Rise of Jedi
24 Resistência - Parte 2
Notas iniciais
Asala e Rey praticamente desmontaram nas cadeiras – a humana bem mais do que a menor, após passar uma hora banindo Luke de sua mente e, depois, Luke E Ahsoka, juntos. Conseguira resistir por um bom tempo, antes de o cansaço vencer, quando estavam quase no final; ainda assim, fora uma vitória impressionante, ao menos de acordo com os mestres.
A menina togruta não tinha vontade de comer, brincando com a comida desanimadamente, ao passo que Rey devorava com vontade seu prato. Contudo, o rosto de ambas estava abatido o bastante para os mais próximos se preocuparem, e Leia chegou a repreender o irmão discretamente, o que gerou uma pequena discussão em sussurros baixos demais para se ouvir, antes que viessem para a mesa e se sentassem um de cada lado da padawan.
Para a felicidade das jovens, teriam aquele resto de manhã para repousarem suas mentes, recuperando-se dos esforços do alvorecer; dessa vez, Asala queria a mestra consigo enquanto explorava e encontrava amigos recém-feitos na base, e Rey não se opôs a acompanha-la. Finn estava treinando com o Esquadrão Negro, e as jovens puderam ver as práticas de manobras em órbita, comentando entre si o que viam. Ficava muito óbvio que Poe realmente fazia jus a sua reputação como piloto enquanto seu caça – no treinamento agindo como um inimigo – executava movimentos inacreditáveis, esquivando-se em ziguezagues, passando por entre outras naves quando parecia não haver espaço algum, ou sequer uma forma de escapar aos cercos e bloqueios.
— Esse aí é louco – comentou Asala, sentada no alto da White Command – vocês vão se dar bem, Rey. – o olhar da Jedi arrancou uma gargalhada da criança, mas de repente a atenção de todos no pátio do hangar foi atraída para um cargueiro corelliano modificado, pintado em tons escuros, quase negros, que se juntou ao treinamento. Com armas de pulso magnético, tirou do treinamento dois caças em um único tiro, antes de entrar numa espiral descendente perigosa: parecia que a nave fora abatida e caía desgovernada, mas isso foi apenas um movimento que obrigou a formação dos X-Wings a se espalhar para evitar os pulsos certeiros; como alguém conseguia mirar assim, ainda mais durante um mergulho em parafuso?
— E aquele é o tio Jacen – sorriu a pequena togruta – mais louco ainda.
— Tio? – perguntou Rey, sem entender por que a menina o chamava assim.
— Ahan. Irmão da minha mãe, por parte de pai. – confirmou a garota, batendo palmas quando o cargueiro se mostrou mais veloz do que o caça de Poe e o interceptou, capturando-o no vácuo da trilha da nave e desviando completamente a rota. Como uma serpente esquiva, a nave escura virou sobre si mesma num movimento tecnicamente impossível, disparando contra o wing que até um décimo de segundo antes fora capturado em sua esteira. Um sinal soou, e as naves que não haviam sido “abatidas” vieram para o solo, o cargueiro pousando no centro do pátio. A rampa foi baixada e o piloto saiu com um grande sorriso convencido e divertido, passando a mão pelos cabelos na altura dos ombros, no momento suados e bagunçados. Não escapou a Rey o modo como as moças o fitavam, acompanhando seu caminhar com os olhos enquanto o capitão Espectro 7 cuprimentava os demais envolvidos no treino de voo e corrigia as falhas de alguns. A despeito do ar arrogante que tinha ao sair da nave, falava com todos de igual para igual, fosse cadete, comandante, capitão... E tratava a todos com a mesma jovialidade e humor.
Vencido pelo amigo, Poe foi até Jacen e se cumprimentaram com um aperto de mão, trocando o que pareceu um soco dolorido no ombro um do outro:
— Você é um suicida, Syndulla. – acusou o moreno, provocando um sorriso em Jacen, que voltou seus olhos para Rey por um breve segundo, antes de responder:
— E você me odeia porque não pode assumir o posto de piloto mais insano da Resistência. Mas o treino de hoje foi ótimo: eu não teria chance se estivesse num Wing, Dameron. Você é o melhor piloto do Esquadrão Negro, com certeza. – Poe acompanhou a direção que o olhar do amigo seguira e deu um sorriso maroto
— ela é casada, Syndulla. E você NÃO vai querer ser pego pelo marido dela; experiência própria.
— Pare de falar idiotices, Dameron – censurou o outro, sorrindo – não é isso. É só... Ela é Jedi. Estou curioso.
— Já entendi. – Poe sabia da curiosidade do amigo sobre os Jedi, não apenas por ser fiho de um, mas por todas as histórias ouvidas sobre os últimos Jedi remanescentes na galáxia, sobreviventes da Ordem 66, e suas atuações na guerra contra o Império. Aos poucos as histórias haviam parado de chegar, e supunha-se que não havia mais Jedi, especialmente após o desaparecimento de Skywalker. Então Rey aparecia, e tudo mudava. Ela realmente agitara as coisas, no último ano.
Vendo que era encarada pelos dois, e ouvindo parcialmente a conversa, Rey abriu uma expressão mista de diversão e censura enquanto ia até os dois pilotos, provocando:
— Vocês dois são tão meigos um com o outro, que parecem até um casal – ela se aproximou e cumprimentou ambos com um aceno de cabeça, ante de elogiar – brincadeiras à parte, o treinamento foi incrível. – hesitou por um segundo antes de prosseguir — Têm espaço para mais um cargueiro corelliano, amanhã, ou talvez uma nave A?
— Temos espaço para a nave que quiser pilotar, mestra Jedi. – declarou Jacen. E embora parecesse um flerte, Rey percebeu que parte dele simplesmente era assim. Gentil. Divertido. Provocador sem segundas intenções. Foi impossível não pensar em outra pessoa naturalmente gentil a quem tão bem conhecia: Eilenia. Seriam aparentados, em algum grau?
— Obrigada, Capitão Syndulla, mas ainda não sou mestra. Ainda assim, é muito gentil. — Ao pensar na amiga, procurando alguma semelhança física entre o homem e ela, Rey se lembrou de algo e voltou-se para Poe — Tenho uma mensagem para lhe dar, comandante: Eilenia Shan mandou chutar sua canela, e dizer que era por parte da “azulzinha”. Eu não vou te chutar, mas espere qualquer coisa de Asala.
Jacen encarou Poe, que fechou os olhos em expressão culpada e coçou a cabeça ante os braços cruzados e expressão severa do amigo.
— O que você aprontou, Dameron? – perguntou o capitão.
— Só digamos que eu mereço o chute. – o moreno suspirou e riu – não estranhe, Rey: Lena e eu somos amigos. Ou éramos, até ela desertar. Pelas palavras dela, contudo, imagino que ainda me considere assim.
— e o que fez para merecer o chute? – Asala pareceu surgir do nada junto ao trio, sorrateira como uma sombra. A expressão dos outros dois parecia repetir a pergunta da criança.
— Ah... – Dameron coçou a nuca — Havia uma ex-namorada no meu pé, então beijei Lena de surpresa para me livrar da outra. Depois disso, ela me dava um chute toda vez que nos víamos.
Asala deu de ombros e chutou a canela de Poe; antes que Jacen ou Rey a censurassem, explicou:
— Para ele não perder o costume! E claro, desculpe, comandante. Foi apenas o recado que mandaram entregar!
Rey revirou os olhos, tentando não rir, mas Jacen não se preocupou em abafar a sonora gargalhada. Em meio a gracejos e piadas entre os dois homens, que as acompanharam pelo hangar até a equipe de solo, as garotas acabaram relaxando um pouco mais e, quando se juntaram aos técnicos e mecânicos, Rey encontrou sua distração favorita, assim como Asala, que preferia fazer três mil perguntas por minuto a todos em seu caminho, curiosa sobre tudo e incrivelmente carismática. A tarde foi um período de fato reparador, além de instrutivo: hangares e portos eram sempre os melhores lugares para ouvir os boatos vindos de todos os lugares da galáxia, e a Jedi jamais se esquecia de manter os ouvidos bem abertos, especialmente para o que era dito sobre as ações da Primeira Ordem e da Resistência.
À hora do jantar, as moças foram para os alojamentos femininos com Rose e Sabine – a qual as encontrara no hangar – já com uma corrida de X-Wings combinada para o dia seguinte, logo pela manhã, antes dos treinamentos de combate do Esquadrão Negro.
Não houve treinamento, naquela noite; Luke parecia discordar, mas Ahsoka estava irredutível quanto a seu posicionamento, dizendo que esgotar as Padawans daquela forma não serviria para coisa alguma além de atrasá-las, em vez de acelerar o treinamento. Foi um jantar silencioso, e algo incomodava Rey, mesmo que não soubesse o que. Foi apenas ao fim da refeição que a Padawan mais velha conversou com Ahsoka, encontrando-a em meditação do lado de fora.
— Olá, Rey. Sinto sua perturbação, minha jovem. – a togruta se levantou e encarou a humana – o que a angustia?
— Não estou certa, Mestra Tano. – disse a moça – estou preocupada com a Padawan humana que não está aqui, Brenwen, a qual demonstra muito pendor ao Lado sombrio. Tive sonhos nos quais ela imergia nas trevas. Ainda assim, sinto que não é a única causa desse desconforto.
Ahsoka não disse nada por alguns segundos, antes de finalmente declarar, após pensar a respeito:
— Não conheço sua padawan, mas sei que não deve desistir dela, mesmo quando parecer que está perdida, assim como não desiste de seu esposo. Existe luz mesmo na caverna mais sombria, e não desistir dela é imperativo. – a mais velha parecia absorta numa meditação ativa – sonhos são coisas confusas. As visões que mostram são inconclusivas. Sugiro que medite antes de dormir, e tente vislumbrar que outros eventos a Força pode desejar lhe mostrar. Farei o mesmo. E o que quer que veja ou sinta, tenha algo em mente: aquele que confia na Força jamais se desespera, ou perde a esperança. Não importa o que veja: mantenha a fé.
— Assim farei, mestra.
— E tente a ajuda de sua Tuk’ata. Ela é antiga e sábia, e agora, leal a você.
— Não se importa que ela seja um lobo Sith?
— não me importo com quem foi seu mestre anterior. Agora, ela se ligou a você, e não faria isso se fosse pura escuridão. Ademais, a Força é uma só, nem boa, nem má, nem escura, nem clara. A polarização está nos que a utilizam, não na Força em si; e ligações com seres como Gea ampliam a sensibilidade do Jedi. – havia um leve esboço de sorriso no rosto da mulher – apenas confie, Rey. E descanse. Desesperar-se com aquilo que não pode resolver é impedir-se de enxergar com clareza o dever bem diante de si. – e erguendo a mão numa bênção – fique em paz, jovem Jedi, e que a Força esteja com você.
— E também com você, mestra.
Ahsoka anuiu e seus olhos se fecharam, em nada mais alterando sua postura impecável, as pernas graciosamente cruzadas e a coluna ereta de modo elegante, ainda que cada músculo parecesse totalmente relaxado. Sua serenidade era quase contagiante, e foi com essa calma que Rey retornou ao quarto, onde Asala já dormia profundamente, e Gea a esperava sentada ao lado da cama.
De acordo como fora orientada, a jovem acariciou a cabeça do grande lobo e tocou a testa rija com a sua, deixando fluir por seu vínculo os pensamentos e emoções; em resposta, recebeu os pensamentos simples e objetivos de Gea, que a guiou suavemente para os planos sutis onde a Força reinava. Contudo, a meditação não permitiu à outrora sucateira manter toda aquela calma, e dormir só foi possível ao manter em mente as palavras de Ahsoka, e sentimentos de Gea: desesperar-se pelo que não podia resolver era apenas um modo de se cegar às necessidades bem diante de si.
*
— MAS O QUE.... – Poe encarava incrédulo o seu X-Wing, todo “decorado” com desenhos de bombas, círculos cruzados de mira e um desenho de BB-8, tudo em tons neon absurdamente chamativos. – SABINE!!!!!!!!!
Ouvindo o protesto do piloto, a mandaloriana se afastou do muro onde estava encostada e riu:
— Dessa vez sou inocente. – e tão logo disse isso, Asala surgiu, subindo na nave que pilotaria, rindo:
— Desculpe, Poe. Sabine e eu achamos que sua nave precisava de um pouco de personalidade. E todos sabemos de suas soluções explosivas para tudo, então é um jeito de dizer que, hoje, você vai “detonar” na corrida. – O piloto não sabia se estrangulava a togruta pela pintura em rosa, roxo e amarelo berrantes, pelo trocadilho horrível, ou se simplesmente ignorava tudo e caía na risada. Acabou simplesmente dando um suspiro zangado, e Finn se aproximou, dando um tapa em suas costas:
— Ninguém vai esquecer isso tão cedo, parceiro. Pelo lado positivo, a tinta sai. Você só vai correr hoje com os belos desenhos de Asie.
— Se isso foi uma tentativa de me animar, você fracassou. – respondeu o comandante, indo para sua nave, seguido de BB-8, cuja opinião era diametralmente oposta à do humano – e daí que você está bem retratado, BB-8? Essa nave virou um alvo ambulante! Dá para enxerga-la a 15 parsecs de distância! – ele tentou ignorar que Rey, Rose e Finn riam mais de sua frustração do que da peça pregada pela criança, e conferiu os controles. – as três criaturas em risos histéricos vão subir em suas naves, ou vou correr sozinho?
O trio se entreolhou e subiu nas respectivas naves. Por insistência de Ahsoka, Rey voaria com R2-D2 como seu droide, e como já o conhecia e voara na Falcon com o pequeno, o arranjo era mais do que satisfatório.
Uma série de bips fez Rey rir enquanto se acomodava na cabine do X-Wing, testando os controles:
— Uau, que boca suja, R2! Bastava dizer para dar o melhor de mim – um sorriso travesso percorria os lábios dela – ok, vamos fazer o Poe comer poeira, e o próprio orgulho? – mais bips – é assim que se fala! – com todos os controles ligados, puxou o comunicador para falar com os outros corredores – Asala, tudo certo?
— pronta para fazer todo mundo engolir poeira, mestra – retrucou a menina – controles ligados.
A voz de Jacen Syndulla se fez ouvir para todos:
— Certo, pilotos: isso é uma corrida amigável, então Poe, nada de alvejar Asala ou Rey. – todos riram – ao meu sinal, vão completar o circuito de treinamento do Esquadrão Negro, e o piloto que chegar vivo... Digo, em primeiro lugar, é o vencedor. Detalhe: chegar com a nave inteira. Queda não é pouso, isso vale principalmente para Finn. – mais risos – muito bem, pilotos, preparem.
As cinco naves estavam na linha de largada; Ahsoka, Hera e Sabine se postavam perto da largada, e vários pequenos grupos se formavam para assistir, curiosos. Poe era o melhor piloto do Esquadrão, enquanto Finn e Rose eram cadetes muito promissores; quanto a Rey e Asala, bem... Eram o principal motivo da curiosidade: todos desejavam saber quão boas realmente eram. Isso não passou despercebid à Jedi, mas sabia que não se podia deixar levar pela pressão. Para todos os efeitos, era uma brincadeira entre amigos, e estava determinada a não deixar que fosse qualquer outra coisa, em sua mente.
— Poe – chamou Finn, fazendo as calibragens finais – A aposta ainda está de pé?
— Finn, vou rir muito quando vir sua cara desapontada – devolveu o mais velho – Rose, como está aí?
— Ouvindo a conversa de vocês e quase morrendo de tédio. Syndulla, quando quiser!
Jacen iniciou a contagem regressiva, e apertou o dispositivo de alarme. Imadiatamente os cinco motores rugiram, e as naves agudas dispararam pelo ar, levantando poeira e sacudindo as árvores em redor. Ahsoka deu um breve sorriso ao se lembrar de seus tempos de juventude, antes de sua deserção, da Ordem 66 tudo o que acontecera depois. Por difíceis que fossem aqueles tempos, ela fora muito feliz, e trazia-lhe alegria ver que a felicidade dos jovens podia perdurar, mesmo em meio a tantas tragédias. Afinal, algumas coisas jamais mudavam.
O percurso se iniciava com uma volta completa ao equador da lua – um caminho difícil, pela quantidade de matéria estelar em órbita – fora da atmosfera, antes de uma reentrada abrupta e sobrevoo de uma costa oceânica pontuada por ilhas e pináculos, rochedos enormes e vulcões, por meio dos quais os caças deveriam seguir. Finalmente, uma rede de desfiladeiros profundos, e de volta aos céus para alcançar a linha de chegada. E logo na primeira etapa a competição se mostrou acirrada: os próprios droides astromecânicos incentivavam seus pilotos, ora apitando com entusiasmo, ora censurando manobras muito arriscadas ou, a seu ponto de vista, falhas.
— Todos os droides da Resistência têm chip de personalidade? – perguntou Asala, rindo baixinho, divertida com seu R4 aventureiro, que lhe sugeria caminhos ousados por entre a matéria rochosa e nuvens de energia, os quais a menina seguia. Acabara descobrindo que espirais eram um movimento excepcional para romper barreiras que eventualmente pudessem tirar sua velocidade.
— Boa parte deles. Algumas pessoas desaprovam, mas R2 é a prova de que droides com personalidade agem muito melhor – confirmou Rose, executando uma ultrapassagem arriscada em loop contra o Wing de Rey – nada pessoal, Jedi!
— bom saber disso! – devolveu a garota de Jakku, direcionando energia para os propulsores, para um mini-salto que a colocou à frente dos demais. R2 bipou furiosamente, censurando-a pela imprudência, mas a jovem riu – relaxe, R2, já fiz isso, antes! – mais bips furiosos – não, eu não sou suicida como Anakin. Apenas tenho estilo! – outra enxurrada de bips – tecnicamente, por casamento, eu sou da família Skywalker, mas isso não tem nada a ver! Você não era tão rabugento! – e antes que mais silvos e apitos pudessem soar, comandou – Segure-se! Poe está na nossa esteira! – ela acelerou e entrou na tangente gravitacional, usando a própria força de atração da lua para ganhar velocidade – R2, ajuste a compensação gravitacional.
— Usando força gravitacional como propulsor adicional, Lady Solo? – provocou Poe – isso é tão brilhante e dúbio que quase chega a ser trapaça.
— Ninguém disse que não podia usar. Com medo de tentar, Poe?
— O bom senso mandaria fazer diferente, mas já que insiste... – ele executou a mesma manobra, emparelhando com Rey. Contudo, não esperava os xingamentos combinados de Asala e R4:
— Hey, não se faz isso quando alguém está aproveitando seu empuxo, sabia? – foi com surpresa que todos constataram a artimanha da pequena em se manter na esteira de Poe, a fim de poupar os motores de sua nave para impulso adicional posterior.
— Ah, ótimo! Agora tenho um pequeno carrapato albino grudado em mim. – riu o piloto – Rose, Finn, onde estão?
— Melhor dar licença, comandante! – respondeu a voz de Rose, a nave dela e a de Finn num intrincado movimento de dupla-hélice que poupava ambos os motores e ainda afastava as naves circundantes.
— Filhos da m... – começou o comandante, ao ser ultrapassado subitamente pelos recrutas – agora todos vão jogar sujo? Muito bem, sei voar assim. – o Wing colorido por Asala foi impulsionado por uma explosão, seu recurso de emergência, que lhe deu a vantagem imediata, permitindo que completasse a primeira etapa. Olhando aquilo, Rey aplicou força total aos motores, passando num salto arricado por entre as manobras helicoidais de Rose e Finn, o que os interrompeu, mas simultaneamente deu maior velocidade.
— Vamos forçar no máximo, ou o ego de Poe vai ficar mais inflado que um balão em minas de gás! – incitou a padawan mais velha – Asala, lembra daquele truquezinho?
— Só acelere, e vamos usar – confirmou a pequena, saindo do vácuo do outro Wing para evitar o arrasto, entrando em suas próprias manobras. – Finn, Rose, precisamos de uma formação em V. Depois nos matamos para chegar em primeiro, mas antes vamos chutar a bunda do Poe!
— Asie, olha a boca! – censurou Rey, assumindo a dianteira da formação – potência máxima, todos, e desliguem os motores traseiros quando entrarmos na atmosfera: vamos usar a gravidade para nos dar velocidade, e apenas mudar a direção com os propulsores laterais e leme!
Nenhum dos outros já fizera algo tão arriscado em treinamento; era o tipo de coisa que Jacen faria, não o Esquadrão Negro, ainda mais durante uma simples corrida. Porém, havia na voz e na postura de Rey uma certeza grande demais para não confiar no que dizia. Ela podia não querer ser uma líder, mas inspirava pessoas a fazer mais, ousar mais... Acreditar, mesmo nas pequenas coisas do dia a dia. E foi apenas por isso que os dois cadetes seguiram suas instruções enquanto a entrada nas camadas mais baixas da atmosfera testava toda a resistência das naves. R2 ralhava com Rey, enquanto R4 emitia assobios de empolgação e contentamento! Não conseguiam ouvir claramente o que diziam os droides dos outros dois pilotos, mas um ou outro xingamento esteve presente.
— R4 – começou Asala – direcionar fluxo principal para os corretores de curso, e estabilizar o leme. Sensibilidade em 150%.
Imediatamente os controles de comando se tornaram muito mais responsivos, de modo quase perigoso, pois o mais leve toque era suficiente para modificar o curso. A velocidade era vertiginosa e isso disparava descargas de adrenalina deliciosas pelo corpo da criança, que podia sentir as mesmas emoções emanadas a partir da nave da mestra, logo à frente. Foi uma surpresa agradável ver Finn e Rose confiando também, e executando a manobra; pela primeira vez, Asala experimentou a sensação de pertencimento, de ser parte de uma equipe maior do que Rey, Eilenia e Brenwen. Parte de pessoas que lutavam por algo em comum, que mesmo diferentes, eram unidas por uma mesma intenção, e qualquer outra divergência já não importava. Isso lhe trouxe uma perspectiva completamente nova, e naquele instante ela sentiu o que era fazer parte de algo maior do que si. Ela entendeu o que significava fazer parte da Resistência, e mais ainda, o que significaria fazer parte da nova Ordem Jedi, à medida que esta se erguesse e fortalecesse. O pensamento a encheu com um novo fogo de determinação, senso de responsabilidade e desejo de se provar digna em todos os níveis, não apenas para aqueles a quem considerava sua família, mas para a galáxia; desejo de ser uma verdadeira Jedi.
A formação conseguiu alcançar o Wing de Poe, cuja voz soou nos comunicadores:
— De onde vocês vieram?! Estão tentando se matar?!
— Não é o único piloto com coragem, qui, Dameron – respondeu Rose, enquanto colocavam os Wings em modo de vôo atmosférico, desfazendo a formação e corrigindo as naves para posição horizontal. O mar estava bem adiante, com seus rochedos altos como montanhas, entre os quais as pequenas naves fizeram seu curso, cada uma disposta a utilizar o terreno a seu favor, e contra os amigos.
Rey se concentrou ao máximo no percurso: ela o havia percorrido com a mente, antes, mas era algo bem diferente de voar por entre o labirinto de pedras e ondas gigantes que, se engolissem seu pequeno X-Wing, o amassariam como a uma folha de papel. Preocupou-se com Asala, mas sentia a menina voando bem alto, além do alcance das vagas, então focou-se totalmente em seu papel: perto da linha da água, o mar escavara grandes cavernas e falhas na base das rochas, o que lhe oferecia um caminho mais retilíneo e veloz, ainda que mais arriscado. R2 percebeu suas intenções, pois bipou zangado.
— Eu sei o que estou fazendo, R2! – protestou a Jedi, usando a Força para sentir o momento exato de mergulhar, no intervalo entre uma onda se arrebentando e outra se formando. O túnel era grande o bastante para permitir unicamente a passagem da nave, com poucos palmos de folga, e a moça disparou através da escuridão, guiada mais por seus instintos do que pela visão, entregue ao ato de voar como o fazia a poucas coisas. Pilotar era seu maior prazer, sem dúvida alguma, e quando saiu do túnel, executando uma subida abrupta para evitar o próximo tsunami, que já começava a se quebrar no alto de seus trinta metros, sentir a água borrifando do lado de fora, o vento açoitando a lataria da nave, a resistência do ar sendo rompida pela ponta afunilada e dando suporte para que subisse... Era uma comunhão inesquecível. Um momento em que deixava de haver a noção do “eu” para que algo mais assumisse o controle, e ela fosse não apenas a mulher e a nave, mas tudo o que a circundava. Por isso não errava. Por esse motivo sabia que sairia da linha da onda com meio segundo de vantagem, exatamente como aconteceu. De imediato, a voz de Finn soou, parte rindo, parte zangado:
— Isso é que é piloto! Rey, depois eu vou te matar, por se arriscar assim, mas um dia quero pilotar desse jeito!
— É melhor não, Finn! A Rose mataria você se tentasse fazer isso! – riu a jovem, no comunicador – espero que não esteja corado, neste momento.
— Que droga de aposta vocês, garotas, fizeram para me deixar sempre morrendo de vergonha?
— Finn, deixe de ser bobo – riu Rose, enquanto sua nave pairava pouco acima das ondas, executando ziguezagues acentuados por entre as rochas – Todos já sabem que gostamos um do outro. Apenas assuma, e eles param!
Não houve tempo para resposta, pois duas ondas enormes se uniram, criando uma parede de água com mais de cinquenta metros, que forçou as naves a uma subida drástica, vertical. A cauda do Wing de Asala foi atingida por respingos das vagas se quebrando, e toda a nave entrou num parafuso não pretendido.
— ASIE! – chamaram os quatro adultos, mas a pequena forçou a nave a se estabilizar, e Rey percebeu claramente o uso da Força neste intento, somada ao raciocínio rápido e habilidades aprendidas.
— Estou bem! – avisou a menina, retomando o controle – waw, isso foi... Eletrizante. – seus motores aumentaram a potência – e então? Vão parar a corrida por causa disso? – e como um raio, retomou as manobras por entre os pináculos. Tranquilizados, ainda que não totalmente, os outros prosseguiram, e acorrida se acirrou. Abandonaram o alto-mar, alcançando as regiões de falésias e desfiladeiros.
A corrida estava bastante acirrada, a liderança assumida alternadamente por Poe, Rey e Finn, de acordo com as vantagens ou desvantagens do terreno. Rose e Asala, porém, não estavam mais do que algumas dezenas de metros atrás, uma diferença quase nula, considerando-se a velocidade.
Porém, Poe tinha a vantagem do conhecimento do terreno, e era de fato o melhor piloto; aquela brincadeira não havia exigido muito de si, até o momento, mas na última etapa, ele começou a mostrar o verdadeiro lado de comandante do Esquadrão Negro, adotando um estilo de voo agressivo, intenso, quase insano em curvas, mergulhos e desvios feitos no último minuto, que nenhum dos outros poderia acompanhar. Ou ao menos foi o que pensou.
— Rey, nós não temos como competir contra ele – disse Finn – vá atrás!
— Desculpe, gente, queria que fosse só diversão, mas Poe é bem competitivo – disse a moça – vou apanhá-lo por nós quatro. – e com isso, seguiu na esteira do comandante; acrobacias não eram um problema: sabia fazê-las muito bem, mas contava com algo para compensar a falta de familiaridade com o caminho: intuição. A Força. Podia sentir tudo e, à medida que expandia os sentidos, os desfiladeiros se tornaram um mapa em sua mente, cujos atalhos, falhas e caminhos sem saída eram tão claros quanto se os houvesse programado no painel da nave.
Os olhos abertos, porém, pareciam confundi-la: sua mente lhe dizia uma coisa, e seus instintos, outra. E quando os desfiladeiros se transformaram numa série de túneis estreitos e emaranhados, poucos dos quais apresentavam saída, ela cerrou os olhos e deixou-se guiar totalmente pela Força emanando de tudo ao seu redor. Jamais imaginara encontrar-se em tal situação, e parecia mesmo insano dizer que pilotava de olhos cerrados, mas agora via mais claramente do que em qualquer momento anterior. Dobrou as bordas das asas, assumindo a conformação X para maior estabilidade, e forçou os motores ao máximo! As asas sequer raspavam as paredes estreitas, e os bips de R2 não alteravam sua concentração: estava totalmente aberta a cada menor estímulo da Força, sem saber como alcançara esse estado, mas desprovida de qualquer desejo de indagações. Apenas fluiu. Apenas confiou. E quando abriu seus olhos, saíra para a luz solar, tendo atravessado completamente o infindável labirinto, aproximando-se rapidamente da linha de chegada para o espanto de Poe, cuja voz se fez ouvir nos comunicadores:
— De onde, kriffing, você veio, Rey? – a nave colorida estava mais de cem metros para trás quando a jovem executou um loop, reduzindo a velocidade para pousar o Wing com extrema leveza apenas pouco adiante da linha de largada, o corpo ainda trêmulo pela experiência, sua sensibilidade captando os menores sinais vitais mesmo dos roedores e vermes sob a terra. Uma sensação de paz que superava tudo o mais, estendendo-se por longos e maravilhosos segundos antes que ela aos poucos se retraísse, voltando a um estado mais racional e menos sensitivo ao abrir a cápsula da cabine e sair para o hangar.
O X-Wing em cores berrantes pousou logo em seguida, com o comandante saindo da cabine entre estupefato e admirado:
— Como fez aquilo?! Achei que ia se matar, mas você nem mesmo arranhou a lataria! – ele se aproximou e deu um tapa amigável de congratulações nas costas da moça, que deu um breve sorriso.
— Sinceramente? Eu não faço ideia. – respondeu a menina – não estava pensando, apenas... É instintivo... Não deve ser muito diferente do que você faz: pilota como um louco, mas está o tempo todo no controle, sabe o que faz.
— Não como você. Eu treinei para isso, por muitos anos. – havia admiração intensa, curiosidade vibrante no olhar do rebelde – Essa habilidade é algo dos Jedi? Eu ouvi falar sobre como Luke Skywalker foi um dos melhores.
— Eu realmente não sei, Poe – riu a jovem – não sei exatamente por que isso acontece. Para mim, é um modo de me conectar, mas não sei se era assim para todos.
— Não era – disse a voz de Ahsoka, atrás de ambos, surpreendendo-os – não para todos. O treinamento Jedi nos dava um alto nível de excelência, mas o talento natural é algo que pode ser aprimorado, não conferido. Cada Jedi se destacava mais em determinada área, e pilotos tão excelentes eram... Raros. Conheci um, e o filho dele, ambos com esse talento. Agora vejo também em você.
A conversa teria se tornado mais séria, se os outros pilotos não pousassem também, e tudo se tornasse uma grande diversão entre os membros dos Esquadrão Negro e pilotos Azuis e Vermelhos. Sabendo que momentos de felicidade assim eram extremamente importantes para manter o espírito de alguém, especialmente alguém que suportava cargas tão pesadas quanto as de Rey, Ahsoka apenas falou à jovem:
— Rey, Luke e eu precisamos falar com você, mais tarde. Apenas você. – e antes que a mais jovem pudesse responder, a togruta desaparecera por entre as pessoas, deixando as duas aprendizes a se divertir com os amigos.
*
Finalmente sozinha após toda a agitação anterior, Rey procurou um lugar que a deixasse tranquila para meditar. Acabou encontrando-o no alto de uma árvore, onde se acomodou em um galho largo, pernas cruzadas, olhos fechados, acalmando seus sentidos enquanto sincronizava suas funções vitais às da árvore, baixando-as o suficiente para entrar num estado quase de catarse que liberava sua mente às percepções mais sutis que havia. O controle sobre o próprio corpo era uma parte da Força que vinha descobrindo cada vez mais, mas significava muito mais do que maior força, velocidade ou equilíbrio, e percebera isso há pouco: podia sentir seus tecidos, suas veias, coração... Controlar até certo ponto o que ocorria em seu corpo, como nunca imaginara ser possível. E geralmente essas percepções lhe ocorriam após alguma vivência como a que tivera no X-Wing, poucas horas atrás. Ela se abria à Força, e quando retornava ao normal, já não estava tão “normal” quanto antes: quase sempre trazia das experiências novas sensações, pensamentos, ideias, intuições e informações que não imaginava. Memórias que não eram suas, experiências de outros seres, Jedi ou não, e a Força pulsando em si com ainda mais intensidade, como um segundo coração que parecia capaz de mantê-la viva, mesmo se seu coração de carne cessasse de bater.
Aqueles três dias na lua de Shili haviam lhe permitido saber muito acerca da Resistência, seus principais ideais, dissidências internas, métodos de atuação. Não que lhe houvessem contado, mas Rey observava e conseguia deduzir com relativa facilidade. Os demais sabiam disso, e permitirem sua presença ali era a prova de que a General Organa mantinha sua confiança inabalada. Mal havia pensado nisso quando sentiu uma presença se aproximar, e ouviu a voz de Gea em sua mente:
“Luke está vindo buscá-la, Rey”
— Eu senti, querida. Obrigada. – Rey desceu da árvore com um salto, pousando graciosamente diante do Mestre Jedi, que a fitava com alguma satisfação, e muitas perguntas no olhar. – bom dia, Mestre Skywalker.
— Temos de conversar, Rey – ele foi direto, mas não soou rude – sozinhos. Importa-se? – ele fitou a Tuk’ata, que mostrou levemente os dentes em demonstração de desagrado e contrariedade, mas acabou por se afastar mata adentro.
Finalmente a sós, Luke apenas genticulou para Rey, indicando que o seguisse e tomando uma trilha que seguia para uma ravina de rochas amarelas, brancas e vermelhas, ao fundo da qual corria um riacho cor de sangue, devido a seu leito ferruginoso. Ali, sobre uma pedra manchada de amarelo claro, branco e róseo, Luke se sentou de pernas cruzadas e indicou à jovem que fizesse o mesmo sobre outra grande rocha polida, o que ela fez sem questionar. Poderia muito bem ser outro teste, embora não fosse o que lhe parecia...
— O que houve, mestre Skywalker?
— Não quero falar com você como Jedi, Rey. Não apenas. – ele apoiou o queixo na mão, pensativo – você está aqui, em meio à Resistência, agora. Mas é a esposa de um tirano que deseja eliminar tudo pelo qual lutamos. Parece que está chegando a um limite, minha jovem: terá de escolher um lado.
Rey o fitou com incredulidade; teria sentido raiva, mas entendia a colocação de Luke, por mais que não concordasse com ela. Assim, empertigou-se e declarou com firmeza e convicção:
— Não sou uma traidora. De nenhum dos lados.
— Não penso que seja. Mas considerando que caminha na linha entre ambos, receberá pressão de todos os lados para trair a um ou outro. Seu marido exigirá que conte a ele o que sabe sobre a Resistência. E a Resistência não a olhará com bons olhos, se não se utilizar de sua posição para nos dar informações valiosas. Até onde acha que consegue lidar com isso?
— Os Jedi são guardiões da paz, não guerreiros. – respondeu ela, mais para si do que para o mestre – quando se esqueceram disso, tornaram-se apenas um exército de elite da República, ficaram cegos e deixaram um Lorde Sith assumir o poder, ao mesmo tempo em que criaram outro. – ela viu Luke franzir o cenho em desgosto, mas prosseguiu – o que me falou, sobre os Jedi terem de acabar, não estava errado. Os Jedi como haviam se tornado tinham, de fato, de terminar. Arrogantes, apegados a facções políticas e belicosos demais, além de tão desvinculados de qualquer sentimento humano, em sua obsessão por não se apegar a ninguém, que nada além da noção de dever os orientava realmente. E sem nada além do dever, sem nenhuma emoção ou laço profundo o bastante, que os fizesse se manter firmes num caminho difícil... Apenas uma força de caráter indizível porderia mantê-los na luz. – e antes que Luke abrisse a boca – e se não era assim, então por que tantos caíam para o lado Sombrio?
— Está se deixando contaminar pelo Lado Sombrio. Eu poderia ouvir essas palavras de Darth Sidious. – censurou o homem.
— Acha mesmo que estou pendendo ao Lado Sombrio? – desafiou a moça – então esquadrinhe a Força em mim! Sinta-a. E depois repita isso, se ainda tiver certeza do que fala. Porque sabe que está errado. Sabe que estou falando com base em bem mais do que minha limitada experiência, mas na história, e no que me foi contado por vários mestres, incluindo o senhor, e mestre Anakin.
Luke parecia prestes a dizer algo, mas um vulto vermelho e branco se fez notar quando Ahsoka se juntou a eles, equilibrada de modo improvável na parede íngreme, e a voz da mulher mais velha soou:
— Não está errada, Rey, embora deva se manter atenta para não se tornar arrogante no julgamento que faz à antiga Ordem Jedi. Mesmo em meio ao erro, havia a voz da sabedoria, e a questão não é se você está ou não pendendo à escuridão, uma pergunta já respondida por qualquer um que a sinta. O que queremos saber, verdadeiramente, é: quando chegar a hora, e ela chegará, cedo ou tarde, conseguirá isentar-se de seus envolvimentos pessoais e fazer o certo? Será capaz de superar os sentimentos que a ligam a seu marido e aos amigos que fez, para tomar a decião certa? Pois todos sabemos que um Império não pode ser uma solução correta por um simples motivo: por melhor que Kylo Ren venha hipoteticamente a ser enquanto governante... O que acontecerá, quando for sucedido? Será seu sucessor alguém com o espírito de Leia Organa, ou com o espírito de Vader? O poder absoluto jamais deve residir apenas em uma pessoa, e você compreende isso tão bem quanto eu. A seu modo, você vivenciou o que um caráter despótico pode fazer, quando viveu em Jakku.
Rey anuiu, contida e pensativa, analisando toda a verdade crua das palavras de Ahsoka, mas com uma pontada de frustração e irritação alfinetando sua mente ante a ideia de ter que escolher lados. Enquanto a mestra descia da encosta e – literalmente – caminhava à flor d’água, mal afundando as solas das botas no rio vermelho, a Padawan mudou inquietamente de posição, deixando seu desconforto evidente.
— Estou tentando lidar com um problema de cada vez, mestra. Acredito que possa demover Ben, realmente acredito com todas as minhas forças, e sei que ele tem uma luz intensa dentro de si, por trás da máscara de trevas. Mas enquanto isso, seu poder é algo útil para trazer um pouco de ordem e, inclusive, acabar com muito da criminalidade que reinou por mais de cinco gerações na galáxia. Snoke se aliou aos criminosos para aumentar seu poder, e com isso, direta ou indiretamente, a Primeira Ordem tem acesso à grande maioria deles. – ela respirou fundo – sei que esse jogo duplo é perigoso, e na tentativa de não trair nenhum dos dois posso acabar traindo a ambos, mas... Não posso simplesmente me aliar à Resistência agora. O Império iria fazer de tudo para esmagar a Resistência, e teríamos uma repetição do que houve durante o Primeiro Império. Bilhões de vidas inocentes perdidas, pegas no fogo cruzado. A Resistência luta por aquilo que é certo, não há dúvidas, mas guerra... – a moça respirou fundo e encarou fixamente os olhos de Skywalker – sempre tem um preço alto. Sempre desequilibra a Força, e nos cega para o panorama mais amplo.
Luke não deixou de notar o quão mais madura a Padawan vinha se tornando a cada dia; também não lhe escapou o desejo ardente da jovem de preservar e proteger os mais fracos, aquilo que todo Jedi deveria ter como seu código de honra pessoal. Porém, ao mesmo tempo em que se orgulhava da garota, receava as escolhas que ela vinha fazendo.
“Não sejam impacientes, jovens” disse uma voz masculina, fazendo o trio se virar para a figura venerável de Obi-Wan “política nunca foi resolvida em um único dia. E a situação é delicada demais para atitudes impulsivas.”
— O que isso quer dizer, mestre Kenobi? – indagou Rey.
— Mestre Kenobi concorda com suas ações, Rey. – declarou Ahsoka, quem melhor conhecia o ancião – assim como Luke e eu, ele sabe que chegará o momento em que uma escolha será inevitável, em que você terá de tomar um caminho ou outro. Mas por ora, pensa que suas ações pacificadoras e de mediadora têm sido muito mais eficazes.
“Não esqueçamos que, acima de tudo, a Resistência ainda não reuniu todos os seus aliados, e está enfraquecida.” Kenobi pareia desconfortável “mas eu não deveria ter de lhes falar isso. Compreendo que a preocupação nuble suas mentes, mas não posso admitir que dois mestres experientes ocupem-se mais de pensar racionalmente em tentativas de adivinhar, do que captando os claros sinais que a Força lhes deixa.”
A censura fez Luke e Ahsoka parecerem dois younglings, corados e baixando os rostos em aceitação, e Rey não podia julgá-los: Obi-Wan não preisava sequer alterar o tom de voz para fazer alguém se sentir ridículo com os próprios erros.
— Não se trata disso, mestre Kenobi – declarou Luke – mas de saber onde está o coração de Rey. Se ela terá, no momento necessário, a força moral de fazer o certo.
“Quem pode dizer?” Sorriu o ancião. “ao acordar, não somos a mesma pessoa que éramos ao dormir, e muitos meses correrão antes de ta decisão não poder mais ser contornada. Mas onde está sua esperança, jovem Skywalker? E acima de tudo... O que Yoda lhe diria?”
Luke cerrou os punhos e murmuro para si mesmo:
— “tire os olhos do horizonte, veja o aqui e o agora, ou nunca enxergará claramente.”
“Um conselho que a Padawan felizmente começou a ouvir. Você faria bem em ser seu aliado, em vez de procurar por falhas no caráter da jovem. O que se passou com Ben Solo não se repetirá com Rey. São pessoas diferentes, e sequer você é o mesmo.” A seguir, voltou-se para Rey “E você, criança: precisa confiar. Tudo na vida lhe ensinou a não o fazer, mas terá de confiar em seus mestres sem pedir provas para isso. Fé. E se não for capaz de fazer tal coisa, então seu propósito já está fadado a fracassar, pois esperança é a fé no amanhã. Se não puder ter fé sequer no que é real e está ao seu redor, como poderá ter naquilo que é apenas uma probabilidade?”
Ahsoka nada dizia. Era a mais serena do trio, apenas ouvindo; o isolamento na floresta lhe dera muito tepo para pensar e se colocar em ordem consigo mesma, com o passado e tudo o que acontecera. Ela estava no presente, e conhecia a situação; há muito aprendera a não se desesperar, e embora não fosse Cavaleira Jedi, aprendera em seu treinamento como a serenidade de mente e espírito fornecia invariavelmente as melhores respostas.
— Mestre Kenobi, um à parte, por favor – disse a togruta – e sobre o que conversamos anteriormente?
“Os Mestres encontrarão Rey a seu devido tempo. Quando fizerem a viagem para Rakata Prime, leve-a primeiro a Lothal. Ele as estará esperando.”
A frase despertou inúmeras perguntas na cabeça da humana, mas pareceu responder todos os questionamentos da mais velha; por vezes, a garota queria ser outra vez a menina que se defenderia com seu bastão de tantas pessoas falando em enigmas! Agora, receava que por vezes ela mesma cometesse tal deslize... O último ano definitivamente a mudara para sempre.
— Mestre – começou Luke, novamente – disse para confiarmos um nos outros. Para eu confiar em Rey, mais precisamente. Mas e quanto a Kylo Ren?
“Ele já não é de sua responsabilidade. O ajuste de contas sempre vem, é certo, mas nem sempre tem de ser por vias desagradáveis. Tire esse fardo de sua mente, e ocupe-se do agora, como tem feito. Não pense no rapaz: Rey é seu correspondente na Força, e também sua companheira. Eles cuidarão um do outro, e sua fé cuidará de ajudar Rey a se manter no caminho correto.” O fantasma virou-se de costas, fitando o curso superior do rio “quando olho para o passado, posso encontrar muitas explicações e respostas para o presente. Assim como olho para a cabeceira de um rio e vejo o que as águas carregarão consigo para a foz, olho para trás e vejo um menino que, sem nada além de amor e fé, trouxe de volta das trevas alguém que todos consideravam perdido.” Obi-Wan encarou o trio novamente “esperança, jovens. Esperança, e fé na luz, em sua capacidade de brilhar e alcançar mesmo a caverna mais profunda, se for dada uma ínfima chance.”
Sem se despedir com palavras, Kenobi sorriu e sua imagem desvaneceu num leve brilho esbranquiçado, até sumir como névoa ao sol. Havia uma sensação de terem ouvido o que necessitavam, e ficaram os três calados por algum tempo, antes que Rey enfim se levantasse, incomodada com a inatividade ante o pouco tempo de que dispunha:
— Bem, Mestre Kenobi foi claro. Vamos voltar e decidir o que o que fazer?
Ahsoka deu um sorriso de canto, divertida, e arqueou os sobrolhos para Luke, que escondia um leve divertimento: padawans... Algumas coisas jamais mudavam. Ao menos suas questões mais preocupantes estavam sanadas, e de mente limpa continuariam o percurso adiante. Hora de voltar para junto de Leia e os demais, e traçar os planos adjacentes ao jogo que mantinham com o Império. As coisas estavam prestes a ficar ainda mais interessantes.
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