto da mulher pareciam sólidas o bastante, como se estivesse vivo... Ela sentiu a energia dele, e viu naqueles olhos o homem que um dia conhecera, antes que o Jedi se tornasse o monstro... Foi impossível conter as duas lágrimas que escorreram por seu rosto.
— Anakin... É você mesmo? É Anakin, e não Darth Vader? Meu mestre?
— Sou eu, Abusada. – ele sorriu para a Togruta, que largou o sabre de luz e, ignorando qualquer conveniência, suas próprias reservas contra o toque alheio, a prudência e a lógica, lançou os braços em redor do fantasma. Foi frustrante sentir seus braços atravessarem a imagem dele, mas devia ter esperado. Ele a fitava com olhos tristes – Sinto muito, Ahsoka. Por tudo. Até mesmo por não ter vindo antes... Mas não achei que conseguiria olhar em seus olhos. – ele a mirou de alto a baixo, surpreso com o quão pouco ela mudara desde a última vez que se haviam visto; excetuando-se as cicatrizes ao longo do braço direito e as discretas rugas que começavam a surgir em redor dos olhos, não estava em nada diferente. – Por favor, diga algo. Que me odeia ou me perdoa, mas não fique em silêncio.
Ela ainda estava incrédula... Era Anakin! O SEU Anakin, seu mestre, seu irmão! O Jedi a quem amara, o qual considerara morto pelo monstro no qual se transformara...
— Sky-fora – ela riu com os olhos marejados – Eu nunca poderia te odiar. Odiei o monstro que pensei ter destruído você, mas... Aqui estamos nós. Como se nada daquilo houvesse ocorrido.
— Sim, aqui estamos... – o alívio em ouvi-la dizer que não o odiava acalmava seu coração, e isso estava evidente no olhar do Jedi; mas algo o perturbava. E a rebelde o conhecia bem demais, mesmo depois de tantos anos, para não perceber o fato:
— Diga logo, Sky-fora: o que aconteceu? Você teve muito tempo para me procurar: por que agora? O que mudou?
— Você sentiu as alterações na Força, não sentiu?
— Se está se referindo ao caos que a sedução de seu neto pelo Lado Sombrio criou na Força, sim, eu senti pelos últimos doze anos, e a instabilidade precedente, quando a Primeira Ordem estendia seus tentáculos para a Nova República. Senti a morte do maldito que aliciou Ben Solo, e senti a luz que a Força gerou para equilibrar tudo. – ela parou no lugar e suspirou – por que toda vez que você me dá uma missão, eu tenho um mau pressentimento a respeito?
— O nome da garota é Rey. Ela está treinando sua neta, Asala, sua neta, mas ainda é muito jovem; está sendo orientada pelos Mestres da Força...
— Então tem orientação mais do que suficiente. – ela hesitou por um momento. Não, não podia voltar a tomar parte naquele nó ideológico que hipocritamente chamavam de Equilíbrio. Não voltaria a e envolver com Jedis! Mas, por outro lado... Asala... – como está minha neta?
— Forte, indômita, irreverente, talentosa... Uma versão mais jovem de você, em todos os aspectos. – ele viu o sorriso da ex-padawan – Abusada, elas duas precisam de você. Rey trará sua neta a Shili para o rito de iniciação, e não pode voltar sozinha para o lugar de onde vem. Ela precisa de ajuda. As duas precisam.
A Togruta virou-se de costas, pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo, deixando que a Força lhe dissesse o que fazer; soube que a jovem Jedi pretendia recriar a Ordem, dessa vez para servir não à Luz, mas à Força em si... Ao Equilíbrio... Sentiu o poder que crescia na galáxia, a nova geração que nascia com dons da Força em si, e cedeu: precisava fazer isso. Sentira desde a queda de Ben Solo que, cedo ou tarde, precisaria tomar parte no desfecho daquela história, pois fora, de algum modo, uma dos responsáveis por seu início... Finalmente chegara o momento que tentara evitar.
— Tenho de retomar meu treinamento, Sky-fora. Não atuo já faz anos – disse, enfim – quando virão?
— Em um ano e dois meses, quando Asala completar doze anos. – disse o Jedi.
A Togruta fitou o próprio braço mutilado, inútil a não ser para as tarefas mais simples, e soube que seria um impedimento para retomar seu treinamento físico. Aprendera a lutar com duas lâminas, esse era seu melhor estilo, e precisava, para tanto, de duas mãos. Era hora de aceitar o tratamento que recusara por anos, para estar pronta quando sua neta e a promissora Rey chegassem a Shili. Pegou seu sabre de luz, e Anakin soube o que faria:
— Ahsoka, não faça isso... Existem outros modos de...
— Nenhum cirurgião fará isso, Anakin, e preciso substituir este peso morto por algo que me permita combater como antes – respondeu ela, sentindo outra vez queimar em si a determinação de quando era apenas uma menina – será bom não sentir dor todos os dias. – Ela sorriu e, com determinação, desceu o sabre sobre a porção superior do braço mutilado, logo abaixo da articulação do ombro.
*
Ben Solo assistia a sua esposa dormir em seu abraço; ele próprio deveria descansar um pouco, já que vinha dormindo por períodos muito curtos de tempo, mas não queria: acordara há pouco, e agora a observava com deleite, uma sensação estranha aquecendo seu ser enquanto deslizava os dedos delicadamente pela lateral do corpo feminino aconchegado ao seu; o quarto parecia estranhamente silencioso agora, tendo apenas a fraca luz artificial que indicava a “madrugada” a delinear os contornos de móveis, dos corpos no leito, de suas vestes esquecidas no chão, algumas das peças destruídas no afã de se unirem mais uma vez. Era a quietude após a tormenta de desejos experimentada.
. Com sua esposa adormecida, o Cavaleiro sorria sem culpa ao pensar no modo intenso e selvagem como se haviam amado, o ardor dos arranhões em suas costas e ombros consistindo numa excitante lembrança do que ocorrera poucas horas atrás entre ambos. Suavizou o toque ainda mais ao percorrer as marcas arroxeadas deixadas por seus dedos nas coxas dela quando a erguera do chão, e na cintura fina quando a segurara firmemente contra seu corpo em uma paixão selvagem, o sorriso discreto aumentando maliciosamente ao lembrar-se dos gemidos, sussurros e gritos abafados de prazer... Tão entregue e exigente, ao mesmo tempo, rendendo-se a ele tanto quanto o reivindicava para si... Ver aquelas marcas, sabendo que ele as causara, dava-lhe uma primitiva sensação de posse: Rey era sua.
Aninhou-se mais contra a moça, sentindo o perfume dos cabelos recém-lavados; o sono começava a pesar outra vez em seus olhos, relaxado com o calor de Rey, quando sentiu a moça se agitar em seus braços; ela mexia a cabeça para um lado e para outro, balbuciando:
— Não... Não, não faça isso... Pare! Pare, tem de haver outro jeito! – os sussurros se tornaram um berro – NÃO!
Ben segurou-a pelo ombro e a sacudiu gentilmente, chamando-a; a Jedi se sentou de uma vez, arfando, trêmula... Pesadelos não eram novidade, entre eles: costumavam acordar um ao outro de sonhos terríveis; Kylo sonhava muito com sua infância, com uma voz insinuante que jamais o abandonava e o fizera pensar infinitas vezes se estaria enlouquecendo; ou então, sofria de terrores nos quais revivia o “treinamento” com Snoke. O pior dos pesadelos, contudo, envolvia Han Solo, e este ele jamais descrevera para a esposa, que só sabia do que se tratava por ouvi-lo gritar pelo pai. Os pesadelos de Rey envolviam perdas – muitas, geralmente de sua família, de Han Solo ou dos amigos que fizera na Supremacy e na Resistência – abandono, sonhos nos quais se via fracassar e provocar eventos horríveis... Ocasionalmente revivia o dia em que fora torturada até a beira da inconsciência por Snoke, e desse ela acordava não com tremores, mas em gritos de pura dor. Contudo, pelo olhar dela o imperador podia dizer que não se tratara de nenhum dos sonhos recorrentes.
— Você está bem? – perguntou ele, sem disfarçar a preocupação, seus braços a puxá-la confortadoramente para seu colo.
— Estou. – ela pensava no sonho, já controlada agora que despertara – foi estranho... Eu vi – achou melhor não mencionar nomes, uma vez que não tinha certeza absoluta do que ouvira – um Jedi... Um Mestre da Força, falando a uma mulher Togruta. Pedia que ela fizesse alguma coisa – tentou forçar a memória, mas o sonho se desvanecia como névoa ao sol – não me lembro o que era, mas a mulher tinha um braço deformado, inerte... Eu a vi acionar um sabre de luz branco, e amputar o próprio braço. Tentei impedi-la, mas eu era um fantasma... – a moça segurou a cabeça com as mãos – ai, minha cabeça!
— Foi apenas uma visão – assegurou ele, deitando-se com ela sobre seu peito – muitas são confusas e turvam nossa percepção. Causam essas pontadas, também – Ben beijou a testa da esposa – não pense mais nisso.
— Mas por que a Força me mostraria algo assim? – ela se apoiou num cotovelo e arqueou uma sobrancelha – nem pense em usar o recurso Jedi de dizer que “a Força age de forma misteriosa”!
— Eu nem sonharia em dizer isso – ele deixou o riso escapar por um segundo, seus dedos brincando com a pequena trança de padawan da garota; não fora exatamente uma surpresa, mas ficava feliz por ela. Embora um dia houvesse esperado que Rey se juntasse a ele no lado sombrio, hoje compreendia que isso destruiria a jovem, e queria apenas que ela pudesse progredir no caminho escolhido sem que isso os afastasse. Enquanto ela fosse sua e estivesse ao seu lado, ficaria feliz pelos progressos e conquistas que fizesse enquanto aprendiz – mas não se ocupe muito do que a Força quer ou não, ou nunca terá descanso. – abraçou-a e trouxe a cabeça da jovem sobre seu ombro – ainda é cedo. Descanse.
Rey suspirou e se aninhou nos braços do esposo; por toda a sua vida, desde que se lembrava, acordara sozinha dos pesadelos em que revivia o abandono pela família, as surras e ameaças de Unkar, os perigos do deserto... Acordava gritando, banhada em suor, trêmula, e tudo o que podia fazer era se encolher em seu AT-AT, esperando o dia começar... Sempre sozinha. Tão sozinha... Como tudo pudera mudar tanto, em tão poucos meses? Estava casada com o homem o qual tomara por um monstro, a princípio, e que descobrira ser alguém tão aflito, sozinho e perdido quanto ela. Ele, porém, fora despojado de toda esperança, de toda fé, enquanto a esperança fora tudo o que a guiara por toda a vida. Eram opostos, mas também iguais, a seu modo, e no abraço dele a solidão desaparecia completamente. Não importavam as brigas, as ideologias opostas, o mau gênio dele e teimosia dela... Estar com ele era se sentir forte, acolhida... Era a perigosa sensação de se sentir amada! De ter, enfim, não apenas uma casa, mas um lar. Ah, Ben Solo, o que estava fazendo com a antiga Rey?
— Ben? – chamou num suspiro.
— hm? – a paz dela começava a relaxá-lo e deixa-lo sonolento outra vez.
— Não estamos mais sozinhos – a mão pequena pousou sobre o lado esquerdo do peito de Ben, sobre o coração, e sorriu. Ele respondeu com um beijo em sua testa:
— Nunca mais, minha Jedi teimosa. – e fitou mais uma vez aquela pequena trança, símbolo do progresso da menina, mas também a sutil sombra de uma ameaça... A ameaça de que a luz tentasse arrancar sua esposa dele, e isso o imperador não permitiria. Perdera todos a quem um dia amara, mas não sua esposa. Não a única pessoa que acreditara nele, que não o temera... — Não se depender de mim.
Foi com pensamentos confortadores de ter afinal um lar que a garota adormeceu por mais algumas poucas horas, e desta vez nada perturbou seu sono: sonhou com Ben e ela, caminhando juntos ao longo de uma praia onde o mar batia suavemente e a brisa soprava cálida. Um lugar onde não havia império, Resistência, batalha entre luz e trevas... Nada além deles dois e a serena felicidade que os preenchia. Curiosamente, o mesmo sonho tomou a mente do sombrio e outrora solitário homem que, sem perceber, acabou adormecendo profundamente, tão confortado pela garota quanto ela por ele.
*
Reunida com Eilenia, Brenwen e Asala, como costumava fazer todo final de tarde, Rey ficou bastante satisfeita ao ver que as meninas já haviam esboçado o formato de seus sabres e pareciam sintonizadas com os próprios cristais. A própria Jedi já iniciara a construção de sua arma, cujo formato final seria bastante peculiar, baseado no bastão que a acompanhava desde seus treze anos. Agora ajudava as garotas com suas próprias armas – a humana escolhera uma empunhadura levemente curva, a qual se adaptava perfeitamente à sua mão, para uso com apenas uma das mãos, enquanto a menina Togruta escolhera uma empunhadura mais longa, para ser usada com uma ou ambas as mãos, e reta.
— Bateria de diatium... Ok. – conferiu Brenwen. – Campo cíclico energizador... Anel magnético estabilizador... Hm, vou precisar diminuir este, ou a lâmina ficará muito fina. – ela começou a trocar as peças, concentrada no trabalho.
— Rey – chamou Asala – pode me dar uma ajudinha? Os circuitos de ajuste da potência da lâmina estão me confundindo.
A Jedi ajudou a criança com a fiação, e quando acabaram restava apenas alojar o cristal principal em sua base. Brenwen também concluíra sua peça, e foi com um sorriso que a mais velha percebeu estarem, de fato, progredindo juntas naquele caminho.
— Faltam apenas nossos cristais. – declarou a moça – mas isso faremos à noite, após o toque de recolher das equipes diurnas, pois tem de ser feito através da Força. Não quero um Cavaleiro de Ren interrompendo nosso trabalho por sentir a oscilação.
— E que forma escolheu para sua arma? – perguntou Bren, inspecionando a empunhadura do próprio sabre à procura de qualquer defeito ou falha.
— Um bastão. – respondeu Rey – com algumas adaptações.
— Quais? – Até mesmo Lena ergueu os olhos do datapod em que trabalhava e junto sua voz ao coro.
— Vocês verão quando eu o trouxer, hoje à noite. – sorriu a jovem – Lena, vai estar conosco, não é?
— Eu sempre estou. – confirmou a Twi’lek, e riu – mesmo porque, se alguma das empunhaduras explodir pela força do cristal, quero estar presente para rir. – ela checou suas anotações no equipamento em suas mãos, e mudou de assunto – Rey, precisamos conversar.
A humana de cabelos castanhos se levantou e sentou ao lado da diplomata, que antes de lhe falar, dirigiu-se às mais novas:
— Vocês duas tratem de manter a boca fechada, em relação ao que ouvirão, fui clara? É perigoso. – anuências mudas demonstraram que ambas haviam entendido; nem havia como não compreender tratar-se de algo de extrema gravidade, uma vez que Eilenia era a personificação da gentileza, e falar daquele modo lhe era muito pouco usual. – Rey, conversamos há alguns dias sobre Hux, e você falou em mata-lo, se sua tentativa não funcionar. Pensei em todas as alternativas que pude conceber, e até mesmo coloquei questões para pesquisar nos arquivos jurídicos e registros legais da Primeira Ordem, das duas Repúblicas e do Império Galáctico... Se você matar Hux, criará um precedente que pode arruinar suas intenções de reviver a Ordem Jedi. O que quer que faça, precisa ser dentro das leis, ou os Jedi passarão a ser vistos como caóticos, incontroláveis e perigosos. Querendo ou não, qualquer sistema de governo se baseia num código de leis, e passar por cima disso... Não tem como dar certo. Pelo menos não com alguém como o capitão, pois faria toda a classe privilegiada se sentir sob ameaça, se a lei não puder impedir uma Jedi de matar sem provas.
— Se eu o matar sem uma condenação, estou flagrantemente me aliando à Resistência, ou desvinculando os atos dos Jedi de qualquer forma de garantia legal, o que os tornaria proscritos, como os Sith. – suspirou a moça – mas agir dentro da lei... Realmente acha que alguém condenaria Armitage Hux? Ele vem de família poderosa, tem aliados fortes e, acima de tudo, pode pagar para que provas e álibis sejam forjados. Você mesma me ensinou como essas coisas funcionam.
— Exatamente por isso eu creio que... Talvez você precise resolver as coisas do modo mais “Jedi” possível: usar a Força para saber quando e onde deve estar para provar os atos dele. Frustrá-lo no ato da execução de seus planos, para ter provas do que diz. Ante esses fatos, Lorde Ren poderá enfim decretar a condenação.
— Nós já temos a condenação por traição! – protestou Rey.
— Ele recebeu anistia, e por sua insistência, lembra-se? – recordou a Twi’lek, fazendo Rey desejar sufocar a si mesma com uma almofada, pela própria ingenuidade! – de qualquer jeito, existe algo a seu favor: os Cavaleiros de Ren odeiam Hux. Praticamente todos nesta nave odeiam, fora do círculo de altas patentes militares. Shalya seria a primeira a aceitar ajuda-la, se você estiver disposta a lhe contar o que viu sobre os planos do capitão.
— Eu respeito Shalya, por suas convicções firmes, franqueza consigo mesma e para com os outros e noções de moral inesperadas – disse a Jedi – mas ela contaria tudo a Ben...
— Então, talvez você deva contar a ele. E depois pedir a ajuda dela.
— Ben vai desejar massacrar cada um dos que houverem apoiado Hux. Você sabe disso.
— E talvez não haja escolha. – rebateu a Twi’lek.
— Eu entendo Rey – disse Brenwen, levantando-se – quanto mais pessoas o imperador matar, mais animosidade e medo envolverão seu governo. Ele será mais temido do que respeitado, e isso é praticamente um berçário de levantes e motins. – a moça fitou a outra humana – mas o Líder Supremo a escuta, Rey.
— Dependendo do humor dele. – respondeu a mais velha, revirando os olhos ao pensar na teimosia do esposo. – e se não ouvir, desta vez?
— Se a sua voz fizer eco aos conselhos dos Cavaleiros de Ren, ele terá de ouvir. – Respondeu a mais jovem – Shalya e Puuan têm alta estima por você, e entenderão de imediato; são ponderadas e comedidas. Podem convencer Kahso e Devron, que também não são homens predispostos a massacres. E... – ela estremeceu – Arnut pode ser um idiota, mas eu sei convencer idiotas.
— Nem pensar! – protestou Rey – fora de questão. Eu vi muito bem o modo como ele olha para você, e não vou expô-la a isso.
— Rey, eu agradeço a preocupação, mas já lidei com ele antes. Eu conheço Arnut, e há um motivo para eu o tratar pelo primeiro nome...
— Eles foram namorados – informou Asala, para evitar um prolongamento da discussão, o que fez a humana loira fuzilá-la com os olhos – Bren terminou com ele, há alguns meses, mas não me disse o motivo.
— Obrigada pela discrição, Asie – rosnou Brenwen, irônica e zangada, voltando-se para Rey, então – como ela disse, eu namorei aquele traste. Sei como lidar com ele.
— E minha resposta se torna um não ainda mais definitivo, sabendo disso. – declarou Rey – vocês duas vão ficar fora disso, não as quero com mais problemas do que já terão simplesmente por seguirem o caminho Jedi. – ela respirou fundo e voltou a se dirigir à diplomata – posso falar com Shalya, após o jantar, e ir à Conselheira Puuan, depois – a primeira Cavaleira, mesmo pertencendo aos conselheiros do imperador, tinha as refeições noturnas com a equipe de diplomacia – e, dependendo do que conseguirmos, falo com B... Com o Líder Supremo.
A Twi’lek deu um risinho baixo: Rey cometia atos falhos que demonstravam a evolução de seus sentimentos pelo esposo; sequer reparara tê-lo chamado pelo nome verdadeiro por toda a conversa! Isso a deixava feliz e preocupada ao mesmo tempo: feliz, pois via a moça se levantar a cada dia feliz e satisfeita, em vez de preocupada e tensa, como antes. Sentia a felicidade que o relacionamento, ainda que conturbado, trazia à Jedi, mas também se preocupava com a possibilidade muito grande de tal amor ser tornado em uma terrível desilusão, que as trevas de Kylo Ren fossem escuras demais para a luz da moça, e ele acabasse por partir aquele coração que, de algum modo, conseguira manter-se puro mesmo depois de tanto sofrimento. Temia, principalmente, que aquelas trevas ferissem sua alma, pois sabia que a moça não se dobraria ao Lado Sombrio... Ah, que a Força a protegesse!
— Deixe-me falar com Shalya – pediu a diplomata – fale com Puuan, e com seu esposo. – e para as meninas – lembrem-se: boca fechada.
— Sim, Lena, nós aprendemos a lição que você nos ensinou desde o primeiro dia – disse Asala – ninguém é seu amigo, até que prove o contrário. E isso é o tipo de coisa que nos mataria.
— Exato. Ajam como se nunca houvessem escutado nada.
— Essa conversa nunca aconteceu. – confirmou a humana de cabelos dourados.
*
— Shalya, podemos conversar em particular? – pediu Rey, quando todos se levantaram da mesa; discutira um pouco mais com Eilenia, e acabaram decidindo que aquela deveria ser uma conversa entre pessoas que compreendiam o uso da Força. A Dathomiriana fitou com surpresa a interlocutora, e anuiu:
— É claro, Lady Solo. – ela percebeu de imediato a gravidade do assunto, e declarou – minha sala nos dará privacidade.
As mulheres seguiram pelos corredores até a sala de trabalho de Shalya, situada entre a ala diplomática e a de comando, a tensão entre ambas quase palpável: nunca haviam falado a sós e, embora houvesse respeito mútuo, também era claramente perceptível a desconfiança mútua que a necessidade obrigava a desconsiderar. Pararam por um instante diante da porta circular, enquanto esta se abria após a leitura de retina da Dathomiriana, e enquanto isso as duas mulheres se encararam: a Cavaleira de Ren tinha no olhar uma pergunta muda, surpresa, enquanto a Jedi procurava avaliar a outra e decidir se realmente podia levar a cabo suas intenções. Finalmente, Shalya indicou a passagem com a cabeça:
— entre.
Rey adentrou o ambiente de trabalho da outra, surpresa com o interior: não havia o negro predominante na maior parte dos ambientes oficiais do comando, mas uma gradação de cinza e branco com alguns detalhes em negro; linhas geométricas e formais nos móveis – mesa de trabalho, holoprojetor, assentos – contrastando com a ampla janela que trazia a negritude pontilhada de branco do espaço. Um ambiente quase... Aconchegante? Como se Shalya houvesse reunido ali ambos os ambientes e atividades nos quais circulava. Entretanto, a estante sobre a qual repousava um holocron Sith, ladeado por instrumentos desconhecidos à Jedi, porém bastante claros como imbuídos de energia obscura.
Mantendo-se em pé no centro do aposento, a Jedi fitou sua... Aliada? Parecia cedo demais para considera-la assim, mas certamente não eram inimigas ou rivais, ao menos naquele momento. A Cavaleira de Ren, porém, sentou-se formalmente nua cadeira diante da mesa de holoprojeção e fez um gesto, convidando a outra a se sentar. Após um segundo de hesitação, Rey o fez.
— Obrigada por aceitar me ouvir, embaixadora. Entretanto, precisamos conversar não só como Primeira Dama e diplomata, mas como Jedi e Cavaleira de Ren.
— Estou ouvindo.
— Talvez seja melhor não apenas ouvir, mas ver. – Rey estendeu a mão – trata-se de pensamentos de Armitage Hux. Ele planeja sabotar o governo do Líder Supremo; eu gostaria de lhe mostrar o que vi e ouvi em sua mente, pois coisas que me parecem sem sentido podem ser significativas para alguém que conhece a fundo a Primeira Ordem.
A mulher mais velha arqueou as sobrancelhas com um olhar cínico e surpreso:
— Veja só: uma Jedi pedindo ajuda a uma Sith. Ela estendeu a mão e apenas encostou seus dedos aos de Rey, buscando com a mente as imagens que a outra lhe fornecia. Aquilo a fez franzir o cenho – Precisa de ajuda para captura-lo em flagrante.
— E para impedir que o Líder Supremo massacre toda pessoa envolvida. Um julgamento dos líderes seria uma demonstração de poder, mas o tipo de massacre que ele pode realizar, num instante de raiva, seria mostra de descontrole, espalharia o medo e o faria ser mais temido e odiado. Sabe que isso é um berço de motins.
Shalya se levantou e foi até a estante, mais precisamente até o holocron Sith. Em vez de segurá-lo em uma das mãos, porém, levou a mão esquerda até a ponta da pirâmide, a qual apresentava uma agulha longa e fina, e pressionou a palma contra o objeto até que a haste atravessasse sua extremidade. Seu braço estremeceu com a dor – Rey captava a energia liberada com o propósito de ferir, e não entendeu por que alguém e submeteria àquilo, mas aguardou pacientemente até que a outra mulher retornasse à cadeira. Lendo a dúvida da Jedi nas expressões da mesma, respondeu:
— Para mim, a clareza da mente e o autocontrole são alcançados pela dor. A maior parte dos Jedi não compreenderia, mas algo me diz que você não é como a maioria. – ela inclinou a cabeça curiosa – você não me teme, nem odeia. Sabe o que sou, e está curiosa.
— Você não é apenas Cavaleira de Ren – disse Rey – encontrou vários holocrons Sith, e treinou a si mesma neste caminho. Alcançou um nível, dentro do Lado Sombrio, que nenhum outro Cavaleiro de Ren conseguiu.
O rosto branco e cinza descreveu uma expressão convencida, antes que retornasse ao normal e a Sith falasse:
— O que você disse antes tem sentido, Jedi. Como compreendeu, Hux não irá agir antes de chegarmos a Rakata Prime, mas seus seguidores podem executar planos próprios a qualquer momento; falarei com Tanar Kahso e Kels Devron. Puuan também se juntará a nós, mas não tente falar com os outros Cavaleiros: ao contrário de nós, eles não têm por você qualquer admiração ou respeito, mas apenas ódio, e não me espantaria se algum deles estiver por trás do ataque que sofreu.
— Eu agradeço por sua compreensão, Shalya – Rey se levantou; ao tocar os dedos da outra, pudera sentir as impressões de sua energia, e sabia agora que, se não eram amigas, ao menos não eram rivais, e tinham o objetivo comum de manter forte o imperío de Kylo Ren. Isso acalmava seu coração. – irá me ajudar?
— Não a você, mas sim, irei ajudar o Mestre dos Cavaleiros de Ren. Se deseja minha sugestão, eu sugiro que fale com Kels Devron: ele possui uma enorme curiosidade a seu respeito, e ficará satisfeito em fazer o que for para se aproximar de uma Jedi com métodos tão pouco ortodoxos. Entretanto, é melhor levar o sabre de luz, apenas por garantia: ninguém jamais prevê o que aquele Miraluka fará.
— Eu o farei. – assegurou Rey – pela manhã.
— ficarei ao seu lado, por ora. Ao menos até derrubarmos este parasita que tenta minar o controle do Líder Supremo. – assegurou a diplomata – não significa que não possamos ser inimigas, no futuro.
— Estamos perfeitamente de acordo com os termos. – declarou Rey – ainda assim, agradeço por ter se disposto a ouvir.
— Lorde Ren é o líder que a galáxia precisa. – Rey não contestaria aquilo. Ben era o líder que a Primeira Ordem precisava, não a galáxia. A galáxia precisava de alguém como Leia. Porém... De algum modo, havia muito de Leia em seu esposo... Mas o que estava pensando?! Foco, Rey... Primeiro o agora. Mas era muito difícil não se angustiar em relação ao futuro.
“Tenha fé na Força” sussurrou a voz de Obi-Wan em sua mente, inundando-a com uma sensação de calma. Sim. Teria fé, e continuaria a seguir passo a passo.
— Provavelmente – foi a resposta da Jedi – se souber de algo relevante, por favor, avise-me.
— Eu o farei. – A conversa parecia encerrada, e a porta se abriu; quando se separaram, ambas as mulheres estavam profundamente intrigadas uma com a outra, e mais ainda com aquela estranha aliança temporária. Antes que a Jedi saísse de seu campo de visão, Shalya falou:
— Não foram apenas os Sith que deixaram holocrons. – Rey se virou para perguntar o que ela queria dizer, mas a porta já se fechava. Fora sua impressão, ou Shalya dera a entender que havia holocrons Jedi sobreviventes? E ela poderia acreditar nesta informação?! Pois, se fosse verdade... O valor de um holocron Jedi seria de valor inestimável!
Lembrando-se do que tinha a fazer na companhia de suas padawans, a moça seguiu para seu quarto, pegou seu cristal kyber e a empunhadura que montara. No caminho para a sala de Eilenia, porém, sua mente tentava processar as impressões que captara da mulher Sith; alguém que claramente trilhava o caminho sombrio, porém não precisava reafirmar-se nele... Ela tinha fé na própria escolha, não se sentia na necessidade de ostentá-la e, mesmo sabendo que Rey seria sua antagonista, ainda não a eliminara. Ao contrário, parecia disposta a trabalhar em conjunto, ao menos por ora; tudo o que a moça aprendera em sua vida lhe dizia para desconfiar, mas seus sentimentos, sua intuição mais profunda, lhe diziam que acreditasse. Mesmo diante do conflito, ela sabia com todas as forças que seu coração apontava o caminho certo a seguir.
*
Estavam as três sentadas em círculo, as respectivas empunhaduras pousadas no chão à sua frente, os cristais em suas mãos fechadas. Sentada um pouco mais longe, Eilenia olhava tudo aquilo com olhos fascinados e – ela reconhecia – uma pequena pontada de inveja, por saber que nunca participaria daquela conexão estranha e misteriosa. Entretanto, podia compreender de algum modo o que tudo aquilo significava, familiarizada que era com o código Jedi através das lendas e dos livros.
Rey, como a mestra, seria a primeira: não podia ver nada, mas sentia claramente a presença de Anakin Skywalker e Obi-Wan Kenobi ao seu lado, apenas observando. Diante dos olhos das três amigas, abriu seu bastão para revelar não uma, mas duas câmaras de cristal; após contatar profundamente seu kyber, meditando com ele ao longo de uma noite inteira, o próprio cristal manifestara a natureza apropriada para a arma e se dividira em dois nas mãos da mulher. Agora ela manipulava ambas as partes com a Força, sem tocá-las; levitou a empunhadura do bastão e deixou que os cristais reconhecessem a peça, aproximando-os quando sentiu as gemas aceitarem o formato de seu receptáculo. Com uma leve pressão, empurrou cada fragmento para a respectiva câmara, e ali eles se instalaram, prendendo-se aos compartimentos através da Força, tornando-se uma coisa só com o mecanismo em perfeita combinação. A Jedi sorriu ao sentir a harmonização, a fusão dos componentes numa arma perfeita. Fechou as portas das câmaras, que se selaram hermeticamente, e tomou a haste nas mãos; seu coração estava acelerado, batendo forte com emoção: a Força fluía através dela e fazia vibrar a arma!
Erguendo-se, ela respirou fundo e acionou sua arma: duas lâminas violeta se projetaram das extremidades, e a Força fluiu com ainda mais intensidade: não era um objeto, mas uma extensão da energia de Rey, que sentiu-se conectada àquela arma de um modo que jamais ocorrera com o sabre de Anakin Skywalker. Diante dos olhos maravilhados de Brenwen, Asala e Lena, moveu a arma num gesto fluído, e sentiu até mesmo o deslocamento de ar causado pelo calor de seu bastão ao cortar o ar! Era magnífico! A Força fluía dela para o “sabre”, e deste para ela, aumentando sua sensibilidade, ampliando os sentidos, aprofundando a conexão com a própria Força. Então era isso o que um Jedi sentia? Parecia-lhe que poderia fazer absolutamente qualquer coisa, tamanha a euforia que experimentava! Era hora de testar o pequeno “detalhe” de seu bastão e, acionando o mecanismo correto, este se partiu ao meio, tornando-se dois sabres independentes que a moça podia empunhar em ambas as mãos. Funcionavam de modo igualmente perfeito!
— Rey! Vocês se conectaram completamente! – disse Brenwen – consigo sentir... Quase posso ver a Força que os liga!
— Sim – a Jedi fitava com maravilha e amor seus sabres, enquanto os unia novamente em um bastão e desativava a lâmina. A Força, porém, continuava presente, e agora ela entendia muito bem o porquê dos Jedi jamais deixarem seus sabres longe de si: não se tratava de se manterem armados, mas de não deixarem fora de suas vistas uma parte de si mesmos. Como ela garantia que jamais faria. Sentou-se de pernas cruzadas, sentindo atrás de si o olhar encantado de Lena, e virou-se para as meninas – Sua vez, Bren.
A humana mais jovem sorriu e repetiu o procedimento: porém, seu cristal parecia renitente. Não parecia adaptado à forma que Brenwen escolhera, e foi com reticências que se encaixou à câmara, unicamente por insistência da moça. A arma se completou e finalizou, mas não parecia harmônica... Quando sua portadora acionou o sabre, este era irregular, com lâmina a emitir pequenas flamas e oscilar, como se lutasse para se manter, e então o inesperado aconteceu: um som alto de algo se partindo, e o sabre se inutilizou, a câmara expelindo o cristal em meio a fumaça verde, para total desilusão de sua dona!
— Mas por quê?! – espantou-se Brenwen, frustrada, magoada.
— Brenwen, você perguntou ao cristal que forma era mais propícia a ele?
— eu... – ela se sentiu culpada ao perceber que não o fizera – eu apenas senti seu poder, e fiz uma arma capaz de atacar em todos os ângulos.
— Você não usou uma forma que se adapte à canalização de seu cristal. – disse Rey, passando as mãos sobre o cristal sem o tocar – ele resiste a você... Resiste a ser usado. Precisa sintonizar-se a ele verdadeiramente, como fez na caverna. Não pense no uso que pretende destinar ao kyber, apenas deixe que ele lhe diga que forma deve assumir. Não sinto nele uma energia de ataque, mas sim defensora, protetora... A sua energia verdadeira. – ela via a raiva e mágoa no olhar de Brenwen, e tentou consolá-la – Bren, está tudo bem. Você leu comigo que maioria dos padawans explode duas ou três empunhaduras, antes de encontrar a forma perfeita para seu sabre. Vai encontrar a forma certa para o seu; apenas tem um cristal tão temperamental quanto a dona, o qual provavelmente precisará de uma forma bastante trabalhada para conter seu poder. – ela segurou a mão da humana, que puxou os dedos para fugir ao toque da Jedi. Sentia raiva por Rey, vinda de um lixão, ser tão perfeita, enquanto ela, descendente das Casas Reais Corellianas, prestes a se graduar como diplomata, não conseguia sequer sintonizar-se ao próprio cristal. E sequer havia tanta diferença de idades! Não era justo! Por que não conseguia aprender algo que uma catadora de lixo descobrira sozinha?!
“Ela tem muita raiva dentro de si, Rey” constatou Anakin, apenas reafirmando o que a moça já sentira. “compete com você como eu competia com Obi-Wan, mas não lhe tem o respeito que eu tive por meu mentor, quando Padawan. Cuidado. Ela está num caminho muito perigoso.”
Rey não respondeu: sabia que Anakin sentia sua resposta. Voltou-se para Asala, mas a criança não queria continuar:
— Não. Não quero tentar. Não quero que meu sabre exploda, mas quero menos ainda que ele funcione, se o de Brenwen não funcionou.
— Asie – a voz de Lena era gentil ao pousar as mãos no ombro da menina – cada aprendiz deve ter seu próprio tempo. Não deve se atrasar ou tentar ir mais depressa por causa de outro padawan, mesmo que seja Brenwen. Vamos, tente. E, se der certo, poderá ajudar Bren a encontrar a melhor forma para sua própria arma.
A Togruta olhou para aquela que considerava sua irmã mais velha, e quando esta piscou lentamente e anuiu em incentivo, a menina realizou o processo de fusão. Com efeito, seu cristal se adaptou à própria empunhadura com perfeição, causando um sorriso maravilhado na pequena ao experimentar a amplificação dos sentidos, a intensidade da Força que a conectava ao cristal; acionou o sabre, e todas as suas sensações foram exponencialmente aumentadas enquanto a sala se banhava em luz dourada! Mais forte do que já fora, espantou-se ao sentir uma energia de pura indignação e revolta, virando-se para a origem deste sentimento a tempo de ver Brenwen virar o rosto para esconder as lágrimas. Apagou o próprio sabre, e perguntou:
— Bren, está tudo bem?
— S-sim, Asie – gaguejou a mais velha, lutando contra o choro de pura frustração e raiva contra si mesma – fico feliz por seu sucesso, baixinha.
— Você está triste. – não era uma pergunta, mas uma afirmação. Ao ouvir aquilo, a orgulhosa Corelliana secou as lágrimas com o dorso da mão, ergueu o rosto com a arrogância de uma princesa e forçou-se ao seu melhor sorriso, tão bem encenado que quase pareceria natural:
— Fiquei frustrada por falhar, mas pode acontecer com qualquer um, não é? – ela se virou para Rey e, embora as palavras fossem ditas em tom gentil, a hostilidade presente nelas não escapou à Jedi – até mesmo Rey poderia ter explodido seus sabres, com um pouco menos de sorte.
— Sim. – concordou a mais velha – qualquer uma de nós poderia. O Líder Supremo explodiu oito empunhaduras, antes de encontrar uma forma para seu sabre. – mencionar Ben pareceu funcionar, pois a revolta da jovem se abrandou:
— Oito?
— Oito. Até desenvolver as aberturas laterais que permitem à energia excedente escoar pelos lados. E ele não era um iniciante. – ela fitou a mais nova com seriedade – não é um caminho fácil, Brenwen. Não vai conseguir tudo na primeira vez, especialmente se continuar tentando dobrar a força. É o mesmo que tentar dobrar um rio: não existe como. Precisa fluir com ele, assim como deve fluir com a Força, e usar seu poder a seu favor; permitir que a Força seja sua guia, e parar de tentar controlar. Não é assim que os Jedi trabalham.
A humana baixou a cabeça e respondeu:
— Sim, mestra. Trabalharei em uma nova forma para meu sabre.
— Deixe que o cristal escolha. A forma deve refletir a verdadeira natureza do cristal, que é também a sua natureza mais íntima. O que você é no âmago de seu ser, além das dores, traumas e questões não-resolvidas. Essa é a energia que seu sabre deve permitir fluir: a sua, pura e verdadeira. – pousando a mão com firmeza, recitou um dos versos que ouvira de Anakin e, posteriormente, repetira às Padawans – o cristal é o coração da lâmina, o coração é o cristal do Jedi, o Jedi é o cristal da Força. Você é uma.
Os olhos cinzentos se fecharam, e ela segurou com força seu próprio kyber; ao abrir os olhos novamente, estes queimavam com uma chama de vontade que satisfez e preocupou Rey ao mesmo tempo: havia ali vontade de progredir... Mas podia sentir as sombras que dançavam dentro de Brenwen, mais fortes do que poderia esperar... Teria sido um mau passo deixar que prosseguisse no caminho? Não. Não podia pensar assim. Não desistiria de Brenwen enquanto houvesse a menor fagulha de esperança que fosse, e um breve momento de raiva e frustração não definiam o destino de alguém! Enfim, decidiu encerrar aquele momento de tensão:
— Saíram-se ambas muito bem. Asala, seu sabre formou uma composição sólida e perfeita; Brenwen, seu cristal mostrou uma força defensiva acentuada, um potencial que se recusa a ferir, e prova disso foi não ter explodido a empunhadura, mas simplesmente a rejeitado. Mostra uma natureza admirável em quem o possui.
— Obrigada, mestra – disseram ambas as Padawans, em uníssono.
— Certo, Jedis, foi algo poderoso e belo de se ver, mas amanhã entraremos na órbita externa de Rakata Prime, e devem estar todas bem dispostas, pois será um dia longo. – anunciou Eilenia, percebendo claramente o desconforto de Rey – meninas, para a cama.
As padawans se despediram de sua mentora – Asala com um abraço entusiasmado, e Brenwen com um curvar de cabeça – antes de deixarem a sala, onde Rey e Eilenia se entreolharam significativamente.
— Está com medo de Brenwen, não é?
— Eu ficaria menos preocupada se suas trevas fossem de raiva, do que essa ambição e orgulho que vejo nela. Tornam-na imprevisível. O bom senso me diz para interromper seu treinamento...
— E sua intuição? – a Twi’lek já aprendera que as intuições de um Jedi costumavam ser mais certeiras do que seus pensamentos.
— Para continuar a treiná-la. Mas não sei se é uma intuição legítima, ou fruto de minha vontade de vê-la encontrar a si mesma.
— Precisará de paciência, Rey: ela tem profundos sentimentos de rejeição, e sente que precisa ser a melhor em tudo. Precisa ver as inimizades que fez no departamento diplomático, com essa competitividade acirrada em tudo o que faz...
— Agora, ela compete comigo. Como posso ensiná-la, desse modo?
— Talvez ela precise viver as próprias decepções, para aprender. – a mais velha deu um sorriso triste – nem sempre podemos ensinar algo a alguém, Rey. Ela precisará aprender do modo mais difícil. – a mulher de pele azul abraçou a outra com um carinho fraternal – não se cobre tanto. E, a propósito, seu sabre é magnífico.
Rey sorriu e reprimiu um risinho enquanto se levantava e prendia o novo sabre à cintura; não fora uma noite perdida, em última análise. Brenwen fizera o próprio show, mas Asala tivera um enorme sucesso, e Rey também. Nunca pensara que aquela ideia louca na configuração do bastão realmente funcionaria, mas mostrara-se a form perfeita para seu cristal.
— Lena, obrigada.
— Não me agradeça, Rey: eu é que fico feliz de poder testemunhar esses acontecimentos, mesmo não sendo uma Jedi. É mais do que poderia sonhar.
As mulheres se despediram com um abraço, seguindo cada uma para o próprio quarto: faltava apenas uma pessoa com quem a Jedi devia falar, e esta talvez fosse a mais difícil. Ainda assim, sentia-se preenchida por uma nova força e confiança, infinitamente maiores do que antes! Hora de falar com Ben, antes de enfim chegarem à perigosa capital.
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