Rio de lágrimas.

Chovia muito na serra, o lugar era Caxandú, cidade com cerca de 8.000 habitantes, pacata, com pessoas simples e boas.

Havia um rio que cortava a cidade, e servia para abastecer as casas, plantações, animais e pessoas. Também era o lugar preferido para as brincadeiras de Isabele e seus amigos, todas as crianças da cidade, com média de 13 anos, assim como Isabele tinha.

Foi em uma tarde nublada, Isabele chegou à parte do rio que passava no terreno de sua casa, e viu um corpo preso entre as pedras que ela costumava brincar de aventuras. Correu desesperada para dentro de casa e foi logo contando para sua mãe, em uma mistura de choro com desespero o que acabará de ver. Sua mãe correu para o rio, e vendo o corpo já entrando em estado de decomposição pôs-se a vomitar... o corpo ferido pelas batidas nas pedras, inchado, pálido, não é o tipo de visão que alguém gosta de ter, muito menos aquelas pessoas que mau conheciam a violência.

Após recuperar as forças, Dn. Mara correu para casa e ligou para a delegacia de polícia, que ficava a uns 8 km dali, em uma cidade vizinha, e tratou de aguardar dentro de casa.

A polícia chegou logo, com todo seu aparato, viaturas, homens uniformizados, legistas, armas, sacos pretos, sirenes, coisas que não se via muito por ali. Removeram o corpo, já com uma primeira hipótese de asfixia, pos os pulmões não estavam com água, logo não poderia ser afogamento, e como não foram encontradas marcar de agressões físicas, supôs-se que se tratava de um assassinato por asfixia, tipo saco na cabeça, travesseiro na cara, mas era preciso verificar melhor, aquela tal de autópsia.

A vítima era um morador da cidade, Seu Jair, como era conhecido, vendia pipas e sacolés na praça da cidade. Era muito querido e respeitado por todos, então por que o mataram?

A polícia removeu o corpo, chamou algumas pessoas para ir a delegacia depor e foram embora.

Uma semana depois, começaram os rumores de que a polícia não descobrirá nada no corpo. Nem marcas de briga, pedaços de pele ou pêlos nas unhas, nada. Na verdade foi encontrada uma aliança de ouro no estomago de Seu Jair, que era viúvo a algum tempo, mas isso não os levava a lugar nenhum. Parecia que o assassino era alguém em que Seu Jair confiava. Eis o problema, em Caxandú todos se conhecem e confiam uns nos outros, poderia ser qualquer um.

As pessoas comentavam aquilo como se tivesse sido no dia anterior, virou a sensação da cidade, Seu Paulo e Seu Jorge jogavam um buraquinho no bar do Ciço, e falavam do ocorrido. As crianças foram proibidas de tomar banho na cachoeira, e junto com elas, quase ninguém tinha coragem de ir até lá. Acreditava-se que o corpo foi deixado lá e veio descendo o rio.

Enquanto a cidade voltava ao seus hábitos pacatos de interior, mais um corpo parecia trazido pelo rio. Desta vez, havia sido encontrado por uma velha senhora, nascida e criada em Caxandú, Dona Tereza, de início pensou que fosse algum animal, pois já aconteceu de cachorros e porcos caírem no rio, mas chegando perto, pode perceber que era algo maior, com seios grandes, cabelos longos e negros... mais uma vítima, e desta vez uma mulher, Suzane, filha de um fazendeiro da região, veterinária, era responsável pela maioria dos animais da cidade.

Logo todo aquele circo de uma semana atrás voltara a ser montado. Sirenes, viaturas, homens de uniforme, legistas e etc... Removeram o corpo, e ao fazer isso, perceberam que este ainda não estava em decomposição, pelo contrário, estava em bom estado, por isso foi iniciada uma busca pela mata fechada, a fim de achar o assassino que ainda poderia estar escondido por ali. Acreditava-se que os corpos eram deixados na cachoeira da cidade, e por tanto, foi lá que começaram as buscas. Dois dias seguidos de busca, parando apenas ao escurecer e retomando as buscas no dia seguinte ao nascer do sol.

Enquanto seguiam as buscas, era realizada uma autópsia no corpo da nova vítima e mais uma vez nada. Marcas, inchaços, pele, cabelo, nada. Apesar de a vítima ser conhecida de Seu Jair, não tinha nenhuma ligação com ele além de amizade.

Cessaram as buscas na mata sem sucesso, nada encontrado, nem pistas, nem vestígios, nada. O pânico aumentava na cidade, pessoas começavam a deixar suas casas, outras falavam de maldição, algumas aproveitavam para citar nomes de pessoas que tiveram algum desentendimento, mas apenas nomes ao vento...

Ao arrumarem o corpo para o velório, mas precisamente quando viraram-no de bruços, caiu uma aliança de ouro, parecida com a de Seu Jair da boca de Suzane. Agora, sim uma pista. Uma pista que não dizia nada, apenas levantava mais dúvidas.

Será que os dois teriam um caso?

O delegado tratou de chamar algumas pessoas da cidade para interrogar, e uma após outra afirmavam que Seu Jair e Suzane não tinham caso algum, e se tivessem, alguém da cidade saberia e logo o boato correria. Ciço foi convidado a depor, assim como Seu Pauolo e Seu Jorge, pois Seu Jair freqüentava seu bar com freqüência, e depois de algumas doses, começava a abrir o bico, mas todos afirmaram que Suzane e Seu Jair jamais tiveram qualquer envolvimento. Seu Jair nem animal tinha, ele era uma homem solitário, com os filhos morando distante e nenhum parente por perto.

Após dois dias de interrogatórios, quase 50 pessoas foram convidadas a depor, e disseram quase as mesmas coisas.

A cidade parou, a população revoltada com a falta de resultados e segurança vinda da polícia. Sentiam-se entregues ao destino e qualquer um poderia ser a próxima vítima. O pai de Suzane vendeu todas as suas cabeças de gado, suas terras e se mudou para Minas Gerais, afim de esquecer aquilo tudo.

Mudou-se exatamente um dia depois da missa de sétimo dia de sua filha, mesmo dia em que encontrariam a terceira vítima no rio. Uma menina de 7 anos, Sara. Filha de João e Antonia, casal novo, ele com 28 anos e ela com 25, e era sua primeira filha, uma linda menina de olhos e cabelos castanhos, sorriso de anjo e muito traquinas.

Foi encontrada no mesmo lugar de Seu Jair, e pela mesma Isabele e sua mãe, Dn. Mara, que depois de mais este episódio, venderam tudo e mudaram-se para bem longe.

Mais uma vez todo aquele aparato, sirenes, viaturas, homens de uniforme, legistas, armas e desta vez até um detetive da polícia federal. Sentiam que a coisa já estava saindo do controle e se tratava de alguém perspicaz e cruel. Recolheram rapidamente o corpinho de Sara e tentaram confortar os dois pais inconformados com aquilo. Haviam se mudado para lá a 3 anos para fugir da violência, e agora estavam submersos nela.

O detetive da federal, Carlos, reuniu cinco homens da delegacia de lá e foram mais uma vez para a mata fazer uma busca. Levou com ele o relatório daquele caso, com as fotos das duas alianças, informações sobre as vítimas, e de como e onde os corpos foram encontrados. Chegando na cachoeira, viu que dificilmente os corpos eram deixados ali, pois logo abaixo da queda d’água, haviam muitas pedras e o corpo poderia se esfacelar todo, principalmente o de seu Jair, que era um homem de 1,83m e 90kg. Além de ser uma caminha dura de mais ou menos 01h20min.

Com isso a hipótese de que o assassino conhecia as vítimas, as levava para lá e só depois as executava começou a cair por água abaixo. Resolveu então descer pelo rio, a fim de encontrar algum lugar onde poderia haver pistas.

Após meia-hora de caminhada, encontraram um lugar com poucas pedras, um lugar onde o rio alargava e as suas águas ficavam mais espalhadas e a correnteza mais fraca. Deu início a uma nova busca pelos arredores dessa parte do rio. A ronda cobriria um perímetro de 100m naquele dia, e se nada fosse encontrado, no dia seguinte percorreriam mais 300m, mas não foi preciso. Dividiram-se em três grupos de dois, Carlos e Adamastor rumaram para o leste, e tendo caminhado cerca de 20 minutos, avistaram um barraco bem velho no meio das árvores. Adamastor que morava em Caxandú, disse que desde pequeno anda pela mata e nunca soube de barraco nenhum ali. Foi quando resolveram entrar, parecia estar vazia, mas havia cobertores, comida e do lado de traz do barraco, cinzas de no máximo uma noite.

Passaram cerca de 2h investigando o lugar, reviraram tudo, e nenhuma pista valiosa encontrada, nenhum vestígio nem impressão digital. Provavelmente o assassino sabia o que estava fazendo e premeditava tudo antes. Devia usar luvas e toca, além de casaco e calça. Encontraram pegadas descendo por uma trilha que levava ao rio, oq eu também não os ajudou em nada, porém Carlos notou um pedaço de pano preso em uma árvore no caminho das pegadas. Tratou de pegar com cuidado, colocou em um saco plástico e guardou na sua bolsa com mais algumas evidências pouco úteis, mas que ele já havia recolhido pela casa. Lacraram a casa com aquelas fitas amarelas de plástico e rumaram para a delegacia.

Na delegacia, Carlos foi logo verificar se aquele pedaço de tecido poderia ser de alguma vítima, e não era. Agora sim, uma bela pista; bastava descobrir quem tinha um casaco daquele material, e de preferência faltando um pedaço, torcendo paraq eu o assassino não tenha visto e jogado o mesmo fora.

Mandou uma equipe vasculhar os lixos atuais e os mais antigos na estação de coleta de lixo, e junto com o delegado foram até Caxandú para ver se descobriam algo, mas mantendo o sigilo, pois era uma boa pista.

Foram direto ao bar do Ciço, quase todos os moradores de lá freqüentavam seu bar, e ele poderia dar valiosas instruções sobre o dono do “pedaço de pano”.

A princípio não mostraram ao Ciço o pedaço de tecido, apenas fizeram perguntas sobre qual tipo de roupa os moradores costumavam usar, calças, casacos, botas. Perguntaram também as pessoas que costumavam freqüentar a cachoeira, se alguém costumava ir lá no frio, mas seu Ciço disse que ninguém subia a trilha no frio, e sobre as roupas, que ele soubesse, todos compravam nas cidades vizinhas, quase todo mundo tinha o mesmo padrão de vida, com poucas exceções de alguns fazendeiros endinheirados. E foi pra lá que foram.

Fazendo do Seu Juca. Um senhor de uns 68 anos, viúvo, pai de três filhos que moravam na capital do Rio de Janeiro. Criava bois e porcos e vendia para um grande frigorífico, o que o fazia ter um lucro alto e certo.

Conversando com Seu Juca, ouviram-no dizer que não gostava de Suzane, pois uma vez errou em um atendimento e ele acabou perdendo 5 vacas e 1 touro reprodutor caríssimo, mas também o ouviram elogiar muito Seu Juca. Disse que sua finada esposa era do coral da igreja junto com a esposa do Seu Juca quando ambas eram vivas, e sobre a pequena Sara, o velho fazendeiro nunca ouvira falar.

Uma de suas empregadas, ouvindo a conversa dos três, esperou que os policiais se despedissem e foi do lado de fora falar com eles.

Ela disse que estava morando na fazenda desde o primeiro assassinato, e que Seu Juca jamais havia saído dali desde então, ele se dizia um homem forte e corajoso, mas na verdade era bem medroso. O papo foi alongando, e os policiais cada vez mais fazendo perguntas, a te que descobriram que a empregada, a jovem Elaine, era também costureira, e fazia roupas e consertos para o pessoal de Caxambu. Era o que eles precisavam. Alguém que conhecesse as roupas dos moradores

Convidaram-na para conversar em um restaurante perto da delegacia, e chegando lá foram logo lhe mostrando o pedaço de tecido. Assim que ela viu e tocou nele, seus olhos arregalaram, sua boca secou e em meio a palavras confusas e gagas pode-se ouvir apenas “Ciço”...

Correram para o carro, deixando o dinheiro para Elaine pagar a conta e o táxi, mas no meio do caminho receberam uma ligação do Seu Juca, dizendo que seu capataz tinha encontrado mais um corpo no rio. Era de um menina de 5 anos, chamado Alexandre, filho de Suelem, mão solteira e beata da igreja e era afilhada de Seu Juca.

Para não perderem tempo, encaminharam o caso novo para a delegacia e rumaram direto para a cachoeira, e no caminho perceberam que Ciço não estava no bar.

Subiram um pelo rio e outro pela trilhas, tendo como ponto de encontro a cabana velha, mas chegando lá, só haviam cinzas e fumaça. Todo o velho barraco estava queimado e inconformado, Carlos desceu correndo pelo caminho das pegadas até o rio, e no mesmo galho onde havia encontrado o pedaço de pano, estava agora o resto do casaco. Ele pegou e em seu bolso um papel que dizia:

“Meus caros e péssimos “peritos”.

Não se preocupem mais, não haverá mais mortes como as minhas, e se houver, não será eu. Meu ciclo acaba com este quarto corpo.

Fiquem com o casaco e com o bar, aceitem como uma troca pelo carro.

Atenciosamente, Ciço”

Desceram correndo e o carro não estava lá. Mais uma e ultima peça de Ciço.

Investigaram toda a casa de Ciço nos dias seguintes ao ocorrido, e acabaram descobrindo nas anotações que Ciço fazia em um caderno velho, que Seu Jairo e Ciço, mantinham a 8 anos um relacionamento amoroso, que acontecia as escuras, no meio da mata, o que explicaria o barraco. As mortes? Bem, Seu Jairo resolveu terminar com seu relacionamento e voltar a construir uma família, dizia que queria ter uma nova esposa e filhos.

Ciço também, em suas anotações, referia-se à Seu Jairo como “touro” e algumas vezes, quando brigavam, o chamava de “cachorro”, o que explicaria Suzane, apesar de não constar nenhuma anotação sobre os assassinatos. As duas crianças acreditam ter sido fruto de uma mente pervertida e perversa, que achava que poderia assim, dar-lhe os filhos.

No fim do caderno de anotações, uma ultima frase:

“ Que nosso rio leve minhas lágrimas, teus desejos e destino”

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