Rise of Jedi

17 Rakata Prime - parte dois


Notas iniciais
Oiiiii! Sim, eu tive um surto criativo e consegui escrever esse capítulo antes de começarem minhas semanas de prova, hahahahahaha! Agradecimentos à senhorasolo e à Night Lady! E, claro, a todos os leitores maravilhosos que acompanham essa fic! Boa leitura!

Rey se apoiou em seu bastão, parando por alguns instantes a subida pela encosta arbórea a fim de observar a cidade tão abaixo. Uma semana naquele planeta, e parecia fazer mais de um mês! Entre o treinamento Jedi, os estudos políticos e históricos com Eilenia, os treinos de combate desarmado com a capitã Nehaen – a qual parecia especialmente empenhada em levar cada músculo da moça ao limite do esgotamento – além do papel que desempenhava ao lado de Kylo Ren – não tinha um nome para isso, mas Brenwen a chamava por brincadeira de “consciência do imperador”, por chama-lo à razão e impedir tanto quanto possível as decisões precipitadas, ao mesmo tempo em que o ajudava a lidar com toda aquela nova situação – ela sentia profunda necessidade de se afastar um pouco, ter algum tempo só para si. Assim, pegara um speeder e atravessara a cidade até chegar às margens da floresta: tivera tempo de perguntar sobre a fauna local, e nenhuma fera local lhe parecia ameaça maior do que o sufocamento que experimentava ao menos uma vez ao dia.

Agora, sozinha com seu cajado e o sabre de luz duplo, abria-se à Força e deixava-se guiar por uma trilha bem marcada, não por pés, mas por uma corrente de energia diferente das demais... Como um campo eletromagnético emitido por algo que parecia tudo, menos sombrio; comparado às faixas escuras e à energia selvagem predominantes, era uma energia quase suave... Chegava a ser luminosa, mas dispersa e tênue, incentivando a curiosidade da Jedi, cujo caminhar ao acaso acabara de ganhar novo propósito!

Escalou uma rocha alta em saltos que visavam unicamente testar seu desenvolvimento atlético, mais do que satisfeita ao conseguir vencer o obstáculo com apenas três movimentos, e continuou em frente. A energia se tornou mais intensa, e ela olhava para todos os lados à procura de sua origem: parecia estar em cima da fonte, ou de parte dela, mas não encontrava coisa alguma... Até que seus pés fizeram rolar uma lasca de pedra, que brilhou por um segundo antes de tornar-se fosca novamente. Que intrigante! A mulher se abaixou e pegou a rocha nas mãos, sentindo emanar dela um pouco daquele campo luminoso experimentado: pelo que seus sentidos captavam, havia mais dessas, e dedicou-se a procura-las e reuni-las em uma pequena pilha. Ainda não tinha certeza do que fazer com elas, mas uma ideia começava a se delinear em sua mente.

— Sempre criando algo, padawan? – a voz de Obi-Wan soou atrás da moça que, contudo, não se surpreendeu. Quase esperava por algo assim, em verdade, e apenas respondeu:

— Pensei que haviam se esquecido de mim – ergueu-se com um sorriso e indiciou com a cabeça a pilha de pedras – o que são?

— Cristais que se tornariam kyber, se não houvessem tido sua formação interrompida por efeitos geológicos e pela sombra deste planeta. Geradores de campo, basicamente. Amplificam qualquer energia que recebam. – Ele viu os olhos da moça brilharem, e apressou-se em dizer:

— Sim, uma quantidade razoável destes pode formar um espaço isolado da energia externa, um santuário de luz... Mas também se faria sentir pelos que dominam a Força. E usado por um Lorde Sombrio, seria um catalizador de destruição.

— Ainda assim, posso criar um santuário para meditar sem influência do Lado Sombrio. Algo que me isole das influências sombrias externas. – havia empolgação na voz da jovem, que improvisou a barra da túnica longa como uma bolsa para acomodar as pedras enquanto avançava mais e mais floresta adentro. Seguia no sentido oposto àquele do qual se espalhava uma onda sombria, originada pela presença longínqua do Templo dos Antigos, criado ainda no Império Rakata. Procurou por ilhas de campo neutro, sempre sob o olhar atento de Obi-Wan; incomodada, não conseguiu ficar calada ante a clara percepção de que ele tinha algo a dizer.

— O que houve, Mestre? – Perguntou, deixando as pedras no chão e erguendo-se para encarar o fantasma – quer me dizer algo, mas hesita.

— Sim, Rey. – ele se sentou no chão displicentemente indicando que ela fizesse o mesmo – ainda possui a esfera que Anakin lhe deu?

Em resposta, a garota retirou do bolso o objeto que jamais deixava fora de seu alcance: era algo que a ajudava a se concentrar, meditar, e quanto mais contemplava a esfera, melhor noção conseguia sobre a natureza da interação entre a luz e as trevas.

— Ela tem me ajudado a manter a sanidade em meio a tantos loucos.

— Perfeito. – ele respirou fundo, parecendo muito incomodado – Luke está preocupado com sua presença neste planeta. Teme que o Lado Sombrio a atraia em demasia.

— Mestre Luke duvida de mim, de minha lealdade à luz – havia uma pontada de mágoa na voz de Rey – não posso culpa-lo, mas mentiria se dissesse que sua dúvida não me parece injusta.

A esfera flutuou da mão da padawan até a do fantasma, onde permaneceu flutuando em redor de seus dedos com movimentos em forma de oito; Obi-Wan pareia sempre tranquilo, inabalável... Gostaria muito de, um dia, alcançar aquele grau de serenidade imperturbável. É claro que ser casada com Ben Solo não contribuía para tanto, uma vez que ele era a causa majoritária de suas oscilações, e foi difícil não pensar na briga terrível de dois dias atrás, sobre a escravidão institucionalizada.

— Luke segue unicamente o caminho da luz. Não admite as trevas em si, e teme por você ao sentir que seu caminho é em tudo divergente de qualquer coisa que tenha visto, antes.

— Divergente? – ela se confundiu – mas, Mestre Kenobi... Tenho feito absolutamente tudo para manter fiel e... – o fantasma ergueu a mão, fazendo-a se calar com o gesto gentil:

— Não é uma crítica. A polarização entre luz e trevas, e a crença de que não podem coexistir em um ser, foi o que gerou o cisma entre os Jedis e criou a Ordem dos Jedis Negros, a qual veio a se tornar a Ordem Sith. Também foi o que fez muitos bons Cavaleiros caírem para as sombras, pois sentiam as trevas em si, e não sabiam como lidar com elas... A visão maniqueísta da velha ordem causou arrogância e destruição, lançando-nos numa guerra milenar entre usuários da Força, a qual se refletiu na vida de pessoas que não deveriam ter sofrido por nossas ações. Alguns poucos Jedi enxergavam além dessa polarização: compreendiam o mundo de forma mais abrangente, e foram chamados Jedis Cinzentos, duramente censurados pelo Conselho. É irônico que tenha sido um desses cavaleiros a descobrir como utilizar a Força para retornar do pós-vida e orientar os que permaneceram: meu mestre, Qui-Gonn Jinn. Você me lembra dele, em muitos aspectos.

— Está dizendo que sou uma... Uma Jedi Cinzenta.

— Estou dizendo que tem seguido o caminho para se tornar uma. O que você é, contudo, Rey, apenas você mesma pode decidir. – ele lhe devolveu a esfera – foi capaz de sentir o Equilíbrio onde outros sentem e veem apenas trevas. Não perca essa capacidade: o Equilíbrio não é a supremacia da luz, mas a coexistência das duas polaridades em harmonia, seja dentro de nós, ou fora.

— Como um imã – ponderou a moça – não importa em quantos fragmentos o despedace, cada fragmento terá um polo positivo e um negativo, exatamente como a peça original. Mas por que os Jedi temiam a polaridade? Quer dizer, é natural!

— Pensamos que suprimir as trevas era um modo de impedir os jovens de serem atraídos para ela. Um engano perpetuado pela tradição, que se tornou dogma, e receio que a Ordem tenha se tornado dogmática demais, impedindo a evolução pela repressão aos questionamentos de suas regras. Quando perguntas são reprimidas ou censuradas, em vez de respondidas, a fraqueza é clara. – Kenobi parecia perdido em pensamentos – a Ordem está renascendo com você, Rey; aprendeu sozinha a distinguir o certo do errado, o bem do mal...

— Ainda tenho dúvidas, Mestre. Nem sempre sei o que fazer.

— Todos têm dúvidas. – o olhar do ancião era terno e benevolente – quando deixar de tê-las, atente para a possibilidade de estar se tornando arrogante ou. Pior ainda, fanática. Mas quando a dúvida for grande demais, olhe para seus sentimentos, deixe a Força guia-la, e encontrará as respostas. – ele se ergueu e fitou as pedras – você manifestou suas dúvidas naquela noite, durante o desembarque, mas creio que não precise de uma resposta verdadeira. Você sabe o que é certo ou errado.

— Sei que a liberdade é o caminho certo. A igualdade, o livre-pensamento... Mas não consigo ver isso na história recente de nossa galáxia. Há mais de cem anos a liberdade, igualdade, todos os ideais que deveriam nortear a República e os Jedi se tornaram demagogia, e a corrupção se tornou institucional, inviabilizando uma democracia real. Estou atrelada a este Novo Império, e sei que isso é errado, mas uma guerra seria pior ainda, mesmo porque, ainda que os sistemas independentes restantes pudessem sair vitoriosos, e não têm como, têm bases fracas e incapazes. Apenas repetiriam o cenário político da Nova República, mais preocupados em disputar internamente por ideologias menores do que em defender a única coisa realmente importante: liberdade. Agora, sinto minhas mãos atadas, como se lutar por esses ideais significasse lutar contra TODA a galáxia. Não parecem haver caminhos diretos e claros...

— Conheci um rapaz, uma vez, para quem nem sempre o caminho certo é uma linha reta. – ele ajeitou uma mecha dos cabelos de Rey, que caíra sobre a testa – às vezes precisamos fazer um desvio para chegar aos nossos objetivos.

— Quem disse isso? – perguntou a moça, o bastão apoiado nas pernas cruzadas, intrigada com o que o Mestre lhe contava.

— Han Solo. – respondeu ele – alguém muito experiente, tanto em fazer a coisa certa, quanto em executar desvios para esse fim. E, se não acreditar em mim, pergunte a Leia Organa, quando a vir.

A Jedi sorriu, usando a Força para mover as pedras – dez ou doze delas, do tamanho aproximado de um punho – em espirais e círculos fluídos. Por algum motivo, isso a acamava e ajudava a se concentrar, por obriga-la a se desligar de tudo o mais e se concentrar na dança das pedras a fim de que não se chocassem um com as outras.

— Está me dizendo para ter paciência, e continuar o que tenho feito? – ela encarou o fantasma sem deixar de sentir cada objeto, ainda que tenha diminuído o ritmo das rochas.

— Sim. Meu mentor, Qui-Gonn, também adotava essa estratégia; nem sempre era pragmático, ou seguia à risca o Código Jedi, mas foi um dos homens mais admiráveis que conheci. Vejo em você a mesma habilidade dele para transformar uma situação desfavorável em um degrau para um “plano B”; não desperdice isso.

— Eu apenas tenho dúvidas acerca do quão correto tem sido meu plano B.

— Consegue imaginar uma posição melhor do que a sua para influenciar os acontecimentos?

— Kylo Ren é um empecilho constante para qualquer mudança para o bem. – ela deixou as pedras pousarem no chão e baixou a cabeça – eu não consigo entender... Ele se recusa a aceitar que possui também luz dentro de si... Faz de tudo para negar sua essência, tortura a si mesmo...

— Paciência, padawan. Paciência. Ele esteve sob a influência de Snoke durante mais tempo do que você imagina, e apegou-se à dor, ao sofrimento e à sensação de inadequação do seu ser mais profundo de um modo que não será rompido em alguns poucos meses.

— O que aconteceu com Ben, para que ele tenha mergulhado tão profundamente necessidade de ser outra pessoa?

— Isso eu não posso revelar. Ele mesmo terá de lhe dizer.

— Entendo... Mas como posso ajuda-lo?

— Apenas seja você. – Kenobi se endireitou e fitou a cidade abaixo – pode parecer pouco o que está fazendo, mas está lançando as raízes de algo sólido. A luz e o amor são as únicas coisas que ainda podem resgatar Ben Solo, a Resistência, a liberdade. Ainda é muito jovem para enxergar como suas ações repercutem num futuro distante, mas creia: se persistir neste caminho, encontrará aliados valiosos, e juntos conseguirão recriar o que jamais deveria ter sido perdido: o verdadeiro equilíbrio. O verdadeiro propósito da Ordem Jedi e, com um pouco mais de esperança... A verdadeira paz. Apenas acredite, e não esmoreça.

— Eu o farei, Mestre Kenobi. – não eram as resposta que queria ouvir, mas de algum modo ele confortara seu coração e a ajudara muito mais do que com diretrizes acerca de como prosseguir; deixava-a livre para encontrar o caminho, afirmava a confiança nela, mas alertava-a para que se mantivesse fiel a si mesma e a seus princípios. – obrigada por sua orientação.

— Nada acontece por acaso, Rey. Sua presença neste lugar, neste momento, é apenas mais uma lição que deve aprender, e mais uma oportunidade de transformar uma situação adversa em ferramenta, como aprendeu tão bem a fazer. Concentre-se nisso, e terá sucesso. – ele estava prestes a partir, mas havia uma última coisa a dizer – mantenha-se atenta: você é mais odiada do que pensa, mas possui aliados onde não espera. Encontre-os, e saiba diferenciar amigo de inimigo.

Em resposta a padawan curvou a cabeça respeitosamente, e quando ergueu os olhos, Kenobi não estava mais lá. Assim, levantou-se e deu continuidade a seu intento inicial: estava em uma clareira pequena, com uma pedra lisa ao centro; em redor da pedra maior ela dispôs os fragmentos que encontrara em um círculo, sentindo o campo de Força luminosa se formando entre as peças. Um santuário onde meditar, cercada pela luz mesmo num dos planetas mais sombrios – talvez O mais sombrio – da galáxia. Com um sorriso, sentou-se ao centro e respirou fundo, esvaziando a mente e deixando que a luz a preenchesse, revigorando-a. Em seu subconsciente, porém, as palavras de Obi-Wan continuavam a ecoar, trazendo consigo paz, firmeza de propósito e a certeza de que poderia fazer a coisa certa, não importavam quantos desvios tivesse de tomar para isso.

*

— Hoje é nossa vez de lhe dar uma bronca pelo atraso? – perguntou Brenwen, estendendo a mão para ajudar Rey a se recompor; meditando em seu santuário, perdera a noção do tempo e retornara depois do toque de recolher, o que lhe rendera incontáveis tormentos até chegar à Fortaleza Vermelha. Os olhos da adolescente se estreitaram ao ver a mancha de sangue no flanco direito da mestra – o que aconteceu?

— Fugir do toque de recolher é de matar – brincou a Jedi, mãos apoiadas nos joelhos, ofegante – as patrulhas não perguntam, apenas atiram. Esse pegou de raspão em mim, mas não posso repetir as coisas que Ranktor disse ao ver o estado do speeder.

— Mestra, isso está feio – declarou Asala, vendo o corte cauterizado de cinco centímetros – melhor ir para a ala hospitalar.

— Foi de raspão. Não se dá pontos em tiros de blaster, e eu não vou ficar duas horas esperando que um droide termine de reparar uma ferida tão pequena.

— Está bem, não vá à ala hospitalar – declarou Brenwen – mas EU vou tratar isso. Pelo menos passar algo que evite uma infecção. – e sem esperar por protestos da mais velha, começou a procurar pelo equipamento de primeiros socorros nos aposentos da mestra. Sim, pois embora Rey e Kylo dividissem o quarto de dormir, possuíam salas anexas separadas para trabalho, estudo ou simplesmente quando ficar juntos no mesmo aposento consistia em risco de assassinato mútuo. O ambiente interno era de um azul pálido acinzentado, como rocha calcária, com detalhes em cinza mesclado; os móveis eram simples e em tons mais escuros de cinza mesclado com branco, as formas curvas onipresentes. Os sofás semicirculares em redor da holotela possuíam estofamento azul-cobalto, assim como as poltronas voltadas para as grandes janelas ovais de transparisteel. A própria Rey se encarregara de improvisar vasos com madeira e pedras e trazer algumas plantas para dentro de seus aposentos pessoais, espalhando-as pelos cantos de acordo com sua necessidade de luz, apaixonada que era pelos tons múltiplos de verde e pela vida que traziam ao ambiente. Do lado esquerdo havia um arquivo físico e um painel de arquivo digital, uma mesa de trabalho para até seis pessoas com projetores de telas e livros holográficos. Um grande tapete azul se estendia pelo chão no largo espaço entre os sofás com holotela e a mesa de trabalho, espaço suficiente para a moça se exercitar, e junto à parede vazia havia estantes com equipamento para treinamento físico (como algumas armas que ela ainda não tivera desejo de experimentar) e material de primeiros socorros. Foi ali que Brenwen encontrou um antisséptico e gazes termoativas para queimaduras, que absorviam todo o calor excedente do ferimento, impedindo que se expandisse ou exsudasse mais líquido.

— Incomoda-se? – perguntou a adolescente, olhando para a blusa rasgada da mestra, que a dobrou para expor a parte inferior do flanco, revirando os olhos. Parecia muito desnecessário, mas a outra estava irredutível. Afinal, o que era o ardor de uma queimadura? Já passara por tanta coisa pior.

Sentiu as mãos da jovem começarem a espalhar o antisséptico, e algo estranho começou a acontecer: um formigamento, a nítida sensação da Força em movimento, e o súbito desaparecimento da dor. Confusa, perguntou:

— Pegou um anestésico?

— Não. Na verdade, isso deveria ter feito você dar um grito... – respondeu a humana mais moça. Rey virou o rosto e fitou a ferida, olhando em seguida para Bren:

— Faça de novo.

Hesitante e confusa, Brenwen passou mais um pouco da solução sobre o ferimento, e o ardor fez Rey ofegar; de imediato a mais moça exclamou:

— Já vai melhorar – e pressionou a compressa, e num ato instintivo fez a Força fluir, sem pensar ou hesitar. Os músculos de Rey relaxaram com a ausência de dor, e seus olhos se voltaram admirados para Brenwen:

— Foi você! Tem a capacidade de eliminar a dor. – sim, com certeza fora a menina quem inibira o ardor na ferida, pois assim que ela se afastou, a incômoda queimação retornou – ai! Sim, com certeza foi você!

— Mas... Como? – a corelliana fitava as próprias mãos, confusa – isso seria um dom de cura... Dons de cura eram raros, algum acharam que nem eram reais, de fato...

— Minha avó falava de Jedis capazes de manipular a mente dos outros para bloquear sensações físicas, e mesmo emoções. Não era apenas o controle da mente comum, que todos praticavam, era algo mais... Mais profundo, mais sutil, a pessoa sequer percebia o que estava sendo feito, e podia ter seu humor transformado, deixar de perceber uma ferida incapacitante, ter pensamentos que não lhe pertenciam. Não hipnose, não controle das ações, mas manipulação da mente em sua estrutura... Era raro, e alguns temiam que fosse usado para o mal, mas tinham um poder enorme. – disse Asala, jubilosa pelo êxito da mais velha.

— Dom de cura ou habilidade mental para isolar a dor... De algum modo, você usou a Força para bloquear a sensação de dor, ou trata-la. – Rey se levantou, arrumando a camisa e vestindo uma túnica superior para esconder a ferida, visivelmente orgulhosa da padawan – é uma habilidade maravilhosa!

— Não sabemos nada sobre ela – disse a adolescente – nem mesmo como agiu, se na mente ou no corpo.

— Conheço pessoas que devem saber. – ela pensou nos Mestres da Força, e logo depois uma segunda alternativa lhe surgiu, para que Brenwen pudesse ouvir pessoalmente – e também há os Miralukas do serviço médico... Muitos usam a Força para fins curativos.

— Acha que podem nos ajudar?

— Acho que podemos descobrir se algum deles é confiável o bastante, para isso. – A Jedi não resistiu e abriu um sorriso sincero – está florescendo, princesa! Veja o que é capaz de fazer, quando deixa a Força fluir!

A humana mais jovem corou e baixou os olhos com um sorriso tímido, porém triunfante! Um sucesso inesperado era duas vezes mais bem-vindo! Sentia orgulho de si mesma, ao mesmo tempo em que sua confusão aumentava por não saber exatamente como fizera aquilo. Rey lhe dirigiu um olhar encorajador:

— Encontraremos respostas. Enquanto isso, continuamos com o treinamento, e manteremos em segredo... – ia dizer algo mais, porém sua holomesa transmitiu uma mensagem, projetando a imagem de Durgard Teff:

— Rey, preciso que venha o mais cedo possível à central de engenharia de naves. Tenho algo importante a lhe mostrar. – a mulher franziu o cenho, curiosa com o que poderia fazer Teff chama-la com urgência àquela hora, mas sentia que deveria ir.

— Vêm comigo?

— Podemos ficar aqui e pesquisar sobre essa habilidade de Bren – sugeriu Asala.

— Sim – concordou a corelliana – no sistema clandestino de Lena; quando soubermos alguma coisa, talvez possamos ir ao centro médico e... – a voz de Rey a interrompeu:

— Não. Por favor, não falem a ninguém sobre isso, por hora; aqui, o segredo é nosso aliado. – ela viu Brenwen torcer o rosto – eu sei que está ansiosa para saber mais, mas não vamos nos precipitar. Temos de ter certeza quanto a quem é ou não confiável; não seria uma boa ideia as pessoas erradas descobrirem que você possui uma habilidade como essa.

— Conheço os membros da Primeira Ordem há mais tempo do que você, Rey. Fui criada aprendendo a discernir em quem posso ou não confiar, preparando-me para o mundo da política; acho que posso fazer julgamentos por conta própria.

— As coisas mudaram do momento em que se tornou uma padawan, Brenwen. As pessoas passaram a vê-la como alguém diferente. – disse Rey, percebendo claramente que a outra encarara a negativa como uma tentativa de cerceá-la – o segredo é seu, mas jurei protegê-las, e é o que farei. Se não confia em meu discernimento, ao menos peça ajuda a Eilenia, mas não se precipite.

A humana loira fitou a jedi de modo desagradado e arrogante, mas finalmente anuiu:

— Ficaremos aqui, estudando. Não iremos a lugar algum, a não ser nossos aposentos, se ficar tarde demais. – Asala suspirou com a clara hostilidade da outra: às vezes desejava bater na cabeça de Bren, por agir de modo tão desconfiado, arrogante e ingrato para com Rey.

— Mestra, vai nos chamar, se precisar, não vai?

— Claro, Asie. – estava irritada com a necessidade constante da princesa humana por desafiá-la e contestar tudo o que dizia, como se cada gesto seu fosse um embate para saber quem era mais capaz. Detestava aquela competição, a qual pensara estar a caminho de desaparecer, nos últimos dias, e que agora ressurgira com força – se eu não for voltar a tempo, mandarei um droide avisá-las. – e com essas palavras, deixou o recinto. De imediato a menina Togruta se voltou para a outra:

— Por que você faz isso?

— Isso o quê?! – fazer-se de desentendida funcionava, por vezes, já que Asala não gostava de brigar. Não adiantou, porém, naquele dia.

— Manifesta essa hostilidade, sem motivos. Contesta tudo o que Rey diz, tudo o que sugere... Faz com que ela se sinta mal e duvide de si mesma.

— Ela pretende ser nossa mestra, Asie, mas tem tanta ideia do que está fazendo quanto nós! Como pode tomar alguma decisão, saber o que é melhor, quando está aprendendo agora coisas que sabemos desde os seis anos? Ela veio de um lixão: de repente descobriu que é boa com um sabre de luz, e acha que pode tomar decisões por mim, que passei a vida sendo treinada para tomá-las?

— Ela está tentando nos proteger, e o que você falou agora é extremamente cruel! – protestou a criança, ficando em pé – ela não está tentando “nos dar ordens”, e fomos nós que procuramos por ela, lembra? Que aceitamos ser suas padawans, pedimos sua orientação. Foi ela quem nos ajudou a controlar a Força, e colocou-se numa posição em que é praticamente um escudo, para nós, mantendo os Cavaleiros de Ren longe. E por mais que tenhamos mais estudo do que Rey, ela entende a Força de um jeito que nós não fazemos. Tem uma sensibilidade maior, o bastante para conseguir entrar em contato com os Mestres da Força; isso significa alguma coisa, não acha? Além disso, ela ter “vindo de um lixão”, sobrevivido e aprendido tudo o que aprendeu... Devia fazer com que a valorizasse, não desdenhasse dela.

— Está defendendo-a como se houvesse sido Rey quem cuidou de você nos últimos cinco anos. – acusou Brenwen.

— Você é minha irmã, Bren, e eu nunca vou me esquecer de tudo o que fez e faz por mim. Mas não vou ficar calada quando achar que está errada, e eu sei que está, agora. Você nunca foi assim, e não sei porque está agindo desse modo com a única pessoa, além de Eilenia, que realmente quer nos ajudar.

— Você é criança demais para entender. – cortou a outra, virando as costas e se sentando na mesa de trabalho, abrindo diante de si uma tela – vai pesquisar?

Asala meneou a cabeça, furiosa: podia ter apenas onze anos, mas a vida se encarregara de amadurecê-la depressa o bastante para compreender coisas que deveriam lhe passar despercebidas. Com as mãos na cintura, censurou:

— Seu orgulho vale tanto assim? Não consegue engolir um pouco a arrogância e admitir que alguém pode saber mais do que você, ou ser melhor em algo, sem transformar essa pessoa em rival? – ante a persistente mudez da outra, lutou contra uma lágrima que tentou escapar: Brenwen era a pessoa que mais amava depois de sua avó, e aquele comportamento doía – ótimo! Se não tem nada a dizer, também não tenho porque ficar aqui. – virou as costas e saiu à procura de Eilenia, frustrada, magoada e sem entender por que a mais velha insistia em alimentar rivalidade e desdém, em vez de amizade e cumplicidade. Não fora esta a Brenwen que sempre conhecera.

*

— Tem certeza disso, Teff? – Rey se debruçou para mais perto dos pedaços reconstruídos das naves zagarryanas e rodianas que a haviam atacado; o raio trator da nave capturara os destroços, e o engenheiro de naves se dedicara a rastrear os planetas que haviam servido como último porto, antes do ataque. Com os números de identificação das peças, identificara as naves (após atravessar os infinitos becos sem saída que eram as naves mercenárias, em sua maioria mantidas por peças contrabandeadas, arrancadas de outras naves, compradas em entrepostos duvidosos como Niima) e os voos haviam sido rastreados até... Corellia. Um planeta dividido entre o comando da Primeira Ordem e um governo que lutava pela libertação. Mais especificamente, partidas de hangares na metade insubmissa do planeta.

— O rastreamento foi eficaz. Registradas como naves em pouso de emergência para reparos, sem carga. – ele a encarou – alguém aqui dentro a odeia muito, e quer fazer pensar que os independentes a atacaram.

— Os portos foram para despistar. Corellia não iria ME atacar, especialmente perto da Supremacy. Pousaram sob alegação de necessidade de reparos, não foi?

— As naves estavam muito danificadas.

— Consegue rastrear portos anteriores?

— Consigo rastrear qualquer coisa que conste num sistema planetário. – ele sorriu para a moça – até mesmo os que não pertencem à Primeira Ordem. Basicamente, se uma nave pousa em algum lugar, preciso apenas de alguns números de série e identificação para saber todos os hangares em que esteve desde que foi construída.

— Você é o melhor, Teff – riu Rey, agradecida – e não tenho como agradecer por ter continuado esta investigação. Sei o quão trabalhoso deve ter sido...

— Fui eu a me oferecer, menina, então nem pense em agradecer. Deixe para quando eu conseguir algo que possa identificar de fato onde os mercenários foram contratados, certo? – ele deu um tapinha carinhoso no ombro da moça – eu disse que iria querer ver isso de imediato.

— Certamente! Obrigada por me avisar. – ela pegou um pano sujo sobre a bancada e limpou as mãos, manchadas de graxa após manusear as peças reconstituídas. Estava num dos galpões da engenharia de naves, situada no perímetro do hangar: basicamente um grande vão coberto, repleto de protótipos de naves, jets, speeders e maquinário em geral, pelo qual iam e vinham droides de várias funções, bem como engenheiros, mecânicos e pilotos de testes. Rey adorava aquele lugar! – queria ajudar mais por aqui, mas o dia parece curto demais para tudo o que tenho de fazer.

— Sei como se sente. – ele fitou o pesado caderno de anotações e esboços onde fazia seus cálculos e análises da evolução de cada projeto – em uma ou duas semanas iremos testar um novo caça, baseado nos X wings, mas dotado de oito asas, com eixo de rotação horizontal, motores reversíveis e inversão horizontal da cabine. Ou seja...

— Mobilidade total das asas, com possibilidade de inversão do sentido... Manobrabilidade completa! – empolgou-se a jedi – são aqueles planos que...

— Aqueles sobre os quais falamos, quando Eilenia nos apresentou. Suas ideias foram muito úteis, seria justo que fosse a primeira pessoa a testar o modelo finalizado. – e completou – se sobreviver a você, passou também no teste de resistência.

Rey revirou os olhos com um sorriso e deu um tapa carinhoso nas costas de Teff:

— Obrigada, Teff. Por tudo.

— Sempre às ordens para uma amiga. – devolveu o Durosiano, enternecendo a moça com a palavra usada. – volte com mais frequência, Rey: gosto de sua companhia.

— E eu da sua. Tentarei fugir para cá mais vezes, eu prometo.

Trocaram uma despedida breve, e a jovem pediu a um droide mensageiro que avisasse às padawans em sua sala de trabalho que não retornaria tão cedo; saindo do galpão, ia procurar por Eilenia quando, subitamente, um pressentimento a atingiu. Ela sequer hesitou antes de tomar a direção das unidades militares, onde sabia que encontraria a fonte da perturbação sentida: Kylo Ren.

*

Kylo estava na central de comando militar, após receber o relatório das operações em andamento no Império: ordenara o confiscar de armamento de quatro sistemas potencialmente problemáticos, e as operações seguiam sem grandes reveses, graças à presença dos destroieres estelares de categoria similar à Finalizer – no momento sob o comando do almirante Zanos, em missão na orla média, encerrando um conflito interplanetário local no qual estava envolvida a ação de saqueadores. No dia anterior transmitira uma holomensagem aos planetas problemáticos, assegurando que a população civil não seria molestada conquanto as ordens de desarmamento fossem seguidas, e prometendo devastação e morte para os desobedientes. Funcionara, pois os grupos paramilitares haviam cessado suas atividades. Quanto às atividades dos saqueadores, haviam sido reprimidas com total violência, deixando uma mensagem muito clara: aquele governante não aceitaria o caos e a desordem.

Em resposta às ordens de debelar as atividades criminosas da Orla Média – dadas ainda a bordo da Supremacy — Kylo recebera naquela manhã mais ou menos duas dúzias de carteis outrora “aliados” da Primeira Ordem. Descartara a maioria delas sem sequer ouvi-las, mas não poderia ignorar Sibera Nutt, um Nautolano no comando do maior cartel de tráfico atual – rivalizando com o que Rinrivinn Di um dia comandara — especializado em “cargas vivas” – escravos – e armamento. Ao abrir a mensagem, fez-se ver a imagem projetada de um Nautolano com pele castanha coberta de cicatrizes, trajes cujos componentes pareciam uma mistura de todas as culturas da galáxia e tentáculos adornados por todo tipo de anel, faixa e cordão com contas. Poderia parecer ridículo, mas a postura do contrabandista revelava mais sobre si do que seu aspecto: era um homem acostumado a ser obedecido, um líder, comandante de uma máfia, e não estava nada satisfeito, no momento.

— Saudações, Lorde Ren – a voz soou metálica pela transmissão, mas ainda carregava o tom de desagrado e raiva contida – Espero não me reportar em má hora, mas estou certo de que Vossa Majestade Imperial pode encontrar alguns momentos para ouvir um “amigo” de longa data. – uma pausa dramática, antes de prosseguir – perdi cinco cargueiros em uma ação da Finalizer na Orla Média. Ação ordenada pelo senhor, o que me deixou bastante confuso: ainda somos aliados? Devo encarar esta perda substancial como um rompimento de laços, ou apenas um mal-entendido da parte de seus comandados? E, neste caso, que tipo de compensações pode me oferecer para que continuemos nossos valiosos vínculos? Estou sempre pronto a servir, e tenho sido por duas décadas o mais fiel servo da Primeira Ordem, mas negócios são negócios, e anseio por compreender em que termos manteremos essa lucrativa e auspiciosa relação. Aguardo sua resposta, e peço desculpas pelos incômodos num momento em que certamente estará muito ocupado com os preparativos para a cerimônia oficial de coroação – uma reverência profunda e elegante, que destoava da figura nada nobre – meu imperador.

Kylo cerrara os dentes e os punhos até sentir que poderia partir os próprios ossos com a pressão; a Força lhe fugia discretamente ao controle, esmagando equipamentos próximos enquanto ele se forçava a não puxar o sabre de luz e golpear o monitor. Maldito Sibera!!! Ele ousava ameaça-lo?! Sim, não passara por despercebida a ameaça implícita naquelas palavras, mas a verdade é que o homem possuía influência demais para ser descartado, ao menos por ora. Assim, após longos minutos retomando o controle – no que Ania Ren o ajudara sutilmente com suas habilidades – o Imperador gravara uma mensagem que afirmava terem sido as apreensões das cargas um engano da parte de seus enviados, e “convidando” o mafioso a uma negociação no dia seguinte, via holo. Encerrado o desagradável procedimento, ele se voltou para Kahso, Puuan e Devron – agora oficialmente conselheiro de guerra, primeira conselheira e mestre do serviço de inteligência, respectivamente – e ordenou;

— Deixem-me a sós. – imediatamente obedecido, ele se viu sozinho na sala de comando; abriu as imagens gravadas das operações militares, e a satisfação o preencheu: era isso o que sabia fazer melhor. Combater, comandar assaltos e manobras, intervenções militares, perseguições; fora muito fácil saber como lidar na esfera militar, e reconhecia a frustração em não poder participar pessoalmente das missões. Mas agora não era mais um soldado, não obstante sua alma fosse a de um; era o Imperador, e precisava ponderar os efeitos de suas escolhas em todos os âmbitos. Isso sim, era complexo e exaustivo... Política... Um labirinto no qual todas as alternativas pareciam levar apenas a outro beco sem saída, uma sequência de estratégias cuidadosas que nada tinham a ver com atuação militar, mas sim com egos, poderio econômico, chantagens, truques... Isso o exauria, incomodava, exigia o máximo de seu autocontrole, e algumas vezes ele se sentia tão cansado quanto costumava ficar após as torturas mentais de Snoke. Como sentia agora: fisicamente, poderia correr uma maratona. Mentalmente, duvidava que conseguisse se concentrar o bastante para fazer uma pedra flutuar em linha reta.

Sentou-se numa das cadeiras em torno da holomesa, ainda contemplando as imagens de batalha que lhe pareciam uma espécie de calmante, por tratarem de algo familiar. Pensou em todos os deveres que possuía agora, como Imperador, no modo como garantir o poder não se resumiria a reprimir as forças armadas de sistemas descontentes ou destruir exércitos insurretos, mas complicados jogos de negociações com toda sorte de pessoas. Isso para não falar na coroação iminente – em três semanas – que o deixava ainda mais apreensivo.

— Por que estou fazendo isso? – perguntou a si mesmo, esfregando o rosto. Ele não era um político! Nunca fora, e jamais ambicionara ser, ainda que pudesse ser extremamente persuasivo quando desejava. Ainda assim, lá estava ele, prestes a ser confirmado como imperador! Alcançara um poder inigualável, deveria estar satisfeito, orgulhoso... Conseguira provar a si mesmo, ser muito mais do que jamais haviam pensado ser capaz... Calara, ao menos por ora, todas as dúvidas de qualquer um que o subestimara, mas sentia-se inseguro: alçara-se às maiores alturas, e não era tolo para não saber que, se fosse incapaz de se manter, a queda seria terrível. Estava numa posição que o tornava extremamente odiado: se perdesse o poder que o protegia dentro do Império, a morte seria certa... E fugir? Mesmo se seu orgulho considerasse a hipótese, os sistemas independentes e a Orla Exterior o caçariam até o fim de seus dias. Em resumo, não lhe restava alternativa que não ser o senhor incontestado de seu império. Não podia falhar. Chegava a ser irônico o modo como, ao se libertar da prisão da subserviência a Snoke, trancara-se em uma gaiola tão restrita quanto, embora infinitamente mais atraente. Por um instante um sorriso percorreu seu rosto ao imaginar onde estaria, se houvesse atendido ao chamado de Rey e fugido com ela para algum recanto distante, onde ninguém os encontrasse. Entretanto, tratou de banir logo aqueles pensamentos e voltar à realidade, levantando-se da cadeira e voltando-se para sair.

Ainda não tinha chegado à porta quando o droide-assistente alertou:

“Lorde Ren, Capitão Armitage Hux solicita que o receba.”

Mais essa para completar seu dia! Hux que não testasse sua diminuta paciência, especialmente hoje, ou ele não responderia por seus atos! Ainda assim, ordenou:

— Admita-o.

As portas se abriram para revelar o capitão em seus trajes militares, tão impecavelmente arrumado como sempre ao executar uma reverência visivelmente contrafeito:

— Imperador Kylo Ren.

— Entre, Hux, e não desperdice meu tempo. – ordenou Kylo, seco.

— Longe de mim desperdiçar o tempo do Líder Supremo – havia maldade na voz do ruivo, e intenções escusas – imagino como deva ser cansativo não poder confiar em ninguém... Nem mesmo na própria esposa. – o olhar até então desdenhosos do imperador se tornou ferino, ameaçador, e o capitão aproveitou a brecha para continuar – Lady Solo foi vista retornando para a Fortaleza muito após o toque de recolher. Mas o que levaria a Primeira Dama a ter de sair tão tarde, quando sequer conhece a cidade? Talvez alguma ação questionável, como passar informações aos rebeldes... – ele não chegou a terminar, sufocando no ar pela vontade de Kylo Ren, que sequer se deu ao trabalho de um único gesto. Prosseguiu até o homem estar de joelhos, quando então o deixou respirar:

— Pense muito no que dirá, antes de sequer mencionar o nome de minha esposa. – por estranho que fosse, o capitão deu um sorriso vitorioso:

— Realmente a ama, não é? – o militar contemplou o rosto subitamente pálido de Kylo, e soube que acertara a única fraqueza restante naquele homem, deixando-o sem palavras por um mísero momento. Levantou devagar, sabendo que um gesto mais rápido ocasionaria um membro decepado, ou mesmo a cabeça, e encarou Kylo Ren – o que mais amamos é o caminho mais curto para nossa destruição. Devia ter aprendido isso com Snoke; mas agora, ele não está mais aqui para protege-lo, Lorde Ren.

— Sim, tem razão. Snoke não está mais aqui. – concordou Solo, e no instante seguinte não usava a Força, mas apenas uma das mãos para erguer o capitão do chão, empurrando-o contra a parede – Não há mais ninguém para protege-lo de MIM. – derrubou o rival no chão e segurou sua cabeça entre as mãos, lutando contra a vontade usar a Força para quebrar cada osso daquele que o atormentara desde que ingressara na Primeira Ordem. Mas não podia fazer isso, ainda... Era exatamente por conhecer Hux que sabia haver algo por detrás daquela provocação, ou ele não se exporia de tal modo. Assim sendo, invadiu a mente do outro homem, desta vez sem procurar algo específico, mas esquadrinhando cada informação, chegando às profundezas de suas memórias mais antigas ou recentes, causando deliberadamente toda a dor possível, num deleite mórbido ao ver o outro agonizar no chão em sofrimento tão grande que o impedia mesmo de gritar. Ah, há quanto tempo queria fazer isso! Mas não se tratava apenas de vingança, e sim, de saber que planos o maldito fizera.

Furioso após ser rebaixado, o capitão dividira seu ódio igualmente entre Kylo e Rey; inteligente, porém, e conhecendo o rival há tempos, logo percebera haver um sentimento recíproco entre o Líder Supremo e a esposa; a princípio tomara apenas por desejo, mas o modo como o Cavaleiro se continha ante a Jedi, muito mais do que o fazia até mesmo sob a influência de Snoke, deixou claro ser algo mais intenso e profundo... Algo do qual poderia se utilizar. Uma rede de seguidores o apoiava, pequena, porém infiltrada em vários setores, e o capitão fazia questão de não conhecer todos, de modo que não revelasse seus aliados caso sua mente fosse invadida. Havia planos de sabotagem, e o principal envolvia a morte de Rey, por ser ela o principal obstáculo, sempre chamando Kylo à razão, contendo seus impulsos, ajudando-o a ver o que, de outra forma, continuaria invisível nos rompantes de raiva cega. Homem inteligente! O ataque à White Command fora um desses planos, disseminado entre os seguidores, porém não ordenado pelo próprio Hux; um dos conspiradores, ou mais, havia se encarregado do infame atentado, garantindo que o militar não soubesse nomes, lugares ou datas para a segurança dos planos de todos.

Indo mais fundo, Ren descobriu mais: os planos já mencionados por Rey, de sabotar missões, promover o caos na capital em ausências do Imperador, disseminar a desconfiança e promover os boatos acerca de a Jedi controlar o Imperador... E para cada imprevisto, havia “planos B”, novos caminhos... E sempre a rede extensa da qual nenhum dos integrantes tinha total conhecimento. Quanto mais sabia, mais ódio Kylo Ren sentia, e sua raiva se descontrolou enquanto a Força começava a não apenas partir, mas esmagar os ossos das extremidades de Hux.

— Pretendia me sabotar, não é? – ele observou nas memórias do ex-general as gravações do elevador, no dia em que levara Rey a Snoke... Até mesmo isso seria usado como arma contra si, alegando o controle da Jedi sobre Kylo?! O ódio fervia e crescia, a Força fluindo cada vez mais poderosa. Com o esforço do homem para não matar sua vítima, os equipamentos se retorciam e partiam, o próprio chão sob seus pés rachava – agora, você vai servir aos meus propósitos, verme; mas não do jeito de Rey, e sim, do meu. – conseguira romper até a última barreira mental do capitão, e faria dele sua perfeita marionete. Não sabia o que teria feito a seguir ao homem que já sequer se retorcia, paralisado em dor, terror e choque, quando uma voz feminina o tirou de seu frenesi vingativo:

— KYLO! – simultaneamente, uma presença de luz preencheu o lugar e, tendo extravasado muito de seu ódio sobre o homem a quem tanto odiara, o imperador sentiu a tormenta se acalmar ante a presença tão bem conhecida. Baixou a cabeça, hesitante de confrontar os olhos esverdeados que, sabia, estariam cheios de censura, mas enfim o fez, pondo-se em pé. Para sua surpresa, ao lado de Rey estava Shalya, ou Asajj Ren, ambas com os sabres acionados; como se houvessem ensaiado, desativaram as armas ao mesmo tempo e adentraram em sincronia o espaço; enquanto a Dathomiriana se abaixava para checar os sinais vitais de Armitage Hux, a Jedi se adiantou até estar defronte ao esposo – suponho que eu vá querer saber o que aconteceu. Sinto um fluxo da Força e corro pensando que está com problemas, e encontro... Isso. Posso ao menos saber o que houve?

— Apenas um verme recebendo o que merecia. – ele olhou em redor, para a destruição involuntariamente causada unicamente pela Força em si... Não parecia ter restado um único aparelho íntegro na sala! – o verme pensou poder me chantagear e ameaçar. – os olhos dele diziam a Rey muito mais do que suas palavras, e ela anuiu, compreendendo o que o ex-general usara para ameaça-lo.

— Lorde Ren – Shalya se levantou, chamando uma unidade médica com seu comunicador de pulso – não cabe a mim questionar seus atos, mas sou responsável pelas relações pessoais com nossos aliados e patrocinadores, e exigirão satisfações sobre o ocorrido ao capitão, que é membro de uma família influente. Se tiver alguma sugestão de como posso me justificar, eu ficaria agradecida – não eram muitos os que falavam assim com o imperador, mas ele e a Cavaleira tinham um passado em comum, o suficiente para que ele tolerasse eventuais insolências.

— Não se preocupe com isso, Asajj – respondeu Kylo, altivo e frio – prepare uma holotransmissão a TODAS as organizações e famílias aliadas. Eu mesmo informarei sobre a tentativa de sabotagem, e declararei as consequências de traição.

Rey não precisou de muito tempo para saber o que acontecera: os sentimentos de Kylo lhe diziam o suficiente e, embora tivessem de falar a respeito depois, compreendia o risco que corriam. Haveria uma discussão acalorada sobre métodos – jamais poderia concordar com o que ele fizera ao outro homem! – mas em uma coisa já estavam de acordo: era urgente localizar a rede de simpatizantes e cúmplices do militar, não para garantir o poder de Kylo, mas simplesmente para se manterem vivos. Da paz encontrada mais cedo, Rey mantinha apenas a clareza mental e determinação; ver Kylo dar vazão ao que havia de mais obscuro em seu ser a decepcionava e magoava... Sabia que não conhecia o quadro todo, que havia coisas no passado dele capazes de ao menos explicar como tamanha crueldade surgira, como podia conviver com o homem gentil que ele por raras vezes mostrara existir em si... Mas não era menos angustiante por um simples fato: a cada vez em que ele escolhia ser Kylo Ren, reafirmava a constante ameaça de que, um dia, não fosse mais possível conciliar sua missão e seu casamento. E ela sabia muito bem o que escolheria, mesmo que dilacerasse seu coração e destruísse suas emoções.

Após a remoção do capitão ferido para a ala hospitalar, enquanto Shalya – guardiã da casa imperial – convocava uma equipe de engenharia para consertar a sala de comando, a Jedi e o Mestre dos Cavaleiros convocaram Tanar Kahso aos aposentos de trabalho do imperador. Nenhum deles queria falar sobre a Força, agora, mas sabiam que o assunto surgiria, cedo ou tarde; tudo o que a Jedi disse a respeito, quando já estavam sozinhos, foi:

— Ben, eu entendo sua raiva, a vontade de nos proteger... A vontade de ME proteger, e uma parte de mim agradece por isso. Mas o que fez, lá, o modo como fez... Eu juro que estou tentando compreender, não julgar... Ainda assim, esse lado seu me assusta.

— Quer fugir, como os demais? – perguntou ele, sem fitar a mulher. Após o rompante de fúria, mais cedo, sentia-se estranhamente calmo.

— Você sabe que não. – sentando-se na cama, de frente para ele, deslizou a mão pela cicatriz que fizera no rosto de seu amado – mas quero muito entender.

Kylo segurou a mão da esposa junto a seu rosto: era a única pessoa capaz de tocá-lo com tanto amor, carinho e gentileza, mesmo quando estava brava. Devia a ela um mínimo de sinceridade... O que pudesse dizer, por mínimo que fosse:

— Perdi o controle. Hux foi responsável por inúmeras “punições” que recebi... Quis que experimentasse uma fração daquilo que eu suportei. – ele a fitou – acha que me igualei a Snoke, desse modo.

— Não, mas com certeza se igualou a Vader. – ela não disse aquilo em tom de elogio – estamos cansados demais para essa conversa, Ben... Amanhã conversamos. Há algo que preciso lhe mostrar. – ela se deitou de costas, os pensamentos a mil: estava muito desapontada com o esposo, ao mesmo tempo que um lado seu compreendia. Compreendia, não aceitava. E foi esse lado que a fez segurar a mão dele, sentindo-o tão exausto quanto ela – Estou aqui.

— Eu sei. – foi a resposta dele, fechando os dedos sobre os dela.

Notas finais
E então? O que acharam? Mereço Reviews? Para quem estava sentindo falta dos Fantasmas da Força, aqui está Obi-Wan; o próximo trará Anakin, e, direto dos planetas da Orla Exterior, Leia! Beijos enormes, e que a Força esteja com vocês!