Rise of Jedi
19 Negociações
Notas iniciais

Rey se sentou ao lado de Asala, fitando a menina enquanto o dróide-médico fechava seus ferimentos, em especial o causado nas costas pelo sabre de luz. Embora sob efeito de anestesias locais, estava perfeitamente lúcida, e tentava não encarar a mestra por saber que teria muitas respostas a dar. Felizmente, o interrogatório foi interrompido por Dolaan Nutt — um Nautolano de pele azul e múltiplas cicatrizes pelos braços fortes de ex-soldado — irmão e “sócio” de Sibera Nutt, o qual entrou na enfermaria com um sorriso de verdadeira preocupação:
— Espero que os droides médicos estejam fazendo um bom trabalho com a jovem Padawan.
— Estão, de fato. Obrigada, Capitão Nutt, por sua gentileza e a de seu irmão em ceder as instalações médicas para os membros que se feriram com a avaria da nave.
— Como aliados de longa data, é o mínimo que poderíamos fazer, Lady Solo. – o pirata executou uma breve reverência – sua tripulação ilesa foi acomodada no bairro de visitantes. Espero que, tão logo os feridos estejam bem, possamos dar início às negociações. – a polidez superficial não escondia da jovem o que o capitão não falava: a despeito de terem cumprido todas as regras de hospitalidade, os contrabandistas não queriam pessoas do Império ali. Seriam bons anfitriões porque a conveniência assim mandava, mas não aceitariam permanências prolongadas além do estritamente necessário. E embora os olhos negros parecessem vítreos e desprovidos de emoções, Rey ali enxergava um olhar cobiçoso para seu sabre de luz e para ela mesma; sabia no que seu interlocutor pensava: como obter algum tipo de vantagem de uma Jedi, e do fato de esta ser a consorte do Imperador. Definitivamente não destoava dos tipos que cohecera em Jakku.
— E eu agradeço pela paciência; já estaríamos realizando as transações se uma de minhas conselheiras e minha padawan não se houvessem ferido tão gravemente com o rompimento das turbinas.
— Ah, sim, talvez goste de saber que apenas mais cinco ou seis horas no bacta deixarão Lady Niaka em perfeito estado.
— É um alívio saber disso. – A Jedi usava toda a polidez que aprendera com Eilenia para não arrancar os olhos do contrabandista, que ora olhava fixamente para Asala, fascinado por sua pele alva. Era quase possível ler seus pensamentos enquanto avaliava o preço que a menina, futuramente uma bela e exótica Togruta, teria como escrava, e a mais pura raiva percorria os nervos da mestra, que se colocou estrategicamente entre o homem e a menina deitada na maca. – creio que até o anoitecer possamos executar...
— Não tenha tanta pressa, milady. É bem-vinda para jantar conosco, e talvez tenha algum interesse pessoal em objetos de colecionador. Temos muitas coisas que podem interessar a uma Jedi, e à esposa de Lorde Ren. Seria um prazer lhe mostrar melhor nossa pequena cidade, e eventualmente realizar alguma negociação pessoal com a senhora.
A Jedi mediu cuidadosamente cada palavra e todas as possibilidades; era arriscado, em verdade. A possibilidade de ser drogada era alta, poderia ser sequestrada, assim como qualquer membro da comitiva, especialmente Asala, que teria um preço excepcionalmente alto, especialmente quando chegasse aos 15-16 anos. Entretanto, um atentado contra a Primeira Dama ou qualquer de seus acompanhantes seria um ato de guerra contra o Império, e um corte brutal numa enorme fonte de renda. Assim, era pouco provável algo em tal escala. Mas meninas jovens “desapareciam” com alguma frequência, e sabres de luz podiam ser “perdidos”... Assim, foi agradecendo mentalmente às aulas de Eilenia e Shalya que Rey respondeu:
— Aceitaremos a oferta, Capitão, e será uma honra de prazer. Mas fico preocupada que nem todos os moradores da cidade sejam tão corteses quanto o senhor e seu irmão; gostaria de sua garantia que nenhum mal nos acontecerá, durante a permanência. Sua palavra me basta, é claro.
— A senhora a tem. – disse o guerreiro. Mensagem recebida com sucesso: Rey não confiava neles, e já esperava por qualquer tentativa de roubo ou sequestro, estando preparada para reagir. – Mandarei uma serviçal alojar a senhora e sua Padawan assim que o tratamento for concluído.
A mulher apenas anuiu e, tão logo foi deixada a sós com a aprendiz, disse baixinho:
— Nem pense que fugiu de me dar explicações, mocinha. A começar pelo motivo de estar exatamente onde falei para NÃO estar, e depois o porquê de quase ter matado a si mesma explodindo o sistema de reciclagem do ar na nave de Niaka.
— Posso falar tudo ANTES do sermão? – perguntou a menina – não é uma história muito longa, mesmo.
Revirando os olhos, sem saber se ficava zangada ou ria da jovem Togruta que, felizmente, não se ferira gravemente, ela segurou a mão da criança e ouviu pacientemente.
Flashback on
Asala olhou por obre o ombro da mestra, e percebeu aquilo que Rey não poderia ter visto, estando de costas: o olhar hostil de Niaka sobre a Jedi. Naquele momento uma forte intuição atingiu a garota, e apenas uma coisa era certa: a mirialan tentaria ferir a Primeira Dama de algum modo. Não podia permitir isso! Assim, quando tomou com Brenwen o caminho de volta à Fortaleza Vermelha, deu um jeito de se misturar ao vai-e-vem das pessoas e se “perder”, correndo para a nave-comando da mirialan.
Embora já fosse alta para sua idade, ainda era pequena o suficiente para se espremer pela fuselagem e se enfiar sob o piso, parcialmente oculta nas tubulações de mecanismos e fiação, mas capaz de ouvir tudo o que era dito através da grade de ventilação. Ali se ocultou, esgueirando-se pelas tubulações e dutos para roubar discretamente comida e água, usando a Força para levitar alimentos e recipientes até as grades de ventilação, quando não havia ninguém olhando. Por várias vezes ouviu menções ao nome de Rey, e de modo nada amistoso... Sabia que algo estava sendo preparado, e começou a planejar uma sabotagem; romper as hélices que mantinham o fluxo de ar através do purificador faria com que os alarmes soassem e uma evacuação de mergência tivesse de ser solicitada, com acoplagem à nave de Shalya, a maior e mais adequada a esse tipo de manobra. E em Shalya a menina confiava: sabia que a outra não feriria Rey por um simples motivo: lealdade absoluta ao Líder Supremo.
E foi assim, ao im de terceiro dia, que seu plano teve de ser colocado em ação. Cruzavam um cinturão de asteroides, e o espaço era cheio de poeira galáctica, o que significava rochas que iam desde o tamanho de uma unha até algumas maiores que muitas naves. Um terreno perigoso, sem dúvidas, o qual a Cavaleira e Ren pretendia usar como pretexto para as explosões nos motores da White Command. Afinal, se as asas batessem com muita força, toda a estrutura poderia ser abalada, e os reatores laterais rachariam. Pelo menos esta seria a desculpa dada, enquanto disparos discretos alvejariam a nave por trás causando o mesmo efeito que um impacto das asas.
Sabendo que fora exatamente aquilo que intuíra, a garota conseguiu se espremer para dentro dos tubos de reciclagem de oxigênio: eram estreitos, dificultavam o movimento muito mais do que esperava – havia crescido bastante nos últimos meses, ao que parecia... – mas ainda permitiam que passasse, usando a Força para ajudá-la no movimento. O problema disso? Ela logo sentiu dedos taborilarem do outro lado da barreira de metal, e a voz de Niaka soar com docilidade maligna:
— pensou que eu não a havia sentido, ratinha? – a togruta sentiu a Força se agitar e um aperto invisível se fechar em sua garganta, sufocando-a! Respirar já era difícil por estar próxima às hélices de ventilação, nos tubos com baixa concentração de oxigênio, e o sufocamento promovido pela Cavaleira de Ren pôs a menina quase estática, tamanho seu pânico! Era uma criança, sozinha, presa numa ratoeira, tentando impedir que sua mestra e amiga fosse morta! Esse pensamento durou alguns segundos, enquanto lutava para pegar o sabre de luz na cintura e o estender em direção às pás. Mas não teria tempo disso... Mesmo se avariasse o sistema, ainda seria morta.
Sua visão já escurecia, e estava prestes a desmaiar, então fez a única coisa que passou por sua cabeça: acionou o sabre exatamente onde estava, em seu cinto, e o puxou com força, abrindo um rasgo no duto de metal. Rolando para o lado, liberta do aperto pelo susto causado à inimiga, conseguiu fazer ceder a aba que cortara, e caiu pesadamente no chão, girando a tempo de evitar que o sabre de luz de Niaka atingisse seu peito, recebendo apenas uma queimadura nas costas. Chutou velozmente a perna da outra e desviou os tiros dos Troopers, colocando-se em pé e recuando... às suas costas apenas o tanque de oxigênio pressurizado... Era loucura, mas melhor do que nada!
Com um movimento veloz, a pequena cravou o sabre no tanque e deixou o gás vazar sobre a fiação cortada, jogando-se para baixo e rolando a fim de evitar a explosão. Niaka e os Troopers foram pegos em cheio, estilhaços se cravando nos soldados, matando-os, e causando profundos cortes na mirialan. Mesmo a togruta não saiu ilesa, mas conseguiu rastejar até o painel de controle e ativar o pedido de ajuda, falando à nave de Shalya:
— Alerta de explosão! Precisamos evacuar a nave! Três sobreviventes a bordo!
Vendo o Stormtrooper sobrevivente e a Cavaleira de Ren rastejando, cegos pela explosão, a menina bufou com raiva: Niaka tentara matar Rey e ela, mas simplesmente não conseguiria apenas abandonar alguém para morrer. Abaixou-se, passando por baixo da nuvem de fumaça tóxica, e agarrou o pulso da mirialan:
— Niaka, por aqui! Para a cápsula de fuga! – com dificuldades, puxou a outra para uma das cápsulas, preocupada com a quantidade de sangue e bolhas no rosto da rival. Pensara em se salvar, e a sua mestra, mas não pensara em causar aquele dano! Ejetou a cápsula com Niaka e foi até o Trooper sobrevivente: removeu o capacete, que havia travado, e ajudou o homem a ir até a segunda cápsula, onde entrou junto dele, e ejetou a segunda unidade. O soldado estava ofegante, semiconsciente após quase ter sido sufocado pela máscara danificada graças aos estilhaços da explosão.
Não tardou para a nave de Shalya resgatar as duas unidades de fuga, e quando a Dathomiriana abriu a porta do compartimento, surpresa em ver a jovem togruta ali, foi que a criança sentiu todo o medo que precisara ignorar durante a ação, e abraçou com força a mulher que por várias vezes a tutorara no setor de relações diplomáticas, enquanto os soldados ajudavam os outros dois sobreviventes.
Flashback off
— Niaka tenta nos matar, e você ainda salva sua vida? – perguntou Rey, com um leve sorriso nos lábios. Pressentira o perigo vindo da outra nave, e estivera preparada para fugir dos disparos, mas a reação de uma criança tão jovem a orgulhava profundamente.
— Eu não podia simplesmente deixa-la ali, cega pela fumação, sangue e explosão. E os Troopers... Seguem ordens. É só o que fazem. Se houvessem morrido na explosão, eu não me sentiria culpada, mas deixa-los para morrer... – uma lágrima escorreu pela bochecha da menina. Era a primeira vez que matava alguém. Rey acariciou seu rosto ternamente e falou baixinho:
— Foi muita nobreza. Foram os atos de uma Jedi. E muito embora eu queira bater em sua cabeça dura por ser tão desobediente... Agiu muito bem, Asie.
A Togruta sorriu, confortada, e permaneceu segurando a mão da mestra enquanto os últimos centímetros dos ferimentos eram reparados. Finalmente pôde se levantar e vestir a blusa e o casaco.
— Mestra, eu sei que não deveria ter vindo, mesmo que isso tenha sido oportuno, em algum momento. Percebi o olhar do Capitão, e sei que corro riscos aqui, como “albina” e como Padawan.
— Sua percepção é acurada para uma menina da sua idade – Rey estava séria – fique ao meu lado o tempo inteiro, não saia explorando, nem coma ou beba qualquer coisa que eu mesma não lhe oferecer, está bem?
— Se ficarmos alertas, poderemos sentir más intenções e prever envenenamentos.
— más intenções permeiam tudo, por aqui. Eles farão qualquer coisa para ganho próprio; não creio que nos atacariam, pois isso significaria algo muito pior do que guerra com o Império: uma perda de um cliente valoroso. Mas simulações de acidentes são fáceis de simular. Então, seja cuidadosa, e tente segurar essa língua rápida, Atrevida.
— Olha só quem fala – irniou a pequena, sorrindo antes de prender o sabre ao cinto – não se preocupe, Rey, eu farei exatamente o que disse. Já esgotei minha cota de desobediências por um ano.
— Ainda bem que sabe. – a mais velha fechou o manto e ajeitou os coques do cabelo. Embora o usasse apenas parcialmente preso, em missões isso seria apenas um estorvo, ainda mais por estar mais comprido – vamos. Niaka ainda irá passar algumas horas no bacta, e nós seremos conduzidas a nossos aposentos.
Fora da sala de enfermaria, a qual tinha paredes em forma de bolha, opacas, estéreis e programadas para manter uma temperatura confortável e adequada à recuperação de acordo com a raça que a ocupava. Do lado de fora das portas duplas, encontraram uma senhora sullustana que se apresentou como Marsta, e guiou as duas através da “cidade”.
O “entreposto” dos Nutt – um dos vários – situava-se num asteroide grande o bastante para se assemelhar a um planetoide. Fora construído em rocha estéril, mas era rico em minerais, assim como cavernas profundas, colinas, montanhas e vales que permitiam a criação de túneis e camadas, como um gigante formigueiro de construções que não seguiam padrão algum, e ao mesmo tempo todos. Havia setores edificados com arquitetura de ponta, extremamente elegantes e refinados, e logo ao lado casebres feitos de placas de materiais diversos. A única orientação possível eram os bairros, que formavam quarteirões mais ou menos delimitados por veios nas rochas à guisa de divisas. Havia o bairro de hóspedes, o de comércio de naves, o de peças, o de “artigos e artefatos”, o de escravos... Rey tentou focar em sua missão quando viu as fileiras de pessoas sendo vendidas num leilão: um humano forte acabara de ser vendido para mineração, uma Faleen fora arrematada por um preço alto devido a sua formação como geneticista, e outros tantos aguardavam, não acorrentados, mas com chips presos a suas peles; caso fugissem, ou ao menos desobedecessem, descargas elétricas provocariam dor intensa e espasmos musculares incapacitantes.
Asala agarrou com força o xale de Rey ao ver subir na plataforma uma moça Togruta de idade próxima à da Jedi, talvez mais jovem. Por um instante tentou desviar o olhar, mas sua mestra lhe falou:
— Encare e guarde bem em sua memória, Padawan. É por pessoas como essas que estamos recomeçando tudo.
— Poderia ser uma de nós, ali – constatou a garota, madura demais para a idade. – Não podemos não fazer nada!
— Conversamos quando estivermos a sós, Asala. – Rey não diria mais do que aquilo diante de Marsta.
A “cidade” era um grande complexo de construções interligadas, parecendo um organismo do qual cada bairro era apenas uma célula, ora a céu aberto, ora descendo para subterrâneos iluminados com um tom alaranjado, ora em passagens quase claustrofóbicas de tão estreitas, e em outros momentos cruzando vastos vãos por onde speeders e droides voavam.
Tudo aquilo era dominado por uma construção – ou melhor, um aglomerado delas – central, que unia as torres de comando aéreo, escritórios dos “grandes comerciantes”, aposentos privados dos privilegiados e aposentos destinados às “hóspedes de honra”. Ficava bem no centro, construído em durasteel e transparisteel, o único edifício de materiais homogêneos, embora a aparência de caixotes e contêineres empilhados, com abas longas servindo de marquises permanecesse. Como Dolaan dissera, era um labirinto, e seria muito fácil alguém desaparecer sumariamente naquele lugar, sem necessidades de justificativas além do próprio mapa confuso e serpeante do entreposto.
Após uma infinidade de corredores com portas seladas por senhas, leitura de retinas ou digitais, Jedi e Padawan viram-se diante de uma cujo painel brilhava em azul; Marsta se virou para elas com o ar entristecido que suas bochechas caídas lhe conferiam, e explicou:
— O painel está formatado. Basta que uma das senhoras cadastre as próprias digitais, e apenas com elas a porta poderá ser aberta ou fechada.
Rey se adiantou e pousou a mão direita no painel, que brilhou e tornou-se verde: a porta circular se abriu, e sua guia as levou para dentro do quarto, que era amplo e confortável: paredes claras, teto em forma de cúpula achatada, mas com pé-direito alto o suficiente para não ser enclausurante, uma janela oval de transparesteel voltada para o espaço. Havia duas camas grandes com travesseiros, uma porta que parecia dar para um banheiro, uma mesa, criados-mudos e uma holotevê. Nenhuma das mulheres esperara um espaço tão confortável, limpo e claro após o formigueiro que haviam cruzado. Com um sorriso, sua guia declarou:
— Podem se limpar, e Lorde Nutt tomou a liberdade de lhes enviar roupas confortáveis, caso desejem usá-las durante o jantar. Pela vida de Lorde Nutt, ele garantiu que ninguém além das senhoras entrará nesses aposentos, e estarão em perfeita segurança durante a estada aqui.
— Obrigada, Marsta – agradeceram ambas as “visitantes” em uníssono, e Rey continuou – obrigada pelos aposentos. Ficamos agradecidas com a atenção de seu senhor.
— Sua satisfação é a melhor recompensa, Lady Solo – a pequena mulher fez uma reverência – com sua licença, tenho outros afazeres, mas em caso de necessidade podem solicitar um droide. Virei busca-las dentro de oito horas, para leva-las ao encontro dos Senhores. – com essas palavras a pequenina se voltou e saiu a passinhos rápidos, a porta se fechando atrás de si.
Era de fato uma surpresa um espao tão limpo, claro, confortável... Surpresa demais, e ambas passaram cerca de meia hora inspecionando desde os lençóis até o chuveiro para garantir que não havia nada de suspeito. Rey sentiu que havia uma escuta, em algum lugar, mas bastou um cerrar da mão para que o leve zunido característico do objeto cessasse, indicando sua falha.
— Parece seguro – declarou a humana – ainda precisamos conversar, mas sugiro nos lavarmos e trocarmos de roupa, antes. O cheiro daquele mercado conseguiu ser pior do que Niima, e isso é alguma coisa.
— Ainda quero falar sobre os escravos, mestra Rey – disse a menina, pegando uma túnica em sua mochila e indo para o banheiro, seguida pela mestra. A Togruta entrou primeiro no chuveiro, enquanto a humana soltava os coques e desembraçava os cabelos, sentada na larga bancada da pia.
— Eu sei – respondeu, meditativa – entendo sua vontade de fazer algo, Asala, mas libertar aquelas pessoas não fari nada além de causar caos.
— Entendo que o Império mantém escravos, que desde a Antiga República é algo que existe, mas... Não poderíamos compra-los?
— E o que faríamos com eles? – perguntou Rey. Sim, as aulas com Eilenia haviam tirado a simploriedade de sua mente – muitos ali nasceram escravos, ou estão nessa vida há tempos. Nós os compraríamos, daríamos sua liberdade, e depois? Para onde iriam, numa galáxia colapsada?
— Para junto da Resistência! – respondeu a menina, com idealismo – não é o que estamos fazendo? Um jogo duplo para mediar a paz e fazer com que a liberdade retorne sobre bases sólidas?
— Sim, Asala; mas e os próximos escravos? E essas mesmas pessoas? Acha que todas vão querer lutar por uma causa que a maioria pensa fracassada? A maioria irá querer voltar para casa, e acabará escravizada outra vez, a menos que lhes seja garantido um lugar e uma função na galáxia. Para fazer algo quanto a isso, pelo menos por enquanto, tem de ser a nível de leis, negociações... Temos de eliminar a institucionalização da escravidão, ou estaremos tentando apagar um incêndio com um conta-gotas.
— Então é isso? – a menina saiu do banho e se enrolou numa toalha, enquanto a mulher entrava no box – não fazer nada? – sua voz estava inconformada.
— Eu não disse isso. – Rey pensava muito a respeito – sinto a mesma revolta que você, Asie, mas simplesmente comprar aqueles escravos não adiantará muito. Hoje, no jantar, tentaremos saber o máximo possível sobre o tráfico de pessoas, pelo menos nos setores comandados pelos Nutt, e talvez haja uma forma de acabar com isso pela raiz.
O rosto da menina se iluminou ao ouvir aquelas palavras:
— Trapacear os nautolanos?
— Negociações são como um jogo de Sabacc, de acordo com Eilenia. Muito de astúcia e um pouco de sorte. Para o azar deles, eu sei jogar Sabacc, nas cartas e na vida. – Rey encarou sua Padawan – e você é muito mais perspicaz e inteligente do que se pode esperar de uma criança.
— Deixarei que me vejam como uma criança comum. – disse a menina – fingir curiosidade inocente, perguntar sobre as coisas quando nos levarem a “passear”. Se você puder se afastar alguns metros com um dos irmãos, posso fazer perguntas ao outro, e ele me responderá por achar que não represento ameaça.
— Pode funcionar, mas tome cuidado: eles não são tolos, e perguntas demais, ou mal colocadas, pode nos incriminar. Não irão subestimá-la a menos que faa um papel excelente.
— Eu sei parecer uma menininha boba. Tivve de sobreviver sem chamar a atenção de Snoke, não tive? – sorriu a garota, com um tom de orgulho de si mesma enquanto vestia a túnica – ai, droga! Eu não sei se fico feliz ou irritada: meus montrais estão crescendo, e agora prendem em todas as golas das minhas roupas, quando as visto!
A Jedi riu sob o chuveiro e, terminando seu banho, enrolou-se numa toalha, indo ajudar a garota a desenganchar as pequenas pontas, ora mais proeminentes, da gola da túnica:
— é, não é mais uma menininha. Se estão crescendo, você está a um passo da puberdade, mocinha.
— A única diferença que imagino é ter montrais desenvolvidos e úteis para ecolocalização.
— Vai ficar mais alta, mais forte, e a Força deve aflorar com mais intensidade, assim como seus sentidos. Pelo menos de acordo com Lena. – a humana deu de ombros, terminou de se secar e colocou uma túnica. Programaram o despertador para a eventualidade de pegarem no sono, deixaram seus sabres de luz sob os respectivos travesseiros e se deitaram a fiz de discutir mais detalhadamente o que fariam naquela noite. Quando efetivamente pegaram no sono, já tinham um plano traçado, e exigiria o máximo de tato, lógica, manipulação e sensibilidade de ambas. Sensibilidade inclusive às emoções alheias, para perceber as verdades e mentiras que seus interlocutores lhes contariam.
*
— Com tantos Dugs, não sei como os Nutt conseguem impedir o caos, por aqui – sussurrou Asala, dando um tapa na pata de um dos seres que estendeu um pé curioso para seu sabre de luz, e segurando o punho com força, apenas por garantia.
— Cubra com o manto – disse Rey, sem desviar o olhar; sequer parecia ter visto o que se passara, mas a togruta sabia que sua mestra aprendera a enxergar tudo o que se passava em redor sem dar indícios de que o fazia, e isso desde a mais tenra idade. Assim, fechou o manto jedi azul-escuro; fora uma surpresa ver “os trajes enviados a elas” por seus “anfitriões”: para Rey, camisa branca, túnica e calças castanho-claras e faixa cor de areia, além de um manto marrom escuro, que a mulher hesitou em vestir, mas acabou por envergar, após se certificar cuidadosamente de não haver nenhum tipo de microescuta afixada entre os fios das vestes. Para Asala, havia uma túnica cor de ferrugem, calças castanhas e cinto com faixa togruta da mesma cor da camisa, além da capa azul-petróleo. O mais estranho? O símbolo da Ordem Jedi bordado no ombro de seus trajes. Mestra e aprendiz concordaram imediatamente que certamente eram trajes que haviam pertencido a outros Jedi, ou ao menos inspiradas neles. Mas por que tanta gentileza? – eles planejam nos propor algo, tenho certeza.
— Amaciando a carne antes do abate?
— Algo similar. Pelo que ouvi dos sussurros, sabem muito bem quem somos, e não nos estão relacionando a Kylo Ren, mas reconhecendo como Jedis. Se os boatos se espalharam...
— Solte um espirro num canto da galáxia, e quando a notícia chegar ao outro lado, estarão dizendo que você morreu de Consupção necrosante. – a menina revirou os olhos, sempre caminhanto atrás da guia sullustana, o que fez a mais velha dar um leve sorriso. De fato: quem conta um conto tende a aumentar levemente. Qual seria a história chegada até ali?
Foram introduzidas a uma série de aposentos cuja luminosidade fraca e cortinas de contas variadas, além dos ambientes de tetos e paredes côncavas, formas sinuosas e eventuais focos de luz alaranjada, porém fraca, criavam a sensação de um espaço subaquático. Perfeito para nautolanos, é claro. Em uma mesa oval, sentavam-se os dois irmãos nas pontas, enquanto Rey e Asala foram conduzidas a se sentar uma defronte a outra. Sibera e Dolaan usavam trajes similares: camisas claras e por cima túnicas de corte similar a um terno, embora mais rústico, menos formal e em tons de castanho, no primeiro, e verde, no segundo, com uma fina faixa verde-azulada como cinto. Havia uma elegância inesperada em suas imagens, e certamente algo bastante imponente, mesmo que as armas estivessem depositadas longe, nos respectivos suportes. Seus múltiplos lekkus ostentavam tiras de pano atadas em múltiplas cores, fios de contas e cordões com mechas de cabelo que Rey conhecia bem: troféus de inimigos mortos. Provavelmente a maioria das pessoas não o saberia, mas... O submundo fora seu primeiro lar, pelo menos até onde se lembrava.
— Boa noite, Jedi Rey Solo, Primeira Dama do Novo Império – saudou Sibera, o irmão mais velho, levantando-se e puxando a cadeira para Rey. Essas regras de etiqueta ainda eram incômodas e estranhas à mulher, mas ao menos sabia como agir.
— Boa noite, senhores Nutt. — ela pousou a mão no encosto da cadeira, mas não se sentou – agradeço a gentileza, mas não vim como Lady Solo, e sim como Jedi. – o nautolano anuiu e retornou a seu lugar, voltando-se para Asala, que aguardava para se sentar.
— boa noite, jovem Padawan.
— boa noite, senhores – a menina puxou a cadeira e se sentou ao mesmo tempo que a mestra, num movimento quase ensaiado. Hora de encenar o papel de garota infantil e inocente – obrigada pelo quarto, e pelas roupas. Não estávamos esperando que fosse tão bonito, num assentamento em um asteroide!
— Asala – repreendeu Rey. Se não soubesse ser uma atuação, a Jedi teria pensado que a menina de fato se envergonhara, pois mesmo um leve rubor lhe subiu às faces. A Jedi se voltou para seus anfitriões – perdoem a falta de modos de minha padawan. De qualquer jeito, é verdade: ficamos muito agradecidas pela atenção. – ela cruzou as mãos sob o queixo – especialmente o jantar estrategicamente planejado, sem nossa equipe.
— Perspicaz, Jedi – sorriu Dolaan – De fato, é precisamente com a Jedi que gostaríamos de falar – ele indicou os trajes que ambas vestiam – como os trajes que lhes enviamos certamente puderam indicar. Entretanto, preferiríamos deixar este assunto para depois do jantar.
— É claro. – concordou a mulher, séria, porém evitando parecer sisuda. Enquanto droides e escravos serviam a refeição, ela procurou sorrir sem afetamento ou forçar expressões, agradeceu aos que a serviam e deixou ambos os piratas perceberem o quão atenta estava a cada movimento e respiração de ambos, enquanto Asala mergulhava fundo no papel e fazia comentários sobre o sabor dos alimentos, às vezes torcendo levemente o nari para um prato “estranho” e provando timidamente. A humana tinha de concordar: a pequena era um talento incrível de atuação, e o modo como personificara um modo de ser tão diverso do seu quase a fazia rir. Entre palavras sutis trocadas, comentou sem se dirigir a nenhum irmão em específico – percebo que não abrem mão da boa qualidade nas coisas, seja um aposento, alimentos, mercadorias... com certeza superiores a muitos membros da nobreza, que preferem ostentar nomes e origens a reconhecer a qualidade do que quer que seja. – a entonação final da frase deixava claro que isso serviria a qualquer coisa, desde o combate a modo de agir, mercadorias e mesmo pessoas.
— Muitos nos chamam contrabandistas – começou Sibera – eu prefiro o termo “comerciante não-filiado a uma guilda”. Obtemos produtos, vendemos produtos, e não pagamos aquilo que conseguimos a outros para garantir proteção, pois somos capazes de garantir isso para nossos negócios.
— O ramo freelancer é sempre arriscado – ela sorriu e tomou um gole do vinho de Alderaan. Devia ser uma das últimas garrafas na galáxia! – Nem todos conseguem lidar com isso.
— É neste ponto que entra a habilidade de discernir, por assim dizer, plasma e chama. – devolveu Dolaan. Rey estendia a mente na direção de ambos e os sentia desconfiados e receosos quanto a sua capacidade Jedi, mas ela duvidava que até mesmo Mestre Yoda pudesse controlar a mente daqueles dois diretamente. Eram fortes em corpo, mente e espírito, e não podia deixar de admirá-los por isso. O homem de pele azulada começou a girar o copo em sua mão – muitas pessoas enxergam apenas o exterior. Pensam estar vendo chamas, mas é apenas plasma comum. – ele fixou seus olhos totalmente negros nos de Rey – nós, porém, aprendemos a reconhecer quando há fogo verdadeiro. – num gesto sutil, ele removeu do bolso um cubo empoeirado. – diga-me, Mestra Jedi: é uma dos nossos? Enxerga além da superfície?
Trocando um olhar com Asala, a humana estendeu a mão e levitou o cubo, sentindo-o. Choque e satisfação percorreram seu ser ao reconhecer aquela natureza, mesmo que nunca houvesse visto o objeto. Com um simples gesto, a camada de pedras se desmanchou para revelar um cubo vítreo azulado, cujas extremidades começaram a girar sobre si mesmas para formar um dodecaedro em cujo centro brilhva um minúsculo cristal. Ela fitou os anfíbios com alguma satisfação, e viu ambos aplaudirem três vezes, Sibera tomando a palavra:
— Também gosta de truques e efeitos, então?
— Sou uma pessoa mais direta. – confessou a guerreira – mas algumas coisas merecem ser vistas – ela sentiu com cuidado – o cristal de memória está danificado, mas é legítimo.
— Recuperado do Templo Jedi de Coruscant, ou do que dele sobrou, e passado de mão em mão até chegar a nós. – Rey hesitou quando Dolaan estendeu a mão, mas acabou por lhe entregar o objeto – percebo seu interesse nele.
— Tenho interesse em muitas coisas. Especialmente o que diz respeito à história da Ordem Jedi, e dos Sith.
Os irmãos se entreolharam, enquanto Asala estendia a mão para pegar o objeto, aguardando a permissão do contrabandista, que a deu com um anuir. Embora não gostasse de julgar por aparências, a menina parecia totalmente inocente e pura. Talvez não indefesa; isso apenas um tolo pensaria, mas havia nela um ar ainda pueril. Dali poderia advir alguma vantagem e, se antes pensara no quanto ela valeria no mercado negro como escrava, principalmente ao chegar à adolescência, agora ele cogitava muito mais: ganhar a confiança da pequena. Ela valeria muito mais em informações, e quão fácil era persuadir crianças a dizerem algo! Se confiasse nele desde cedo, não passaria a apresentar reservas facilmente, e foi por isso que lhe cedeu o holocron, fitando-a com gentileza enquanto a criança o manipulava com a Força, absorvendo sem que os piratas soubessem um pouco das informações que podiam ser captadas superficialmente, inclusive impressões de energia deixadas pelas últimas pessoas a tocá-lo. Foi assim que Asala Ishlay soube de imediato das intenções de Nutt quanto a ganhar sua confiança, e riu internamente, satisfeita com a própria encenação.
A conversa prosseguiu ainda amena, com os homens falando de seus negócios com o Império, Rey ouvindo atentamente e captando nas entrelinhas o que não era dito. Entretanto, algo a perturbava: uma presença sensível à Força, que de hora em hora impunha-se a seus pensamentos, tentando dizer algo. Não eram palavras compreensíveis, a princípio, nem pertencentes qualquer língua que a moça já tivesse ouvido, mas o pedido de ajuda era muito claro, e vinha em ondas. Quando começava a pensar ter apenas imaginado, lá vinha de novo aquele chamado. Isso a angustiava, mas sacar o sabre de luz e correr estava fora de questão. Não havia dor ou urgência no chamado, e isso a aliviava: tinha tempo para encontrar quem pedia por seu auxílio, ao mesmo tempo em que se inteirava das ações dos irmãos.
O jantar se encerrou ainda em meio a conversas menos sérias nas quais os participantes avaliavam um ao outro, como oponentes prestes a se engajarem num combate, avaliando o terreno; quando os pratos foram retirados pelos criados, Rey apoiou casualmente os cotovelos sobre a mesa e indagou:
— Talvez agora possamos, enfim, falar sobre o motivo deste convite inesperado?
Os irmãos se entreolharam e levantaram em um movimento sincronizado, no que foram seguidos pela moça e pela criança; caminharam até uma porta cuja cortina de fitas flutuantes muito se assemelhava a uma barreira de sargaços e Sibera tomou a palavra:
— Como bem sabe, Mestra Rey, somos mercadores e colecionadores de toda sorte de objetos. Muitos deles atravessaram a últimas gerações, como este mesmo holocron; seria uma honra nos tornar fornecedores para a última Jedi, e sua Padawan.
Rey sentia a energia que vinha de longe; estavam um tanto distantes, mas eram como lampejos distantes de luzes. Alguns ela identificou como holocrons. Não apenas dos Jedi, mas dos Sith. E artefatos... A maioria não sabia do que se tratava, mas sentia o poder que emanavam, e o modo como a Força os permeava ou era por eles afetadas.
— Por quê? – preguntou ela, desconfiada – de que modo isso os beneficia?
— Somos comerciantes, senhora. – respondeu Dolaan, com um meio-sorriso – mas não trabalhamos apenas com créditos. Muitas coisas podem ser negociadas, e creio que possamos desenvolver uma... Amizade extremamente benéfica para ambos os lados; é claro, se lhe interessar aquilo que podemos lhe oferecer. – o nautolano afastou a cortina – por aqui, por favor?
— o que vamos encontrar aí dentro? – perguntou Asala, escondendo-se um pouco atrás de Rey, como se estivesse receosa. Sibera indicou a pequena com os olhos, o que fez Dolaan anuir e se abaixar para ficar um pouco mais baixo que a jovem:
— coisas que pertenceram a usuário da Força do passado. História dos Jedi. Dos Sith. De pessoas como você.
— Gosto de histórias. – sorriu a pequena, com ar inocente, e a cada segundo Rey sentia mais orgulho da menina, e pesar por pensar que era apenas uma encenação. Asala não devia ter sido obrigada a amadurecer tão rápido... Devia ter tido o direito de ser aquele seu comportamento natural. Mas, como ambas haviam aprendido, a vida não era justa, e a atuação da criança convencia exatamente porque assim devia agir uma jovenzinha de sua idade, e não com a maturidade que possuía de fato.
— Então venha, e lhe contarei muitas. – ele estendeu a mão para a criança, e viu a Jedi arquear uma sobrancelha para ele, numa clara promessa de deixar as coisas bastante ruins, se algo ferisse sua Padawan – asseguro que mal algum acontecerá a ela, Mestra Rey.
— Eu vou ficar bem, Mestra! Deixe, por favor! – pediu Asala, com entusiasmo – quero ouvir as histórias!
Após alguns segundos de silêncio nos quais parecia ponderar, a mais velha anuiu e viu sua Padawan, amiga e “irmã menor” segurar a mão azulada do Nautolano, enquanto Sibera Nutt tomava a dianteira:
— Por aqui, senhora? Virão logo atrás de nós, ele apenas irá entretar um pouco a pequena, para que não atrapalhe nossas negociações com o entusiasmo típico dos muito jovens.
— Seu irmão não se ressentirá de não participar das “negociações”?
— Ele e eu costumamos nos entender muito bem, e pensar de modo similar. Ele confia em mim para administrar nosso “negócio”, e eu confio nele para defendê-lo.
— Entendo. Confiança é um bem precioso, não é? Difícil de conquistar, mais difícil ainda de adquirir.
— Espero que a pequena escuta em seus aposentos não a tenha irritado, se é a isso que se refere, senhora.
— A escuta foi tão fácil de encontrar que não imagino ter outro papel se não testar o quão atenta eu estava.
— Um teste no qual passou com louvor. Entenda... – ele caminhava lentamente, passando por modelos de naves, droides desativados, quadros, peças de arte incrivelmente belas. Rey não se surpreendeu: Sibera Nutt podia ser um patife em tudo, mas havia nele algo de gentil, que os ferimentos na alma não haviam podido matar... Algo que apreciava a beleza, a elegância e a harmonia. Ele se voltou para sua interlocutora – nossa coleção é preciosa, e eu não me desfaria de um artefato sequer, independente do preço, se não soubesse que está em mãos que lhe darão um uso decente. Não são relíquias para serem exibidas por tolos frívolos como uma aquisição histórica, e menos ainda devem cair nas mãos de quem usa a Força como um brinquedo.
— Tem conhecimento sobre a Força? – perguntou Rey – a maioria pensa que tudo é apenas uma lenda, ou uma religião morta.
— Não tenho habilidades fora do comum, senhora, mas já vi muitas coisas. Já vi a Força sendo usada para o bem e para o mal, e sei o que pode fazer. – ele cerrou o maxilar, perdendo o controle por um momento, e um vislumbre de seus pensamentos atingiu a Jedi: a imagem de Vader estrangulando o pai de Sibera e Dolaan com a Força, enquanto o mais velho tentava proteger o menor abraçando-o e impedindo que visse aquilo. Viu imagens de dois Jedi, uma togruta e um humano, negociando com os irmãos uma passagem segura num cargueiro velho. A imagem de Shalya comprando um holocron Sith. E viu... Uma memória recente! Um senhor de cabelos louros e já grisalhos, barba cheia, manto marrom de Jedi... A mão direita mecânica... LUKE SKYWALKER!
Rey tropeçou com as imagens inesperadas e se segurou à parede, fitando o Nautolano com expressão indefinida. Sentia, acima de tudo, vergonha por ter visto seus pensamentos sem permissão, mas ele abrira subitamente uma brecha com a qual não contava na armadura de seus pensamentos, os quais estivera sondando sutilmente.
— Mestra Rey? – perguntou ele, sabendo muito bem o que ocorrera. Ao ver a moça anuir, confirmando que estava bem, prosseguiu – esqueça o que viu. Ou não. Mas este passado é meu, e não cabe a mais ninguém saber disso.
— Passado? Eu vi algo? – havia firmeza na vo da Jedi, e o traficante compreendeu que ela jurava esquecer tudo o que vira.
— Obrigado.
— Não há pelo que agradecer. – ela sentiu novamente aquela “voz”, aquele chamado, e seus instintos a puxaram em direção ao pedido de ajuda – o que é isso?
Nutt não falou coisa alguma, apenas seguiu a Jedi, sabendo o que ela sentira. Chegaram enfim a uma sala ampla, azul-esverdeada como o fundo do mar, e em seu centro jazia uma jaula reforçada, cercada por uma gaiola de Faraday, e dentro do complexo um animal como Rey nunca vira: assemelhava-se a um enorme lobo de olhos vermelhos, tentáculos curtos e estreitos se projetando das costas e da parte posterior da cabeça, algo entre lekkus e antenas que se agitavam. Uma fileira desses filamentos se estendia pelas costas, movendo-se em padrões ondulados como se sentindo o entorno. O focinho era longo, e os dentes, afiados. Sobre as quatro patas teria 1,20m, aproximadamente, e caminhava nervosamente. Pousou seus olhos sanguíneos sobre a Jedi, e o chamado se tornou quase doloroso, tamanha a intensidade.
— Encontrou nosso Tuk’ata, senhora. – Disse Sibera Nutt – guardava a tumba de seu antigo mestre Sith, não sei há quantos séculos. Foi capturado quando o lugar foi destruído, em Dathomir, e ninguém jamais conseguiu controla-lo. O animal é impossível de domesticar.
Rey sentiu aquela mente, e percebeu que não se tratavam de meros pensamentos animais. Havia lógica, ali. Conhecimento. Sensibilidade à Força e, acima de tudo, um padrão. Uma linguagem que ela não conhecia, mas de algum modo compreendia.
“Jedi.” Rosnou a voz com alguma agressividade. A moça se ajoelhou ao lado da jaula e estendeu a mão, deixando que a criatura também a sentisse.
“Meu nome é Rey. Não sou sua inimiga. Não vou te machucar”.
O lobo se agitou, indeciso quanto ao que fazer, sentindo a Força que fluía através da Jedi, até que ganiu e se deitou, tocando sua mão com a cabeça.
“Ajude-me”
A humana sentiu uma onda de energia bruta percorrer seu corpo a partir do toque daquele ser antigo, por séculos imbuído da Força em seu aspecto mais obscuro. Sua vista obscureceu por alguns momentos, mas também sentia outro tipo de Força, uma de conhecimento, sabedoria... Não compreendia completamente a Tuk’ata, que sabia agora chamar-se Gea e ser uma fêmea, mas sabia que uma jaula não era o lugar de um guardião como aquele. Afastou-se levemente e ficou em pé, encarando o Nautolano.
— O que pretende fazer com ela? Vender, como os escravos na feira?
— Não vendo escravos, senhora, a não ser aqueles que meu irmão captura em combate. Na maioria das vezes. Seja como for, este animal destroçou todos que se aproximaram o suficiente; entretanto, pareceu até mesmo gostar de sua pessoa.
— Eu diria que estabelecemos uma conexão. – Rey sentia com todas as suas forças que precisava libertar aquela criatura magnífica. Não podia ignorar aquele pedido, e seus próprios sentidos apontavam todos naquela direção. – Desejo pagar por sua liberdade.
O contrabandista pensou por longos minutos, antes de desligar a Gaiola de Faraday e as trancas da jaula.
— Façamos um acordo, Mestra: se entrar e puder controla-la, o animal é seu. Não tenho uso para ela, e representa uma ameaça para todos no entreposto, se um dia escapar. Controle-a, e será sua. Considere um presente de boa vontade de um novo amigo.
— E se eu não controlar? – indagou a moça, assertiva.
— Então, é melhor ser habilidosa com esses sabres de luz.
A Jedi suspirou e olhou para os sabres em sua cintura... Seriam um sinal de ameaça para um ser consciente da Força. Assim, retirou as armas do cinto e as estendeu ao Nutt:
— Confiança é uma via de mão dupla. – o gesto era extremamente simbólico, um ato de extrema confiança enquanto simbologia, uma vez que ambos sabiam ser Rey capaz de arrancar as armas da mão do outro com o uso da Força, se preciso. Ainda assim, ela lhe confiava por alguns instantes algo tão pessoal quanto seus sabres de luz. Ele sorriu e fez uma breve reverência. Gostava cada vez mais da Jedi, e aos poucos o ensejo de ganhar vantagens se mesclava a um desejo genuíno de conhecer melhor e ajudar de alguma forma aquela mulher que lhe parecia cada vez mais formidável, tão jovem e tão inteligente, astuta... Possuía o espírito de uma sobrevivente, e talvez por isso gostasse tanto dela: por ver um pouco de si naquela moça, embora houvesse uma diferença crucial; ele se deixara apodrecer pela vida. Mentir, extorquir, assassinar, sequestrar. Havia uma lista muito pequena de crimes que não cometera, e isso não o fazia se sentir culpado: tomava o que queria, o que precisava, mas o fato de as cicatrizes de Rey – físicas e emocionais, o Nutt podia recnohecer – não a haverem corrompido como lhe haviam feito o enchia de reverência pela humana. Aquele jantar começara com um propósito único de encontrar maneiras pelas quais pudesse estabelecer laços vantajosos com a Jedi e a futura Ordem que ela pudesse fundar; agora, gostaria também de ajuda-la no que pudesse, conquanto isso não prejudicasse seus negócios. Mas ela não era o tipo que partilhava seus planos. Como julgara, eram bastante parecidos, em alguns aspectos. Provavelmente formados pela mesma escola: fome, medo, abandono e dificuldades.
Sibera observou atentamente enquanto a moça abria a jaula e entrava, fechando a porta atrás de si. O enorme lobo arrepiou sua crista dorsal e ergueu-se sobre as quatro patas, desconfiado, a cauda se movendo nervosamente. Certo, aquela mulher não era apenas corajosa: havia nela algo de suicida para se trancar com tal besta. Muito bem... Podia apenas assistir, pois não entraria por nada naquela jaula.
Trancada com o Tuk’ata, a humana estendeu lentamente o braço, e também sua mente. Abriu-se à Força e à energia da criatura; esta era sombria, selvagem e agressiva. De alguma forma, lembrava a Rey de Kylo, com toda aquela força, raiva e receio. Algo ou alguém machucara muito o lobo à sua frente, pois a dor emocional aflorava entre as emoções obscuras como um grande ferimento.
— Eu sei que machucaram você. – disse a Jedi, ainda abrindo-se ao escrutínio mental e físico da loba, cujos olhos vermelhos varriam cada centímetro da mulher. Naquele contato, conseguia enxergar flashes e compreender o que a fêmea lhe dizia com emoções e memórias – você detesta os Jedi, não é? Eles mataram seu mestre. Você guardou sua tumba por quinhentos anos, até surgirem aquelas naves, bombardeando tudo, e os homens procurando coisas para roubar. Tiraram seu amo pela segunda vez, e também sua liberdade. Eu entendo seu sofrimento...
“Jedi” rosnou a loba.
— Sim. Jedi. Uma dos últimos. Também fomos caçados e mortos, como você e sua raça. Estou sozinha, como você, e não vou repetir os erros dos que vieram antes. Não sou sua inimiga. – ainda de mão estendida, Rey mostrou algumas de suas próprias lembranças para o animal, que finalmente se abrandou; cauda relaxou, a crista se abaixou, e o focinho tocou a palma da mulher enquanto uma única palavra lhe chegava:
“Gea”
— Seu nome é Gea? – o lobo grunhiu em aprovação, e aproximou-se mais. À medida que ia enxergando as memórias e sentimentos de Rey, um vínculo parecia se formar; os olhos ferozes se fecharam e Gea enfim se deitou no chão, expondo as partes vulneráveis de seu corpo à Jedi, num gesto de confiança.
“Ajude-me, Rey”
A humana se ajoelhou e acariciou Gea delicadamente, sentindo as cicatrizes de múltiplas batalhas na loba, e falou com delicadeza:
— Se vier comigo, posso tirá-la daqui. – o animal abriu os olhos e deitou sobre as patas, o olhar fixo no de Rey. Nunca sentira algo assim, nos últimos quinhentos anos, mas ao olhar naqueles orbes esverdeados enxergava um lago em que a raiva e o ódio morriam, completando-a. A Força chamava-a intensamente em direção a sua potencial libertadora, e um Tuk’ata não discutia com a Força: apenas era parte dela.
“Tire-me daqui, e eu a guardarei com minha própria vida”
A Jedi teria contra-argumentado, mas compreendeu que esta era a natureza de Gea, e que um juramento se firmava ali; suas mentes se entrelaçavam de um modo estranho, em que a moça sentia os instintos e desejos do animal, ao mesmo tempo em que lhe podia passar comandos mentais, tudo sem usar uma só palavra que fosse. Compartilhando as mentes. Assim, levantou-se e abriu a porta da jaula:
— Venha, Gea.
Enxergando a porta de sua liberdade após décadas encarcerada, a Tuk’ata saiu lentamente, vendo seu antigo carcereiro titubear ante sua figura. Seria tão fácil cravar as presas em sua garganta, rasga-lo em pedaços! Seus instintos pediam por isso, mas então a mente da Jedi tocou a sua, e uma súbita calma invadiu a guardiã, abrandando-a. Ainda queria matar, mas obedecer àquele comando parecia mais importante, agora. O vínculo se estabelecera.
Sibera Nutt estremeceu ao ver o Lobo Sith deixar a jaula, e mais ainda ao ver aqueles olhos sanguíneos o fitarem; contudo, Rey se aproximou e tocou o dorso do animal como se fosse apenas uma criatura de estimação, e o lobo se abrandou! Sentou-se sobre as patas traseiras e relaxou um pouco, ainda atenta, mas já não agressiva. Enquanto isso, a garota humana se aproximou com um sorriso e recuperou seus sabres:
— Problema resolvido, senhor Nutt.
— Eu não sei o que fez com esse bicho, nem que raios de língua estava falando lá dentro, mas será um alívio não precisar temer quando isso vai escapar e matar a todos. – respondeu o pirata, intrigado e aliviado. E foi a vez de Rey se surpreender:
— Língua estranha?
— Quando falou com esse... Cão. Usou uma língua que não reconheço, e sequer consta em meu tradutor. – Sibera se confundiu: como alguém falava uma língua sem perceber? – Bem... Imagino que não me diga respeito.
— Talvez uma língua antiga na memória de Gea. Havia muitas em sua mente. – a conversa foi interrompida por uma voz feminina infantil:
— Era a língua Sith. – a dupla se voltou para ver Dolaan e Asala. A togruta tinha uma faixa colorida com contas amarrada a um lekku, similar a uma que o contrabandista usava, mas toda a sua inocência e infantilidade desaparecera subitamente – Uma língua morta, mas “falada” por essa raça de guardiões.
Rey olhou de sua Padawan para Gea, compreendendo que, de alguma forma, os pensamentos da loba se haviam misturado aos seus de tal forma que usara a língua conhecida pelo animal para se dirigir a ele. Sua mais nova protetora apenas a encarava entediada, como se perguntasse o motivo do espanto.
— Bem... Seja como for, Gea não será mais uma ameaça. – voltou-se para Sibera – obrigada.
— Fico igualmente grato, não apenas por ter domado este lobo Sith, mas por me permitir a honra de, ao menos por alguns instantes, segurar as armas de uma Jedi. Agora, talvez queiram ver mais coisas, ou tratar de outros assuntos?
— Queremos ver o que se dispuserem a nos mostrar – declarou Rey – e depois, será nossa vez de falar sobre um assunto muito delicado.
*
A noite ia alta quando se sentaram novamente à mesa onde antes haviam jantado; dentro de uma bolsa, Rey e Asala conseguiram alguns holocrons Jedi, dois sabres recuperados em Geonosis e alguns arquivos de memória com dados da antiga biblioteca dos Jedi em Coruscant. A isso somavam-se alguns pares de livros e pergaminhos muito bem embrulhados, para não serem identificados. A “compra” não fora feita em créditos, mas em favores: um favor para o futuro, quando os Nutt precisassem da intervenção da Jedi perante o Império ou perante os Sistemas Independentes e a Resistência. E, em segundo lugar... Sibera Nutt revelou ter um filho, ainda bebê, mas aberto à Força. Uma criança metade Nautolana, metade Twi’lek, que aos oito meses brincava de levitar seus brinquedos com a mente; quando chegasse aos quatro anos, Rey o tomaria sob sua guarda e o treinaria, ao menos o suficiente para o pequeno poder controlar a si mesmo e, posteriormente, decidiriam sobre o prosseguimento ou não do treinamento.
— Pois bem, senhoras – Dolaan serviu vinho para os quatro, enquanto Gea ressonava levemente aos pés da Jedi, sob a mesa – foram bons negócios. Contudo, Mestra Rey mencionou assuntos delicados. – ele se sentou – que assuntos seriam?
— Não gosto de jogos, nem de rodeios, então serei direta – ela tomou um gole – sei que as naves perdidas não foram confundidas, mas sim, postas propositadamente na linha de fogo, de modo a serem destruídas. E a “carga viva” que supostamente foi perdida, na verdade, foi entregue aos Sistemas Independentes. – ela viu ambos os Nutt manifestarem surpresa e medo por alguns segundos, e continuou antes mesmo que pudessem se recompor – não sondei a mente de qualquer de vocês: apenas raciocinei sobre seus métodos e recordei os argumentos e colocações da negociação feita via holo. – não denunciaria, é claro, seu contato com Leia Organa, a qual confirmara suas suposições.
— Imagino que não pretenda nos entregar, ou não nos daria tal valiosa informação. – ponderou Sibera.
— Império, Primeira Ordem, Velha República, Nova República... Foda-se o nome, são todos sistemas corruptos que negociam vidas para favorecer os poderosos, esquecendo-se daqueles que mais necessitam. – disse a mulher, direta, a língua mais solta pelo álcool – não luto por regimes.
— E pelo que luta, Mestra? – perguntou Dolaan.
Jedi e Padawan se entreolharam e trocaram um sorriso, antes que a mais velha respondesse:
— Liberdade. Não apenas política, mas uma galáxia onde pessoas não sejam oprimidas, onde haja igualdade verdadeira, onde cada planeta possa falar por si e ser ouvido e ajudado pelos demais. Onde os lordes e políticos cuidem de seus povos, e os Jedi possam fazer isso quando os demais falharem. – ela cruzou os braços sobre a mesa – onde pessoas não sejam vendidas como escravas.
Os irmãos se entreolharam longamente, antes de o mais velho responder:
— É um pedido para que encerremos o contrabando de escravos, eu suponho.
— Eu não seria tola de o pedir. Ao contrário: seu irmão contou a minha Padawan que os escravos não pertencem a sua companhia, mas são por ela transportados, e o entreposto serve para a venda de pequenos vendedores a um público seleto. Ele contou isso quando assegurou que não a venderia no mercado.
— Tem ouvidos afiados, senhora – havia alguma hostilidade na voz de Dolaan – o que pretende, então?
— a venda de escravos não pode ser exterminada atacando os contrabandistas. São um elo da corrente, não sua causa. – disse Asala, despindo a máscara de infantilidade – é algo institucionalizado, que só pode ser detido atacando-se as raízes.
— De repente a criança amadurece – os irmãos haviam sido pegos totalmente de surpresa. O mais novo fitou duramente a Jedi – o que pretende?
— Uma troca de favores: eu não os entrego ao Império pela extorsão, e em troca peço que me deem o nome das pessoas que arrebanham os escravos e os vendem pela galáxia. Que me mantenham informada sobre os verdadeiros males, sobre aqueles que enriquecem destruindo vidas.
— Isso nos causaria uma terrível perda, em termos financeiros.
— Já pensei nisso, é claro. – a moça respirou fundo e pensou nas longas horas conversando com Eilenia e aprendendo – pessoas livres compram e vendem. Recebem salários, movimentam o mercado. Até mesmo tomam parte em contrabando de mercadorias. A escravidão não terminará em apenas um ano, talvez nem mesmo em uma só geração, mas preciso que me digam de onde vêm e para onde vão os escravos que transportam. Quanto aos que obtêm em combate... Eu os comprarei.
— O imperador lhe outorga essa autoridade? – ironizou Sibera.
— Não sei. Ele lhes outorga a autoridade de acusar falsamente a frota imperial de atacar seus cargueiros e mentir sobre a perda de carga? – ela se sentia um monstro ao falar assim sobre pessoas, mas não era hora de rodeios. Os nautolanos estreitaram os olhos, e Sibera finalmente soltou uma gargalhada:
— Sabia que nos entenderíamos bem, Mestra Rey. – ele encheu mais uma vez as taças – um brinde a nosso acordo.
— Senhores Nutt, eu cresci num entreposto comercial. Fui serva, catadora de lixo; hoje, sou uma Jedi casada com um Cavaleiro de Ren: os outros Jedi provavelmente me veem como traidora, e os Jedi Negros querem minha cabeça num prato de ouro. Não somos tão diferentes assim, e espero que como iguais nossas promessas sejam mantidas.
— à honra entre proscritos, então – sorriu Dolaan, erguendo o brinde.
— À honra entre os proscritos. – respondeu ela, bebendo de um gole. Virou-se para Asala, e viu que a menina estava dormindo, apagada pela bebida. Percebeu nesse momento que a pequena jamais havia bebido daquele jeito... Não era como ela, que aos onze, doze anos, embebedava-se de álcool barato para se esquecer da fome, da sede e das tristezas. Provavelmente sua Padawan não acordaria antes do dia seguinte, e quem merecia um puxão de orelhas era a própria Jedi!
— Sua pequena atriz parece estar num sono do qual nem uma supernova a acordaria. – riu Sibera – posso mandar um droide leva-la para o quarto.
— Não precisa, obrigada. Eu me esqueci de que ela não está acostumada a beber... A tutora dela vai me matar, se souber. – riu baixinho a humana. O pirata mais novo lhe sorriu:
— Se a consola, meu irmão fez o mesmo comigo, quando éramos adolescentes. E a senhora certamente não é mais velha do que ele era.
— Juventude pode ser uma desvantagem, às vezes – concordou a humana, pegando sua aprendiz no colo. Asala resmungou e se acomodou melhor, sem sequer dar sinais de acordar, o que fez o trio de adultos rir. Dando um comando para Gea, Rey se despediu e voltou para o quarto; colocou a menina na cama, guardou cuidadosamente as valiosas aquisições de ambas e enfim se deitou, deixando seus sabres bem à mão. A porta estava trancada, é claro, mas não desaparecia a incômoda sensação de que algo ruim logo aconteceria; e sua mente tinha bem clara a origem do problema: Niaka.
*
As transações oficiais se transcorreram sem problemas. A entrega dos cargueiros, a transferência dos créditos, todas as ações protocolares de costume, que tomaram uma manhã inteira para o completo aborrecimento de todos os envolvidos.
Rey e Asala haviam retornado a seu quarto e guardavam os próprios pertences; a Jedi entregou os objetos adquiridos na noite anterior para a Padawan e pediu que os escondesse o melhor possível na White Command, enquanto resolvia um assunto.
Sozinha nos aposentos, sentou-se no leito e tento estabelecer a conexão com Ben; sentiu a enorme teia polidimensional que era a Força, ligando os seres não apenas no espaço, anulando-o, mas dobrando-se no próprio tempo. Fios tão entremeados que formavam uma urdidura complexa que se redobrava milhares de vezes, sobrepondo-se, voltando-se para dentro e para fora de si mesma. E num daqueles fios da tessitura ela encontrou a vibração desejada, a Força poderosa em seu amado, vislumbrada por ela como um fio rijo e vibrante com inúmeros nós e entrelaçamentos, formado por negro, vermelho e branco. Puxou a própria consciência ao longo daquele fio, e quase o alcançava quando outra energia, muito mais próxima, a trouxe de volta ao aqui e agora. Contudo, mesmo sentindo a presença atrás de si, não se moveu, permanecendo sentada na cama, obrigando o corpo a manter a imobilidade enquanto disciplinava sua vontade. O ruído característico de um sabre de luz zuniu bem ao lado de seu ouvido, mas tudo que a Jedi fez foi dizer:
— Eu imaginava se faria isso cara a cara, ou se tentaria outro truque desonroso como o do cinturão de asteroides.
— Você é um câncer envenenando o Imperador. Já é hora de alguém que enxerga isso o libertar de sua influência perniciosa, Jedi.
— De um modo torto, sua lealdade é quase admirável. – a reação da moça foi rápida demais para a mirialan: num único movimento Rey estava em pé do outro lado da cama, o bastão de duas pontas ligado em suas mãos, as lâminas violeta brilhando intensamente contra o branco do aposento.
— Você acha que pode me enfrentar, criança tola? – perguntou Niaka – você conhece apenas um estilo de luta: o que aprendeu com Lorde Ren. Não conhece estilos básicos, não treinou por anos e anos, até seu corpo se tornar um com a lâmina.
Rey tentava controlar as próprias emoções, mas enxergava claramente o sabre, e via a forma perfeita da lâmina que causara a queimadira em Asala. Enxergava o vermelho intenso, igual ao uniforme dos praetorians, tão vermelho quanto o sangue nas costas da menina que tinha por sua irmã menor... Via o ódio no olhar da outra, e sabia que ele nascia do fato de ela tornar Kylo menos sombrio e amargurado. Percebeu o quanto os Cavaleiros o desejavam mergulhado na sombra e na dor, por considerarem isso a verdadeira Força, e os dois pensamentos a inflamaram de raiva. Ela atacou com um movimento forte, rápido, girando o bastão com ambas as mãos enquanto saltava por sobre o leito, golpeando de cima para baixo.
Niaka aparou o golpe e girou, deixando que Rey ficasse à sua frente, e tendo a cama às próprias costas; usar o ambiente a seu faor era a especialidade da Cavaleira, ao contrário da inexperiente Jedi, que malmente começara a trilhar os caminhos da Força. Era hora de provocar, fazê-la perder a concentração e eliminar de vez aquele cancro amaldiçoado; Lorde Ren ficaria grato, um dia, quando percebesse o que isso significava.
— Isso é só o que consegue, principiante? É tão patética! Por que não volta para o lixão de onde veio?
Rey não respondeu, mas atacou novamente, agora com uma estocada muito rápida, que pegou a rival de surpresa; a Cavaleira se lançou para trás, caindo deitada sobre o leito, mas não a tempo suficiente de evitar uma queimadura na base do pescoço, uma linha longa que percorria toda a clavícula, expondo o osso! Catadora de lixo maldita!
Com a raiva inflamada pelo ferimento, usou o próprio colchão para impulsionar seu salto para frente, estocando e chutando simultaneamente. A garota aparou o golpe, mas o chute acertou seu estômago e a derrubou; com um impulso das mãos ela se pôs de joelhos, girando sobre as articulações para escapar de outro golpe de cima para baixo e golpendo na altura dos joelhos de Niaka, a qual ganhou um corte no membro inferior direito, porém raso, uma vez que sua lâina foi de encontro ao bastão. Ato contínuo, agarrou a empunhadura da arma de sua rival e empurrou para cima, chutando o rosto da Jedi com força suficiente para arrancar sangue de seu nariz e boca. Chamas se acenderam nos olhos verdes, e a humana se ergueu de um pulo, destravando a empunhadura e tornando o bastão dois sabres diferentes. Agora, Niaka tinha uma grave desvantagem.
Lutar contra Rey era similar a treinar contra Kylo: a mirialan conseguia antever alguns movimentos, reconhecia a maioria deles mas, ao contrário do que pensara, a garota de Jakku começava a desenvolver estilo próprio, e conhecia sim a arte de usar o ambiente a seu favor, não como esgrimista, mas como estratégia de sobrevivência; o que ela fazia não estava nos livros. Deixar-se encurralar contra um canto era exatamente o que a teoria dizia para jamais permitir, e ainda assim ela recuou voluntariamente para o encontro de duas paredes; quando a inimiga tentou golpear, bloqueando uma rota de fuga com o sabre, que veio num corte horizontal, e a outra com o posicionamento da perna, a ex-sucateira bloqueou o corte com um sabre e usou o outro para forçar Niaka a girar, de modo que agora era a Cavaleira que se encontrava encurralada.
— Eu não quero matar você, Niaka! – disse a Jedi – pare enquanto há tempo!
— Não sairemos ambas vivas daqui, hoje. – rosnou a outra, aproveitando do momento de piedade da rival para acertá-la no flanco. Rey titubeou e se defendeu num movimento circular, mas Niaka deixou que o impulso fizesse seu sabre girar e acertar o outro lado, abrindo um corte na coxa da humana, que tropeçou. Teve tempo apenas de cruzar os bastões em um X para deter a arma vermelha, antes que esta descesse a centímetros de sua garganta.
— Patética. Talentosa, mas patética. Uma coisinha saída do lixo, criada na sucata. Achou mesmo que poderia ser algo além da escrava que sempre foi? Que tinha um destino maior do que catar lixo para poder comer e beber? – havia crueldade no rosto da outra – não devia ter deixado sua toca, rato do deserto. Eu vou matar você, e depois irei atrás daquela coisinha atrevida que quase me matou. Só o que conseguiu foi a sentença de morte para ambas.
Aquelas palavras inflamaram o peito da jedi. Ela desativou os sabres de luz e girou no chão, deixando que a própria força que a outra fazia contra suas armas a lançasse de bruços; pisou as costas da inimiga, derrubando-a, e cruzou as lâminas em sua nuca.
— Você tem razão, Niaka: sou apenas uma principiante. Mas não irei permitir que toque novamente em Asala, ou conduza Ben de volta à escuridão e ao frio. – a Força fluiu através da moça, uma Força movida ao mesmo tempo pelo desejo de proteger e pela raiva contra aquela que tentava machucar pessoas a quem amava. Naquele instante, Rey podia entender o que moveu Kylo contra Hux enquanto, sem piedade, cortava o fluxo de ar para os pulmões da outra. Sua raiva era grande o bastante para que o fluxo de energia ameaçasse esmagar o coração da Cavaleira, e a Jedi sabia carecer apenas de um cerrar dos punhos para tanto. Um lado seu desejou matar a adversária, mas todo esse turbilhão durou apenas alguns segundos, antes que se apercebesse do que fazia e libertasse a oponente, agora quase inconsciente. Ainda com raiva, mas já no controle de si mesma, a Jedi se abaixou junto à outra e segurou sua garganta – nunca mais tente tocar aqueles a quem amo, Cavaleira. E não se esqueça: eu enxergo através da Força, o que significa que tenho olhos em todos os lugares.
— Maldita cadela – rosnou Niaka – um dia eu a matarei.
— Eu só não a matarei, Niaka, porque a seu modo esta é sua prova de lealdade a Lorde Ren, e ele precisa de pessoas leais ao seu redor. Mas se me atacar novamente, não terei outra escolha. – Rey se ergueu e guardou o bastão – pense bem no que fará, Cavaleira.
Estava descendo para o hangar, quando o comunicador que levava ao pescoço apitou; estando sozinha, aceitou o contato, surpresa quando a imagem de Luke Skywalker surgiu no holo.
— Mestre?!
— Rey, temos de conversar. Eu lhe passarei coordenadas: estarei esperando por você.
Não houve tempo para perguntas ou questões: a imagem desapareceu, restando apenas os dados de localização.
— Mas o que... – segurou uma praga na metade, e desceu para o hangar. Explicou a Shalya que precisaria resolver uma antiga pendência, e que informaria Lorde Ren pessoalmente através do comunicador da nave. Assim sendo, embarcaram ela e Asala na White Command.
— Mestra, aonde vamos? – perguntou a pequena, ainda de ressaca após a bebedeira da noite anterior, mas reconhecendo a alteração na trajetória marcada.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Temos um encontro, Atrevida. – explicou a Jedi – Mestre Skywalker quer nos ver.
— Mestre Skywalker? – toda a sonolência desapareceu quando a menina assumiu a cadeira do copiloto – o que ele quer?
— Não faço ideia, mas parecia importante: ele não teve tempo de falar, e usou o comunicador da General Organa para retransmitir a mensagem. Podemos apenas encontra-lo, e... O que foi? – perguntou, reconhecendo a surpresa no olhar da aluna.
— Essas coordenadas... São de uma lua de Shilli. Eu acho... – a pequena respirou fundo – que encontraremos mais do que apenas uma pessoa em nosso destino.
A moça e a criança se entreolharam, sabendo exatamente quem as esperava em Shilli, junto a Luke Skywalker: Ahsoka Tano.
Fale com o autor